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quarta-feira, 10 de julho de 2019 Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação, Sem categoria | 10:29

Humanizando máquinas inteligentes

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Humanos são humanos e máquinas são máquinas. Mesmo assim, a história humana pode ser contada a partir do uso de diversas ferramentas, as quais foram, no decorrer do tempo, se incorporando ao cotidiano, interferindo diretamente na evolução da espécie.

 

As múltiplas maneiras com que os humanos têm feito uso de diversos utensílios, ao longo de sua evolução, talvez seja a principal característica que nos distinga das demais espécies. A habilidade no uso de varetas e pedras remonta há milhões de anos entre os nossos mais distantes ancestrais, mas há um longo e peculiar caminho até os dias atuais, quando é possível, por exemplo, implantarmos chips em nossos corpos.

 

Por sua vez, as máquinas não somente substituem os trabalhos mais simples dos humanos; muitas vezes, tentam reproduzi-los literalmente, a exemplo da robótica e equipamentos inteligentes, incluindo as recentes máquinas que aprendem. Isso ganha uma dimensão especial quando dispomos de uma capacidade quase ilimitada de armazenar dados e utilizá-los via uma gestão inteligente, contemplando elementos de modelagem e simulação sem precedentes.

 

Mesmo assim, supõe-se, em geral, que há limites claros para as máquinas, entre eles, ir além de uma racionalidade previsível, embutida nas programações e nos algoritmos adotados. Em que medida podemos humanizar máquinas, especialmente no âmbito dos usos contemporâneos de Inteligência Artificial (IA), torna-se, progressivamente, um tema de grande interesse e é o tema central deste texto.

 

Ou seja, mesmo os maiores entusiastas de IA reconhecem que as máquinas estão restritas a decisões racionalizáveis, ainda que submetidas a sofisticados algoritmos. Nesse sentido, as emoções humanas, especialmente aquelas baseadas no livre arbítrio, são supostas como quase impossíveis de serem reproduzidas por máquinas.

 

No entanto, explorando essa difusa e complexa região entre racionalidade e emoções ou entre determinismo e livre arbítrio, é possível exemplificar a incorporação de elementos de incertezas que envolvem tomadas de decisões em processos de máquinas que simulam comportamentos humanos.

 

Com o intuito de exemplificar uma possibilidade, são necessários alguns conceitos básicos de métodos estatísticos, em particular o Método de Monte Carlo (MMC). O MMC é uma abordagem estatística baseada em amostragens aleatórias massivas que permite obter resultados numéricos. A partir de sucessivas simulações, um elevado número de possíveis configurações é gerado, permitindo calcular probabilidades. O MMC tem sido utilizado em diversas áreas (incluindo algumas semelhantes com jogos de dados, decorrendo daí sua denominação) como forma de obter aproximações numéricas de funções complexas, nas quais não é viável, ou mesmo impossível, obter uma solução simples analítica ou determinística.

 

Um MMC muito utilizado em Física, tendo como objetivo determinar valores esperados de propriedades do sistema simulado, a partir de uma média sobre a amostra, é o chamado Algoritmo de Metropolis (AM). Originalmente apresentado em 1953 por Nicholas Metropolis e outros1, ele foi generalizado em 1970 por W. K. Hastings2 (por isso também conhecido como Algoritmo Metropolis-Hastings).

 

AM se baseia na observação de que a determinação da probabilidade de uma dada configuração demanda conhecer a chance de ocorrência dela e de todas as outras possíveis configurações. Para variáveis contínuas se faz necessário uma integração da densidade de probabilidade sobre todo o espaço de configurações. Tal procedimento é, em geral, extremamente custoso, muitas vezes simplesmente impossível, quando se utiliza um número de variáveis grande (da ordem de centenas ou milhares), como é bastante comum nos sistemas de maior interesse.

 

A grande contribuição característica do AM é não levar em conta a probabilidade das configurações em si, mas sim a razão entre elas, dado que a razão entre as probabilidades de duas dadas configurações pode ser determinada independentemente das demais.

 

Se considerarmos duas configurações m e n quaisquer, é conhecido da estatística que, sendo E(m) a energia da configuração m e E(n) da n e sendo P(m) a probabilidade da configuração m e P(n) da n, a razão entre as probabilidades P(n) e P(m) pode ser descrita como: exp[-(E(n) – E(m))/KT], onde K é a constante de Boltzmann e T a temperatura da amostra.

 

Definida essa abordagem, o AM é implementado via um conjunto de regras razoavelmente simples:

  • O primeiro passo é a geração de uma configuração inicial aleatória, denominada m;
  • Em seguida, geramos uma nova configuração-tentativa, provocando pequenas alterações na configuração inicial, denominada n;
  • Se a nova configuração, n, tiver uma energia menor (maior estabilidade) do que a primeira, m, adota-se esta nova n;
  • Caso a energia da nova configuração, n, seja maior do que a original m, refletindo uma perda em estabilidade, em estatísticas convencionais o novo resultado seria descartado. Nesta abordagem, diferentemente, gera-se um número aleatório entre 0 e 1 e se este número for menor do que exp [-(E(n) – E(m))/KT], aceita-se esta configuração na amostra, caso contrário, não;
  • Repetem-se os passos (ii) e (iii) até que um certo critério de atendimento seja satisfeito, tal como esquematizado na Fig. 1.

 

Fig. 1. Representação esquemática do fluxograma de decisões em um Algoritmo de Metropolis-Hastings.

 

Observar que, no critério adotado acima, se E(n) e E(m) são valores bastante próximos, o resultado do termo exponencial acima se aproxima de 1, portanto, com razoável chance da nova configuração ser aceita. No entanto, se E(n) for muito maior do que E(m), este valor tende para zero, com grandes chances do número gerado, entre 0 e 1 ser maior e, portanto, esta configuração deve ser, provavelmente, desprezada.

 

Em sistemas físicos, onde se pretende determinar a configuração correspondente ao estado de mínima energia (maior estabilidade), um grande mérito do AM é permitir escapar de mínimos locais de energia. Via múltiplas etapas e a grande quantidade de configurações geradas, ao se aceitarem configurações com energias maiores com probabilidade não nulas, barreiras podem ser superadas e aprisionamentos locais evitados, e mínimos gerais atingidos (ver Fig. 2). Observar que se as configurações com energias maiores fossem liminarmente desprezadas, a possibilidade de aprisionamento em mínimos locais seria difícil de ser evitada.

 

Fig. 2. Gráfico genérico ilustrativo mostrando máximo e mínimos, locais e globais. No caso do problema físico, poderíamos ter no eixo vertical a variável energia e no eixo horizontal o espaço de configurações.

 

A adoção do AM garante que visitaremos regiões próximas dos mínimos de configurações mais aceitáveis (correspondentes aos de mínimas energias), percorrendo o espaço do domínio das funções envolvidas de maneira sistemática. Dependendo de como é definido o critério probabilístico, os caminhos não se afastarão muito de uma determinada região de confiança com relação ao método adotado.

 

No caso de máquinas inteligentes, movidas por algoritmos, uma analogia seria possível no tocante à tomada de decisões. No universo de abundância extrema de dados, de facilidades inéditas de gestão dos mesmos e de máquinas inteligentes, um ponto crucial é a tomada de decisões. Suponhamos que em cada encruzilhada, a máquina possa considerar múltiplos caminhos, cabendo contemplar critérios de escolhas e consequentes evoluções. Inspirados no AM, trata-se de garantir que caminhos que seriam normalmente desprezados sejam também considerados, seguindo o conjunto de regras acima descritos.

 

A partir de uma dada situação, expressa por uma configuração inicial aleatória, exploraríamos diversos caminhos no âmbito de tomada de decisões. Se o caminho simulado, fruto de pequenas alterações na configuração inicial, for, à luz do algoritmo utilizado, mais indicado, adota-se a nova configuração resultante.

 

Como o algoritmo utilizado, baseado nos dados disponíveis, permite contabilizar os prós e contras de cada nova configuração, podemos definir que a diferença entre eles possa ser expressa por um determinado Delta, a exemplo do caso anterior, sendo definido em cada circunstância.

 

Assim, dada uma situação original aleatória, quando a nova configuração gerar um Delta negativo, adota-se a nova configuração. Caso a nova situação seja menos indicada do que a original, gera-se um número aleatório entre 0 e 1 e se este número for menor do que exp[-Delta/C], onde C é uma constante, aceita-se o caminho; caso contrário, não.

 

Observar que, a exemplo do caso anterior, se Delta é muito pequeno, o termo exponencial se aproxima de 1, com grandes chances deste número ser superior ao gerado aletoriamente entre 0 e 1; portanto, com boa chance de ser adotado o caminho. Contrariamente, se Delta é muito grande o valor tende a zero e torna-se grande a possibilidade de o caminho ser desprezado. Por fim, repetem-se os processos acima até que um certo critério de atendimento seja satisfeito.

 

A constante C (análoga ao KT de sistemas físicos) permitiria uma associação indireta com um tipo de “excitação térmica”. Ou seja, em alguns processos, com C maior, significaria algo equivalente a menor aversão a risco nas tomadas de decisões, contemplando possibilidades mais radicais ou arriscadas entre configurações mais distantes. Valores menores de C representariam tomadas de decisões mais conservadoras, envolvendo estados mais próximos, sem grandes perturbações no sistema.

 

A evolução do sistema permitiria, de certa forma, imitar comportamentos humanos que nem sempre seguem, exclusivamente, racionalidades, sendo recheado de etapas guiadas por elementos de emoção, em geral, não contemplados nos algoritmos tradicionais.

 

Em tese, portanto, podemos imaginar contribuições acerca de como ensinar máquinas a tomarem decisões. No caso, os movimentos sequenciais de uma máquina inteligente qualquer seguiriam os passos inspirados por um AM. Ou seja, introduzindo aleatoriedade, via pequenos passos, podemos, no limite, simular emoções e imprevisibilidades, as quais conjugadas com racionalidades estabelecem alguma semelhança com decisões humanas.

 

 

Referências:

  1. Metropolis e outros, Journal of Chemical Physics 21, 1087 (1953).
  2. K. Hastings, Biometrika 57 (1), 97 (1970).

 

 

 

 

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terça-feira, 11 de junho de 2019 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 18:50

O Enade precisa ser como ele é?

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O Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) é uma das avaliações que compõem o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), criado pela Lei nº. 10.861, de 14 de abril de 2004. O Sinaes é composto também pelos processos de Avaliação dos Cursos de Graduação e de Avaliação Institucional que, juntos com o Enade, formam um tripé avaliativo acerca da qualidade dos cursos e instituições de educação superior do Brasil.

 

O objetivo do Enade tem sido buscar avaliar e acompanhar o processo de aprendizagem e o desempenho acadêmico dos estudantes em relação aos conteúdos programáticos previstos nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) do respectivo curso de graduação, incluindo também mensurar suas habilidades para compreender temas contemporâneos e ligados a outras áreas do conhecimento.

 

Tanto o Relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), encomendado pelo Governo Brasileiro à OCDE em 2018, como o Relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o Sinaes (TC 010.471/2017-0) evidenciam a fragilidade do Enade, tal como ele é aplicado atualmente. Eles destacam a incapacidade de tratar, de forma adequada, os elementos centrais de aprendizagem e criticam o processo por ser demasiadamente dispendioso e sem contrapartida clara que evidencie resultados confiáveis.

 

Além disso, a sua aplicação trienal por área de conhecimento, findou estabelecendo, como prática quase geral nas instituições, preocupações diferenciadas entre aquelas turmas que farão e as que não farão o exame. Para as turmas que fazem o exame, a visão restrita de preparar para as questões de maior incidência nos anos anteriores acaba por distorcer as próprias DCNs. Para as que não fazem o exame, não há evidências que os resultados obtidos pelas que fazem estejam sendo utilizados para a melhoria contínua de aprendizagem.

 

Da mesma forma, faltam elementos para justificar que o Enade possa, com o devido rigor, retratar algo mais sólido acerca da suficiência do aprendizado medido comparativamente com o que era esperado que o formando soubesse, o conhecido Índice de Diferença entre os Desempenhos Observado e Esperado (IDD).

 

Um fato adicional torna o diagnóstico mais difícil ainda, por não constar do histórico escolar do formando, ele é altamente sensível a elementos associados à sua motivação com relação ao próprio exame. Ressalte-se que, quanto à motivação do estudante por realizar este exame de forma adequada e responsável, é fundamental que as instituições esclareçam acerca da importância do Relatório Individual de Desempenho do Estudante, instrumento acessível ao formando, conforme previsto na lei do Sinaes, propiciando que ele se compare aos demais da sua própria turma, bem como a sua classificação relativa com os demais formandos da região e do País.

 

O Enade, no que se propõe, de fato, permite analisar aspectos comparativos entre os que fazem a mesma edição do exame, porém, é inadequado para fornecer um diagnóstico comparativo entre edições diversas. Mesmo entre os formandos de uma edição específica, os processos de ajustes de curvas resultam trazer insuficiente informação acerca de quão satisfatório, em termos absolutos, foi o processo de aprendizagem.

 

Mesmo com todas essas dificuldades, se estivéssemos formando profissionais para o século passado, seria justificável afirmar que algo relativamente substantivo é medido em termos de aprendizagem de conteúdo, procedimentos e técnicas associados a determinada profissão. O drama é que o futuro, que já está em curso, aponta que há elementos tão ou mais relevantes do que o que supostamente está sendo medido, ou seja, a capacidade de aprender continuamente e as atitudes do educando frente a problemas complexos.

 

Há, portanto, que se incluir os diferenciais que um curso de graduação deve conferir ao formando, comparativamente ao ingressante, acerca de sua própria compreensão sobre como ele aprende melhor e como ele se comporta no cumprimento de missões.

 

Ao se incorporar essa abordagem, que corresponde ao estado da arte em termos de teoria de aprendizagem, a proposta mais adequada seria que o exame fosse revelador da maturidade intelectual do formando, no que diz respeito a itens tais como: i) capacidade de desenvolver raciocínios críticos, lógicos e abstratos; ii) domínio do método científico, na solução de problemas e missões; iii) habilidade de entender textos complexos e de escrever de forma a se fazer entender claramente pelos demais (letramento sofisticado); iv) letramento matemático substantivo, indo além de operações matemáticas simples; v) capacidade de juntar conhecimentos de áreas diversas do saber, propiciando resolver problemas que demandam multidisciplinaridade e olhares múltiplos; vi) entender processos que envolvem programação simples, elementos de modelagem e simulação, ingredientes inerentes  aos temas contemporâneos; e vi) demonstrar domínio de habilidades socioemocionais associadas a enfrentamentos, em equipe, de temas complexos.

 

Enfim, um possível novo Enade mensuraria a transversal capacidade de aprender continuamente e alguns aspectos comportamentais do formando, permitindo ser aplicado indistintamente o mesmo teste a todas as áreas de conhecimento. A partir de questões formuladas baseadas na Teoria de Resposta ao Item, propiciaríamos um comparativo entre os desempenhos relativos entre os resultados obtidos pelos formandos e pelos ingressantes, bem como evoluções de aprendizagem entre turmas de anos subsequentes ou anteriores. Desta forma, poderíamos representar mais fielmente a capacidade de aprendizagem do estudante, o potencial do profissional contemporâneo que formamos e os diferenciais de desempenho dos estudantes, viabilizando um IDD mais consistente do que o adotado atualmente.

 

Adicionalmente, tão relevante quanto as informações e avaliações do formando por ocasião do Enade, é o acompanhamento do egresso. A partir de uma plataforma online acessível e atraente, deveriam ser colhidos, voluntariamente, dados sobre o nível de sucesso profissional e de satisfação pessoal do egresso, além da percepção a posteriori do quanto e em que aspectos sua formação foi adequada. Esses elementos deveriam ser essenciais nos processos de avaliação e autoavaliação institucional, bem como da avaliação de cada curso.

 

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quinta-feira, 23 de maio de 2019 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 10:17

Regulação Estatal, Autorregulação ou Corregulação do Ensino Superior?

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A política regulatória estatal vigente no ensino superior brasileiro é fruto de décadas de experiências, tendo sido impregnada pelos acertos e equívocos de uma área reconhecidamente complexa e dinâmica. De forma simplificada, cabe ao  Conselho Nacional de Educação/CNE  o credenciamento e recredenciamento das instituições educacionais, o Ministério da Educação/MEC é responsável pelos processos de autorização e reconhecimento de cursos, enquanto o INEP realiza avaliações baseadas no Exame Nacional de Desempenho do Estudante/ENADE e em visitas in loco, por intermédio de comissões ad hoc. Além disso, cada instituição de educação superior conta com uma Comissão Própria de Avaliação/CPA, responsável pela autoavaliação interna.

 

O modelo em vigor tem sido criticado pela excessiva carga burocrática, por priorizar processos em detrimento de resultados objetivos e, especialmente, pelas dificuldades de mensurar, de forma adequada, aspectos essenciais da aprendizagem. Além disso, não é clara a compatibilidade e consonância do sistema regulatório com o Plano Nacional de Educação/PNE, cuja pretensiosa meta prevê elevar até 2024 a taxa de matrículas de estudantes no ensino superior com idade entre 18 e 24 anos de 18% para 33%.

 

Em uma sociedade ideal e imaginária, seria tentador pensar em um sistema que dispensasse por completo a regulação formal do Estado. Contaríamos somente com a autorregulação do setor, partindo da capacidade discricionária do cidadão consciente. Imaginamos aqui um consumidor maduro e preparado no que diz respeito aos produtos e serviços que possam ser de seu interesse.

 

Migrando do mundo abstrato e geral e aterrissando no solo real das peculiaridades e fragilidades de cada contexto, há duas relevantes variáveis que demandam ser analisadas conjuntamente. A primeira delas é a inegável vocação nacional pelo cartorialismo, onde um título educacional representa mais do que simplesmente um atestado de conhecimento adquirido. No caso, um diploma de nível superior habilita ao exercício profissional, a realização de concursos públicos e a candidatura a outras vagas de emprego, além de tratamentos especiais previstos em lei. Tudo isso independente da qualidade da formação adquirida anteriormente.

 

A segunda variável, quase que uma decorrência natural do fenômeno da valorização formal em detrimento do efetivo domínio de conteúdo, procedimentos e técnicas de cada profissão, teríamos opossível estímulo e atração de empreendimentos privados ancorados unicamente no lucro. Na ausência total do Estado e na carência de regras claras, corre-se o risco de juntarmos um consumidor imaturo, preocupado unicamente com o diploma, com o eventual desmedido apetite financeiro de empresas educacionais, especialmente aquelas que apostam em resultados lucrativos a curto prazo.

 

Na dicotomia entre uma regulação estatal e a autorregulação pura e simples, é possível uma tentativa híbrida de conjugar maior agilidade, flexibilidade e eficiência do processo regulatório. Um arranjo regulatório moderno seria ancorado numa maior responsabilização compartilhada, tanto do Estado como das instituições educacionais, via um processo baseado na corregulação, associada ao uso intensivo das tecnologias digitais.

 

Quanto à corregulação, uma sugestão seria estimularmos agências acreditadoras que colaborariam, especialmente, nos atos autorizativos, de reconhecimentos e renovações de reconhecimentos de cursos. Caberia ao MEC, orientado pelo INEP, via editais específicos, conceder autorizações, renováveis periodicamente, para que agências de avaliação, especificamente construídas com este propósito, em geral via consórcios de organizações da área educacional, cumpram este papel complementar. As agências que não corresponderem às expectativas de garantia de qualidade seriam desacreditadas pelo MEC, a qualquer momento, ou poderiam não ter suas renovações concedidas. As instituições educacionais, por sua vez, optariam, a seu critério, por uma entre as agências acreditadas, sendo que, quanto mais rigorosas estas forem, maior o crédito conferido à qualidade do ensino ministrado.  

 

No que diz respeito ao uso das possibilidades digitais, teríamos uma progressiva diminuição do custo burocrático, com ganho na publicização das informações acadêmicas e na precisão de informações, as quais balizariam os processos avaliativos, dentro do que está previsto no espírito do Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior/SINAES. A avaliação in loco, realizada pelo INEP, é a versão analógica e custosa de uma possível solução digital, eficiente e contemporânea. Ao invés das milhares de visitas anuais para as mais de duas mil instituições educacionais, poderíamos explorar informações multimídia, instantâneas e fidedignas. Cada instituição, tornaria público seu Plano de Desenvolvimento Institucional, seus Projetos Pedagógicos de Cursos e demais documentos, incluindo infraestrutura geral e planos de carreira docente, que expressam a sua missão específica.

 

Da mesma forma, seriam associados aos seus cursos cadastrados os respectivos docentes, bem como seus dados completos, as disciplinas que estão sendo ministradas, nominando, em tempo real, os discentes registrados e as instalações disponíveis,tendo discriminados plenamente os seus usos previstos. Seriam espécies de “templates” padrão, preenchidos e atualizados permanentemente, com registros de alterações, facilmente computáveis e verificáveis, com correspondentes sanções a eventuais equívocos nas informações coletadas. Assim, as visitas do INEP, como nós as conhecemos hoje, seriam destinadas a situações específicas, em que a coleta dos dados e, especialmente, dos resultados de aprendizagem aferidos assim as justifiquem.

 

Um dos objetivos de um processo de corregulação bem-sucedido seria atuar firmemente inibindo que a obsessão pelo lucro possa trazer prejuízos à qualidade do ensino. Para tanto, faz-se necessário provar àqueles que fazem mal feito que é sim um bom negócio fazer bem feito. Nem mesmo que seja porque, educacionalmente, fazer bem feito pode ser, de fato, um bom negócio.

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Imagem disponível em:

https://images.app.goo.gl/iAfjCy6U4zFgsVwW7

 

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terça-feira, 14 de maio de 2019 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 10:29

Complementaridade entre memória e habilidades socioemocionais

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No século passado, o modelo de desenvolvimento adotado demandou profissionais que não existiam antes e sofisticou as especializações das profissões que já eram conhecidas. As escolas, seus professores e os métodos foram eficientes e eficazes em atender às demandas do mercado e às expectativas dos cidadãos. Para cada carreira, foram prescritas diretrizes gerais contemplando conteúdos, bem como procedimentos e técnicas a eles associados.

 

Os percursos educacionais eram simples e funcionavam. Completados os percursos previstos, após avaliações calcadas em testes de memória, em geral respondidos individualmente, os formandos eram agraciados com certificados ou diplomas, os quais atestavam conhecimentos e os habilitavam a migrar para as etapas seguintes ou ao exercício pleno das respectivas ocupações.

 

Em torno da virada deste século, que também representou a chegada de um novo milênio, as mudanças se aceleraram de forma exponencial, motivadas pelo ingresso no universo digital, deixando rapidamente para trás as realidades analógicas de outrora. O advento das tecnologias digitais impactou, rápida e profundamente, todas as áreas de conhecimento e todos os setores de atividades humanas, incluindo educação. Aquilo que funcionava bem na área da aprendizagem já não funciona mais.

 

Entender as novas e complexas situações educacionais passa por incorporar a imprevisibilidade, exigindo formar pessoas com capacidade de se adaptarem rapidamente aos inéditos contextos e circunstâncias, sejam eles quais forem. Ficar restrito às receitas já prontas, nos moldes dos tempos passados, tem como consequência limitar os profissionais a trabalhos rasos, subvalorizados e sujeitos a serem, gradativamente, substituídos por máquinas e algoritmos. Os chamados trabalhos profundos, valorizados e compatíveis com o mundo contemporâneo, demandam pessoas capazes de irem muito além de processos memorizáveis, fruto de uma educação que ouse transcender o ensino tradicional, incorporando características que antes eram marginalmente consideradas.

 

Memória está associada, de forma simplificada, ao conjunto de conteúdos mais tradicionais, tendo papel relevante nos processos cognitivos, especialmente na absorção de conhecimentos básicos, entre eles: 1) letramento geral, capacidade comprovada de escrever e interpretar texto, e o letramento matemático; 2) letramento digital, incluindo o domínio de plataformas, softwares e aplicativos; e 3) capacidade de entender aspectos culturais, artísticos, históricos, geográficos etc.

 

As habilidades socioemocionais, associadas à metacognição, estão acopladas, principalmente, a aspectos comportamentais, envolvendo acapacidade do educando de refletir sobre a própria aprendizagem. Assim, adicionais ao domínio dos conteúdos, quanto aos aspectos metacognitivos, pretende-se que o educando: 1) seja capaz de aprender a aprender continuamente ao longo da vida, ampliando sua própria consciência acerca dos mecanismos segundo os quais ele aprende; 2) demonstre capacidade analítica para resolver problemas práticos, ou seja, embasado no conhecimento do método científico e na familiaridade com pensamentos críticos, desenvolva o domínio de raciocínios abstratos sofisticados; 3) esteja habituado a juntar diferentes áreas do saber, com especial disposição para a área de gestão de informações, incluindo o domínio de linguagens e de plataformas digitais; 4) tenha efetiva habilidade de comunicação, sabendo lidar com pessoas, incluindo promover mediações com flexibilidade e competência em todos os contextos; 5) tenha inteligência emocional desenvolvida, incluindo perseverança, empatia, autocontrole e capacidade de gestão emocional coletiva; 6) demonstre disposição plena para o cumprimento simultâneo de multitarefas, propiciando capacidade de análises apuradas e de tomada de decisões; e 7) colabore em equipe de forma produtiva, sendo respeitoso e cordial, entendendo as características individuais e as peculiaridades das circunstâncias, promovendo ambientes criativos e empreendedores, resultantes de processos coletivos e cooperativos.

 

Ambientes virtuais de aprendizagem facilitama coleta e análise de dados, tantos acerca do domínio de conteúdos como de aspectos comportamentais de cada estudante. Analítica da aprendizagem (“learning analytics”) viabiliza conhecer melhor cada educando e, em conjunto com ele, favorecendo sua própria reflexão sobre o processo de aprendizagem, determinar trilhas educacionais personalizadas.

 

Em suma, memória e habilidades socioemocionais, tal como cognição e metacognição, não se contrapõem; eles se complementam. O desenvolvimento da habilidade de aprender a aprender só é possível ao longo do processo de absorção de conteúdos. Ainda que, por vezes, seja mais relevante ampliar a consciência de como e em que contexto se aprende do que o que foi efetivamente aprendido. É andando que se desenvolve a capacidade deandar. Até o ponto em que a reflexão madura acerca do próprio caminhar emancipa o educandoem direção à aprendizagem independente, preparando-o para toda a vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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sábado, 27 de abril de 2019 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação, Sem categoria | 09:31

PIB: educação digital é parte da solução

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Neste mês, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou interessantes análises acerca das contribuições relativas de cada país para a economia global. A partir do Produto Interno Bruto (PIB), somatório de bens e serviços produzidos por cada nação, ajustado pela paridade do poder de compra, podemos obter indicadores acerca da respectiva qualidade de vida de seus habitantes.

 

Um dos destaques negativos deste recente estudo é o Brasil. Pelo sétimo ano consecutivo, nossa participação percentual segue trajetória de queda, atingindo em 2018 somente 2,5%, a menor participação relativa, em quase quatro décadas, no PIB mundial. Para dimensionarmos o tamanho da queda, em 1980 o Brasil respondia por 4,4% da economia do planeta. De 1950 a 1980, a economia brasileira avançou, em média, 4,5% ao ano; por sua vez, entre 1980 e 2018, o crescimento anual médio foi de 0,9%.

 

Passamos neste ano de sétima para oitava economia do mundo, em termos de PIB ajustado, sendo ultrapassados pela Indonésia. Se considerarmos somente o PIB, sem ajustes, também passamos para oitavo lugar, neste caso ultrapassados pela Itália. Se considerarmos somente a história mais recente, também não estamos bem. A renda per capita, mensurada pelo PIB dividido pelo número de habitantes, atingiu, em 2018, R$ 32 mil, o que é 9% mais baixo do que era em 2014.

 

A compreensão da redução da contribuição percentual ao PIB mundial precisa levar em conta o contexto do efeito China, cujo crescimento espetacular nas últimas décadas demanda que os demais países, em média, diminuam suas respectivas participações. Mesmo assim, Índia, Coréia, Vietnã, Turquia e alguns outros aumentaram seus percentuais. Países vizinhos como Uruguai, Peru, Colômbia e Chile mantiveram intactas suas participações relativas.

 

Os avanços econômicos mais recentes do Brasil têm sido, principalmente, ancorados no incremento na exportação de alimentos, fruto do aumento de competitividade do agronegócio, e no aumento de demanda mundial por algumas commodities, especialmente minérios.  Por mais relevantes que essas áreas sejam, é preciso contextualizá-las numa dinâmica acentuada de mudanças econômicas no cenário global. Por exemplo, em 1980, ente as dez maiores empresas do mundo, havia a presença marcante de indústrias automobilísticas, as quais não mais constavam da mesma lista na virada do século, momento este dominado por empresas de energia e bancos. Atualmente, todas as dez maiores empresas do mundo são digitais, ainda que nenhuma delas estivesse presente ao início do século. Em suma, estamos migrando, muito rapidamente, de uma economia analógica em direção a um universo predominantemente digital, acoplados às consequências drásticas de tal acelerada transição.

 

No contexto atual, a possibilidade de um desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável depende de múltiplos fatores, mas há relativo consenso de que a variável mais relevante de todas é o aumento da produtividade média. O principal ingrediente para o incremento de produtividade é educação de qualidade, viabilizando que trabalhadores, empresários e gestores, privados e públicos, possam contribuir mais efetivamente com a produção de bens e serviços.

 

A educação contemporânea demanda levar em conta todos esses aspectos, portanto, sendo ela também digital, na forma e no conteúdo. Quanto ao meio, ao lado do letramento avançado (produção e compreensão de textos complexos) e do letramento matemático (facilidade nas operações matemáticas mais sofisticadas), destaca-se, em termos de importância, o letramento digital (domínio de plataformas, softwares e elementos básicos de programação). No que diz respeito ao conteúdo, além dos conhecimentos clássicos, os procedimentos específicos de cada área e as técnicas associadas, a educação, atualmente, exige contemplar, com muito mais ênfase, algumas habilidades individuais e coletivas.

 

Quanto às habilidades individuais, incluem-se as flexibilidades cognitivas (aprender em contextos diversos) e metacognitivas (aprender a aprender em um cenário de educação permanente ao longo de toda a vida) e as habilidades socioemocionais, a compreensão crítica de realidades históricas e geográficas complexas, acrescidas de espírito empreendedor e capacidade criativa. No que diz respeito às habilidades coletivas, há que se cultivar educacionalmente o trabalho em equipe e a gestão de pessoas, calcados na tolerância, na empatia e na compaixão. Frutos de tais predicados, estimulamos a formação de profissionais e cidadãos preparadores, mais completos e cientes dos contextos em que eles desenvolvem seus ofícios e administram suas vidas.

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Imagem em Domínio Público em: https://www.google.com.br/url?sa=i&source=images&cd=&cad=rja&uact=8&ved=2ahUKEwjfq4jvh_DhAhX5HbkGHUqABbYQjRx6BAgBEAU&url=https%3A%2F%2Fwww.scoop.it%2Ftopic%2Figeneration-21st-century-education%2F%3F%26tag%3Dpublic%2Bdomain&psig=AOvVaw3Xrk5xJ1GvlGWuXbUa8OOO&ust=1556447165444123

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domingo, 7 de abril de 2019 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 06:32

Dez respostas sobre “o que é ser educador?”*

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1. Ser educador depende dos tempos e dos contextos. Nas sociedades primitivas já havia a figura do educador, ainda que difusa. A geração mais nova aprendia com a geração mais antiga a arte da sobrevivência, bem como as regras de cooperação e do convívio em grupo. Havia rituais de passagem, em alguns casos bem organizados, quando ciclos de aprendizagem se completavam. As tarefas do educador foram, com o tempo, ficando mais bem definidas, à medida que a sociedade se tornava mais complexa. No mundo ocidental, surgiram os sofistas e apareceu a escola, enquanto instituição estabelecida. O amadurecimento do método, em especial do método científico, consolidou as universidades como espaços não só de transmissão do conhecimento, mas também de produção de ciência, que gerou tecnologias e contribuiu com moldar as sociedades modernas. Nos últimos séculos, a receita básica era o domínio de conteúdos, procedimentos e técnicas apuradas, onde a especialização foi o marco do modelo de desenvolvimento baseado na linha de montagem. Tudo alicerçado em carreiras profissionais cada vez mais múltiplas e específicas, acompanhando o grau de complexidade das sociedades mais recentes. Contemporaneamente, a adequação do educador aos tempos e a seus contextos é, de novo, um enorme desafio. Conteúdos, procedimentos e técnicas importam, mas já não são suficientes. Há que se incluir inéditos requisitos, envolvendo a arte de aprender continuamente, ao longo de toda a vida, e um conjunto de aspecto socioemocionais, igualmente importantes.  Mas, seja nas sociedades primitivas ou no mundo contemporâneo, sabemos identificar quem é o educador;

 

2. Ser educador não significa necessariamente ser o mais bem informado, aquele que detém o maior conhecimento. Este é o culto, que nem sempre é educador. O educador é aqueleque, principalmente, cultiva o saber enquanto processo, no qual conhecer mais emancipa o educando e o prepara à aprendizagem independente. O educador tem consciência plena que seu papel é se tornar, gradativamente, menos necessário. E o educador gosta disso, promove isso, fica feliz e se desapega do educando e aprende a cada vez que educa;

 

3. O educador tem opinião, mas a sua opinião não o caracteriza. Ela pode ser qualquer. O que marca o educador é como ele se comporta sobre todas as opiniões, especialmente sobre aquelas que não são as suas. Educar é entender o outro, incluindo compreender o que o outro acha, por se colocar na posição dele. Mais do que isso, ao entendê-lo, fazer algo sobre isso. Neste sentido, as opiniões em si tornam-se quase que irrelevantes e a essência é a capacidade de entender, racionalmente, e transmitir a beleza de um mundo com opiniões múltiplas e conflitantes. O educador pode ser gentil ou ranzinza, mas jamais indelicado. Pode ser simpático ou antipático, mas jamais grosseiro. Indelicadeza e grosseria não educam, violentam. O educador pacifica, esclarece, opina, respeita e, antes de mais nada, educa;

 

4. O educador pode ter posição política, mas não é ela que define o seu ofício. Ela pode ser qualquer, podendo não ser a mesma sempre. Ele só não pode ser autoritário e inflexível. Porque a ausência do diálogo não é educação, é deseducação. A essência da aprendizagem é a multiplicidade de saberes, a dúvida, a contraposição, o debate, a especulação, a experimentação, os métodos e, especialmente, o respeito às diversas formas de conhecimento e a desejável riqueza de opiniões, quaisquer que elas sejam;

 

5. O educador pode ter fé e pode não ter.  Pode ser monoteísta, das mais diversas crenças, pode ser politeísta, pode ser agnóstico ou mesmo ateu. Na verdade, o que é relevante é que o educador entende a fé, ou a ausência dela, como respeitáveis traços culturais,individuais ou coletivos. São respeitáveis escolhas em si e legitimadas a priori. O que não atrai o educador e o descaracteriza é o proselitismo, porque deseduca, oprime, se opõe à liberdade de escolha, à abertura dos espíritos e à flexibilidade do pensamento, elementos essenciais e indispensáveis na aprendizagem;

 

6. O educador não é o mais inteligente, mas sim aquele que entende que não existe uma forma única de inteligência. Inteligências são múltiplas. Existe a inteligência que decorre da memória e da capacidade de aprender conteúdos, a qual foi dominante em tempos recentes, mas já passados. Há a inteligência baseada na habilidade lógico-matemática. Há aqueles inteligentes por uma capacidade diferenciada corporal-cinestésica. Podemos falar de inteligência linguística, calcada especialmente na capacidade de entender e de elaborar textos complexos, facilitando acomunicação entre as pessoas. Há a inteligência existencial, resultante de processos intrapessoais de reflexõesavançadas. Temos a inteligência via a empatia e a compaixão. Reconhece-se a inteligência musical e tantas outras equivalentes. Existeminteligências mais recentes, tais como a habilidade digital, associada à facilidade de lidar com plataformas e outras ferramentas do mundo cibernético. Há outras inteligências que ainda surgirão. Enfim, o educador é inteligente porque reconhece, estimula e celebra a multiplicidade ilimitada de inteligências;

 

7. O educador, nos dias atuais, progressivamente se aproxima de ser artista, dado que educação,cada vez mais, é arte. Temos menos receitaseducacionais, as antigas já não funcionam e os desafios se tornaram mais complexos, demandando um repensar profundo de paradigmas, conceitos e valores. Os conteúdos, procedimentos e técnicas, alicerces da educação do século passado, são consistentes bases, a partir das quais cabe ao educador desenvolver a arte da aprendizagemmediadas por novas tecnologias e metodologias inovadoras. O educador é menos educador quando se apega em demasiado a uma metodologia e crê,indevidamente, que ela se aplica sempre e a todos, esquecendo que cada educando e cada situação educacional são únicos. Sendo a arte a capacidade de customizar a aprendizagem para cada contexto, voltada a cada indivíduo, explorando a possibilidade de trilhas educacionais flexíveis, ancoradas em diversas metodologias e fazendo uso de múltiplos recursos tecnológicos;

 

8. O educador não é o mercador. Ainda que a profissão do mercador seja legítima, sendodas mais antigas e respeitáveis de nossa civilização, o educador não é o mercador. Não por demérito deste, mas pelo simples fato de que educação não é mercadoria. Quando um mercador vende ou compra algo,alguém fica sem o produto e o outro o tem completamente. Em educação, aquele que entrega não a perde, quem receba ganha e mesmo aquele que não participa de forma direta, curiosamente, ganha também. Educação trata-se, portanto, de ente especial, onde quem não a tem, convivendo com quema tem, desfruta também. Quando a educação falta a um, não somente ele perde, mas a coletividade à qual ele pertence perde também. É, de fato, um bem comum, com o qual todos ganham, coletiva e cooperativamente. Um ter mais nada tem a ver com o outro ter menos. Tal qual saúde, quanto mais um tem todos também a adquirem. É legal e é legítimo o lucro e a procura por sustentabilidade na educação; não é legal, tampouco é legítimo, a selvageria extremada daqueles que, obsessivos pelo deus Mamon das cifras, não gostam de educação, muito menos de educadores e de educandos. Como já dito por alguém “se aqueles que fazem mal feito em educação soubessem como é bom negócio fazer bem feito, o fariam bem feito, nem que fosse porque é bom negócio”;

 

 

9. Educadores, de alguma forma, somos todos nós, indivíduos e coletividade, quando nos tornamos, antes de tudo, resilientes. Quando achamos que nada aprendemos ou evoluímos, na verdade, estamos avançando. Ampliando nossa resiliência, a capacidade de resistirmos a tantas intempéries e absurdos, com calma, tolerância e persistência. Fazendo uso da mais eficiente e disponível ferramenta de que dispomos: a educação;

 

10. Educadores são, especialmente, as Acadêmicas e Acadêmicos da Academia Brasileira de Educação, que via tradição, desde o Manifesto dos Pioneiros de 1932, capitaneado por Anísio Teixeira e tantos outros, abriram os caminhos para que hoje pudéssemos continuar o processo de convencimento acerca da importância da educação, enquanto elemento essencial de qualquer desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável. Economicamente, não enfrentaremos nossos desafios sem aumentar a produtividade média da população, envolvendo trabalhadores e empresários. Não há aumento de produtividade sem escolaridade de qualidade. Pode até haver crescimento sem educação, baseado em circunstanciais e passageirasabundâncias de recursos naturais e outros fatores. Porém, a sustentabilidade duradoura é ancorada em educação.  É o que já sabia, e assim nos ensinou, Anísio Teixeira, de quem tenho a honra de ocupar a Cadeira que o tem como Patrono, e que já foi ocupada por educadores de saudosas memórias, como o ex-ministro Eduardo Portela. Que sejamos educadores todos e que sejamos educandos para todo sempre.  

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*Primeira Oração Acadêmica proferida por ocasião da Posse na Academia Brasileira de Educação, em 05/04/2019

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terça-feira, 29 de janeiro de 2019 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 13:28

Alunos são parceiros e não consumidores

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Entender os educandos como parceiros e cocriadores de um processo complexo, e não como clientes ou consumidores simples, vai muito além de uma questão comercial, ética ou moral. Trata-se, essencialmente, de uma questão educacional. A partir de como enxergamos nossos alunos, devemos estabelecer, em coerência com o mundo contemporâneo, as adequadas abordagens e metodologias.

 

Houve um período, no passado próximo, onde a escola poderia ser vista, resumidamente, como espaço de transferência de informação ou de conhecimento. Ao professor cabia a tarefa fundamental, ainda que não exclusiva, de repassar aos aprendizes um conjunto de conteúdos, alguns procedimentos padrão e certas técnicas bem definidas. Findas as tarefas, o estudante, caso provasse domínio adequado, estaria aprovado e a instituição educacional chancelava cada etapa do processo, via um diploma ou um certificado.

 

A grande novidade dos tempos atuais é que as tecnologias digitais invadiram, abruptamente, todos os setores da sociedade, inclusive o universo da educação.  A informação está totalmente acessível, disponibilizada de imediato e, basicamente, gratuita. Uma escola ou um docente que se limitarem, hoje em dia, à tarefa de simplesmente transferir informação correm o risco de se tornarem inócuos, estando sujeitos a desaparecerem, por ausência de propósito, muito rapidamente.

 

Profissionais oriundos do ensino tradicional, baseado em memória e no domínio simples de procedimentos e técnicas, são os alvos principais dos processos de automação e de máquinas que aprendem. Automação, no caso, refere-se à substituição do trabalho humano por robôs que atendem a algoritmos. O aprendizado de máquina, por sua vez, potencializa ainda mais a automação, permitindo ir além de tarefas repetitivas e mecânicas. Assim, as máquinas podem contemplar missões cada vez mais complexas, alicerçadas em aprendizagem por análises de erros. Ou seja, a partir da disponibilidade e do tratamento de dados abundantes, inteligência artificial propicia criar novos algoritmos que evoluem e que são aprimorados continuamente.

 

A título de evidenciar a gravidade do contexto presente, em trabalho recente do “Laboratório de Aprendizado de Máquina em Finanças e Organizações” da Universidade de Brasília, as 2.602 ocupações formais no Brasil foram, à luz dos riscos da decorrentes da automação, analisadas.  Entre os trabalhadores atualmente com carteiras assinadas, mais de metade deles, algo da ordem de 25 milhões, ocupam vagas com alta probabilidade de serem negativamente afetadas nos próximos anos.

 

Educacionalmente, a única forma de enfrentar esses desafios é promovendo uma aprendizagem que viabilize que aqueles que estão chegando ao mercado possam ir além dos trabalhos mais rasos, evitando ao máximo suas substituições por robôs. A abordagem pedagógica apropriada para preparar um profissional ou cidadão para tarefas mais complexas é aquela que transcenda os processos simples de memorização, indo muito além da absorção aligeirada de procedimentos e técnicas. É fundamental que o aluno, ao longo da aprendizagem, reflita, entenda e aprofunde sobre como ele aprende. Sendo ator consciente de seu próprio processo educacional, o educando amplia continuamente sua capacidade de aprendizagem ao longo da vida. Acrescente-se o indispensável estímulo aos processos colaborativos entre colegas, presenciais ou virtuais, na consecução, em equipe, de missões e projetos.

 

Dentro dessa perspectiva, o educando é, mais do que nunca, um cocriador e um parceiro da dinâmica educacional envolvida. Portanto, o aluno está bastante distante da figura passiva de um consumidor que adquire isolada e individualmente um produto ou um serviço. Construir essas novas metodologias e conjugá-las às tecnologias existentes, bem como às múltiplas possibilidades que ainda estão sendo criadas, é o maior desafio educacional contemporâneo.

 

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sexta-feira, 18 de janeiro de 2019 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 08:53

Qualidade em Educação a Distância

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No ano passado, fui designado pelo Ministério da Educação (MEC), via a Secretaria de Educação Superior (SESu), para um Grupo de Trabalho (GT) cuja responsabilidade era atualizar os Referenciais de Qualidade para a Educação Superior a Distância (Portaria SESu Nº 78, de 19/09/2018). Ao final de 120 dias, o GT apresentou seus resultados, os quais foram, neste ano de 2019, entregues aos novos gestores do MEC.

A Educação a Distância (EaD) é, usualmente, caracterizada como sendo a modalidade na qual os procedimentos educacionais são mediados por tecnologias, em contextos nos quais os educandos e os educadores estão separados, espacial ou temporalmente. Caminhamos em direção a uma sociedade em que a informação estará totalmente acessível, de forma instantânea e basicamente gratuita; portanto, qualquer definição,rapidamente, fica desatualizada ou, no mínimo, incompleta, demandando permanentes revisões e atualizações.

No documento final do GT, o destaque é para a enorme potencialidade da modalidade EaD, sendo considerada ferramenta estratégica naampliação do acesso e da permanência, em especial no ensino superior. Nas últimas décadas, a demanda por oportunidades educacionais nesse nível tem crescido exponencialmente, sendo boa parte desse crescimento viabilizado graças ao uso das tecnologias digitais e das metodologias inovadoras associadas.

A modalidade EaD no Brasil foi assegurada na Lei de Diretrizes e Bases da Educação/LDB(Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996), que estabeleceu no, artigo 80, a possibilidade do seu uso orgânico em todos os níveis e modalidades de ensino. O Decreto 2.561, de 1998, que estabeleceu parâmetros de políticas de garantia de qualidade na EaD, e o Decreto 5.622, de 2005, que regulamentou o artigo 80 da LDB, funcionaram como diretrizes para a publicação dos referenciais de qualidade em 2007.

Em 2017, a legislação sobre a EaD reorganizou a abertura de cursos, flexibilizou a oferta e possibilitou a ampliação do acesso. O Decreto Nº 9.057, de 25 de maio de 2017, e a Portaria MEC 11, de 20 junho do mesmo ano, deram nova dimensão à modalidade. Essa Portaria permitiu às instituições criarem cursos de EaD, de acordo com sua organização administrativa, conforme os resultados obtidos no Conceito Institucional.

Quanto às inovações mais recentes, incluindo a autorização para o uso de até 40% em EaD da carga didática total na maioria dos cursospresenciais (Portaria MEC No 1.428, de 29 de dezembro de 2018), visam a avançar na consolidação de um modelo híbrido que integre as boas práticas do presencial com o virtual, estimulando novas práticas pedagógicas, calcadas na real possibilidade de uma educação personalizada de qualidade. Via trilhas educacionais customizadas, podemos possibilitar que todos aprendam, que todos aprendam o tempo todo, eque cada qual aprenda de maneira própria e única.

Uma dessas inovações, de natureza estritamente pedagógica, é a adoção de estratégias educacionais nas quais a ênfase está em priorizar o aprender a aprender, via abordagens que estimulam a emancipação do educando e a aprendizagem independente. Um dos aspectos centrais desta abordagem implica em privilegiar as características metacognitivas, transcendendo a cognição simples, contemplando sobremaneira o aumento do nível de consciência do educando acerca de como e em que condições ele aprende.  As habilidades metacognitivas implicam naautorreflexão do educando e na exigência de aprender a trabalhar em equipe, incluindo a prática de entender o outro, promovendo a aprendizagem colaborativa e independente. 

Caminhamos em direção à formulação de uma educação flexível e híbrida que conjugará elementos das duas modalidades de ensino, presencial e a distância. O produto final serácapaz de atender, de forma personalizada, às múltiplas demandas que respeitem as particularidades e as peculiaridades de cada educando, em seu contexto educacional específico, estabelecendo máxima compatibilidade com um cenário de educação permanente ao longo de toda a vida.

 

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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 09:40

O método é a essência e o obscurantismo o risco

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O conhecimento é algo mais amplo do que o conhecimento científico, englobando todas as crenças, as verdades pessoais e a cultura popular. Por sua vez, conhecimento científico é aquela limitada parte baseada no método científico.

 

Não se deve confundir verdade com ciência. Nem toda verdade é conhecimento científico. Por exemplo, individualmente, posso ter como crença que exista vida em outros planetas. Isso pode até ser verdade, sem que se constitua em verdade científica, dado não atender aos pressupostos do método científico (observação, lógica e experimentação). A separação entre os mundos da religião e da ciência, a partir desse raciocínio, pode se dar de forma clara, respeitosa e indispensável.

 

A liberdade religiosa e a livre manifestação de ideias são pressupostos inegociáveis dos tempos modernos. Felizmente, nossa sociedade garante espaços apropriados, tanto para o exercício da fé como para sua divulgação aos interessados.

 

A ciência moderna do século XVII, ancorada na observação, lógica e experimentação, conforme sintetizado por Galileu Galilei e seus contemporâneos, somada às ferramentas da matemática, a exemplo do cálculo diferencial e integral de Isaac Newton, permitiram entender e conhecer melhor a natureza e desenvolver leis, tais como as leis da mecânica, da termodinâmica e do eletromagnetismo.

 

Foi a partir da ciência moderna que tecnologias e conhecimentos extraordinários foram desenvolvidos nos séculos seguintes, tendo a máquina a vapor e a Teoria da Evolução de Darwin, e seus desdobramentos, como símbolos. Graças a esses avanços fabulosos, foi possível que a expectativa de vida, que ao início do século passado era de pouco mais do que 40 anos, quase dobrasse nos dias atuais. A Revolução Industrial, o desenvolvimento dos antibióticos, o saneamento básico, o conjunto de ferramentas tecnológicas e as novas visões de mundo colocadas ao nosso dispor representaram, graças ao método científico, enormes possibilidades de superarmos a fome, a miséria e as doenças.

 

O criacionismo, enquanto explicação para a origem e desenvolvimento da natureza, diz respeito aos conhecimentos experimentados pelo mundo da fé e não da ciência; o darwinismo e outras teorias científicas, por sua vez, pertencem ao espaço da ciência – tanto que podem e são contestadas, por não terem o caráter doutrinário como princípios.

 

Quando ouvimos sugestões de que em aulas de ciências se ensine, em pé de igualdade, as duas visões, criacionismo e darwinismo, é preciso deixar claro o que é do campo científico e o que vem do campo religioso, para evitar que se percam conquistas e saudáveis distinções que marcam o processo civilizatório contemporâneo. Abrem-se as portas para um inaceitável obscurantismo e intolerância, cujos limites, se cruzados, custarão demasiadamente caro para, posteriormente, tentarmos recuperar os danos causados a ambas as posições.

 

Um dos papeis principais da educação nos tempos atuais envolve preparar um cidadão capaz de entender, de forma emancipada, o mundo à sua volta. Para tanto, necessário desenvolver raciocínios lógicos amparados em métodos científicos, a busca do contraditório e o estímulo do espírito crítico, bem como ter capacidade analítica apurada, estar preparado para a aprendizagem permanente ao longo de toda a vida e ser tolerante, flexível e solidário. Sem domínio e clareza acerca do método, certamente, não disporemos de profissionais e cidadãos para alavancar um desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável.

 

 

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Artigo “Método e Obscurantismo” publicado em 13/12/2018 em Jornal DCI – Diário Comércio Indústria e Serviços.

 

Figura em Domínio Público em: https://www.flickr.com/photos/montrealprotest/20254442361

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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior | 08:59

Como cumprir o PNE, ou quase

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O Plano Nacional de Educação (PNE) estabelece diretrizes, metas e estratégias para os próximos dez anos da educação brasileira. Sendo lei (Lei No 13.005, de 25 de junho de 2014), cabe ao Governo e à sociedade respeitá-la e envidar todos os esforços para transformá-la em realidade.

 

No entanto, a quase totalidade dos estudiosos reconhece que algumas de suas metas, infelizmente, não serão cumpridas. O foco deste texto é, especificamente, a Meta 12, a qual se refere a elevar a taxa bruta de matrículas na educação superior para 50% e a taxa líquida para 33%, tendo como referência a população de 18 a 24 anos, assegurado que, pelo menos, 40% das novas matrículas sejam no segmento público.

 

As estratégias previstas no anexo da lei estão calcadas no aumento da oferta de vagas em instituições públicas. Quanto ao setor privado, as principais ferramentas de estímulo dizem respeito à expansão do Fundo de Financiamento Estudantil (FIES) e do Programa Universidade para Todos (PROUNI). No entanto, o aumento de recursos para as universidades públicas tem, realisticamente, poucas chances de ocorrer no horizonte próximo e o FIES, ao contrário de se fortalecer, dá evidentes sinais de exaustão.

 

Estamos atrasados no cronograma previsto e neste ano atingiremos o percentual aproximado de 35% na meta prevista de 50% de taxa bruta e de menos de 20% na meta de 33% de taxa líquida. Situação mais crítica ainda é quanto ao cumprimento de 40% das novas ofertas de vagas em instituições públicas, dado que, atualmente, ¾ das matrículas estão no setor privado, o qual permanece crescendo a taxas maiores do que o setor público.

 

Podemos, para tentar cumprir parte da Meta 12, priorizar o atingimento da taxa bruta de 50% de matrículas. Da mesma forma, naquilo que o setor público, por razões conjunturais não conseguir cumprir, que o setor privado, com qualidade aferida, possa tentar fazê-lo. Por fim, interpretemos matrículas no ensino superior no sentido amplo, mesmo quando não em cursos de graduação. Os cursos tradicionais de graduação de 4 a 5 anos terão como alternativas cursos de menor duração apropriadamente desenhados.

 

Hoje, o ensino superior conta com quase 9 milhões de matrículas. Para completar 50% de taxa bruta, teremos que acrescer, até 2024, mais 4 milhões de estudantes. Não podemos depender somente dos formandos do ensino médio, flutuando em torno de 1,8 milhão por ano, dado que tal número está estabilizado há tempos e sem perspectivas de alterações substantivas a curto prazo.

 

Entre as outras fontes potenciais de novos estudantes, destaco os quase 9 milhões com idade entre 18 e 24 anos que, embora tenham concluído o ensino médio, não frequentam o ensino superior. A longa duração e as abordagens dos cursos de graduação, nos moldes tradicionais, mesmo tendo logrado êxito no passado recente, parecem frustrar as expectativas desse contingente no mundo atual.  Novos modelos de desenvolvimento demandam profissionais e cidadãos com características diversas e mais complexas do que antes. Cursos mais curtos, com maior aderência aos interesses de curto e médio prazos, podem, eventualmente, ser mais atraentes.

 

Exemplificando, há pessoas que, por razões as mais diversas, mesmo não tendo demonstrado interesse em cursar Administração ou Ciências Contábeis, podem ser potenciais candidatos a um eventual curso de um ano, com direito a certificação, de Gestão e Finanças. Se os cursos forem bem desenhados, em módulos que interagem entre si, os estudantes seriam também estimulados a continuar, dentro do espírito que o diploma de graduação fosse a coroação de um conjunto sequencial de certificações intermediárias. Igualmente, podem ser ofertados cursos em áreas inéditas, tais como: tratamento de dados e algoritmos, mediação de conflitos, marketing digital, inteligência artificial ou blockchain. Estes atenderiam também a profissionais já formados (da ordem de 10 milhões) que, dentro do espírito de educação permanente ao longo da vida, deveriam procurar atualização.

 

O adequado seria cumprirmos plenamente a Meta 12. Dadas as evidências da impossibilidade prática de seu cumprimento integral, somos estimulados a tentar minorar os prejuízos, especialmente explorando os desafios de desenhos alternativos de cursos de curta duração, eventualmente, compatíveis com as necessidades e expectativas contemporâneas.

 

 

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Figura/Fonte: http://www.cnte.org.br/index.php/comunicacao/noticias/13156-comissao-especial-vai-analisar-modificacoes-do-senado-ao-pne.html

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