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quinta-feira, 2 de abril de 2020 aprendizagem, Educação e Tecnologia | 13:30

É a cabeça, irmão!

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Durante a campanha presidencial, em 1992, na qual Bill Clinton se elegeria, seu assessor, James Carville, cunhou a célebre frase: “É a economia, estúpido!”. Entre os ditos mais populares aparece: “O mais importante é ter saúde!”. Frases retratam períodos e expressam de forma sintética períodos que vivenciamos.

 

Presenciamos uma falsa contradição entre salvar vidas ou socorrer economia e empregos. Menos mal que a ciência ajudou a decifrar e está claro a quase todos que a melhor estratégia é nos confinarmos ao máximo, excluindo os essenciais, e gradativamente aprendendo a lidarmos com um futuro e desejável retorno à nova normalidade.

 

A questão deste texto é como lidarmos com o confinamento. Algo além do imprescindível lavar as mãos, estocar somente o razoável via compras online etc. Ainda não sabemos onde a frágil corda da nova situação pode estourar. Podemos ter falta de suprimentos, mas não creio que ocorrerá com gravidade, ao menos não em cenário razoável de algumas semanas ou algo que não ultrapasse um ou dois meses. O problema mais grave do confinamento, além dos inerentes demais, é (ou será) a cabeça.

 

Tal qual o vírus, para saúde mental não há remédio universal. Cada cabeça uma sentença, posologia e remédio diversos. Mesmo assim, há algo que ajudará a todos: a percepção da impermanência, de que tudo muda e de que estamos em constante movimento. Pode parecer simples, mas não é. É profundo e é complexo.

 

Aprendi com o amigo pensador Tadany que, em sânscrito, é chamado de “nitya” aquilo que sempre está. Por sua vez, “anitya” é aquilo que nem sempre está. Nesta crise fundamental despertar a sabedoria associada à “viveka”, ou seja, o discernimento do que é “nitya” e do que é “anitya”.

 

Uma boa estratégia para lidar com a natural ansiedade dos tempos atuais é recorrer à abordagem budista acerca da percepção da realidade via o conceito chave de “impermanência”. No budismo é assumido que “nada é permanente, a não ser a própria impermanência das coisas”. Assim, o conceito de impermanência está estritamente ligado ao da variância do mundo. Nada é permanente ao longo do tempo. Tanto as causas como as condições se alteram constantemente e o seu resultado, inexoravelmente, também varia.

 

A impermanência, a partir da ótica budista, deve ser vista conectada a outro conceito, a onisciência, conhecida como “a plena atenção”.  A onisciência possibilitaria ao seu praticante perceber a impermanência do mundo e assim se libertar de apegos àquilo que em sua essência é variante, e, portanto, causa de sofrimento. Apesar das duas visões serem próximas, o fato de se introduzir o elemento de consciência no processo permite atingir a necessária percepção da variância do mundo.

 

Segundo o budismo, todos os fenômenos são impermanentes e nada no universo perdura para sempre, tudo se transforma continuamente e caminha para a própria dissolução. Consequentemente, é indicado não nos apegarmos demais às coisas, pois, afinal, todas as coisas são temporárias. O apego gerará, inevitavelmente, sofrimento, dado que nada perdura para sempre.

 

Os pensamentos acima podem ser traduzidos em três níveis. De forma resumida: i) As coisas não duram, isto é, elas, constantemente, surgem e desaparecem. As coisas boas acabam e as coisas ruins acabam, bem como as coisas neutras também acabam; ii) As coisas se transformam, mesmo enquanto elas duram. Elas nunca são as mesmas, elas estão em constante alteração; iii) As coisas não têm sustentação plena ou continuidade absoluta. Embora elas pareçam surgir e se transformar, de fato, esses fenômenos se dão por causas que, por sua vez, também estão sujeitas a transformações e surgimentos-desaparecimentos.

 

Claro que o budismo é muito mais profundo e complexo do que a simplificação superficial que este limitado espaço permite e que o autor, inexperiente no tema, alcança. A ideia, quase ingênua, é tentar contribuir para que a nossa quase generalizada angústia possa dar espaço a pensamentos racionais e a imprescindível esperança nas mudanças sempre em curso.

 

Nesta crise, quando o tempo do confinamento parecer demasiadamente insuportável, percebamos que “é a cabeça, irmão!”. Precisamos resistir, colaborando solidariamente com todos.  Ficando em casa quem pode, aplaudindo aqueles que precisam trabalhar e acreditando que superaremos esta crise. Sairemos dela, todos, melhor do que entramos. Assim seja.

 

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