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terça-feira, 4 de agosto de 2020 Sem categoria | 11:38

Sétima Carta Celestial do Mestre Darcy Ribeiro (sobre Professora Josefina Augusta, mãe de Darcy e de Mário)

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Caro Rona, sei bem que as coisas continuam ruins por aí. Pior, péssimas.

 

Nosso povo, tenho lido aqui nos terminais dos anjos, tem sofrido. E nem nas amarguras somos iguais. Todos sofrem, mas, muitos sofrem muito mais do que outros, que, por sua vez, sofrem também.

 

A esta altura posso dizer que a história de nossos índios nativos, donos do lugar, tiveram dois momentos trágicos (intermediado por muitas dores entre eles).

 

O primeiro, quando os portugueses aqui chegaram. Nada, nunca mais, seria igual em Pindorama. E outra, tão trágica a eles como o ano de 1.500, tem sido agora.

 

Entre esses dois momentos, os índios sofreram pelo descaso e falta de compreensão. No momento, mais grave do que o descaso, há a intenção deliberada de deixá-los neste enfrentamento desigual contra o vírus e contra os grileiros e garimpeiros. Corremos o risco de ser a única política oficial bem-sucedida.

 

Como escrevi quando estive por aí, todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos.

 

Descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre servos da malignidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria.

 

A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista.

 

Feito o registro acima, vim aqui hoje para te incomodar (e divertir, se é que ainda pode) com outro tema: “minha mãe, Professora Josefina Augusta”. Assunto ameno, para contrabalançar as durezas do cotidiano daí.

 

Acho que foi dela (também) que pequei este gosto pela rua, pela vida e pelas travessuras. Ela já aposentada e enferma em uma cadeira de rodas tinha uma acompanhante. A senhora, gostasse ou não (ela gostava), tinha que sair com ela. O problema e, ao mesmo tempo, cômico é que ela não se cansava nunca de sair.

 

O episódio que relato, meu amigo, foi quando ela quis ir ao cinema. Normal. Porém, não tão normal entrar na matinê e ficar direto até a segunda sessão da noite.

 

Para Profa. Josefina, desde que não voltasse para casa, tudo estava ótimo. Uma curiosidade adicional, o proprietário do cinema em Montes Claros era meu irmão, Mário Ribeiro. Mario, querido irmão (sofreu com minha vinda para cá), era médico e dono do cinema.

 

Findas todas as sessões, o gerente queria fechar o estabelecimento e ir para casa descansar, como fazem os mortais normais. Não a Professora Josefina que se recusava a ir embora.

 

O gerente diz à acompanhante: “Minha senhora, terei que chamar a polícia porque preciso fechar”. A acompanhante replica: “O senhor sabe que ela é mãe do dono”. O gerente: “Sei sim, mas isso não altera a regra da casa”.

 

Enfim, chegou a rádio patrulha e, com a deferência que ela merecia, foi de carro de polícia até em casa. A contragosto e policiada, mas foi.

 

Profa. Josefina, que descanse em paz e chega a ser uma graça divina que ela não precise presenciar o que estão fazendo, atualmente, com a educação pública no país.

 

Rona, vi daqui de cima que você voltou a remar no mar de Copacabana, onde morei, por sinal. Canoa de um, de máscara e sem falar com ninguém. Parabéns e cuide de sua mãe, Alice, que sei está lá em São Carlos.

 

Meu caro, que vocês se protejam e aguentem firme. Não há sofrimento que nunca passe. Que este mal passe logo e que vocês possam todos, das múltiplas cores, variados credos e etnias, resolver coletivamente os demais males que assolam a nossa pátria.

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Imagem disponível em: https://www.google.com.br/search?q=cuidar+da+m%C3%A3e+idosa+dominio+p%C3%BAblico&tbm=isch&ved=2ahUKEwis64W42YHrAhVJBrkGHeObDk4Q2-cCegQIABAA&oq=cuidar+da+m%C3%A3e+idosa+dominio+p%C3%BAblico&gs_lcp=CgNpbWcQAzoCCAA6BAgAEB5QnEFY9mNgu29oAHAAeACAAaECiAHxF5IBBjAuMTMuM5gBAKABAaoBC2d3cy13aXotaW1nwAEB&sclient=img&ei=g2gpX-ydIsmM5OUP47e68AQ&authuser=0&bih=586&biw=1311&hl=pt-BR#imgrc=BZt6D3LvmneWDM

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domingo, 15 de dezembro de 2019 Sem categoria | 11:43

Ensino superior: autorregulação para quem?

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O setor do ensino superior privado sempre demandou mais autonomia. O emaranhado burocrático estatal se mostra demasiadamente custoso e pouco estimulador de experiências acadêmicas criativas e empreendedoras. O limite superior da autonomia seria o seu exercício pleno, via autorregulação soberana do setor.

 

Porém, as coisas, como sempre, são mais complexas do que um olhar à primeira vista sugere. A começar pela pergunta mais simples: autorregulação para ser exercida por quem? Ou, então, quem são os atores principais que demandam estar envolvidos para que um devido equilíbrio seja positivamente explorado?

 

Uma abordagem preliminar implica em entender o que tem sido feito pela parcela de autonomia que a legislação atual já contempla. Comecemos pelo art. 207 da Constituição Federal em vigor.  Ele estabelece que as universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.

 

As universidades públicas, salvo os limites impostos pelas limitações orçamentárias do mantenedor (seja ele governos federal, estadual ou municipal), exercem tal autonomia. Ela se expressa, principalmente, pelo respeito às decisões soberanas de seus conselhos superiores, materializado na figura de seus respectivos reitores, os quais têm seus mandatos garantidos e respeitados.

 

Em algumas universidades privadas, ao contrário do que prevê a lei, a autonomia, é entendida como sendo garantida à mantenedora, e não à mantida. Às vezes, os conselhos superiores das instituições têm poder decisório limitado, estando as decisões finais concentradas, mesmo em temas de natureza acadêmica, nas mãos das diretorias executivas das empresas educacionais. Em geral, os reitores findam sendo figuras quase simbólicas, desprovidos de poderes efetivos.

 

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional/LDB (Lei 9.394/1996) prevê que, em função da autonomia didático-científica das universidades, cabe aos colegiados de ensino e pesquisa decidir, dentro dos recursos orçamentários disponíveis, sobre criação, expansão, modificação e extinção de cursos, ampliação e diminuição de vagas, contratação e dispensa de professores, planos de carreira docente, entre outros itens essenciais da vida acadêmica.

 

Ao lado de instituições comunitárias, confessionais, com ou sem fins lucrativos, o processo em curso de consolidação no setor se caracteriza pelo crescimento acelerado dos grandes grupos educacionais, os quais tendem a ser, economicamente, mais competitivos nos próximos anos.

 

Entre os grandes grupos, há uma primeira divisão entre aqueles de capital aberto ou fechado. Mesmo entre o subgrupo de capital aberto, há casos de controladores oriundos de famílias de educadores, com tradição no ramo e horizontes de longo prazo, e aqueles controlados por fundos de investimento, em geral, estrangeiros. Estes, normalmente, atuam simultaneamente em ramos diversos da economia, sendo educação um de seus campos de interesse, muitas vezes circunstancias e por prazo limitado.

 

As experiências recentes do Chile mostram a dificuldade em compatibilizar qualidade e os interesses por lucros de curto prazo. A Colômbia e outros países da região convivem com os dilemas entre a correta política de estimular o setor privado e a necessidade de garantir padrões mínimos de qualidade. No México, com complexidade semelhante à brasileira, o processo de acreditação foi transferido do Estado para uma federação de instituições privadas, com um complicador adicional, coexistem instituições que optaram por se filiarem ao modelo e outras que se mantiveram como não acreditadas. Portugal tem uma experiência de pouco mais de uma década de uma agência de acreditação e de avaliação, tanto institucional como de cursos, visando garantir qualidade compatível com os seus congêneres europeus.

 

O Brasil precisa do setor privado, o qual tem, à sua maneira, respondido de forma positiva, tanto em número de matrículas como na salutar implementação de tecnologias educacionais inovadoras. A sua riqueza, quanto à diversidade, deve ser vista como um predicado, e jamais como um problema. Precedendo a desejável autorregulação, cabe ao setor demonstrar maturidade suficiente, conferindo às suas respectivas instâncias acadêmicas pesos relevantes nas decisões específicas. Caso contrário, em alguns casos, sem realizar inflexões, as planilhas dos tecnocratas serão os referenciais primeiros, quando não exclusivos, nas tomadas de decisões.

 

Portanto, sobre o tema autorregulação, cabe ao setor privado, como um todo, realizar um exercício de reflexão interna sobre o que desejam, conjugando com o que pode ser bom para o país. Sendo positivos tais propósitos, como são para a imensa maioria das instituições, há que materializá-los fortalecendo seus respectivos âmbitos acadêmicos. Para aqueles cujos propósitos são predominantemente financeiros de curto prazo, cabe destacar que, mesmo para eles, se soubessem como é bom negócio fazer bem-feito, o fariam. Ao menos porque, de fato, é bom negócio.

 

Recentemente, Simon Schwartzman destacou, de forma apropriada, a aplicação do triângulo de Clark na regulação do ensino superior, um delicado balanço entre os papeis do Estado, do mundo acadêmico-profissional e das empresas/mercado. Qualquer desbalanço pode ter como consequências o autoritarismo estatal, a oligarquia acadêmica ou corporativa ou a selvageria de mercado ou de empresas.

 

Explorar os espaços de superposição desses três atores (Estado/comunidade acadêmica/sociedade), todos eles em si complexos, é, por certo, o melhor cenário para moldarmos um sistema regulatório eficiente e eficaz. Uma boa medida do quão adequados serão os modelos propostos seria mensurar o efetivo estímulo para que modelos inovadores para cursos já existentes sejam implementados e, especialmente, para que cursos novos sejam propostos e testados.

 

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 Figura disponível para “free dowload” em: https://www.pngfly.com/png-j65jnv/

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segunda-feira, 19 de agosto de 2019 Sem categoria | 10:08

“NÃO SAIAM SEM NOS DAR TCHAU”

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Vivemos, atualmente, no Brasil o risco efetivo de uma fuga em massa de cérebros, o que significaria cristalizar de vez nossa dificuldade extrema de competirmos, em termos de produtos e serviços, em escala global. Sem ciência, sem inovação e sem capacidade tecnológica instalada, estaríamos decretando nosso destino de sermos um país, na melhor das hipóteses, exportador de matérias-primas e de alimentos sem valor agregado. Assim, em um mundo impregnado pelos avanços das tecnologias digitais e suas consequências na vida cotidiana, ocuparíamos, enquanto nação, o espaço de meros passivos e acríticos consumidores.

 

Este êxodo em curso acelerado é fruto da queda nos investimentos em pesquisa, tanto pura como aplicada, e em inovação, seja ela tecnológica ou não. Na verdade, os dados apontam que as verbas destinadas às agências de fomento à pesquisa e à inovação têm caído nos últimos anos, mas, neste ano, a situação se agravou mais ainda. Em 2019, configura-se um contingenciamento de 30% no Ministério da Educação (MEC) e de 42% na pasta de Ciência e Tecnologia (MCTIC).

 

Um dos principais afetados é o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que provê parte relevante dos recursos à pesquisa científica. A título de exemplo, um dos programas mais estratégicos do CNPq é o de Bolsa de Pesquisa e Produtividade. O Programa é de custo relativamente barato, mas de estímulo crucial àqueles que se dedicam à produção de conhecimento de ponta no país. São menos de uma centena de milhares de pesquisadores, os quais passam pelo exigente crivo de comitês de especialistas, que respondem pela maior parte do conhecimento de fronteira que é produzido no cenário acadêmico nacional.

 

Com os cortes recentes, as bolsas de pesquisa têm sido pagas por suplementações emergenciais, mas sem nenhuma garantia da continuidade do próprio Programa. Ou seja, mesmo que, esperançosamente, findem por receber, os cientistas já se sentem suficientemente frustrados a ponto de procurarem, de imediato, oportunidades no exterior. São naturalmente atraídos por novos espaços onde possam, com maior tranquilidade, se dedicar às suas tarefas, que demandam condições adequadas de trabalho, persistência, concentração e respeito mínimo.

 

O Governo Federal prometeu elevar o investimento em ciência e tecnologia a 3% do PIB até o fim do atual mandato, mas a realidade, ao menos até aqui, tem sido bem diferente. O orçamento está em queda e distante de superarmos um percentual pouco acima de 1% do PIB, aqui considerando o total geral investido, tanto pela União como pelo setor privado.

 

Um apagão de investimentos, somado a um estado geral de desalento espalhado pela comunidade científica, podem, na prática, quebrar a coluna vertebral do sistema de ciência e tecnologia. Este sistema, construído a duras penas desde a década de 1950, tem sido um processo longo e a sua destruição pode ser muito rápida. Se isso vier a ocorrer, sua futura reconstrução é uma possibilidade ainda distante e incerta.

 

Curiosamente é sim da natureza da ciência desejáveis processos migratórios de cientistas. É muito salutar que pesquisadores tenham experiências em muitos países. Portanto, não é necessariamente ruim que nossos talentos passem períodos fora, muito menos que possamos atrair cientistas dos demais países. Ao contrário, nada mais salutar do que esses intercâmbios, mas eles devem ser frutos de um processo estimulado e planejado; jamais motivados, unicamente, pela desesperança com a realidade local. Pior, muitas vezes, sem deixar laços que permitam compartilhar de forma multilateral os avanços futuros no conhecimento.

 

Escrevo isso porque é preciso também ficar. Insisto porque é preciso, mais do que nunca, resistir. Tudo vale a pena, dado que há uma nação em construção que demanda ampliar seu nível de produtividade, que se reflita em produtos e serviços competitivos globalmente. Não temos como fazê-lo sem estarmos ancorados em profissionais preparados e fazendo uso e gerando produções científicas e tecnológicas no estado da arte.

 

Em outras palavras, em nome de quem fica, dado que, voluntariamente, ficaremos, por favor: “não saiam sem nos dar tchau”.

 

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sábado, 3 de agosto de 2019 Sem categoria | 02:37

A impermanência e a esperança

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O mundo contemporâneo nos apresenta desafios complexos e, muitas vezes, nada confortáveis. O Brasil, neste contexto atual, torna alguns deles mais complicados ainda. Portanto, é bastante compreensível que a situação nacional desperte em cada um de nós algo que se aproxima de um sentimento de angústia e de falta de esperança.

 

As ações no sentido de alterar o quadro vigente, em todos os campos, são imprescindíveis e insubstituíveis. Mesmo assim, é fundamental que tenhamos todos a devida calma, permitindo que as mudanças ocorram e que elas sejam efetivas e adequadas. Para tanto, na expectativa da lucidez produtiva, há que se procurar inspiração onde quer que ela seja possível.

 

Não há receitas milagrosas ou únicas, tampouco soluções prontas, para tratar desse justificável sentimento de ansiedade com o estado atual das coisas. Neste sentido, entre várias possíveis abordagens, o budismo pode ser contributivo na percepção da realidade, via o conceito chave de “impermanência”.

 

No budismo é assumido que “nada é permanente, a não ser a própria impermanência das coisas”. Assim, o conceito de impermanência está estritamente ligado ao da variância do mundo. Ou seja, nada é permanente ao longo do tempo. Tanto as causas como as condições se alteram constantemente e o seu resultado, inexoravelmente, também varia. Este complexo conceito dentro da tradição budista pode contribuir com a adequada percepção da realidade atual.

 

A impermanência, a partir da ótica budista, deve ser vista conectada a um outro conceito, a onisciência, conhecida como “a plena atenção”.  A onisciência possibilitaria ao seu praticante perceber a impermanência do mundo e assim se libertar de apegos àquilo que em sua essência é variante, e, portanto, causa de sofrimento. Apesar das duas visões serem próximas, o fato de se introduzir o elemento de consciência no processo permite atingir a necessária percepção da variância do mundo.

 

Segundo o budismo, todos os fenômenos são impermanentes e nada no universo perdura para sempre, tudo se transforma continuamente e caminha para a própria dissolução. Consequentemente, é indicado não nos apegarmos demais às coisas, pois, afinal, todas as coisas são temporárias. O apego gerará, inevitavelmente, sofrimento, dado que nada perdura para sempre.

 

Os pensamentos acima podem ser traduzidos em três níveis de reconhecimento, detalhados, de forma simples, da seguinte maneira: i) As coisas não duram, isto é, elas, constantemente, surgem e desaparecem. As coisas boas acabam e as coisas ruins acabam, bem como as coisas neutras também acabam; ii) As coisas se transformam, mesmo enquanto elas duram. Elas nunca são as mesmas, elas estão em constante alteração; iii) As coisas não têm sustentação plena ou continuidade absoluta. Embora elas pareçam surgir e se transformar, de fato, esses fenômenos se dão por causas que, por sua vez, também estão sujeitas a transformações e surgimentos-desaparecimentos. Não há uma substância subjacente permanente que perdure por trás de qualquer ocorrência.

 

Claro que o budismo é muito mais profundo e complexo do que a simplificação superficial que este limitado espaço permite e que o autor, inexperiente no tema, alcança. A ideia, quase ingênua, é tentar contribuir para que a nossa quase generalizada angústia possa dar espaço a pensamentos racionais e a imprescindível esperança nas mudanças sempre em curso.  Neste momento da história política do país o que mais precisamos é de racionalidade ativa. Que a inspiração, calcada na sabedoria budista, possa ser, eventualmente, útil. Afinal, são reflexões milenares sobre este universo, felizmente em constante transformação.

 

Representações artísticas destes pensamentos podem ser encontradas em diversas obras. Unicamente como ilustração, destaco a canção “Como uma onda”, de Lulu Santos (1983). Quem tiver a oportunidade de rememorá-la agora perceberá que a arte pode ser mais eficiente do que todas estas palavras.

 

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quarta-feira, 10 de julho de 2019 Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação, Sem categoria | 10:29

Humanizando máquinas inteligentes

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Humanos são humanos e máquinas são máquinas. Mesmo assim, a história humana pode ser contada a partir do uso de diversas ferramentas, as quais foram, no decorrer do tempo, se incorporando ao cotidiano, interferindo diretamente na evolução da espécie.

 

As múltiplas maneiras com que os humanos têm feito uso de diversos utensílios, ao longo de sua evolução, talvez seja a principal característica que nos distinga das demais espécies. A habilidade no uso de varetas e pedras remonta há milhões de anos entre os nossos mais distantes ancestrais, mas há um longo e peculiar caminho até os dias atuais, quando é possível, por exemplo, implantarmos chips em nossos corpos.

 

Por sua vez, as máquinas não somente substituem os trabalhos mais simples dos humanos; muitas vezes, tentam reproduzi-los literalmente, a exemplo da robótica e equipamentos inteligentes, incluindo as recentes máquinas que aprendem. Isso ganha uma dimensão especial quando dispomos de uma capacidade quase ilimitada de armazenar dados e utilizá-los via uma gestão inteligente, contemplando elementos de modelagem e simulação sem precedentes.

 

Mesmo assim, supõe-se, em geral, que há limites claros para as máquinas, entre eles, ir além de uma racionalidade previsível, embutida nas programações e nos algoritmos adotados. Em que medida podemos humanizar máquinas, especialmente no âmbito dos usos contemporâneos de Inteligência Artificial (IA), torna-se, progressivamente, um tema de grande interesse e é o tema central deste texto.

 

Ou seja, mesmo os maiores entusiastas de IA reconhecem que as máquinas estão restritas a decisões racionalizáveis, ainda que submetidas a sofisticados algoritmos. Nesse sentido, as emoções humanas, especialmente aquelas baseadas no livre arbítrio, são supostas como quase impossíveis de serem reproduzidas por máquinas.

 

No entanto, explorando essa difusa e complexa região entre racionalidade e emoções ou entre determinismo e livre arbítrio, é possível exemplificar a incorporação de elementos de incertezas que envolvem tomadas de decisões em processos de máquinas que simulam comportamentos humanos.

 

Com o intuito de exemplificar uma possibilidade, são necessários alguns conceitos básicos de métodos estatísticos, em particular o Método de Monte Carlo (MMC). O MMC é uma abordagem estatística baseada em amostragens aleatórias massivas que permite obter resultados numéricos. A partir de sucessivas simulações, um elevado número de possíveis configurações é gerado, permitindo calcular probabilidades. O MMC tem sido utilizado em diversas áreas (incluindo algumas semelhantes com jogos de dados, decorrendo daí sua denominação) como forma de obter aproximações numéricas de funções complexas, nas quais não é viável, ou mesmo impossível, obter uma solução simples analítica ou determinística.

 

Um MMC muito utilizado em Física, tendo como objetivo determinar valores esperados de propriedades do sistema simulado, a partir de uma média sobre a amostra, é o chamado Algoritmo de Metropolis (AM). Originalmente apresentado em 1953 por Nicholas Metropolis e outros1, ele foi generalizado em 1970 por W. K. Hastings2 (por isso também conhecido como Algoritmo Metropolis-Hastings).

 

AM se baseia na observação de que a determinação da probabilidade de uma dada configuração demanda conhecer a chance de ocorrência dela e de todas as outras possíveis configurações. Para variáveis contínuas se faz necessário uma integração da densidade de probabilidade sobre todo o espaço de configurações. Tal procedimento é, em geral, extremamente custoso, muitas vezes simplesmente impossível, quando se utiliza um número de variáveis grande (da ordem de centenas ou milhares), como é bastante comum nos sistemas de maior interesse.

 

A grande contribuição característica do AM é não levar em conta a probabilidade das configurações em si, mas sim a razão entre elas, dado que a razão entre as probabilidades de duas dadas configurações pode ser determinada independentemente das demais.

 

Se considerarmos duas configurações m e n quaisquer, é conhecido da estatística que, sendo E(m) a energia da configuração m e E(n) da n e sendo P(m) a probabilidade da configuração m e P(n) da n, a razão entre as probabilidades P(n) e P(m) pode ser descrita como: exp[-(E(n) – E(m))/KT], onde K é a constante de Boltzmann e T a temperatura da amostra.

 

Definida essa abordagem, o AM é implementado via um conjunto de regras razoavelmente simples:

  • O primeiro passo é a geração de uma configuração inicial aleatória, denominada m;
  • Em seguida, geramos uma nova configuração-tentativa, provocando pequenas alterações na configuração inicial, denominada n;
  • Se a nova configuração, n, tiver uma energia menor (maior estabilidade) do que a primeira, m, adota-se esta nova n;
  • Caso a energia da nova configuração, n, seja maior do que a original m, refletindo uma perda em estabilidade, em estatísticas convencionais o novo resultado seria descartado. Nesta abordagem, diferentemente, gera-se um número aleatório entre 0 e 1 e se este número for menor do que exp [-(E(n) – E(m))/KT], aceita-se esta configuração na amostra, caso contrário, não;
  • Repetem-se os passos (ii) e (iii) até que um certo critério de atendimento seja satisfeito, tal como esquematizado na Fig. 1.

 

Fig. 1. Representação esquemática do fluxograma de decisões em um Algoritmo de Metropolis-Hastings.

 

Observar que, no critério adotado acima, se E(n) e E(m) são valores bastante próximos, o resultado do termo exponencial acima se aproxima de 1, portanto, com razoável chance da nova configuração ser aceita. No entanto, se E(n) for muito maior do que E(m), este valor tende para zero, com grandes chances do número gerado, entre 0 e 1 ser maior e, portanto, esta configuração deve ser, provavelmente, desprezada.

 

Em sistemas físicos, onde se pretende determinar a configuração correspondente ao estado de mínima energia (maior estabilidade), um grande mérito do AM é permitir escapar de mínimos locais de energia. Via múltiplas etapas e a grande quantidade de configurações geradas, ao se aceitarem configurações com energias maiores com probabilidade não nulas, barreiras podem ser superadas e aprisionamentos locais evitados, e mínimos gerais atingidos (ver Fig. 2). Observar que se as configurações com energias maiores fossem liminarmente desprezadas, a possibilidade de aprisionamento em mínimos locais seria difícil de ser evitada.

 

Fig. 2. Gráfico genérico ilustrativo mostrando máximo e mínimos, locais e globais. No caso do problema físico, poderíamos ter no eixo vertical a variável energia e no eixo horizontal o espaço de configurações.

 

A adoção do AM garante que visitaremos regiões próximas dos mínimos de configurações mais aceitáveis (correspondentes aos de mínimas energias), percorrendo o espaço do domínio das funções envolvidas de maneira sistemática. Dependendo de como é definido o critério probabilístico, os caminhos não se afastarão muito de uma determinada região de confiança com relação ao método adotado.

 

No caso de máquinas inteligentes, movidas por algoritmos, uma analogia seria possível no tocante à tomada de decisões. No universo de abundância extrema de dados, de facilidades inéditas de gestão dos mesmos e de máquinas inteligentes, um ponto crucial é a tomada de decisões. Suponhamos que em cada encruzilhada, a máquina possa considerar múltiplos caminhos, cabendo contemplar critérios de escolhas e consequentes evoluções. Inspirados no AM, trata-se de garantir que caminhos que seriam normalmente desprezados sejam também considerados, seguindo o conjunto de regras acima descritos.

 

A partir de uma dada situação, expressa por uma configuração inicial aleatória, exploraríamos diversos caminhos no âmbito de tomada de decisões. Se o caminho simulado, fruto de pequenas alterações na configuração inicial, for, à luz do algoritmo utilizado, mais indicado, adota-se a nova configuração resultante.

 

Como o algoritmo utilizado, baseado nos dados disponíveis, permite contabilizar os prós e contras de cada nova configuração, podemos definir que a diferença entre eles possa ser expressa por um determinado Delta, a exemplo do caso anterior, sendo definido em cada circunstância.

 

Assim, dada uma situação original aleatória, quando a nova configuração gerar um Delta negativo, adota-se a nova configuração. Caso a nova situação seja menos indicada do que a original, gera-se um número aleatório entre 0 e 1 e se este número for menor do que exp[-Delta/C], onde C é uma constante, aceita-se o caminho; caso contrário, não.

 

Observar que, a exemplo do caso anterior, se Delta é muito pequeno, o termo exponencial se aproxima de 1, com grandes chances deste número ser superior ao gerado aletoriamente entre 0 e 1; portanto, com boa chance de ser adotado o caminho. Contrariamente, se Delta é muito grande o valor tende a zero e torna-se grande a possibilidade de o caminho ser desprezado. Por fim, repetem-se os processos acima até que um certo critério de atendimento seja satisfeito.

 

A constante C (análoga ao KT de sistemas físicos) permitiria uma associação indireta com um tipo de “excitação térmica”. Ou seja, em alguns processos, com C maior, significaria algo equivalente a menor aversão a risco nas tomadas de decisões, contemplando possibilidades mais radicais ou arriscadas entre configurações mais distantes. Valores menores de C representariam tomadas de decisões mais conservadoras, envolvendo estados mais próximos, sem grandes perturbações no sistema.

 

A evolução do sistema permitiria, de certa forma, imitar comportamentos humanos que nem sempre seguem, exclusivamente, racionalidades, sendo recheado de etapas guiadas por elementos de emoção, em geral, não contemplados nos algoritmos tradicionais.

 

Em tese, portanto, podemos imaginar contribuições acerca de como ensinar máquinas a tomarem decisões. No caso, os movimentos sequenciais de uma máquina inteligente qualquer seguiriam os passos inspirados por um AM. Ou seja, introduzindo aleatoriedade, via pequenos passos, podemos, no limite, simular emoções e imprevisibilidades, as quais conjugadas com racionalidades estabelecem alguma semelhança com decisões humanas.

 

 

Referências:

  1. Metropolis e outros, Journal of Chemical Physics 21, 1087 (1953).
  2. K. Hastings, Biometrika 57 (1), 97 (1970).

 

 

 

 

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sábado, 27 de abril de 2019 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação, Sem categoria | 09:31

PIB: educação digital é parte da solução

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Neste mês, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou interessantes análises acerca das contribuições relativas de cada país para a economia global. A partir do Produto Interno Bruto (PIB), somatório de bens e serviços produzidos por cada nação, ajustado pela paridade do poder de compra, podemos obter indicadores acerca da respectiva qualidade de vida de seus habitantes.

 

Um dos destaques negativos deste recente estudo é o Brasil. Pelo sétimo ano consecutivo, nossa participação percentual segue trajetória de queda, atingindo em 2018 somente 2,5%, a menor participação relativa, em quase quatro décadas, no PIB mundial. Para dimensionarmos o tamanho da queda, em 1980 o Brasil respondia por 4,4% da economia do planeta. De 1950 a 1980, a economia brasileira avançou, em média, 4,5% ao ano; por sua vez, entre 1980 e 2018, o crescimento anual médio foi de 0,9%.

 

Passamos neste ano de sétima para oitava economia do mundo, em termos de PIB ajustado, sendo ultrapassados pela Indonésia. Se considerarmos somente o PIB, sem ajustes, também passamos para oitavo lugar, neste caso ultrapassados pela Itália. Se considerarmos somente a história mais recente, também não estamos bem. A renda per capita, mensurada pelo PIB dividido pelo número de habitantes, atingiu, em 2018, R$ 32 mil, o que é 9% mais baixo do que era em 2014.

 

A compreensão da redução da contribuição percentual ao PIB mundial precisa levar em conta o contexto do efeito China, cujo crescimento espetacular nas últimas décadas demanda que os demais países, em média, diminuam suas respectivas participações. Mesmo assim, Índia, Coréia, Vietnã, Turquia e alguns outros aumentaram seus percentuais. Países vizinhos como Uruguai, Peru, Colômbia e Chile mantiveram intactas suas participações relativas.

 

Os avanços econômicos mais recentes do Brasil têm sido, principalmente, ancorados no incremento na exportação de alimentos, fruto do aumento de competitividade do agronegócio, e no aumento de demanda mundial por algumas commodities, especialmente minérios.  Por mais relevantes que essas áreas sejam, é preciso contextualizá-las numa dinâmica acentuada de mudanças econômicas no cenário global. Por exemplo, em 1980, ente as dez maiores empresas do mundo, havia a presença marcante de indústrias automobilísticas, as quais não mais constavam da mesma lista na virada do século, momento este dominado por empresas de energia e bancos. Atualmente, todas as dez maiores empresas do mundo são digitais, ainda que nenhuma delas estivesse presente ao início do século. Em suma, estamos migrando, muito rapidamente, de uma economia analógica em direção a um universo predominantemente digital, acoplados às consequências drásticas de tal acelerada transição.

 

No contexto atual, a possibilidade de um desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável depende de múltiplos fatores, mas há relativo consenso de que a variável mais relevante de todas é o aumento da produtividade média. O principal ingrediente para o incremento de produtividade é educação de qualidade, viabilizando que trabalhadores, empresários e gestores, privados e públicos, possam contribuir mais efetivamente com a produção de bens e serviços.

 

A educação contemporânea demanda levar em conta todos esses aspectos, portanto, sendo ela também digital, na forma e no conteúdo. Quanto ao meio, ao lado do letramento avançado (produção e compreensão de textos complexos) e do letramento matemático (facilidade nas operações matemáticas mais sofisticadas), destaca-se, em termos de importância, o letramento digital (domínio de plataformas, softwares e elementos básicos de programação). No que diz respeito ao conteúdo, além dos conhecimentos clássicos, os procedimentos específicos de cada área e as técnicas associadas, a educação, atualmente, exige contemplar, com muito mais ênfase, algumas habilidades individuais e coletivas.

 

Quanto às habilidades individuais, incluem-se as flexibilidades cognitivas (aprender em contextos diversos) e metacognitivas (aprender a aprender em um cenário de educação permanente ao longo de toda a vida) e as habilidades socioemocionais, a compreensão crítica de realidades históricas e geográficas complexas, acrescidas de espírito empreendedor e capacidade criativa. No que diz respeito às habilidades coletivas, há que se cultivar educacionalmente o trabalho em equipe e a gestão de pessoas, calcados na tolerância, na empatia e na compaixão. Frutos de tais predicados, estimulamos a formação de profissionais e cidadãos preparadores, mais completos e cientes dos contextos em que eles desenvolvem seus ofícios e administram suas vidas.

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Imagem em Domínio Público em: https://www.google.com.br/url?sa=i&source=images&cd=&cad=rja&uact=8&ved=2ahUKEwjfq4jvh_DhAhX5HbkGHUqABbYQjRx6BAgBEAU&url=https%3A%2F%2Fwww.scoop.it%2Ftopic%2Figeneration-21st-century-education%2F%3F%26tag%3Dpublic%2Bdomain&psig=AOvVaw3Xrk5xJ1GvlGWuXbUa8OOO&ust=1556447165444123

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domingo, 4 de novembro de 2018 Sem categoria | 05:22

Brasil avaliando a China

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brasilChina

 

 

Recentemente, fui convidado para integrar o Comitê Internacional de Avaliação do Instituto de Tecnologia de Pequim (BIT, Beijing Institute of Technology, em inglês). O BIT é uma das universidades públicas chinesas com foco principal em ciência e tecnologia, atuando também em outras áreas como gestão e humanidades.

 

Periodicamente, as universidades chinesas passam por avaliações supervisionadas por comissões formadas por pesquisadores seniores, especialmente selecionados em todo o mundo. Creio ser a primeira vez que um brasileiro é convidado. Neste ano, a fase presencial do processo avaliativo será em novembro próximo.

 

Acostumado às avaliações das universidades nacionais, não há como não se surpreender acerca dos principais indicadores que norteiam o processo chinês. Ainda que a qualidade do ensino e a produção científica tradicional sejam consideradas, as ênfases do processo estão na análise das parcerias com o mundo corporativo e no incentivo ao empreendedorismo entre os educandos.

 

Para quem se acostumou a associar os produtos chineses com cópias e imitações, seja na indústria de computadores, automóveis, jogos eletrônicos e celulares, a realidade atual mostra que, definitivamente, eles aprenderam a fazer do seu próprio jeito, ou seja, inovando mais do que seus concorrentes.

 

A parceria entre governo, academia e empresas pode ser exemplificada pela valorização que o mundo universitário confere ao que eles chamam de BAT, sigla que corresponde às iniciais das três grandes estrelas: Baidu, Alibaba e Tencent. Juntas, essas empresas representam mais de US$ 1 trilhão. Ao lado delas, brilham as quase duas centenas de unicórnios (startups que superaram a casa dos US$ 1 bilhão), que juntas se aproximam do mesmo montante da BAT. Em outras palavras, somente a BAT somada aos unicórnios, grosso modo, equivalem ao PIB brasileiro.

 

Em ações sincronizadas, na China, todos os atores envolvidos promovem e valorizam inovações disruptivas em áreas que incluem infraestrutura urbana inteligente, veículos autônomos e plataformas de medicina personalizada, sempre baseadas em inteligência artificial e comércio eletrônico generalizado.

 

Os chineses têm absoluta clareza que tudo isso é fruto de fortes investimentos em educação, os quais crescem anualmente acima de 10%, atingindo a incrível cifra de mais de US$ 500 bilhões no ano passado. Atualmente, em torno de 14% dos estudantes da Universidade de Pequim abriram ou trabalham em startups e há a meta de dobrar esse percentual. Sem isso, entendem eles que o objetivo de fazer do país líder global em inteligência artificial e em outras áreas estratégicas não será atingido.

 

Considerando que a China é, há quase uma década, nosso principal parceiro comercial, período no qual os investimentos chineses no Brasil cresceram 3.000%, é fundamental que os conheçamos bem. No primeiro semestre de 2018, os investimentos chineses no Brasil, concentrados em energia, alimentos, mineração e telecomunicações, atingiram US$ 1,4 bilhão, volume quatro vezes maior do no mesmo período no ano passado.

 

As perspectivas, seja no comércio, no mundo da política global ou nas parcerias acadêmicas, são, potencialmente, favoráveis ao Brasil. Porém, a China saberá identificar se o país é somente uma fonte de commodities ou se a parceria será também em empreendimentos comuns, calcados em educação qualificada e planos substantivos em ciência, tecnologia e inovação. E ao Brasil, cabe decidir que relações pretende estabelecer com a China, com o  resto do mundo e consigo mesmo.

 

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Este artigo, com pequenas modificações, intitulado “As Relações Brasil e China, foi publicado em O DIA: 
http://www.clipnaweb.com.br/v3/clipping/conteudoNoticia.aspx?cliente=estacio&idNoticia=86296&arquivo=20181102%2F0000086296.pdf&data=02%2F11%2F2018&midia=impresso&tipo=impresso&vitrine=3&usu=estacioclip

 

 

 

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domingo, 18 de fevereiro de 2018 Sem categoria | 12:21

Canoas havaianas do Posto 6: o Forte onde Copacabana vira Polinésia

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23 de Novembro de 2016 - Rio de Janeiro/RJ, Brasil. Aereas no Rio de Janeiro, Rio de Janeiro/RJ. (Credits: Gabriel Heusi/Heusi Action).fortecanoas

 

Canoas havaianas do Posto 6: o Forte onde Copacabana vira Polinésia. As canoas havaianas têm sua origem há milhares de anos na região do triângulo polinésio, onde foram fundamentais no processo de colonização daquela área. Conhecidas como Wa’a no Havaí, Va’a no Taiti e Waka na Nova Zelândia, elas compõem parte essencial da cultura milenar dos polinésios. As canoas, em suas diversas formas, serviram tanto para deslocamento entre as ilhas quanto para a pesca em oceanos abertos ou para demonstração de força dos chefes e reis de diversas épocas.

 

No formato como elas são conhecidas atualmente, as canoas havaianas se caracterizam pelas três partes: o casco (hull), o flutuador (ama), que garante a estabilidade, e os braços que ligam um ao outro (yakos). Na canoa há 6 lugares, cada um possuindo funções específicas, além de remar. O primeiro mais adiante, conhecido como voga, dá o ritmo das remadas, sendo que enquanto os remadores 1, 3 e 5 remam de um lado, os remadores 2, 4 e 6 remam do lado oposto. O terceiro ou o quarto remadores, em geral, fazem a contagem para a troca de lado, anunciando a mudança em um comando (algo como Hop, versão abrasileirada do Hip Ho original). O sexto remador é o leme, o capitão da canoa. Um bom remador não é medido somente pela força, mas, principalmente, pela técnica, por respeitar o sincronismo de comunhão da canoa com o mar, expresso no espírito de integração da equipe e por acompanhar, de forma solidária e colaborativa, os demais remadores da canoa.

 

No Brasil, a chegada da canoa havaiana ocorreu ao final do ano 2000, em Santos, com a primeira canoa importada dos Estados Unidos sendo batizada de Lanakila.  Atualmente, o Rio de Janeiro é um centro de referência nacional na prática deste esporte, em especial no Posto 6, ao lado do Forte de Copacabana, o qual lhe serve de excepcional abrigo, garantindo águas calmas, com ondas adequadas conjugadas com belíssimas opções de entradas para o mar aberto.

 

O Forte de Copacabana, oficialmente denominado como Museu Histórico do Exército/Forte de Copacabana (MHEx/FC), constitui-se em um dos mais belos cartões-postais da cidade. O projeto de construção remonta à época da transferência, em 1763, da capital do Brasil, Salvador, para o Rio de Janeiro. Sua implementação definitiva se deu por ocasião da vinda da corte portuguesa para o Brasil no início do século XIX. D. João VI, em 1823, receoso de um possível ataque da armada portuguesa em função da Independência do Brasil de Portugal em 1822, acelerou sua adequação para a efetiva proteção do Rio de Janeiro. O Forte foi centro de outros relevantes momentos da pátria. Entre tantos fatos históricos, destaco a Revolta da Armada de 1893 e o contencioso em função de demarcação de fronteiras com a Argentina em 1895, ocasião em que foram instalados os seis canhões de longo alcance.

 

Canoas realizam seus ondulados movimentos no Posto 6 acompanhadas de outros atores de máxima riqueza. Entre eles, a ainda ativa Colônia de Pescadores, cuja origem data da década de 1920, o Quartel de Serviços de Salvamentos dos Bombeiros, o Clube dos Marimbás etc. As canoas ajudam a compor um dos mais prósperos cenários mundiais de aprendizagem e de prática de inúmeras outras atividades esportivas aquáticas e de areia de praia. Desde aprendizes a atletas olímpicos, naquele espaço compartilhado nadam, fazem stand-up paddle, praticam surf e bodyboard, jogam frescobol etc.

 

A evolução harmônica das canoas do Posto 6 se expressa também em sons das ondas quebrando na areia carregando consigo fantasias, alegorias e adereços naturais. Esta harmonia única sugere enredos maravilhosos para celebrar a transformação de Copacabana em especial espaço polinésio.

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Foto 1. De Gabriel Heusi/Heusi Action, em Portal Brasil 2016 (“Todo o conteúdo desse site está licenciado sob a Licença Creative Commons Atribuição 3.0 Brasil“);

Foto 2. De Beto Vaz, remador da Equipe Esquilo no Posto 6.

 

 

 

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domingo, 4 de fevereiro de 2018 Sem categoria | 20:27

Pedido Póstumo

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Caros viventes cariocas, sei bem que dita a boa educação que recebamos as eventuais homenagens sem contestar e de bom grado, sempre. Dizem que eu teria dito em vida: “a cavalo dado não se olha os dentes”. Bobagem, jamais disse isso e o linguajar difere do meu. Além de suspeitar ser uma tradução liberal do inglês: “never look a gift horse in the mouth”, literalmente, algo como: “nunca olhe a boca de um cavalo ganho de presente”.

 

Alguém, bem-intencionado, em 2002, quis celebrar meu centenário de nascimento colocando uma estátua de bronze de 150 quilos no Posto 6 em Copacabana. A escolha do local não poderia ser mais apropriada. Morei na Conselheiro Lafaiete, 60. Para ir para a Avenida Atlântica costumava caminhar, por vezes, pela Júlio de Castilhos, outras, pela Rainha Elizabeth. A estátua ficou entre as duas ruas, perfeito.  Só elogios e nada a reclamar, demonstrando meu apreço pela cidade e minha permanente tendência à transigência.

 

Mas, indo direto ao ponto da reclamação: sou mineiro, de Itabira para quem não sabe. Mineiro adora mar, e disso todos estão cientes. O escultor da obra, Leo Santana, meu conterrâneo, é igualmente louco pelo mar. É verdade que a ele deram uma foto de Rogério Reis, a qual, pelos idos do início da década de 1980 saiu na revista Veja. Mas, convenhamos, eu escrevi: “No mar estava escrita uma cidade”, consequentemente, o foco é o mar e a cidade o acidente. Se pensasse diferente, teria escrito: “Na cidade estava escrito o mar”. Além de sem sentido, o centro seria a cidade, portanto…

 

Então, pergunto de forma direta e objetiva: por que diabos me puseram de costas para o mar? E, pior, na forma de estátua, a qual, por definição, assim permanece, para sempre. Meu vizinho (uma quadra adiante, em direção ao Forte), Dorival Caymmi, com quem converso muito por aqui, está plenamente satisfeito com a estátua dele. Baiano não é assim tão obsessivo pelo mar e ele tem, particularmente, homenageado aquele muitas vezes. No caso, se há dívida, é do mar com o baiano, e não o contrário. Tanto que ele chega a estar cansado. Já é um esforço danado, além de carregar seu instrumento, estar sempre feliz e de braços abertos.

 

Voltemos ao meu pleito. Hoje, ao contrário dos saudosistas que aqui chegam do Rio, acho o Posto 6 mais interessante do que antes. Preservaram a Colônia e o Forte, que eu tanto apreciei, e temos agora stand-up paddle, grupos animados de natação, frescobol e as fantásticas canoas havaianas, que fariam os polinésios morrer de inveja do Rio. Mas, convenhamos, de onde estou, de costas, vejo tudo somente de soslaio…

 

Em suma, a quem receber esta mensagem póstuma, ainda que viva, peço que considerem virar minha estátua para o mar. Esqueçam aquela foto, ela diz respeito a hábitos do passado, tão somente. Eu agora pretendo ficar de frente, mirando o mar, no qual estava escrita uma cidade.

 

                                                                                                                C. D. de Andrade (by R. Mota)

 

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segunda-feira, 2 de outubro de 2017 Sem categoria | 00:00

ENADE e CPC são a mesma coisa? Não, não são

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Em qualquer área de atividade, indicadores de qualidade são essenciais para uma permanente melhoria dos serviços prestados, bem como para informar aos usuários que os utilizam. Por mais bem elaborados que eles sejam, os retratos que os indicadores fornecem sempre serão limitados e parciais, sendo tentativas de captar elementos complexos e nem sempre objetivos.

 

Na educação superior brasileira, há a Lei do Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior/SINAES, Lei no 10.861/2014, estabelecendo os marcos referenciais de qualidade. Tendo como referência os indicadores de qualidade, sob responsabilidade do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira/INEP, o processo regulatório é implementado por outros órgãos do Ministério da Educação/MEC.

 

O Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes/ENADE é previsto na Lei do SINAES para mensurar a qualidade dos formandos e ele é aplicado a cada três anos a uma das três grandes áreas  do conhecimento (Saúde, Gestão e Engenharia e Licenciaturas). Os resultados obtidos pretendem ser fotografias das linhas de chegada tentando mensurar, à luz das Diretrizes Curriculares de cada curso, os conhecimentos dos formandos. Além do conceito ENADE de cada curso, cada formando tem acesso à sua avaliação individual, via relatório individual de desempenho, onde ele pode se situar relativamente aos demais formandos de sua turma, bem como comparativamente aos demais formandos de sua carreira no país. Este documento, por lei, é de caráter privativo, mas pode e deve ser amplamente utilizado pelo futuro profissional em todos os contextos em que ele assim o desejar.

 

Sendo o ENADE uma fotografia na linha de chegada, se ele fosse o único indicador, poderíamos, ingenuamente, concluir que dois formandos com os mesmos resultados tenham tido desempenhos similares. A título de ilustração, se alguém na linha de chegada testemunhar a chegada simultânea de dois atletas, poderia perguntar se ambos saíram do mesmo ponto de partida. A resposta óbvia seria sim. Mas, no caso do ensino superior, a resposta é não. Cada um saiu de um ponto diverso, o qual hoje, grosso modo, pode ser medido razoavelmente pelo Exame Nacional de Desempenho do Ensino Médio/ENEM. Assim, dois atletas chegando juntos, se um saiu de um ponto mais distante, o seu desempenho é superior ao outro que correu menos. Por isso é previsto um outro indicador, o índice que representa o conhecimento agregado pelo curso superior ao aluno (IDD). Neste caso, se o ENADE representa mais adequadamente a qualidade do formando, o IDD diz respeito mais à qualidade do curso em si no seu papel de formar o aluno ao longo da graduação.

 

Com o tempo, restou evidente que seria aconselhável criar um novo indicador que combinasse esses dois insumos (ENADE e IDD) e incluísse outros igualmente relevantes, tais como a qualificação do corpo docente, incluindo titulação e regime de trabalho, e uma avaliação pelos formandos das condições oferecidas para o desenvolvimento do processo, incluindo organização pedagógica, infraestrutura etc.

 

Em 2008, com a participação da Secretaria de Ensino Superior/SESu, da qual eu era o secretário, foi desenvolvido no MEC o Conceito Preliminar de Curso (CPC), com a intenção de ajudar a estabelecer um conceito apropriado a cada curso de graduação, incluindo ENADE, IDD e os demais indicadores. Na mesma oportunidade, foi implantado o Índice Geral de Cursos (IGC), previsto para fornecer um conceito para a instituição como um todo, onde os CPCs resultantes das avaliações dos últimos três anos seriam agregados às avaliações dos programas de mestrado e doutorado.

 

Na semana passada, o INEP, que realiza avaliações qualificadas, liberou separadamente o ENADE  e o IDD e só liberará o CPC em novembro próximo. Assim, temos um hiato onde as especulações podem, eventualmente, levar a conclusões menos embasadas do que elas seriam se ambos, ENADE e CPC, fossem liberados juntos. Por exemplo, conclui-se, somente pelo ENADE, que as universidades federais foram bem melhores do que as instituições do setor privado. Na verdade, o que atesta o ENADE isoladamente é que os formandos das federais obtiveram, em média, notas superiores que os formandos do setor privado. No entanto, visto separadamente, está oculto que os estudantes ingressaram no ensino superior diferentemente, sendo de conhecimento geral que os ingressantes das federais, em média, entram mais bem preparados, fruto de processos seletivos mais concorridos. Quando observados à luz dos CPCs, de fato, as públicas evidenciam, em média, um melhor desempenho, ainda que essas distâncias sejam menores do que as observadas somente pelo ENADE e é visível que as distâncias estão diminuindo.

 

Sobre IGC, que retrata a qualidade da instituição, interessante observar, a partir dos dados disponíveis de 2015, que de 193 universidades somente 15, todas elas públicas, ostentam o conceito máximo 5, considerado de excelência. Entre as universidades com conceito 4, equivalente a muito bom, temos 18 universidades privadas, sendo que destas somente quatro são com fins lucrativos. A Universidade Estácio de Sá tem o orgulho de ser uma das quatro, especialmente porque fruto de um crescimento sistemático e sustentável.

 

Enfim, indicadores de qualidade são relevantes, mas há que se tomar extremo cuidado na leitura sobre o que se está efetivamente medindo. Atualmente, temos séries históricas de CPCs e IGCs que permitem aos órgãos do MEC dispor de importantes referências em suas tarefas de regulação e supervisão. Da mesma forma, a sua publicização, na sua forma mais completa, atende ao pressuposto de informar bem ao cidadão sobre elementos de qualidade dos serviços educacionais à disposição no país.

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Este artigo, em versão resumida, com o título “Ampla avaliação” foi publicado no Jornal O GLOBO em 25 de setembro de 2017.

Figura da Empresa Brasileira de Comunicação – EBC, disponível em:

http://agenciabrasil.ebc.com.br/sites/_agenciabrasil2013/files/unb2.jpg

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