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sexta-feira, 11 de outubro de 2019 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior | 17:11

ENSINAMENTOS CONTEMPORÂNEOS DA GRÉCIA ANTIGA

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Parmênides nasceu em Eleia, na Grécia Antiga, por volta de 530 a. C., e a sua filosofia se baseia na concepção de que o ser é único, imutável, infinito e imóvel, sendo sempre, na sua essência, idêntico a si mesmo. O filósofo também defendia que a aparência sensível do mundo não existe. O que o filósofo quer dizer é que o nosso conhecimento sensitivo das coisas só nos dá uma ilusão do movimento, uma aparência, sendo que apenas o conhecimento intelectivo permite que se conceba a realidade como idêntica a si mesma.

 

Ele foi, portanto, um forte defensor da unidade, do imobilismo e da existência de um ser único e soberano. Para Parmênides, havia uma espécie de organização racional do universo que era infinita, indivisível, imutável e imóvel, centrada no que ele chamou de “ser”. Tudo o que existia possuía o “ser” dentro de si.

 

Parmênides teve forte influência sobre a filosofia platônica e as gerações que se sucederam desde então. Ele tentou ordenar a realidade a partir de duas classes: “aquelas que são” e “aquelas que não são”. Por exemplo, ao observar a luz e a escuridão, notou que a escuridão nada mais era do que a negação da luz. Após denominar esses pares de opostos como “ser” (positiva) e “não-ser” (negativa), postulou também que “o ser é e o não-ser, simples ilusão, não é”.

 

Heráclito, contemporâneo de Parmênides (embora não haja registro de terem se encontrado), nasceu em Éfeso, digno representante da escola jônica. Heráclito, diferentemente, de Parmênides, não considerou a unidade material e o imobilismo como elementos originários de tudo. Pelo contrário, enxergava o mundo e a natureza como em constantes movimentos. Tudo muda o tempo todo, sendo o fluxo perpétuo, constante movimento, a principal característica da natureza. Seu pensamento foi eternizado na imagem de que “uma mesma pessoa não pode se banhar duas vezes no mesmo rio, dado que, na vez seguinte, nem ela e nem o rio seriam os mesmos”.

 

Parmênides e Heráclito se transformaram em fontes diversas e conflitantes acerca da noção da essência do ser. O que era a essência do “ser” de Parmênides é desprezado por Heráclito, adepto a mutabilidade constante e a relação mediada por um duelo permanente entre contrários, base do que seria conhecido, posteriormente, como “dialética”. Assim, enquanto Parmênides defende que não há mudança, pois as essências permanecem sempre as mesmas, Heráclito defende que a única essência é a mudança contínua das coisas, dos seres.

 

Fazendo um curso sobre Nietzsche com a filósofa Viviane Mosé, tive a oportunidade de repensar sobre este conflito entre um Parmênides, defensor de imobilismo radical e, de outro lado, um Heráclito propugnando um fluxo transformador permanente. Mais especialmente acerca de quanto esses dois caminhos, bastante distintos um do outro, podem colaborar na percepção do mundo contemporâneo.

 

Além disso, como físico, é possível interpretar a grande virada do início do século XX, com o advento da física quântica, em oposição ao mundo newtoniano, como parte do conflito acima descrito. Nietzsche pode ser visto como um visionário de algo que só viria a acontecer nas décadas seguintes à sua morte ao final do século XIX.

 

A física newtoniana se ancora no amadurecimento do método científico, representado por Galileu no século XVII (observação, lógica e experimentação). Newton transcende Galilei, introduzindo o cálculo diferencial e integral, expressando o comportamento da natureza por leis. Leis que regem a natureza, que nos contam, com precisão, como ela se comportará, independente de realizarmos a experiência. São as leis da mecânica, da termodinâmica e do eletromagnetismo, entre outras.

 

Na segunda metade do século XIX, período de Nietzsche e tantos outros pensadores relevantes, há uma crença enorme na potência da chamada ciência moderna, ao ponto de alguns acreditarem que as ciências humanas poderiam reproduzir, em termos de método, aquilo as ciências da natureza teriam atingido. Nietzsche reconhecia naquela ciência as marcas de Parmênides e a visão do ser imutável. Assim, sua crítica à religião e à moral incluía, com o mesmo vigor, sua oposição à ciência da época. Segundo ele, ela seria incapaz de contemplar o fluxo perpétuo, a impermanência do ser e a dialética de Heráclito.

 

A Física Clássica, grosso modo, parte da existência em si do objeto, o ser em si, cabendo ao investigador extrair dele suas propriedades, tipicamente inerentes e imutáveis. Tão mais adequado o processo quanto mais o observador mantiver distância da coisa a ser observada, sendo a impessoalidade e a imparcialidade condições absolutamente indispensáveis ao correto processo científico.

 

A Física Quântica, surgida com a inauguração do século XX, apresenta uma nova perspectiva da ciência, impactando e aprofundando o método. O objeto, a coisa em si, carece de significado antes que alguma interação com ele ocorra. O ser não existe a priori. Ele só é passível de conhecimento à medida que com ele interagimos, medimos, testamos etc. Rigorosamente, a única aceitável definição do ser está associada aos resultados frutos das múltiplas experiências que tivemos (e medimos) com o objeto. Fora desse contexto, ele é uma abstração. Da mesma forma, observador e objeto observado se acoplam, sendo indissociáveis um do outro, relacionados entre si via uma linguagem, a linguagem construída pela Física Quântica.

 

Claro que se trata de algo muito mais sofisticado e profundo do que aquilo que cabe num parágrafo sobre algo tão complexo. A simplificação somente pretende evidenciar que a mudança de abordagem é significativa. Enquanto a clássica pretende e acredita na possibilidade da descrição perfeita do objeto em análise, a quântica, de certa forma, se permite ser vista como uma linguagem, com forte ancoragem experimental. Algo que descreve a relação entre o observador e aquilo que é observado, contemplando nas suas ferramentas indissociáveis estatísticas, indeterminações e incertezas naturalmente incorporadas. Isso tudo sem prejuízo de se saber mais do que se sabia antes. Mais do que isso, entender coisas que não seriam passíveis de serem compreendidas antes.

 

Guardadas as peculiaridades e particularidades dos tempos e das abordagens, podemos associar a Ciência Moderna, moldada na Física Clássica, como uma filha dileta de Parmênides. Por sua vez, a Física Quântica, inspirado da visão contemporânea de ciência, claramente, parece estabelecer uma coerência mais próxima com Heráclito.

 

Os tempos atuais, palco do pós-moderno, fruto da sociedade pós-industrial e inundados de fake news e de pós-verdades, podem ser vivenciados tanto à luz de Parmênides como, alternativamente, inspirados por Heráclito. A escolha é nossa. Na primeira perspectiva, tendemos a evidenciar a ausência de vida, o predomínio da ansiedade, onde, provavelmente, as frustrações são quase inevitáveis. Difícil não se sentir horrorizado sobre o presente e mais ainda sobre o futuro. Tudo parece caminhar linearmente para o fracasso, enquanto civilização.

 

Do ponto de vista de Heráclito, calcado em um universo em expansão, cuja maior característica é o fluxo, que permite até mesmo que, finda a expansão, ele se contraia novamente e repita ciclos intermináveis, se for o caso. Heráclito está presente nas palavras da arte de Lulu Santos: “…nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia; tudo passa, tudo sempre passará; tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo….”

 

Claramente, os dilemas e os desafios não se resolvem pela simples mudança do olhar, mas, certamente, entender os conflitos nas suas dimensões históricas nos consola e, se possível, ilumina. Ao menos sabemos que nós, humanos, nos permitimos enxergar as mesmas coisas de múltiplas maneiras diferentes. Cada qual escolhe suas armas interpretativas e suas bagagens de sobrevivência que permitam surfar nas ondas do mar da vida. Ou, alternativamente, com as ondas briguem, com poucas chances de vencer o mar…

 

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Figura: Monte Olimpo – representação de Zeus na Grécia Antiga

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