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terça-feira, 11 de junho de 2019 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 18:50

O Enade precisa ser como ele é?

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O Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) é uma das avaliações que compõem o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), criado pela Lei nº. 10.861, de 14 de abril de 2004. O Sinaes é composto também pelos processos de Avaliação dos Cursos de Graduação e de Avaliação Institucional que, juntos com o Enade, formam um tripé avaliativo acerca da qualidade dos cursos e instituições de educação superior do Brasil.

 

O objetivo do Enade tem sido buscar avaliar e acompanhar o processo de aprendizagem e o desempenho acadêmico dos estudantes em relação aos conteúdos programáticos previstos nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) do respectivo curso de graduação, incluindo também mensurar suas habilidades para compreender temas contemporâneos e ligados a outras áreas do conhecimento.

 

Tanto o Relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), encomendado pelo Governo Brasileiro à OCDE em 2018, como o Relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o Sinaes (TC 010.471/2017-0) evidenciam a fragilidade do Enade, tal como ele é aplicado atualmente. Eles destacam a incapacidade de tratar, de forma adequada, os elementos centrais de aprendizagem e criticam o processo por ser demasiadamente dispendioso e sem contrapartida clara que evidencie resultados confiáveis.

 

Além disso, a sua aplicação trienal por área de conhecimento, findou estabelecendo, como prática quase geral nas instituições, preocupações diferenciadas entre aquelas turmas que farão e as que não farão o exame. Para as turmas que fazem o exame, a visão restrita de preparar para as questões de maior incidência nos anos anteriores acaba por distorcer as próprias DCNs. Para as que não fazem o exame, não há evidências que os resultados obtidos pelas que fazem estejam sendo utilizados para a melhoria contínua de aprendizagem.

 

Da mesma forma, faltam elementos para justificar que o Enade possa, com o devido rigor, retratar algo mais sólido acerca da suficiência do aprendizado medido comparativamente com o que era esperado que o formando soubesse, o conhecido Índice de Diferença entre os Desempenhos Observado e Esperado (IDD).

 

Um fato adicional torna o diagnóstico mais difícil ainda, por não constar do histórico escolar do formando, ele é altamente sensível a elementos associados à sua motivação com relação ao próprio exame. Ressalte-se que, quanto à motivação do estudante por realizar este exame de forma adequada e responsável, é fundamental que as instituições esclareçam acerca da importância do Relatório Individual de Desempenho do Estudante, instrumento acessível ao formando, conforme previsto na lei do Sinaes, propiciando que ele se compare aos demais da sua própria turma, bem como a sua classificação relativa com os demais formandos da região e do País.

 

O Enade, no que se propõe, de fato, permite analisar aspectos comparativos entre os que fazem a mesma edição do exame, porém, é inadequado para fornecer um diagnóstico comparativo entre edições diversas. Mesmo entre os formandos de uma edição específica, os processos de ajustes de curvas resultam trazer insuficiente informação acerca de quão satisfatório, em termos absolutos, foi o processo de aprendizagem.

 

Mesmo com todas essas dificuldades, se estivéssemos formando profissionais para o século passado, seria justificável afirmar que algo relativamente substantivo é medido em termos de aprendizagem de conteúdo, procedimentos e técnicas associados a determinada profissão. O drama é que o futuro, que já está em curso, aponta que há elementos tão ou mais relevantes do que o que supostamente está sendo medido, ou seja, a capacidade de aprender continuamente e as atitudes do educando frente a problemas complexos.

 

Há, portanto, que se incluir os diferenciais que um curso de graduação deve conferir ao formando, comparativamente ao ingressante, acerca de sua própria compreensão sobre como ele aprende melhor e como ele se comporta no cumprimento de missões.

 

Ao se incorporar essa abordagem, que corresponde ao estado da arte em termos de teoria de aprendizagem, a proposta mais adequada seria que o exame fosse revelador da maturidade intelectual do formando, no que diz respeito a itens tais como: i) capacidade de desenvolver raciocínios críticos, lógicos e abstratos; ii) domínio do método científico, na solução de problemas e missões; iii) habilidade de entender textos complexos e de escrever de forma a se fazer entender claramente pelos demais (letramento sofisticado); iv) letramento matemático substantivo, indo além de operações matemáticas simples; v) capacidade de juntar conhecimentos de áreas diversas do saber, propiciando resolver problemas que demandam multidisciplinaridade e olhares múltiplos; vi) entender processos que envolvem programação simples, elementos de modelagem e simulação, ingredientes inerentes  aos temas contemporâneos; e vi) demonstrar domínio de habilidades socioemocionais associadas a enfrentamentos, em equipe, de temas complexos.

 

Enfim, um possível novo Enade mensuraria a transversal capacidade de aprender continuamente e alguns aspectos comportamentais do formando, permitindo ser aplicado indistintamente o mesmo teste a todas as áreas de conhecimento. A partir de questões formuladas baseadas na Teoria de Resposta ao Item, propiciaríamos um comparativo entre os desempenhos relativos entre os resultados obtidos pelos formandos e pelos ingressantes, bem como evoluções de aprendizagem entre turmas de anos subsequentes ou anteriores. Desta forma, poderíamos representar mais fielmente a capacidade de aprendizagem do estudante, o potencial do profissional contemporâneo que formamos e os diferenciais de desempenho dos estudantes, viabilizando um IDD mais consistente do que o adotado atualmente.

 

Adicionalmente, tão relevante quanto as informações e avaliações do formando por ocasião do Enade, é o acompanhamento do egresso. A partir de uma plataforma online acessível e atraente, deveriam ser colhidos, voluntariamente, dados sobre o nível de sucesso profissional e de satisfação pessoal do egresso, além da percepção a posteriori do quanto e em que aspectos sua formação foi adequada. Esses elementos deveriam ser essenciais nos processos de avaliação e autoavaliação institucional, bem como da avaliação de cada curso.

 

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terça-feira, 14 de maio de 2019 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 10:29

Complementaridade entre memória e habilidades socioemocionais

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No século passado, o modelo de desenvolvimento adotado demandou profissionais que não existiam antes e sofisticou as especializações das profissões que já eram conhecidas. As escolas, seus professores e os métodos foram eficientes e eficazes em atender às demandas do mercado e às expectativas dos cidadãos. Para cada carreira, foram prescritas diretrizes gerais contemplando conteúdos, bem como procedimentos e técnicas a eles associados.

 

Os percursos educacionais eram simples e funcionavam. Completados os percursos previstos, após avaliações calcadas em testes de memória, em geral respondidos individualmente, os formandos eram agraciados com certificados ou diplomas, os quais atestavam conhecimentos e os habilitavam a migrar para as etapas seguintes ou ao exercício pleno das respectivas ocupações.

 

Em torno da virada deste século, que também representou a chegada de um novo milênio, as mudanças se aceleraram de forma exponencial, motivadas pelo ingresso no universo digital, deixando rapidamente para trás as realidades analógicas de outrora. O advento das tecnologias digitais impactou, rápida e profundamente, todas as áreas de conhecimento e todos os setores de atividades humanas, incluindo educação. Aquilo que funcionava bem na área da aprendizagem já não funciona mais.

 

Entender as novas e complexas situações educacionais passa por incorporar a imprevisibilidade, exigindo formar pessoas com capacidade de se adaptarem rapidamente aos inéditos contextos e circunstâncias, sejam eles quais forem. Ficar restrito às receitas já prontas, nos moldes dos tempos passados, tem como consequência limitar os profissionais a trabalhos rasos, subvalorizados e sujeitos a serem, gradativamente, substituídos por máquinas e algoritmos. Os chamados trabalhos profundos, valorizados e compatíveis com o mundo contemporâneo, demandam pessoas capazes de irem muito além de processos memorizáveis, fruto de uma educação que ouse transcender o ensino tradicional, incorporando características que antes eram marginalmente consideradas.

 

Memória está associada, de forma simplificada, ao conjunto de conteúdos mais tradicionais, tendo papel relevante nos processos cognitivos, especialmente na absorção de conhecimentos básicos, entre eles: 1) letramento geral, capacidade comprovada de escrever e interpretar texto, e o letramento matemático; 2) letramento digital, incluindo o domínio de plataformas, softwares e aplicativos; e 3) capacidade de entender aspectos culturais, artísticos, históricos, geográficos etc.

 

As habilidades socioemocionais, associadas à metacognição, estão acopladas, principalmente, a aspectos comportamentais, envolvendo acapacidade do educando de refletir sobre a própria aprendizagem. Assim, adicionais ao domínio dos conteúdos, quanto aos aspectos metacognitivos, pretende-se que o educando: 1) seja capaz de aprender a aprender continuamente ao longo da vida, ampliando sua própria consciência acerca dos mecanismos segundo os quais ele aprende; 2) demonstre capacidade analítica para resolver problemas práticos, ou seja, embasado no conhecimento do método científico e na familiaridade com pensamentos críticos, desenvolva o domínio de raciocínios abstratos sofisticados; 3) esteja habituado a juntar diferentes áreas do saber, com especial disposição para a área de gestão de informações, incluindo o domínio de linguagens e de plataformas digitais; 4) tenha efetiva habilidade de comunicação, sabendo lidar com pessoas, incluindo promover mediações com flexibilidade e competência em todos os contextos; 5) tenha inteligência emocional desenvolvida, incluindo perseverança, empatia, autocontrole e capacidade de gestão emocional coletiva; 6) demonstre disposição plena para o cumprimento simultâneo de multitarefas, propiciando capacidade de análises apuradas e de tomada de decisões; e 7) colabore em equipe de forma produtiva, sendo respeitoso e cordial, entendendo as características individuais e as peculiaridades das circunstâncias, promovendo ambientes criativos e empreendedores, resultantes de processos coletivos e cooperativos.

 

Ambientes virtuais de aprendizagem facilitama coleta e análise de dados, tantos acerca do domínio de conteúdos como de aspectos comportamentais de cada estudante. Analítica da aprendizagem (“learning analytics”) viabiliza conhecer melhor cada educando e, em conjunto com ele, favorecendo sua própria reflexão sobre o processo de aprendizagem, determinar trilhas educacionais personalizadas.

 

Em suma, memória e habilidades socioemocionais, tal como cognição e metacognição, não se contrapõem; eles se complementam. O desenvolvimento da habilidade de aprender a aprender só é possível ao longo do processo de absorção de conteúdos. Ainda que, por vezes, seja mais relevante ampliar a consciência de como e em que contexto se aprende do que o que foi efetivamente aprendido. É andando que se desenvolve a capacidade deandar. Até o ponto em que a reflexão madura acerca do próprio caminhar emancipa o educandoem direção à aprendizagem independente, preparando-o para toda a vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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sábado, 27 de abril de 2019 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação, Sem categoria | 09:31

PIB: educação digital é parte da solução

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Neste mês, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou interessantes análises acerca das contribuições relativas de cada país para a economia global. A partir do Produto Interno Bruto (PIB), somatório de bens e serviços produzidos por cada nação, ajustado pela paridade do poder de compra, podemos obter indicadores acerca da respectiva qualidade de vida de seus habitantes.

 

Um dos destaques negativos deste recente estudo é o Brasil. Pelo sétimo ano consecutivo, nossa participação percentual segue trajetória de queda, atingindo em 2018 somente 2,5%, a menor participação relativa, em quase quatro décadas, no PIB mundial. Para dimensionarmos o tamanho da queda, em 1980 o Brasil respondia por 4,4% da economia do planeta. De 1950 a 1980, a economia brasileira avançou, em média, 4,5% ao ano; por sua vez, entre 1980 e 2018, o crescimento anual médio foi de 0,9%.

 

Passamos neste ano de sétima para oitava economia do mundo, em termos de PIB ajustado, sendo ultrapassados pela Indonésia. Se considerarmos somente o PIB, sem ajustes, também passamos para oitavo lugar, neste caso ultrapassados pela Itália. Se considerarmos somente a história mais recente, também não estamos bem. A renda per capita, mensurada pelo PIB dividido pelo número de habitantes, atingiu, em 2018, R$ 32 mil, o que é 9% mais baixo do que era em 2014.

 

A compreensão da redução da contribuição percentual ao PIB mundial precisa levar em conta o contexto do efeito China, cujo crescimento espetacular nas últimas décadas demanda que os demais países, em média, diminuam suas respectivas participações. Mesmo assim, Índia, Coréia, Vietnã, Turquia e alguns outros aumentaram seus percentuais. Países vizinhos como Uruguai, Peru, Colômbia e Chile mantiveram intactas suas participações relativas.

 

Os avanços econômicos mais recentes do Brasil têm sido, principalmente, ancorados no incremento na exportação de alimentos, fruto do aumento de competitividade do agronegócio, e no aumento de demanda mundial por algumas commodities, especialmente minérios.  Por mais relevantes que essas áreas sejam, é preciso contextualizá-las numa dinâmica acentuada de mudanças econômicas no cenário global. Por exemplo, em 1980, ente as dez maiores empresas do mundo, havia a presença marcante de indústrias automobilísticas, as quais não mais constavam da mesma lista na virada do século, momento este dominado por empresas de energia e bancos. Atualmente, todas as dez maiores empresas do mundo são digitais, ainda que nenhuma delas estivesse presente ao início do século. Em suma, estamos migrando, muito rapidamente, de uma economia analógica em direção a um universo predominantemente digital, acoplados às consequências drásticas de tal acelerada transição.

 

No contexto atual, a possibilidade de um desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável depende de múltiplos fatores, mas há relativo consenso de que a variável mais relevante de todas é o aumento da produtividade média. O principal ingrediente para o incremento de produtividade é educação de qualidade, viabilizando que trabalhadores, empresários e gestores, privados e públicos, possam contribuir mais efetivamente com a produção de bens e serviços.

 

A educação contemporânea demanda levar em conta todos esses aspectos, portanto, sendo ela também digital, na forma e no conteúdo. Quanto ao meio, ao lado do letramento avançado (produção e compreensão de textos complexos) e do letramento matemático (facilidade nas operações matemáticas mais sofisticadas), destaca-se, em termos de importância, o letramento digital (domínio de plataformas, softwares e elementos básicos de programação). No que diz respeito ao conteúdo, além dos conhecimentos clássicos, os procedimentos específicos de cada área e as técnicas associadas, a educação, atualmente, exige contemplar, com muito mais ênfase, algumas habilidades individuais e coletivas.

 

Quanto às habilidades individuais, incluem-se as flexibilidades cognitivas (aprender em contextos diversos) e metacognitivas (aprender a aprender em um cenário de educação permanente ao longo de toda a vida) e as habilidades socioemocionais, a compreensão crítica de realidades históricas e geográficas complexas, acrescidas de espírito empreendedor e capacidade criativa. No que diz respeito às habilidades coletivas, há que se cultivar educacionalmente o trabalho em equipe e a gestão de pessoas, calcados na tolerância, na empatia e na compaixão. Frutos de tais predicados, estimulamos a formação de profissionais e cidadãos preparadores, mais completos e cientes dos contextos em que eles desenvolvem seus ofícios e administram suas vidas.

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Imagem em Domínio Público em: https://www.google.com.br/url?sa=i&source=images&cd=&cad=rja&uact=8&ved=2ahUKEwjfq4jvh_DhAhX5HbkGHUqABbYQjRx6BAgBEAU&url=https%3A%2F%2Fwww.scoop.it%2Ftopic%2Figeneration-21st-century-education%2F%3F%26tag%3Dpublic%2Bdomain&psig=AOvVaw3Xrk5xJ1GvlGWuXbUa8OOO&ust=1556447165444123

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domingo, 7 de abril de 2019 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 06:32

Dez respostas sobre “o que é ser educador?”*

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1. Ser educador depende dos tempos e dos contextos. Nas sociedades primitivas já havia a figura do educador, ainda que difusa. A geração mais nova aprendia com a geração mais antiga a arte da sobrevivência, bem como as regras de cooperação e do convívio em grupo. Havia rituais de passagem, em alguns casos bem organizados, quando ciclos de aprendizagem se completavam. As tarefas do educador foram, com o tempo, ficando mais bem definidas, à medida que a sociedade se tornava mais complexa. No mundo ocidental, surgiram os sofistas e apareceu a escola, enquanto instituição estabelecida. O amadurecimento do método, em especial do método científico, consolidou as universidades como espaços não só de transmissão do conhecimento, mas também de produção de ciência, que gerou tecnologias e contribuiu com moldar as sociedades modernas. Nos últimos séculos, a receita básica era o domínio de conteúdos, procedimentos e técnicas apuradas, onde a especialização foi o marco do modelo de desenvolvimento baseado na linha de montagem. Tudo alicerçado em carreiras profissionais cada vez mais múltiplas e específicas, acompanhando o grau de complexidade das sociedades mais recentes. Contemporaneamente, a adequação do educador aos tempos e a seus contextos é, de novo, um enorme desafio. Conteúdos, procedimentos e técnicas importam, mas já não são suficientes. Há que se incluir inéditos requisitos, envolvendo a arte de aprender continuamente, ao longo de toda a vida, e um conjunto de aspecto socioemocionais, igualmente importantes.  Mas, seja nas sociedades primitivas ou no mundo contemporâneo, sabemos identificar quem é o educador;

 

2. Ser educador não significa necessariamente ser o mais bem informado, aquele que detém o maior conhecimento. Este é o culto, que nem sempre é educador. O educador é aqueleque, principalmente, cultiva o saber enquanto processo, no qual conhecer mais emancipa o educando e o prepara à aprendizagem independente. O educador tem consciência plena que seu papel é se tornar, gradativamente, menos necessário. E o educador gosta disso, promove isso, fica feliz e se desapega do educando e aprende a cada vez que educa;

 

3. O educador tem opinião, mas a sua opinião não o caracteriza. Ela pode ser qualquer. O que marca o educador é como ele se comporta sobre todas as opiniões, especialmente sobre aquelas que não são as suas. Educar é entender o outro, incluindo compreender o que o outro acha, por se colocar na posição dele. Mais do que isso, ao entendê-lo, fazer algo sobre isso. Neste sentido, as opiniões em si tornam-se quase que irrelevantes e a essência é a capacidade de entender, racionalmente, e transmitir a beleza de um mundo com opiniões múltiplas e conflitantes. O educador pode ser gentil ou ranzinza, mas jamais indelicado. Pode ser simpático ou antipático, mas jamais grosseiro. Indelicadeza e grosseria não educam, violentam. O educador pacifica, esclarece, opina, respeita e, antes de mais nada, educa;

 

4. O educador pode ter posição política, mas não é ela que define o seu ofício. Ela pode ser qualquer, podendo não ser a mesma sempre. Ele só não pode ser autoritário e inflexível. Porque a ausência do diálogo não é educação, é deseducação. A essência da aprendizagem é a multiplicidade de saberes, a dúvida, a contraposição, o debate, a especulação, a experimentação, os métodos e, especialmente, o respeito às diversas formas de conhecimento e a desejável riqueza de opiniões, quaisquer que elas sejam;

 

5. O educador pode ter fé e pode não ter.  Pode ser monoteísta, das mais diversas crenças, pode ser politeísta, pode ser agnóstico ou mesmo ateu. Na verdade, o que é relevante é que o educador entende a fé, ou a ausência dela, como respeitáveis traços culturais,individuais ou coletivos. São respeitáveis escolhas em si e legitimadas a priori. O que não atrai o educador e o descaracteriza é o proselitismo, porque deseduca, oprime, se opõe à liberdade de escolha, à abertura dos espíritos e à flexibilidade do pensamento, elementos essenciais e indispensáveis na aprendizagem;

 

6. O educador não é o mais inteligente, mas sim aquele que entende que não existe uma forma única de inteligência. Inteligências são múltiplas. Existe a inteligência que decorre da memória e da capacidade de aprender conteúdos, a qual foi dominante em tempos recentes, mas já passados. Há a inteligência baseada na habilidade lógico-matemática. Há aqueles inteligentes por uma capacidade diferenciada corporal-cinestésica. Podemos falar de inteligência linguística, calcada especialmente na capacidade de entender e de elaborar textos complexos, facilitando acomunicação entre as pessoas. Há a inteligência existencial, resultante de processos intrapessoais de reflexõesavançadas. Temos a inteligência via a empatia e a compaixão. Reconhece-se a inteligência musical e tantas outras equivalentes. Existeminteligências mais recentes, tais como a habilidade digital, associada à facilidade de lidar com plataformas e outras ferramentas do mundo cibernético. Há outras inteligências que ainda surgirão. Enfim, o educador é inteligente porque reconhece, estimula e celebra a multiplicidade ilimitada de inteligências;

 

7. O educador, nos dias atuais, progressivamente se aproxima de ser artista, dado que educação,cada vez mais, é arte. Temos menos receitaseducacionais, as antigas já não funcionam e os desafios se tornaram mais complexos, demandando um repensar profundo de paradigmas, conceitos e valores. Os conteúdos, procedimentos e técnicas, alicerces da educação do século passado, são consistentes bases, a partir das quais cabe ao educador desenvolver a arte da aprendizagemmediadas por novas tecnologias e metodologias inovadoras. O educador é menos educador quando se apega em demasiado a uma metodologia e crê,indevidamente, que ela se aplica sempre e a todos, esquecendo que cada educando e cada situação educacional são únicos. Sendo a arte a capacidade de customizar a aprendizagem para cada contexto, voltada a cada indivíduo, explorando a possibilidade de trilhas educacionais flexíveis, ancoradas em diversas metodologias e fazendo uso de múltiplos recursos tecnológicos;

 

8. O educador não é o mercador. Ainda que a profissão do mercador seja legítima, sendodas mais antigas e respeitáveis de nossa civilização, o educador não é o mercador. Não por demérito deste, mas pelo simples fato de que educação não é mercadoria. Quando um mercador vende ou compra algo,alguém fica sem o produto e o outro o tem completamente. Em educação, aquele que entrega não a perde, quem receba ganha e mesmo aquele que não participa de forma direta, curiosamente, ganha também. Educação trata-se, portanto, de ente especial, onde quem não a tem, convivendo com quema tem, desfruta também. Quando a educação falta a um, não somente ele perde, mas a coletividade à qual ele pertence perde também. É, de fato, um bem comum, com o qual todos ganham, coletiva e cooperativamente. Um ter mais nada tem a ver com o outro ter menos. Tal qual saúde, quanto mais um tem todos também a adquirem. É legal e é legítimo o lucro e a procura por sustentabilidade na educação; não é legal, tampouco é legítimo, a selvageria extremada daqueles que, obsessivos pelo deus Mamon das cifras, não gostam de educação, muito menos de educadores e de educandos. Como já dito por alguém “se aqueles que fazem mal feito em educação soubessem como é bom negócio fazer bem feito, o fariam bem feito, nem que fosse porque é bom negócio”;

 

 

9. Educadores, de alguma forma, somos todos nós, indivíduos e coletividade, quando nos tornamos, antes de tudo, resilientes. Quando achamos que nada aprendemos ou evoluímos, na verdade, estamos avançando. Ampliando nossa resiliência, a capacidade de resistirmos a tantas intempéries e absurdos, com calma, tolerância e persistência. Fazendo uso da mais eficiente e disponível ferramenta de que dispomos: a educação;

 

10. Educadores são, especialmente, as Acadêmicas e Acadêmicos da Academia Brasileira de Educação, que via tradição, desde o Manifesto dos Pioneiros de 1932, capitaneado por Anísio Teixeira e tantos outros, abriram os caminhos para que hoje pudéssemos continuar o processo de convencimento acerca da importância da educação, enquanto elemento essencial de qualquer desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável. Economicamente, não enfrentaremos nossos desafios sem aumentar a produtividade média da população, envolvendo trabalhadores e empresários. Não há aumento de produtividade sem escolaridade de qualidade. Pode até haver crescimento sem educação, baseado em circunstanciais e passageirasabundâncias de recursos naturais e outros fatores. Porém, a sustentabilidade duradoura é ancorada em educação.  É o que já sabia, e assim nos ensinou, Anísio Teixeira, de quem tenho a honra de ocupar a Cadeira que o tem como Patrono, e que já foi ocupada por educadores de saudosas memórias, como o ex-ministro Eduardo Portela. Que sejamos educadores todos e que sejamos educandos para todo sempre.  

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*Primeira Oração Acadêmica proferida por ocasião da Posse na Academia Brasileira de Educação, em 05/04/2019

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sexta-feira, 18 de janeiro de 2019 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 08:53

Qualidade em Educação a Distância

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No ano passado, fui designado pelo Ministério da Educação (MEC), via a Secretaria de Educação Superior (SESu), para um Grupo de Trabalho (GT) cuja responsabilidade era atualizar os Referenciais de Qualidade para a Educação Superior a Distância (Portaria SESu Nº 78, de 19/09/2018). Ao final de 120 dias, o GT apresentou seus resultados, os quais foram, neste ano de 2019, entregues aos novos gestores do MEC.

A Educação a Distância (EaD) é, usualmente, caracterizada como sendo a modalidade na qual os procedimentos educacionais são mediados por tecnologias, em contextos nos quais os educandos e os educadores estão separados, espacial ou temporalmente. Caminhamos em direção a uma sociedade em que a informação estará totalmente acessível, de forma instantânea e basicamente gratuita; portanto, qualquer definição,rapidamente, fica desatualizada ou, no mínimo, incompleta, demandando permanentes revisões e atualizações.

No documento final do GT, o destaque é para a enorme potencialidade da modalidade EaD, sendo considerada ferramenta estratégica naampliação do acesso e da permanência, em especial no ensino superior. Nas últimas décadas, a demanda por oportunidades educacionais nesse nível tem crescido exponencialmente, sendo boa parte desse crescimento viabilizado graças ao uso das tecnologias digitais e das metodologias inovadoras associadas.

A modalidade EaD no Brasil foi assegurada na Lei de Diretrizes e Bases da Educação/LDB(Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996), que estabeleceu no, artigo 80, a possibilidade do seu uso orgânico em todos os níveis e modalidades de ensino. O Decreto 2.561, de 1998, que estabeleceu parâmetros de políticas de garantia de qualidade na EaD, e o Decreto 5.622, de 2005, que regulamentou o artigo 80 da LDB, funcionaram como diretrizes para a publicação dos referenciais de qualidade em 2007.

Em 2017, a legislação sobre a EaD reorganizou a abertura de cursos, flexibilizou a oferta e possibilitou a ampliação do acesso. O Decreto Nº 9.057, de 25 de maio de 2017, e a Portaria MEC 11, de 20 junho do mesmo ano, deram nova dimensão à modalidade. Essa Portaria permitiu às instituições criarem cursos de EaD, de acordo com sua organização administrativa, conforme os resultados obtidos no Conceito Institucional.

Quanto às inovações mais recentes, incluindo a autorização para o uso de até 40% em EaD da carga didática total na maioria dos cursospresenciais (Portaria MEC No 1.428, de 29 de dezembro de 2018), visam a avançar na consolidação de um modelo híbrido que integre as boas práticas do presencial com o virtual, estimulando novas práticas pedagógicas, calcadas na real possibilidade de uma educação personalizada de qualidade. Via trilhas educacionais customizadas, podemos possibilitar que todos aprendam, que todos aprendam o tempo todo, eque cada qual aprenda de maneira própria e única.

Uma dessas inovações, de natureza estritamente pedagógica, é a adoção de estratégias educacionais nas quais a ênfase está em priorizar o aprender a aprender, via abordagens que estimulam a emancipação do educando e a aprendizagem independente. Um dos aspectos centrais desta abordagem implica em privilegiar as características metacognitivas, transcendendo a cognição simples, contemplando sobremaneira o aumento do nível de consciência do educando acerca de como e em que condições ele aprende.  As habilidades metacognitivas implicam naautorreflexão do educando e na exigência de aprender a trabalhar em equipe, incluindo a prática de entender o outro, promovendo a aprendizagem colaborativa e independente. 

Caminhamos em direção à formulação de uma educação flexível e híbrida que conjugará elementos das duas modalidades de ensino, presencial e a distância. O produto final serácapaz de atender, de forma personalizada, às múltiplas demandas que respeitem as particularidades e as peculiaridades de cada educando, em seu contexto educacional específico, estabelecendo máxima compatibilidade com um cenário de educação permanente ao longo de toda a vida.

 

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sexta-feira, 12 de outubro de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 10:58

MENSAGEM AOS PROFESSORES

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Educar envolve mais do que transmitir conhecimento. Educação abre as portas para que cada educando desfrute ao máximo daquilo que, potencialmente, todos dispomos: inteligência, entendimento e sabedoria.

Dentre todas as espécies, somos a única que possui a incrível habilidade de transmitir cultura e conhecimento de forma organizada e consciente aos nossos descendentes. Os mais diversos ensinamentos, técnicas e procedimentos eram e são transmitidos pelos mestres aos seus aprendizes, os quais, após ritos de aprendizagem, se transformavam em profissionais e cidadãos mais bem preparados.

E assim tem sido ao longo dos tempos. Nos dias atuais vivemos grandes desafios, especialmente pela abrupta emergência das tecnologias digitais que a tudo modifica e transforma. Educar, mais do que nunca, é emancipar o educando para ser capaz de enfrentar problemas inéditos.

Contemporaneamente, educar é promover a aprendizagem independente ao longo de toda a vida, entendendo que cada educando aprende de maneira única e personalizada e que todos aprendem, em qualquer lugar e o tempo todo. Educar é também entender o outro e fazer algo a partir disso, aprendendo a trabalhar em equipe de forma cooperativa e solidária.

Temos, como educadores, a possibilidade de contribuir para que o educando se emancipe, dominando a arte de aprender a aprender continuamente, gerando as condições para um desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável.

Caros Docentes, Parabéns.

Comemoremos, merecidamente, o Dia do Professor.

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Figura em Domínio Público: http://www.clker.com/clipart-655940.html

 

 

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terça-feira, 18 de setembro de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 15:07

Os significados das palavras aluno e educador

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O vocábulo “aluno” provém do latim alumnus, significando, literalmente, criança de peito ou aquele que se alimenta de leite. Em outras palavras, um lactante intelectual ou um discípulo. Alumnus ou alumni é proveniente do verbo alere que, em latim, significa alimentar, sustentar, nutrir ou fazer crescer.

 

Erroneamente, alguns textos tratam a palavra “aluno” como sendo a junção do prefixo grego a, que corresponderia a ausente ou sem, e o sufixo luno, derivado da palavra latina lumni, significando luz. Portanto, na incorreta versão, aluno seria aquele sem luz ou sem conhecimento. A falsa etimologia acima é menos inocente do que parece. Trata-se de equívoco que encontrou terra fértil naqueles que veem o aluno como alguém mais passivo no processo educacional. Ao tratá-lo como sem luz, corre-se o risco de findar transformando em fato algo que era, de início, somente uma simples confusão etimológica.

 

Há também uma sutileza complementar, não tão evidente, associada à possível distinção entre aluno e estudante. Embora não sejam conceitos rígidos, tende-se a utilizar o termo aluno para designar aquele que pratica a atividade de assistir a aula; enquanto estudante se refere àquele que pratica a atividade de estudar. No primeiro caso é, essencialmente, uma atividade coletiva e, predominantemente, passiva; no segundo é, fundamentalmente, de caráter mais individual e decorrente de uma postura, necessariamente, ativa.

 

Quanto ao “educador”, é normal ser tratado indistintamente de “professor”, ainda que não signifiquem exatamente a mesma coisa. Professor é, de forma simplificada, o profissional que ensina uma ciência, uma arte, uma técnica, uma disciplina. Educador, por sua vez, transcende as atividades descritas, tendo como responsabilidade inerente a formação integral do educando. O termo “educador” tem origem no vocábulo latim educatore, aquele que cria ou nutre. Todo educador é necessariamente um professor, sem que não obrigatoriamente o contrário seja verdade.

 

Educação, da mesma forma, se diferencia de ensino. O físico Alberto Einstein, falecido em meados do século passado, optou por expressar tal distinção na forma: “educação é aquilo que fica depois que esquecemos o que foi ensinado ou aprendido”. Nesse sentido, educação é um ato que envolve o ser humano holisticamente, contemplando todos os seus aspectos, sejam físicos, cognitivos ou metacognitivos. Nessa perspectiva, o aluno é entendido como um ser dotado de saberes, qualidades e potencialidades, a quem o educador não está restrito a repassar o conteúdo de sua disciplina, mas sim em emancipá-lo à medida que ele é capacitado para aprender contínua e permanentemente ao longo da vida.

 

É possível uma visão pela qual o educador, ele próprio um sujeito em constante processo de aprendizagem, se diferencie do professor tradicional, evitando se considerar o dono do saber e única parte ativa do processo educacional. O educador é capaz de construir, juntamente com seus alunos, um aprendizado dinâmico, nos quais os eventuais erros do educando compõem base fundamental para reflexões e avanços educacionais.

 

As distinções acima abordadas tratam de diferenças que não são simples, tampouco estanques, dado serem partes de processos complexos. O que sabemos é que, no mundo contemporâneo, o ensino tradicional caminha em direção a uma educação híbrida, flexível e permanente. Neste contexto, os conceitos mais apropriados acerca do aluno e do educador irão ganhando sentidos mais claros à medida que educação se torna menos rotina ou repetição e, progressivamente, se transforma em atividade mais próxima da arte, demandando criação em constante evolução.

 

 

 

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Imagem em Domínio Público:

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quinta-feira, 30 de agosto de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 16:08

Saber aprender é mais do que aprender

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brain

 

Houve um período, em um passado bem recente, em que o domínio de determinado conteúdo, acrescido de alguns procedimentos e técnicas, poderiam ser suficientes para que um profissional atendesse plenamente as demandas daquela época. O modelo de desenvolvimento econômico e social era compatível com tais exigências e as escolas, em todos os níveis, corresponderam às expectativas, cumprindo de forma exemplar o que estava previsto.

 

O drama é que o tempo, inexoravelmente, flui e mudanças drásticas, rápidas e profundas estão em curso, alterando de forma radical esse contexto. As tecnologias digitais apontam, a passos acelerados, para uma sociedade em que a informação estará totalmente acessível, de forma instantânea e basicamente gratuita. Educacionalmente, aquilo que um dia havia sido suficiente permanece necessário, mas novos ingredientes e características adicionais estão presentes com a mesma, ou maior, importância.

 

Na Revolução Industrial e, especialmente, durante o século XX, os predicados de um bom profissional estavam associados aos padrões de produção nos moldes fordistas e tayloristas e nas competências que lhe fossem compatíveis. O mundo contemporâneo apresenta desafios inimagináveis há poucas décadas, passando por um aspecto essencial associado ao processo de aprendizagem. Se o relevante era o que havia sido aprendido, hoje o que mais importa é o quanto o educando aumentou sua compreensão e controle sobre seu próprio processo cognitivo. Ou seja, o incremento do nível de consciência acerca de como ele aprende, permitindo, em conjunto com os demais atores do processo, gerar estratégias educacionais personalizadas que atendam suas particularidades e peculiaridades.

 

Denomina-se metacognição a esse conjunto de abordagens que transcende a cognição simples. As habilidades metacognitivas incluem: i) o conhecimento da cognição, contemplando o conhecimento dos fatores associados ao desempenho na aprendizagem, o domínio de vários tipos de estratégias adotadas para aprender e saber customizar cada estratégia para situações específicas; e ii) a regulação da cognição, dizendo respeito ao estabelecimento de planejamento e metas, monitoramento e controle da aprendizagem e avaliação da própria regulação, especialmente dos resultados e das estratégias adotadas.

 

Em suma, o estímulo para que os educandos reflitam sobre seus próprios processos e estratégias implica em autorreflexão e exigência de aprender trabalhar em equipe, incluindo a prática de entender o outro, desta forma promovendo a aprendizagem colaborativa e independente, indispensável em um cenário de aprendizagem permanente ao longo da vida.  No processo formativo do educando, agregam-se às características tradicionais de natureza mais técnica, um conjunto de elementos socioemocionais, os quais alguns enxergam como sendo uma recuperação de elementos humanísticos em contraposição às ênfases exclusivamente tecnológicas. Tal dinâmica pode, igualmente, ser vista à luz da priorização dos instrumentais metacognitivos (saber aprender) em complemento à versão mais antiga de cognição simples.

 

Do ponto de vista dos empregadores de profissionais de nível superior e do aproveitamento de novas oportunidades de negócios por parte dos próprios formandos, aquilo que se aprende nas abordagens clássicas do ensino superior continua sendo indispensável, ainda que insuficiente, para as atividades do universo profissional atual. No entanto, as abordagens inovadoras que privilegiam as habilidades metacognitivas serão sim as definidoras dos níveis de sucesso desses cidadãos ao longo do cumprimento de suas missões, sejam elas quais forem.

 

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Imagem em Domínio Público, como visto em: https://medicalxpress.com/news/2017-12-mastering-features-individual.html

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segunda-feira, 6 de agosto de 2018 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 14:07

Concluintes do Ensino Médio: diminuição ou novos caminhos?

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ensinomedio

 

 

O número de concluintes do Ensino Médio Regular em 2017, algo em torno de 1 milhão e 780 mil, é 2,6% menor do que o de 2016, 1 milhão e 830 mil, aproximadamente. De fato, são números assustadores em si, porém, não é tão simples indicar que eles, isoladamente, impliquem em retração inevitável de interessados em Educação Superior nos próximos anos. Claro que o desejável seria termos um crescimento contínuo e substantivo de jovens se formando naquele nível, no entanto, há outros fenômenos ocorrendo simultaneamente e que devem ser levados em conta.

 

No último domingo (05 de agosto), foi aplicado o Exame Nacional para a Certificação de Competências de Jovens e Adultos (ENCCEJA), quando 1 milhão e 340 mil inscritos, número 7,6% maior do que no ano anterior, visam a obtenção do diploma de Ensino Médio. Parte significa deles declara a expectativa de, posteriormente, pleitear vagas no Ensino Superior. Assim, é possível observar que a diminuição de formandos no Ensino Médio Regular é compensada pelo incremento, mais do que o dobro de um ano para outro, de potenciais postulantes vindos por um outro caminho.

 

Duas observações preliminares sobre o ENCCEJA. Primeira, o exame é constituído basicamente de quatro partes: matemática; ciências da natureza suas tecnologias; linguagens e códigos; redação; e ciências humanas e suas tecnologias. Segunda, o Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM) até 2016 possibilitava o recebimento de diploma do Ensino Médio, sendo que mais de 1 milhão de postulantes ao ENEM atestavam ter tal objetivo como requisito essencial para o ingresso no nível superior.

 

Assim, parte da dinâmica de interesses e opções acima parece estar associada ao relativo e crescente desinteresse dos jovens pelo Ensino Médio Regular na forma que ele é hoje. No passado, os postulantes do ENCCEJA e de seus exames predecessores eram basicamente pessoas maduras que haviam perdido a oportunidade de estudar quando na idade apropriada. Contemporaneamente, é crescente a quantidade de jovens que preferem aguardar completar 18 anos para, via caminhos alternativos, testar seus conhecimentos e, se aprovados, obter seus certificados.

 

Interessante observar que, pela primeira vez, é significativo e crescente o percentual de candidatos ao diploma de Ensino Médio que consegue acesso ao conteúdo do exame via outras formas, que não a escola tradicional. Atualmente, há várias iniciativas inéditas e estão disponíveis um conjunto de atraentes portais educativos de qualidade, parte deles gratuitos e os demais acessíveis a baixos custos. Tais caminhos se mostram cada vez mais interessantes àqueles que expressam compatibilidade com metodologias e tecnologias que permitem ao educando aprender o tempo todo e em qualquer lugar.

 

Não deve surpreender a ninguém que acompanha os processos educacionais no Brasil o fato de que, em poucos anos, o número de matrículas do Ensino Superior na modalidade a distância superará o correspondente no presencial. Da mesma forma e mais enfaticamente ainda, quanto às crianças e os mais jovens, sempre que eles tiverem a opção de explorar novas abordagens educacionais, desde que demonstrem mais compatibilidade com as formas segundo as quais eles vivem, trabalham e se relacionam com amigos e família, parte deles assim procederá.

 

São fenômenos complexos e com variáveis múltiplas. Portanto, na tentativa de simplificá-los, corremos o risco de gerar interpretações equivocadas ou demasiadamente parciais. Porém, parece inequívoco que, em geral, a tendência aponta para um sucesso educacional relativamente maior via a adoção progressiva de metodologias híbridas e flexíveis. Ou seja, a partir da incorporação apropriada de tecnologias digitais, é possível propiciar um ensino personalizado, mais atraente e eficiente. Desta forma, temos a oportunidade de cumprir com os objetivos de uma educação de qualidade para muitos, propiciando que todos estudem, desde que atendendo à indispensável customização que leva em conta o fato de que cada educando aprende de maneira pessoal e única.

 

 

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Imagem em Domínio Público: https://pixabay.com/pt/on-line-educa%C3%A7%C3%A3o-tutorial-3412473/

 

 

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terça-feira, 26 de junho de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 14:52

Nômades digitais: desempregados, sem-teto e felizes

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A revolução decorrente da onipresença das tecnologias digitais está progressivamente alterando elementos essenciais do mundo do trabalho e modificando as formas como moramos e como convivemos. Expressões dessas mudanças são os novos espaços urbanos delas decorrentes. Entre eles, surgem, com grande destaque, as experiências de coworking e de coliving.

 

Coworking, de forma resumida, traduz um novo ambiente de trabalho, a partir do qual pequenas empresas e profissionais autônomos se relacionam com seus clientes, seus fornecedores e estabelecem laços entre si. São espaços democráticos compartilhados que permitem o desenvolvimento dos mais variados projetos sem as burocracias e as hierarquias dos escritórios convencionais e sem padecer do isolamento do chamado home office.

 

Oferecer uma adequada infraestrutura similar aos escritórios convencionais, incluindo todas as formas de atendimento e salas para receber clientes, é somente o ponto de partida de empreendimentos como esses. Acresçam-se a isso, ambientes inspiradores, especialmente pensados para o trabalho autônomo, a possibilidade de novos relacionamentos e a garantia de oportunidade de diversão a todos.

 

Os coworkings crescem a olhos vistos. No Brasil, já são centenas; no mundo, milhares. A título de exemplo, a empresa WeWork, fundada há somente oito anos, já é a segunda maior usuária de espaços de escritórios em Londres, perdendo apenas para o Governo Britânico. O sucesso dos coworkings não decorre somente de criatividade, mas, fundamentalmente, do fato que migramos de um modelo de desenvolvimento econômico, social e ambiental que demandava profissionais especialistas para um novo cenário onde o principal predicado é a flexibilidade. Ser flexível, em geral, passa por ter uma formação universitária que permita ao profissional encarar qualquer desafio sem o temor de decifrá-lo e cumpri-lo. Ter flexibilidade também é ter a disponibilidade de migrar de uma cidade para outra, bem como a habilidade de executar as tarefas em ambientes semelhantes aos que os espaços de coworking oferecem.

 

Por sua vez, os espaços coliving representam o estado da arte do hábito humano de viver em comunidade, desde as eras mais longínquas. A convivência em tribos e clãs foi sendo, progressivamente, adaptada à vida urbana e ao aumento da densidade demográfica. Atualmente, nesta etapa da história, há uma tendência em se questionar se ainda vale a pena manter uma moradia particular, com altos gastos e pouca socialização. Surge a alternativa de derrubar paredes, enfrentando a crise da falta de espaços físicos, e questionar os ideais de individualização e a falta de racionalidade dos modelos vigentes.

 

O conceito de coliving, que estimula a integração, a sustentabilidade e o espírito de colaboração, remonta ao início da década de 1970 com a experiência dinamarquesa do Cohousing Saettedammen. Tratava-se de uma comunidade com 35 famílias, na Dinamarca, onde as moradias permaneciam privadas e os demais espaços de convivência e atividades, como refeições e limpeza de ambientes eram compartilhados, com o objetivo de estimular o relacionamento entre vizinhos. Em 1988, o arquiteto norte-americano Charles Durrett adotou a mesma perspectiva sustentável em seus empreendimentos. Ainda que em outro contexto, o coliving apresenta algum nível de semelhança com as tradicionais repúblicas de estudantes, resguardadas suas diferenças de tempos e propósitos.

 

A combinação do coworking com o coliving estimula que trabalho, relacionamentos e entretenimento sejam frutos de compartilhamentos sem barreiras ou fronteiras estanques. Lar, escritório e clube num pacote único somado ao fato que podemos migrar a cada mês, semestre ou ano de um ambiente para outro a milhares de quilômetros sem burocracia ou perda de tempo com novos ajustes. Considerando que a tendência nas atividades profissionais inclui não somente a diversidade de ocupações, mas também a multiplicidade de oportunidades de moradias em cidades distintas, denominou-se esta geração movida a coworkings e colivings de “nômades digitais”.

 

É ainda um pouco cedo, talvez ingênuo, para termos uma opinião definitiva sobre os desdobramentos dessas novas maneiras de viver. Por enquanto, sabemos apenas que esses nômades digitais aparentam estar felizes. Quem viver verá.

 

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Foto: Empresa WeWork, citada no texto, em Ipanema, Rio de Janeiro-RJ, Brasil. Ver link:

https://www.wework.com/pt-BR/buildings/ipanema–rio-de-janeiro

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