Publicidade

Posts com a Tag inovação

domingo, 1 de setembro de 2019 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 16:58

O QUE O BEBÊ VAI SER QUANDO CRESCER?

Compartilhe: Twitter

 

Será possível prever o sucesso educacional de um recém-nascido? A resposta é complexa, mas há contribuições recentes interessantes acompanhadas de um entendimento crescente sobre o assunto.

 

O tema DNA e desempenho escolar, associado à área que conhecemos como edugenômica1, é extremamente polêmico, com enormes chances de compreensões indevidas, algumas com equivocados elementos de eugenia. Porém, o risco é ainda mais grave se desconhecermos completamente os debates em curso e deixarmos de analisar e contribuir com os recentes avanços científicos na área.

 

Pesquisadores têm demonstrado que os genes do bebê influenciam significativamente o seu posterior desempenho ao longo da vida escolar. De fato, há estudos demonstrando que aproximadamente dois terços das diferenças no sucesso escolar podem ser explicados pela genética. Por exemplo, em 2016, cientistas publicaram na prestigiada revista Nature haver identificado 74 posições de genes que permitem prever, ainda que parcialmente, quão longe alguém poderia ir em sua vida escolar2.

 

Mais recentemente, Kaili Rimfeld et al.3 estudaram o desempenho escolar, a partir de uma amostra de 6.000 pares de gêmeos nascidos no Reino Unido. A adoção de gêmeos decorre do fato que, quando idênticos, eles compartilham 100% dos genes, enquanto, quando não idênticos, o compartilhamento é da ordem de 50%, tal como entre dois irmãos quaisquer.

 

A amostra adotada contém gêmeos, tanto idênticos como não idênticos, morando em mesma casa e em casas diferentes, incluindo até irmãos adotivos, os quais desfrutam do mesmo ambiente sem qualquer compartilhamento de DNA. Os dados obtidos pelos autores mostram que, aproximadamente, 70% do rendimento escolar decorre de fatores genéticos, enquanto os aspectos ambientais respondem por algo da ordem de 25%. Os restantes 5% podem ser explicados, segundo os autores, por demais itens, tais como amigos e professores diferentes.

 

Para estabelecer correlações envolvendo sucesso escolar, é preciso definir um critério para o que seja sucesso educacional, além de escolher quais as variáveis mais relevantes a serem consideradas. Estudos recentes apontam que, entre as múltiplas variáveis, duas delas, aparentemente, se destacam sobre as demais. Uma delas é o status socioeconômico dos pais. A segunda variável é o DNA herdado, que, recentemente, tem sido evidenciado ter nível similar de relevância à primeira.

 

Os pesquisadores Sophie von Stumm et al.4, em artigo ainda não publicado, mas já disponibilizado, tratam da predição de sucesso educacional fazendo uso de consistentes dados de um representativo estudo sistemático de 15.000 pares de gêmeos nascidos na Inglaterra e País de Gales, entre 1994 e 1996. No caso, a análise foi baseada em 4.890 indivíduos de origem europeia, dos quais os dados genéticos e de status socioeconômicos foram utilizados. Os dois preditores selecionados, socioeconômicos e genéticos, foram estudados, em termos de correlação com sucesso escolar, para as idades de 7, 11, 14 e 16 anos. Todas as figuras apresentadas neste texto são extraídas desse preprint.

 

O preditor de status socioeconômico dos pais, SES (do inglês parent´s socioeconomic status), embute as qualificações educacionais de ambos os pais, suas respectivas posições ocupacionais e, particularmente, a idade da mãe dos gêmeos por ocasião de sua primeira gestação. O preditor SES, assumido como representando as vantagens ambientais e de riqueza, de fato, inclui, inexoravelmente, elementos hereditários genéticos, os quais precisam ser corrigidos (correção da ordem de 50%, a partir do estudo de gêmeos) para que eles não contenham as influências do DNA.

 

O preditor das influências do DNA, agregados via os conhecidos escores poligênicos no genoma amplo (em inglês, genome-wide polygenic scores, GPS), não se altera ao longo da vida, independente de condições ambientais. GPS é representado por um número baseado na variação em múltiplos espaços genéticos e suas associações em pesos. A técnica mais recente utilizada é baseada no estudo de associação genômica ampla (em inglês, whole genome association study, GWAS), o qual é uma análise observacional de variações genéticas em todo o genoma em diferentes indivíduos para conferir se alguma variante está associada a um determinado traço.  GWASs são, tipicamente, focados em associações entre polimorfismos de nucleotídeos simples e características.

 

Como principal critério de sucesso, foram adotadas as notas obtidas ao longo do período selecionado, em especial os resultados ao final do ensino obrigatório aos 16 anos, quando os alunos realizam o exame GCSE (em inglês, General Certificate of Secondary School), correspondente ao nosso ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). De acordo com os resultados obtidos na pesquisa referida, tanto para o SES como o GPS, as predições se mostraram efetivas, em termos de impactos no desempenho educacional, desde o primeiro ano da educação primária, sendo consistentes até a conclusão do ensino médio.

 

Entre os jovens com altos SES e GPS, 77% ingressaram na universidade, enquanto somente 21% com baixos SES e GPS seguiram o mesmo caminho. Os efeitos do status socioeconômico dos pais e aqueles decorrentes do DNA herdados podem ser isolados, resultando que o primeiro responde por 16% da variância observada (estatisticamente mensura quanto um resultado dista do valor médio esperado) e o segundo por 14%, valor bastante próximo do primeiro.

 

A Figura 1 mostra que a capacidade de previsão de sucesso educacional cresce continuamente ao longo dos anos estudados. Se a variável em estudo não tem impacto a correlação é zero. Se ela determina completamente a correlação é um. Os resultados mostram que a correlação para o preditor SES, dos 7 aos 16 anos, cresce de 0.31 até 0.48 (retirando a influência genética embutida, como estabelecido, resulta de 0.25 a 0.37). Para o preditor GPS, a correlação aumenta de 0.22 a 0.36, respectivamente.

Pode-se observar também que os escores GPS se mostram preditores mais efetivos de sucesso educacional na idade de 7 anos em crianças de famílias com baixo SES do que naqueles com SES mais altos.

 

Os autores demonstram que as implicações práticas dessas predições são mais evidentes nos casos extremos. Para o caso dos 16 anos, se dividirmos a amostras em dez partes iguais (decis), a partir dos mais baixos SES e GPS, a Figura 2 mostra o desempenho educacional, em termos dos desvios da média.

 

Observar que os resultados indicam que a diferença de desempenho entre os extremos atinge 1,5 ponto para SES e 1,2 para GES. Em termos efetivos de conceitos, isso equivale a variação do conceito C- para A, no caso decorrente da amplitude SES, e do conceito C+ para A-, no caso em função da amplitude GPS.

 

A Figura 3(a) mostra, em termos de número de indivíduos na faixa de 16 anos, os desempenhos para os decis com maiores e piores GPS. Fica evidente a significativa superposição (área cinza mais escura). Observou-se que 9% dos indivíduos do decil com GPS mais baixo demonstraram desempenhos acima da média dos indivíduos do decil com GPS mais alto. Inversamente, 10% daqueles do decil mais alto registraram desempenhos inferiores à média do decil com GPS mais baixo.

Análise semelhante para o preditor SES, conforme mostrado na Figura 3 (b), os percentuais correspondentes observados foram, respectivamente, 5% e 3%.

A Figura 4 evidencia que ao longo do percurso educacional entre 7 e 16 anos, ambos os preditores atuam continuamente, sendo que, naturalmente, seus efeitos são amplificados quando superpostos. Observar, como destaque, o fato que crianças com altos GPS tendem a compensar, relativamente, baixos SES. Esse fenômeno é mais evidente ainda para crianças com baixos GPS e altos SES.

 

Na região mista, onde os preditores são opostos, para aqueles com altos GPS é possível compensar os baixos SES, tal que que a chance de ingressarem na universidade é ampliada de 21% (baixos SES e GPS) para 47%. Para aqueles com baixos GPS, eles podem compensar mais ainda tendo altos SES, resultando que 62% ingressam no ensino superior. Lembrar que, para efeito comparativo, para altos GPS e SES, 77% vão para universidades.

Portanto, a principal conclusão dos pesquisadores é que a influência do DNA do bebê, herdado geneticamente, expresso no preditor GPS, é poderoso indicador do futuro sucesso escolar, sendo aproximadamente da mesma ordem do preditor socioeconômico dos pais, via o preditor SES.

 

Além disso, testes de DNA dos bebês, em princípio, podem identificar eventuais riscos de desenvolvimento de dificuldades em leitura, ou outras áreas de aprendizagem, permitindo intervenção educacional o mais cedo possível. Ou seja, trilhas educacionais personalizadas podem ser construídas levando em conta características genéticas determinadas previamente.

 

É preciso alertar que os estudos apresentados se limitam a um grupo específico e um critério de sucesso educacional é definido, baseado em notas escolares de 7 a 16 anos, especialmente associados ao ingresso no ensino superior.

 

O ser humano tem potencialidades, em termos de atributos e talentos, que não estão incluídos no escopo do trabalho específico aqui referido. Conhecer estes e outros resultados permite traçar estratégias que viabilizem democratizar oportunidades e minorar discrepâncias.

 

Por fim, cabe destacar que a amostra adotada, em tese, poderia ter contemplado quatro meninos de classe média baixa de Liverpool, os quais teriam SES e, talvez, GPS, cumulativamente baixos. Provavelmente, teriam confirmado a baixa expectativa de sucesso educacional. Mesmo assim, certamente, nenhum outro indivíduo da amostra de milhares selecionados teria chegado próximo ao sucesso, no sentido amplo da palavra, que os Beatles tiveram, consagrando-se como um dos maiores fenômenos de todos os tempos.

 

Aqueles bebês de Liverpool, bem como tantos outros exemplos semelhantes, não invalidam os resultados da pesquisa, mas chamam a atenção dos pesquisadores de que eles, necessariamente, enxergam somente traços simples ou elementos parciais de realidades humanas, as quais são, de fato, bem mais complexas.

 

 

Referências:

[1] Ronaldo Mota, “Educational genomis: academic achievements and DNA”, Brazil Monitor, 21 de fevereiro (2018). Acessível em: http://www.brazilmonitor.com/index.php/2018/02/21/educational-genomics-academic-achievements-and-dna/.

 

[2] Aysu Okbay et al., “Genome-wide association studu identifies 74 loci associated with educational attainment”, Nature 533, 539-542 (2016), Acessível em: https://www.nature.com/articles/nature17671.

 

[3] Kaili Rimfeld et al., “The stability of educational achievement across school years is largely explained by genetic factors”, Science of Learning, (3), 16  (2018). Acessível em:  https://www.nature.com/articles/s41539-018-0030-0.

 

[4] Sophie von Stumm et al., “Predicting educational achievement from genomic measures and socioeconomic status”, preprint disponível em: https://www.biorxiv.org/content/10.1101/538108v1,

 

Autor: Tags: , , ,

terça-feira, 30 de julho de 2019 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 07:35

Metacognição é coisa de criança

Compartilhe: Twitter

 

Não há uma definição simples para metacognição. O prefixo grego “meta” induz que metacognição deva ir além da cognição ou tratar-se de reflexão sobre ela. Cognição, por sua vez, está associada, de maneira simplificada, ao processo de aquisição de conhecimento, baseado em um conjunto de habilidades mentais, entre elas, a memória.

 

Talvez pelo aspecto transcendente à cognição, muitos assumam que metacognição é coisa exclusivamente de adulto, gente madura e preparada. Porém, a máxima relevância educacional da metacognição é, surpreendentemente, para crianças e jovens.

 

As habilidades metacognitivas do aprendiz, em qualquer idade, incluem estimular a reflexão sobre a própria aprendizagem, implicando em autorreflexão e atividades, incluindo lúdicas, em equipe.  A prática de entender o outro, desde criança, promove a aprendizagem colaborativa, indispensável em um cenário de aprendizagem permanente ao longo da vida. Na fase pré-escolar, a família e o entorno social desempenham papel primordial. Consequentemente, em contextos em que a escolaridade dos pais torna difícil essa tarefa, políticas públicas específicas são imprescindíveis.

 

James Heckman, no ano 2.000, foi contemplado com o Prêmio Nobel de Economia por evidenciar a relação entre desigualdade social e o estímulo educacional a crianças de zero a cinco anos. Segundo Heckman, há forte correlação entre a criança adequadamente estimulada nessa fase e seu posterior desempenho escolar, sucesso profissional e menor envolvimento em crimes. Em outras palavras, quanto mais as crianças, de todas as classes sociais, adquirem as competências, tanto cognitivas como metacognitivas, menor tendem a ser as desigualdades sociais entre elas no futuro.

 

Lev Vygotsky (1896-1934) tratou dos processos de controle na aquisição do conhecimento que podem ser considerados precursores daquilo que vem a ser conhecido, atualmente, como metacognição. Particularmente, naquilo que ele denominava Zona de Desenvolvimento Proximal, a fronteira entre o conhecimento que o aprendiz pode atingir de forma independente e aquele que demanda orientação que interfere diretamente no processo. Assim, de forma programada, o docente ou os pais assumem a responsabilidade dos processos cognitivos até que as crianças ou os jovens se sintam, progressivamente, suficiente confortáveis em tomarem para si a gestão de suas próprias aprendizagens.

 

Na década de 1970, o psicólogo John Flavvel e outros pesquisadores retomaram de forma mais intensa esse debate, agora à luz da metacognição, a qual descreviam como sendo “o conhecimento acerca do próprio processo cognitivo”, ou, em outras palavras, “o aprender a aprender”. Posteriormente, o conceito foi ampliado para referir-se à consciência do educando acerca de seu conhecimento, incluindo suas convicções e a percepção de áreas a serem desenvolvidas. Nesse contexto, contemplando, especialmente, a sua habilidade de refletir sobre o planejamento, o gerenciamento, a avaliação e a definição consciente dos rumos da própria aprendizagem.

 

Inspirado pelos pensamentos de Vigotsky e Flavvel, David Perkins, na década de 1990, tratou do tema central do reconhecimento das quatro etapas da consciência do aprendiz sobre sua própria aprendizagem.

 

Aprendizes tácitos estariam associados a primeira etapa, quando eles ainda não têm consciência plena de desenvolvimentos metacognitivos, estando dispensados de pensar sobre uma estratégia particular de aprendizagem. Caracterizando-se esta etapa por estímulos aos desenvolvimentos baseados em espontaneidades intuitivas, incluindo atividades domésticas, leituras, brinquedos, desenhos etc.

 

Aprendizes conscientes diriam respeito à segunda etapa, quando já são capazes de generalizar ideias, explorar evidências, mesmo quando esses pensamentos ainda não são totalmente deliberados ou planejados.

 

Educandos estratégicos corresponderiam à terceira etapa, na qual eles já conseguem organizar conscientemente seus pensamentos, via solução de problemas, fazendo uso de classificações, evidências e tomadas de decisões.

 

Por fim, temos a última etapa, educandos reflexivos, aptos não só a refletirem sobre a própria aprendizagem enquanto ela se desenvolve, mas capazes de, à luz do sucesso ou insucesso das estratégias educacionais adotadas, revê-las e adotarem trilhas apropriadas alternativas.

 

As faixas etárias e os ambientes, escolares ou familiares, permitirão adaptações e ênfases em cada uma dessas etapas, mas a visão da importância de explorar processos metacognitivos é essencial para prepararmos profissionais e cidadãos capazes de enfrentar desafios, quaisquer que eles sejam.

 

Se o século passado demandava domínio de conteúdos, técnicas e procedimentos, muitos deles baseados em processos cognitivos simples, o mundo contemporâneo privilegia pessoas cujos processos formativos, desde a primeira infância, se vinculem a estimular a capacidade de aprender  a aprender continuamente, coerente com um ambiente de aprendizagem permanente ao longo de toda a vida.

 

Autor: Tags: , , , , , , , ,

quarta-feira, 10 de julho de 2019 Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação, Sem categoria | 10:29

Humanizando máquinas inteligentes

Compartilhe: Twitter

 

Humanos são humanos e máquinas são máquinas. Mesmo assim, a história humana pode ser contada a partir do uso de diversas ferramentas, as quais foram, no decorrer do tempo, se incorporando ao cotidiano, interferindo diretamente na evolução da espécie.

 

As múltiplas maneiras com que os humanos têm feito uso de diversos utensílios, ao longo de sua evolução, talvez seja a principal característica que nos distinga das demais espécies. A habilidade no uso de varetas e pedras remonta há milhões de anos entre os nossos mais distantes ancestrais, mas há um longo e peculiar caminho até os dias atuais, quando é possível, por exemplo, implantarmos chips em nossos corpos.

 

Por sua vez, as máquinas não somente substituem os trabalhos mais simples dos humanos; muitas vezes, tentam reproduzi-los literalmente, a exemplo da robótica e equipamentos inteligentes, incluindo as recentes máquinas que aprendem. Isso ganha uma dimensão especial quando dispomos de uma capacidade quase ilimitada de armazenar dados e utilizá-los via uma gestão inteligente, contemplando elementos de modelagem e simulação sem precedentes.

 

Mesmo assim, supõe-se, em geral, que há limites claros para as máquinas, entre eles, ir além de uma racionalidade previsível, embutida nas programações e nos algoritmos adotados. Em que medida podemos humanizar máquinas, especialmente no âmbito dos usos contemporâneos de Inteligência Artificial (IA), torna-se, progressivamente, um tema de grande interesse e é o tema central deste texto.

 

Ou seja, mesmo os maiores entusiastas de IA reconhecem que as máquinas estão restritas a decisões racionalizáveis, ainda que submetidas a sofisticados algoritmos. Nesse sentido, as emoções humanas, especialmente aquelas baseadas no livre arbítrio, são supostas como quase impossíveis de serem reproduzidas por máquinas.

 

No entanto, explorando essa difusa e complexa região entre racionalidade e emoções ou entre determinismo e livre arbítrio, é possível exemplificar a incorporação de elementos de incertezas que envolvem tomadas de decisões em processos de máquinas que simulam comportamentos humanos.

 

Com o intuito de exemplificar uma possibilidade, são necessários alguns conceitos básicos de métodos estatísticos, em particular o Método de Monte Carlo (MMC). O MMC é uma abordagem estatística baseada em amostragens aleatórias massivas que permite obter resultados numéricos. A partir de sucessivas simulações, um elevado número de possíveis configurações é gerado, permitindo calcular probabilidades. O MMC tem sido utilizado em diversas áreas (incluindo algumas semelhantes com jogos de dados, decorrendo daí sua denominação) como forma de obter aproximações numéricas de funções complexas, nas quais não é viável, ou mesmo impossível, obter uma solução simples analítica ou determinística.

 

Um MMC muito utilizado em Física, tendo como objetivo determinar valores esperados de propriedades do sistema simulado, a partir de uma média sobre a amostra, é o chamado Algoritmo de Metropolis (AM). Originalmente apresentado em 1953 por Nicholas Metropolis e outros1, ele foi generalizado em 1970 por W. K. Hastings2 (por isso também conhecido como Algoritmo Metropolis-Hastings).

 

AM se baseia na observação de que a determinação da probabilidade de uma dada configuração demanda conhecer a chance de ocorrência dela e de todas as outras possíveis configurações. Para variáveis contínuas se faz necessário uma integração da densidade de probabilidade sobre todo o espaço de configurações. Tal procedimento é, em geral, extremamente custoso, muitas vezes simplesmente impossível, quando se utiliza um número de variáveis grande (da ordem de centenas ou milhares), como é bastante comum nos sistemas de maior interesse.

 

A grande contribuição característica do AM é não levar em conta a probabilidade das configurações em si, mas sim a razão entre elas, dado que a razão entre as probabilidades de duas dadas configurações pode ser determinada independentemente das demais.

 

Se considerarmos duas configurações m e n quaisquer, é conhecido da estatística que, sendo E(m) a energia da configuração m e E(n) da n e sendo P(m) a probabilidade da configuração m e P(n) da n, a razão entre as probabilidades P(n) e P(m) pode ser descrita como: exp[-(E(n) – E(m))/KT], onde K é a constante de Boltzmann e T a temperatura da amostra.

 

Definida essa abordagem, o AM é implementado via um conjunto de regras razoavelmente simples:

  • O primeiro passo é a geração de uma configuração inicial aleatória, denominada m;
  • Em seguida, geramos uma nova configuração-tentativa, provocando pequenas alterações na configuração inicial, denominada n;
  • Se a nova configuração, n, tiver uma energia menor (maior estabilidade) do que a primeira, m, adota-se esta nova n;
  • Caso a energia da nova configuração, n, seja maior do que a original m, refletindo uma perda em estabilidade, em estatísticas convencionais o novo resultado seria descartado. Nesta abordagem, diferentemente, gera-se um número aleatório entre 0 e 1 e se este número for menor do que exp [-(E(n) – E(m))/KT], aceita-se esta configuração na amostra, caso contrário, não;
  • Repetem-se os passos (ii) e (iii) até que um certo critério de atendimento seja satisfeito, tal como esquematizado na Fig. 1.

 

Fig. 1. Representação esquemática do fluxograma de decisões em um Algoritmo de Metropolis-Hastings.

 

Observar que, no critério adotado acima, se E(n) e E(m) são valores bastante próximos, o resultado do termo exponencial acima se aproxima de 1, portanto, com razoável chance da nova configuração ser aceita. No entanto, se E(n) for muito maior do que E(m), este valor tende para zero, com grandes chances do número gerado, entre 0 e 1 ser maior e, portanto, esta configuração deve ser, provavelmente, desprezada.

 

Em sistemas físicos, onde se pretende determinar a configuração correspondente ao estado de mínima energia (maior estabilidade), um grande mérito do AM é permitir escapar de mínimos locais de energia. Via múltiplas etapas e a grande quantidade de configurações geradas, ao se aceitarem configurações com energias maiores com probabilidade não nulas, barreiras podem ser superadas e aprisionamentos locais evitados, e mínimos gerais atingidos (ver Fig. 2). Observar que se as configurações com energias maiores fossem liminarmente desprezadas, a possibilidade de aprisionamento em mínimos locais seria difícil de ser evitada.

 

Fig. 2. Gráfico genérico ilustrativo mostrando máximo e mínimos, locais e globais. No caso do problema físico, poderíamos ter no eixo vertical a variável energia e no eixo horizontal o espaço de configurações.

 

A adoção do AM garante que visitaremos regiões próximas dos mínimos de configurações mais aceitáveis (correspondentes aos de mínimas energias), percorrendo o espaço do domínio das funções envolvidas de maneira sistemática. Dependendo de como é definido o critério probabilístico, os caminhos não se afastarão muito de uma determinada região de confiança com relação ao método adotado.

 

No caso de máquinas inteligentes, movidas por algoritmos, uma analogia seria possível no tocante à tomada de decisões. No universo de abundância extrema de dados, de facilidades inéditas de gestão dos mesmos e de máquinas inteligentes, um ponto crucial é a tomada de decisões. Suponhamos que em cada encruzilhada, a máquina possa considerar múltiplos caminhos, cabendo contemplar critérios de escolhas e consequentes evoluções. Inspirados no AM, trata-se de garantir que caminhos que seriam normalmente desprezados sejam também considerados, seguindo o conjunto de regras acima descritos.

 

A partir de uma dada situação, expressa por uma configuração inicial aleatória, exploraríamos diversos caminhos no âmbito de tomada de decisões. Se o caminho simulado, fruto de pequenas alterações na configuração inicial, for, à luz do algoritmo utilizado, mais indicado, adota-se a nova configuração resultante.

 

Como o algoritmo utilizado, baseado nos dados disponíveis, permite contabilizar os prós e contras de cada nova configuração, podemos definir que a diferença entre eles possa ser expressa por um determinado Delta, a exemplo do caso anterior, sendo definido em cada circunstância.

 

Assim, dada uma situação original aleatória, quando a nova configuração gerar um Delta negativo, adota-se a nova configuração. Caso a nova situação seja menos indicada do que a original, gera-se um número aleatório entre 0 e 1 e se este número for menor do que exp[-Delta/C], onde C é uma constante, aceita-se o caminho; caso contrário, não.

 

Observar que, a exemplo do caso anterior, se Delta é muito pequeno, o termo exponencial se aproxima de 1, com grandes chances deste número ser superior ao gerado aletoriamente entre 0 e 1; portanto, com boa chance de ser adotado o caminho. Contrariamente, se Delta é muito grande o valor tende a zero e torna-se grande a possibilidade de o caminho ser desprezado. Por fim, repetem-se os processos acima até que um certo critério de atendimento seja satisfeito.

 

A constante C (análoga ao KT de sistemas físicos) permitiria uma associação indireta com um tipo de “excitação térmica”. Ou seja, em alguns processos, com C maior, significaria algo equivalente a menor aversão a risco nas tomadas de decisões, contemplando possibilidades mais radicais ou arriscadas entre configurações mais distantes. Valores menores de C representariam tomadas de decisões mais conservadoras, envolvendo estados mais próximos, sem grandes perturbações no sistema.

 

A evolução do sistema permitiria, de certa forma, imitar comportamentos humanos que nem sempre seguem, exclusivamente, racionalidades, sendo recheado de etapas guiadas por elementos de emoção, em geral, não contemplados nos algoritmos tradicionais.

 

Em tese, portanto, podemos imaginar contribuições acerca de como ensinar máquinas a tomarem decisões. No caso, os movimentos sequenciais de uma máquina inteligente qualquer seguiriam os passos inspirados por um AM. Ou seja, introduzindo aleatoriedade, via pequenos passos, podemos, no limite, simular emoções e imprevisibilidades, as quais conjugadas com racionalidades estabelecem alguma semelhança com decisões humanas.

 

 

Referências:

  1. Metropolis e outros, Journal of Chemical Physics 21, 1087 (1953).
  2. K. Hastings, Biometrika 57 (1), 97 (1970).

 

 

 

 

Autor: Tags: , , , , ,

terça-feira, 29 de janeiro de 2019 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 13:28

Alunos são parceiros e não consumidores

Compartilhe: Twitter

alunosjan29

 

Entender os educandos como parceiros e cocriadores de um processo complexo, e não como clientes ou consumidores simples, vai muito além de uma questão comercial, ética ou moral. Trata-se, essencialmente, de uma questão educacional. A partir de como enxergamos nossos alunos, devemos estabelecer, em coerência com o mundo contemporâneo, as adequadas abordagens e metodologias.

 

Houve um período, no passado próximo, onde a escola poderia ser vista, resumidamente, como espaço de transferência de informação ou de conhecimento. Ao professor cabia a tarefa fundamental, ainda que não exclusiva, de repassar aos aprendizes um conjunto de conteúdos, alguns procedimentos padrão e certas técnicas bem definidas. Findas as tarefas, o estudante, caso provasse domínio adequado, estaria aprovado e a instituição educacional chancelava cada etapa do processo, via um diploma ou um certificado.

 

A grande novidade dos tempos atuais é que as tecnologias digitais invadiram, abruptamente, todos os setores da sociedade, inclusive o universo da educação.  A informação está totalmente acessível, disponibilizada de imediato e, basicamente, gratuita. Uma escola ou um docente que se limitarem, hoje em dia, à tarefa de simplesmente transferir informação correm o risco de se tornarem inócuos, estando sujeitos a desaparecerem, por ausência de propósito, muito rapidamente.

 

Profissionais oriundos do ensino tradicional, baseado em memória e no domínio simples de procedimentos e técnicas, são os alvos principais dos processos de automação e de máquinas que aprendem. Automação, no caso, refere-se à substituição do trabalho humano por robôs que atendem a algoritmos. O aprendizado de máquina, por sua vez, potencializa ainda mais a automação, permitindo ir além de tarefas repetitivas e mecânicas. Assim, as máquinas podem contemplar missões cada vez mais complexas, alicerçadas em aprendizagem por análises de erros. Ou seja, a partir da disponibilidade e do tratamento de dados abundantes, inteligência artificial propicia criar novos algoritmos que evoluem e que são aprimorados continuamente.

 

A título de evidenciar a gravidade do contexto presente, em trabalho recente do “Laboratório de Aprendizado de Máquina em Finanças e Organizações” da Universidade de Brasília, as 2.602 ocupações formais no Brasil foram, à luz dos riscos da decorrentes da automação, analisadas.  Entre os trabalhadores atualmente com carteiras assinadas, mais de metade deles, algo da ordem de 25 milhões, ocupam vagas com alta probabilidade de serem negativamente afetadas nos próximos anos.

 

Educacionalmente, a única forma de enfrentar esses desafios é promovendo uma aprendizagem que viabilize que aqueles que estão chegando ao mercado possam ir além dos trabalhos mais rasos, evitando ao máximo suas substituições por robôs. A abordagem pedagógica apropriada para preparar um profissional ou cidadão para tarefas mais complexas é aquela que transcenda os processos simples de memorização, indo muito além da absorção aligeirada de procedimentos e técnicas. É fundamental que o aluno, ao longo da aprendizagem, reflita, entenda e aprofunde sobre como ele aprende. Sendo ator consciente de seu próprio processo educacional, o educando amplia continuamente sua capacidade de aprendizagem ao longo da vida. Acrescente-se o indispensável estímulo aos processos colaborativos entre colegas, presenciais ou virtuais, na consecução, em equipe, de missões e projetos.

 

Dentro dessa perspectiva, o educando é, mais do que nunca, um cocriador e um parceiro da dinâmica educacional envolvida. Portanto, o aluno está bastante distante da figura passiva de um consumidor que adquire isolada e individualmente um produto ou um serviço. Construir essas novas metodologias e conjugá-las às tecnologias existentes, bem como às múltiplas possibilidades que ainda estão sendo criadas, é o maior desafio educacional contemporâneo.

 

——

 

 

 

 

 

 

Autor: Tags: , , , , , , , ,

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 08:53

Qualidade em Educação a Distância

Compartilhe: Twitter

473673DA-0496-480C-A67C-FA7542621110

No ano passado, fui designado pelo Ministério da Educação (MEC), via a Secretaria de Educação Superior (SESu), para um Grupo de Trabalho (GT) cuja responsabilidade era atualizar os Referenciais de Qualidade para a Educação Superior a Distância (Portaria SESu Nº 78, de 19/09/2018). Ao final de 120 dias, o GT apresentou seus resultados, os quais foram, neste ano de 2019, entregues aos novos gestores do MEC.

A Educação a Distância (EaD) é, usualmente, caracterizada como sendo a modalidade na qual os procedimentos educacionais são mediados por tecnologias, em contextos nos quais os educandos e os educadores estão separados, espacial ou temporalmente. Caminhamos em direção a uma sociedade em que a informação estará totalmente acessível, de forma instantânea e basicamente gratuita; portanto, qualquer definição,rapidamente, fica desatualizada ou, no mínimo, incompleta, demandando permanentes revisões e atualizações.

No documento final do GT, o destaque é para a enorme potencialidade da modalidade EaD, sendo considerada ferramenta estratégica naampliação do acesso e da permanência, em especial no ensino superior. Nas últimas décadas, a demanda por oportunidades educacionais nesse nível tem crescido exponencialmente, sendo boa parte desse crescimento viabilizado graças ao uso das tecnologias digitais e das metodologias inovadoras associadas.

A modalidade EaD no Brasil foi assegurada na Lei de Diretrizes e Bases da Educação/LDB(Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996), que estabeleceu no, artigo 80, a possibilidade do seu uso orgânico em todos os níveis e modalidades de ensino. O Decreto 2.561, de 1998, que estabeleceu parâmetros de políticas de garantia de qualidade na EaD, e o Decreto 5.622, de 2005, que regulamentou o artigo 80 da LDB, funcionaram como diretrizes para a publicação dos referenciais de qualidade em 2007.

Em 2017, a legislação sobre a EaD reorganizou a abertura de cursos, flexibilizou a oferta e possibilitou a ampliação do acesso. O Decreto Nº 9.057, de 25 de maio de 2017, e a Portaria MEC 11, de 20 junho do mesmo ano, deram nova dimensão à modalidade. Essa Portaria permitiu às instituições criarem cursos de EaD, de acordo com sua organização administrativa, conforme os resultados obtidos no Conceito Institucional.

Quanto às inovações mais recentes, incluindo a autorização para o uso de até 40% em EaD da carga didática total na maioria dos cursospresenciais (Portaria MEC No 1.428, de 29 de dezembro de 2018), visam a avançar na consolidação de um modelo híbrido que integre as boas práticas do presencial com o virtual, estimulando novas práticas pedagógicas, calcadas na real possibilidade de uma educação personalizada de qualidade. Via trilhas educacionais customizadas, podemos possibilitar que todos aprendam, que todos aprendam o tempo todo, eque cada qual aprenda de maneira própria e única.

Uma dessas inovações, de natureza estritamente pedagógica, é a adoção de estratégias educacionais nas quais a ênfase está em priorizar o aprender a aprender, via abordagens que estimulam a emancipação do educando e a aprendizagem independente. Um dos aspectos centrais desta abordagem implica em privilegiar as características metacognitivas, transcendendo a cognição simples, contemplando sobremaneira o aumento do nível de consciência do educando acerca de como e em que condições ele aprende.  As habilidades metacognitivas implicam naautorreflexão do educando e na exigência de aprender a trabalhar em equipe, incluindo a prática de entender o outro, promovendo a aprendizagem colaborativa e independente. 

Caminhamos em direção à formulação de uma educação flexível e híbrida que conjugará elementos das duas modalidades de ensino, presencial e a distância. O produto final serácapaz de atender, de forma personalizada, às múltiplas demandas que respeitem as particularidades e as peculiaridades de cada educando, em seu contexto educacional específico, estabelecendo máxima compatibilidade com um cenário de educação permanente ao longo de toda a vida.

 

Autor: Tags: , , , , , ,

segunda-feira, 6 de agosto de 2018 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 14:07

Concluintes do Ensino Médio: diminuição ou novos caminhos?

Compartilhe: Twitter

ensinomedio

 

 

O número de concluintes do Ensino Médio Regular em 2017, algo em torno de 1 milhão e 780 mil, é 2,6% menor do que o de 2016, 1 milhão e 830 mil, aproximadamente. De fato, são números assustadores em si, porém, não é tão simples indicar que eles, isoladamente, impliquem em retração inevitável de interessados em Educação Superior nos próximos anos. Claro que o desejável seria termos um crescimento contínuo e substantivo de jovens se formando naquele nível, no entanto, há outros fenômenos ocorrendo simultaneamente e que devem ser levados em conta.

 

No último domingo (05 de agosto), foi aplicado o Exame Nacional para a Certificação de Competências de Jovens e Adultos (ENCCEJA), quando 1 milhão e 340 mil inscritos, número 7,6% maior do que no ano anterior, visam a obtenção do diploma de Ensino Médio. Parte significa deles declara a expectativa de, posteriormente, pleitear vagas no Ensino Superior. Assim, é possível observar que a diminuição de formandos no Ensino Médio Regular é compensada pelo incremento, mais do que o dobro de um ano para outro, de potenciais postulantes vindos por um outro caminho.

 

Duas observações preliminares sobre o ENCCEJA. Primeira, o exame é constituído basicamente de quatro partes: matemática; ciências da natureza suas tecnologias; linguagens e códigos; redação; e ciências humanas e suas tecnologias. Segunda, o Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM) até 2016 possibilitava o recebimento de diploma do Ensino Médio, sendo que mais de 1 milhão de postulantes ao ENEM atestavam ter tal objetivo como requisito essencial para o ingresso no nível superior.

 

Assim, parte da dinâmica de interesses e opções acima parece estar associada ao relativo e crescente desinteresse dos jovens pelo Ensino Médio Regular na forma que ele é hoje. No passado, os postulantes do ENCCEJA e de seus exames predecessores eram basicamente pessoas maduras que haviam perdido a oportunidade de estudar quando na idade apropriada. Contemporaneamente, é crescente a quantidade de jovens que preferem aguardar completar 18 anos para, via caminhos alternativos, testar seus conhecimentos e, se aprovados, obter seus certificados.

 

Interessante observar que, pela primeira vez, é significativo e crescente o percentual de candidatos ao diploma de Ensino Médio que consegue acesso ao conteúdo do exame via outras formas, que não a escola tradicional. Atualmente, há várias iniciativas inéditas e estão disponíveis um conjunto de atraentes portais educativos de qualidade, parte deles gratuitos e os demais acessíveis a baixos custos. Tais caminhos se mostram cada vez mais interessantes àqueles que expressam compatibilidade com metodologias e tecnologias que permitem ao educando aprender o tempo todo e em qualquer lugar.

 

Não deve surpreender a ninguém que acompanha os processos educacionais no Brasil o fato de que, em poucos anos, o número de matrículas do Ensino Superior na modalidade a distância superará o correspondente no presencial. Da mesma forma e mais enfaticamente ainda, quanto às crianças e os mais jovens, sempre que eles tiverem a opção de explorar novas abordagens educacionais, desde que demonstrem mais compatibilidade com as formas segundo as quais eles vivem, trabalham e se relacionam com amigos e família, parte deles assim procederá.

 

São fenômenos complexos e com variáveis múltiplas. Portanto, na tentativa de simplificá-los, corremos o risco de gerar interpretações equivocadas ou demasiadamente parciais. Porém, parece inequívoco que, em geral, a tendência aponta para um sucesso educacional relativamente maior via a adoção progressiva de metodologias híbridas e flexíveis. Ou seja, a partir da incorporação apropriada de tecnologias digitais, é possível propiciar um ensino personalizado, mais atraente e eficiente. Desta forma, temos a oportunidade de cumprir com os objetivos de uma educação de qualidade para muitos, propiciando que todos estudem, desde que atendendo à indispensável customização que leva em conta o fato de que cada educando aprende de maneira pessoal e única.

 

 

—–

Imagem em Domínio Público: https://pixabay.com/pt/on-line-educa%C3%A7%C3%A3o-tutorial-3412473/

 

 

Autor: Tags: , , , , , , ,

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 05:17

Tio Luís e as competências transversais

Compartilhe: Twitter

 

Tailor

 

Durante o ano, com maior ou menor sucesso, escrevo para os leitores, procurando temas que, eventualmente, lhes possam ser de interesse. Assim, tanto o formato como o conteúdo têm como referência balizadora principal quem lê, e não quem escreve.

 

Neste último artigo do ano, concedo-me a liberdade de escrever para mim mesmo, no tema que me agradar e no formato que resultar, sem nenhum constrangimento. Uma espécie de presente de Natal que decidimos nos dar.

 

Tive um tio, já falecido, chamado Luís José Rodrigues, ainda que irmão de meu pai de sobrenome Mota. Uma história complicada, a família homenageava por vezes os parentes do pai (Rodrigues), por outras os parentes da mãe (Mota). Assim, meu Mota, por curioso que seja, vem da avó paterna.

 

Tio Luís era alfaiate, um bom alfaiate. Dominava um ofício e dele basicamente sobreviveu e com dignidade. Seu mundo não exigiu nunca mais do que isso. Era um período de especialidades e estas perduravam, ainda que com alguns sobressaltos. As camisas volta ao mundo de nycron e as calças jeans e similares foram alguns desses obstáculos a quem produzia roupas personalizadas a partir de cortes de tecidos. As turbulências devem tê-lo atingido e, ao longo da vida, o fizeram testar outras atividades, mas nada que o tivesse afastado em definitivo da missão associada ao ofício de que gostava.

 

Aquilo que tinha um tom de cotidiano e de relativa nobreza, fazer as indumentárias sob medida, rapidamente se transformou em quase esquisitice. Mesmo que eles fossem, e eram, maravilhosos e competentes, o ofício se transformaria em atividade de nicho, para poucos de gosto extremamente refinado ou simplesmente hábito remanescente em alguns mais velhos.

 

Uma mudança drástica, ainda em curso, são os desafios de sobrevivência para profissões tradicionais no ambiente contemporâneo. Sobressai-se agora a exigência de dominar competências transversais, sem as quais podemos não dar conta das modificações sociais que enfrentamos. Competências transversais dizem respeito à aplicação de conhecimentos adquiridos previamente na solução de problemas novos ou de suas utilizações em ambientes diferentes dos originais. Este saber no meio acadêmico inclui a adoção de estudos e abordagens de natureza estritamente disciplinar em contextos inter, multi e transdisciplinares.

 

Esta especial característica, competência transversal, habilita a integrar conhecimentos de áreas diversas do saber especialmente na execução de missões complexas. Tal habilidade inclui o domínio da comunicação das fases em evolução, bem como das conclusões, para plateias de especialistas e de não especialistas, ao longo de completar uma tarefa, seja ela qual for.

 

A aquisição de tal competência é progressiva e ilimitada, mas em todos os níveis permite e estimula continuar aprendendo, caracterizando-se pela relevância de trabalhar em equipe, onde naturalmente as características e habilidades são múltiplas e diferenciadas, constituindo-se em ferramentas indispensáveis em um mundo de educação permanente ao longo de toda a vida.

 

Os mestres envolvidos nos processos de aprendizagem dessas competências se caracterizam pelas abordagens que visam a fortalecer no educando a capacidade de aprendizagem independente, emancipatória na prática de aprender a aprender continuamente.

 

Os ingredientes indispensáveis na formação educacional com tais perspectivas incluem, entre outros: capacidade de comunicação e de estabelecer diálogos positivos e enriquecedores; habilidade de analisar e sintetizar informações de natureza complexa; despertar para a crítica baseada em argumentos claros, especialmente expostos à luz de evidências; estimular o pensamento baseado em metodologia científica, fazendo uso de lógicas sofisticadas e em elementos de modelagem e simulação; respeito por espaços de liberdade, pelas características individuais e apreço pela diversidade, como elementos imprescindíveis estimuladores de processos criativos e inovadores; desenvolvimento de compromissos não negociáveis com a ética, com a cultura de paz, com os valores democráticos mais fundamentais e aversão a toda forma de preconceito; e, por fim, ênfase absoluta em elementos personalizados de flexibilidade, adaptabilidade e de motivação.

 

Tio Luís jamais imaginou que um dia vivenciaríamos um universo onde toda a informação pudesse estar absolutamente acessível, instantânea e basicamente gratuita. Mais do que isso, inimagináveis para ele as consequências deste novo estado de coisas tal a radicalidade de mudanças nas profissões, no mundo do trabalho e nas relações entre as pessoas. Porém, alguns elementos essenciais devem permanecer intactos. Entre eles, a sobriedade, a honestidade, a tolerância e a humildade que estimulam a aprender sempre e com respeito aos que conosco convivem. São elementos que permanecem, sempre. Isso acredito que Tio Luís já sabia e ele estava certo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura em Domínio Público, como visto em: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b1/The_Village_Tailor_-_Albert_Anker.png

Autor: Tags: , , , ,

terça-feira, 28 de novembro de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 09:01

Lançamento do livro e do aplicativo em Brasília dia 05/12 na ABMES

Compartilhe: Twitter

CONVITEBRASILIAjpeg

 

No próximo dia 05/12, terça-feira, das 08h30 às 12h30, em Brasília-DF, na sede da ABMES,  o livro “A Arte da Educação” e o app “Ronaldo Mota Online” serão lançados.

 

Aqueles interessados em adquirir o livro online podem fazê-lo imediatamente via o link da Editora Obliq:  https://www.obliq.com.br/uc6e0tmk-a-arte-da-educacao.

 

Com o aplicativo “Ronaldo Mota Online”, desenvolvido em conjunto com Digital Pages, será possível acessar gratuitamente a versão completa do e-book “A Arte da Educação” e os diversos depoimentos realizados sobre a obra, para leitura tanto em modo online quanto off-line. Diversas ferramentas interativas de leitura estarão disponíveis, como anotações, favoritos, sumário, ferramentas de busca, atalhos para páginas e um menu ajuda. Para acessar o aplicativo, basta baixá-lo, a partir de 05/12, em uma das lojas disponíveis (Google Play ou Apple Store).

 

Abaixo, mais sobre a obra:

 

———————————-

A ARTE DA EDUCAÇÃO

 

Ao início era a obra

com cara de segunda-feira.

 

Trigo na forma bruta

água que não faz espuma

letras que se desentendem

movimento e energia.

 

Em seguida vem o corpo

expressão de sexta-feira.

 

Massa enquanto barro

caldo que se mistura

sentenças que se conversam

cansaço querendo espaço.

 

No meio temos o forno

com jeito de precisão.

 

Alimento quase pronto

recheio que se junta

páginas que se seguem

fome de conclusão.

 

Tempo feito em partes

a arte da educação.

 

Ciclo permanente

quando todos aprendem

aprendem o tempo todo

cada um cada qual.

 

Final lembrando recomeço

parecido mas diferente.

 

Não somos mais os mesmos

sabemos pouco mais

cientes que nunca fecha

nova volta a completar.

 

Ronaldo Mota

 

Autor: Tags: , , , , , ,

segunda-feira, 13 de novembro de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 17:17

Lançamento do livro: “A Arte da Educação”

Compartilhe: Twitter

Latoncamento

 

 

No próximo dia 22/11, quarta-feira, às 18h, no Centro Cultural do Banco do Brasil/CCBB, no Rio de Janeiro-RJ, lançarei o livro “A Arte da Educação”. Ainda neste ano, teremos outros lançamentos: em Brasília-DF na Associação Brasileira de Mantenedores do Ensino Superior/ABMES (dia 05/12, terça-feira, pela manhã) e em Santa Maria-RS, na CESMA (dia 23/12, sábado, às 10h30). Em outras cidades, lançamentos somente em 2018.

 

A versão impressa estará disponível para aquisição online, diretamente da Editora Obliq (a ser anunciado em breve). Simultaneamente, a obra, no formato e-book, estará também disponível via o app “Ronaldo Mota Online”, desenvolvido em conjunto com Digital Pages (detalhes em breve).

 

A obra trata da relevância de se entender o ofício educar como arte. Um conjunto de artigos, alguns inéditos e outros já publicados na coluna Reitor Online do Portal iG, no blog da ABMES e na página do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras/CRUB, são apresentados em capítulos temáticos.

 

Arte diz respeito às variadas e complexas formas de expressão estética e de comunicação, utilizando inúmeras linguagens e, especialmente, contemplando inspiração e criatividade. Educação, por sua vez, está genericamente associada ao processo de ensinar e de aprender conhecimentos de forma sistemática e organizada.

 

Ensinar, de certa forma, envolve técnica e procedimentos; educar, no século XXI, tende a ser progressivamente uma arte, que inclui a técnica, mas a transcende, contemplando também criatividade, inovação, empreendedorismo, metacognição etc. Não se trata, portanto, de minimizar o ensino, como o conhecemos hoje, mas sim de evidenciar sua insuficiência no mundo contemporâneo.

 

Ensinar nos padrões tradicionais nos tempos passados recentes teve enorme sucesso porque se mostrou compatível e coerente com as demandas de então. A complexidade atual exige ir muito além, introduzindo novidades, a maior parte delas decorrentes de um cenário mediado pela emergência disruptiva das tecnologias digitais.

 

O educador está progressivamente se transformando em artista, o qual se expressa também como designer educacional trabalhando coletivamente. Os tempos de aprendizagem, anteriormente estanques, agora dispensam limites, podendo ocorrer a qualquer hora, em qualquer lugar e ao longo de todo o tempo, obrigando conjugar educação com a própria vida, de forma indissolúvel e indissociável.

 

Educação, dentro dessa abordagem, contribui com erodir a separação entre vida e arte. A arte da educação viabiliza entender melhor o educando, o educador e, consequentemente, a vida. Educação, arte e vida, conjuntamente, esclarecem complexidades e preparam a todos para desafios que somente assim se permitem serem decifrados e resolvidos. Educar em consonância com as exigências deste século é sim uma forma de arte. Conhecimentos específicos, domínio de técnicas e conhecimentos são relevantes, porém, não mais suficientes. Aprender a conhecer transcende aqueles ingredientes, demandando elementos que somente a arte pode nos inspirar.

 

Como autor, destaco os doze Depoimentos que apresentam a obra. Pedro Thompson, Presidente da Estácio, Fábio Coelho, CEO do Google/Brasil, Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação, Maria Helena Guimarães de Castro, secretária-executiva do MEC, Sérgio Rezende, ex-ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Vanderlan Bolzani, vice-presidente da SBPC, Edson Nunes, ex-presidente do CNE, Fredric Litto, presidente da ABED, Ana Estela Haddad, diretora de Relações Institucionais da ABTms, Arnaldo Niskier, membro da ABL, Robert Cowen, Instituto de Educação da Universidade de Londres, e Senador Pedro Chaves, ex-reitor da Uniderp. Não é falsa modéstia opinar que eles são mais interessantes do que a própria obra, dado que são profissionais muito especiais, cujas críticas me deixam particularmente lisonjeado e suas opiniões, mais do que tratarem da obra, são partes integrantes dela. Com muito orgulho do autor.

 

Autor: Tags: , , , , , , , ,

sábado, 14 de outubro de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 19:02

Mensagem aos Professores

Compartilhe: Twitter

teacher

 

Dentre todas as espécies, somos a única que possui a incrível habilidade de transmitir cultura e conhecimento de forma organizada e consciente aos nossos descendentes. Nas sociedades primitivas, os precursores dos professores eram os responsáveis por passar ensinamentos de uma geração para outra, onde os mais velhos ensinavam os mais jovens. Atividades como a arte da caça, a capacidade de sobrevivência, o trato com as plantações e com as ervas que curam, a segurança e a garantia do bem-estar da comunidade estavam sujeitas a ritos de passagens. Assim, os pioneiros do processo ensino e aprendizagem atestavam as técnicas e procedimentos adquiridos e validavam esses processos.

 

À medida que as sociedades humanas foram se tornando mais complexas, apareceu a figura do artesão, responsável pela produção de artefatos, utensílios e artesanatos, seja para a agricultura, o uso doméstico, a lida com os animais ou para a defesa. Esses ensinamentos, técnicas e procedimentos eram transmitidos pelo mestre aos seus aprendizes, os quais, após ritos de aprendizagens, se transformavam, com a idade, em artesãos, e assim por diante.

 

Milênios se passaram e atualmente o docente é figura consolidada, reconhecida e respeitada pela sociedade, ainda que entendamos, corretamente, que pudesse ser mais prestigiada. Contemporaneamente, vivemos grandes desafios, especialmente pela abrupta emergência das tecnologias digitais que a tudo modifica, transforma e reconceitualiza.

 

Acalmando os mais assustados, lembremos que no século XV, com o advento do livro moderno de Gutenberg, alguns equivocados sugeriram a possibilidade do fim da figura do professor. Afinal, quem iria procurar o mestre, que, por melhor que fosse, improvisa, tendo disponível o livro, supostamente sempre correto e sem erros, dado que feito com tempo, cuidado e esmero? Na prática, jamais houve conflito entre o docente e o livro; ao contrário, ambos foram as grandes alavancas que consolidaram as nascentes universidades europeias. Estas, por sua vez, propiciaram o amadurecimento do método científico, as tecnologias dele decorrentes e a Revolução Industrial que, por fim, moldaram as bases da sociedade atual.

 

Por vezes, alguns não entendem por que os educadores não gostam quando o termo “treinamento” é utilizado para o ofício que nós desenvolvemos. Não é birra e nem soberba; é que treinamento não é expressão ingênua, mas embute um conjunto de metodologias que é inapropriado para quem pretende de fato educar. Educação vai muito além da simples transmissão de conteúdos e jamais se reduz a um conjunto de receitas de procedimentos. Ainda que alguns possam ter se iludido nos séculos passados, porque os modelos de desenvolvimento assim o sugeriam, a verdade é que contemporaneamente esses processos de ensinamento, baseados em treinamentos, são falhos e inócuos.

 

Educar, mais do que nunca, é emancipar o educando para, fruto dos ensinamentos dos mestres, ser capaz de enfrentar desafios complexos. Emancipa-se quando o educando se torna competente para escrever e interpretar textos complexos ou quando se atinge o domínio do letramento matemático, indo muito além das operações simples da aritmética. É emancipatório o pleno domínio do método, especialmente do método científico, para, utilizando tal ferramenta, entender e interpretar o mundo à sua volta. Educar é promover a aprendizagem independente ao longo de toda a vida, entendendo que cada educando aprende de maneira única e personalizada e que todos aprendem, em qualquer lugar e o tempo todo.

 

Neste Dia do Professor temos sim o que celebrar, particularmente nossa singular responsabilidade em contribuir na educação das novas gerações. Não podemos tudo na sociedade atual e sequer temos controle de todos os processos envolvidos, mas temos a capacidade de emancipar, ensinando nossos educandos a aprender a aprender continuamente. Às novas gerações cabe continuar colaborando para um desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável.  Enfim, uma sociedade que seja mais harmônica, justa e respeitosa à rica diversidade, onde possamos celebrar sermos, felizmente, todos diferentes.

 

Professores, Parabéns.

Comemoremos, merecidamente, o Dia do Professor.

——————————

 

Figura em Domínio Público mostrando Jesus Cristo pregando aos discípulos. Autor: Tissot (1886-1894). Link:

http://torahclub.ffoz.org/disciples/images/wm-brooklyn_museum-Jesus-Teaches-Tissot.jpg

 

Autor: Tags: , , , , , , ,

  1. Primeira
  2. 1
  3. 2
  4. Última