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Arquivo de agosto, 2019

segunda-feira, 19 de agosto de 2019 Sem categoria | 10:08

“NÃO SAIAM SEM NOS DAR TCHAU”

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Vivemos, atualmente, no Brasil o risco efetivo de uma fuga em massa de cérebros, o que significaria cristalizar de vez nossa dificuldade extrema de competirmos, em termos de produtos e serviços, em escala global. Sem ciência, sem inovação e sem capacidade tecnológica instalada, estaríamos decretando nosso destino de sermos um país, na melhor das hipóteses, exportador de matérias-primas e de alimentos sem valor agregado. Assim, em um mundo impregnado pelos avanços das tecnologias digitais e suas consequências na vida cotidiana, ocuparíamos, enquanto nação, o espaço de meros passivos e acríticos consumidores.

 

Este êxodo em curso acelerado é fruto da queda nos investimentos em pesquisa, tanto pura como aplicada, e em inovação, seja ela tecnológica ou não. Na verdade, os dados apontam que as verbas destinadas às agências de fomento à pesquisa e à inovação têm caído nos últimos anos, mas, neste ano, a situação se agravou mais ainda. Em 2019, configura-se um contingenciamento de 30% no Ministério da Educação (MEC) e de 42% na pasta de Ciência e Tecnologia (MCTIC).

 

Um dos principais afetados é o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que provê parte relevante dos recursos à pesquisa científica. A título de exemplo, um dos programas mais estratégicos do CNPq é o de Bolsa de Pesquisa e Produtividade. O Programa é de custo relativamente barato, mas de estímulo crucial àqueles que se dedicam à produção de conhecimento de ponta no país. São menos de uma centena de milhares de pesquisadores, os quais passam pelo exigente crivo de comitês de especialistas, que respondem pela maior parte do conhecimento de fronteira que é produzido no cenário acadêmico nacional.

 

Com os cortes recentes, as bolsas de pesquisa têm sido pagas por suplementações emergenciais, mas sem nenhuma garantia da continuidade do próprio Programa. Ou seja, mesmo que, esperançosamente, findem por receber, os cientistas já se sentem suficientemente frustrados a ponto de procurarem, de imediato, oportunidades no exterior. São naturalmente atraídos por novos espaços onde possam, com maior tranquilidade, se dedicar às suas tarefas, que demandam condições adequadas de trabalho, persistência, concentração e respeito mínimo.

 

O Governo Federal prometeu elevar o investimento em ciência e tecnologia a 3% do PIB até o fim do atual mandato, mas a realidade, ao menos até aqui, tem sido bem diferente. O orçamento está em queda e distante de superarmos um percentual pouco acima de 1% do PIB, aqui considerando o total geral investido, tanto pela União como pelo setor privado.

 

Um apagão de investimentos, somado a um estado geral de desalento espalhado pela comunidade científica, podem, na prática, quebrar a coluna vertebral do sistema de ciência e tecnologia. Este sistema, construído a duras penas desde a década de 1950, tem sido um processo longo e a sua destruição pode ser muito rápida. Se isso vier a ocorrer, sua futura reconstrução é uma possibilidade ainda distante e incerta.

 

Curiosamente é sim da natureza da ciência desejáveis processos migratórios de cientistas. É muito salutar que pesquisadores tenham experiências em muitos países. Portanto, não é necessariamente ruim que nossos talentos passem períodos fora, muito menos que possamos atrair cientistas dos demais países. Ao contrário, nada mais salutar do que esses intercâmbios, mas eles devem ser frutos de um processo estimulado e planejado; jamais motivados, unicamente, pela desesperança com a realidade local. Pior, muitas vezes, sem deixar laços que permitam compartilhar de forma multilateral os avanços futuros no conhecimento.

 

Escrevo isso porque é preciso também ficar. Insisto porque é preciso, mais do que nunca, resistir. Tudo vale a pena, dado que há uma nação em construção que demanda ampliar seu nível de produtividade, que se reflita em produtos e serviços competitivos globalmente. Não temos como fazê-lo sem estarmos ancorados em profissionais preparados e fazendo uso e gerando produções científicas e tecnológicas no estado da arte.

 

Em outras palavras, em nome de quem fica, dado que, voluntariamente, ficaremos, por favor: “não saiam sem nos dar tchau”.

 

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sábado, 3 de agosto de 2019 Sem categoria | 02:37

A impermanência e a esperança

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O mundo contemporâneo nos apresenta desafios complexos e, muitas vezes, nada confortáveis. O Brasil, neste contexto atual, torna alguns deles mais complicados ainda. Portanto, é bastante compreensível que a situação nacional desperte em cada um de nós algo que se aproxima de um sentimento de angústia e de falta de esperança.

 

As ações no sentido de alterar o quadro vigente, em todos os campos, são imprescindíveis e insubstituíveis. Mesmo assim, é fundamental que tenhamos todos a devida calma, permitindo que as mudanças ocorram e que elas sejam efetivas e adequadas. Para tanto, na expectativa da lucidez produtiva, há que se procurar inspiração onde quer que ela seja possível.

 

Não há receitas milagrosas ou únicas, tampouco soluções prontas, para tratar desse justificável sentimento de ansiedade com o estado atual das coisas. Neste sentido, entre várias possíveis abordagens, o budismo pode ser contributivo na percepção da realidade, via o conceito chave de “impermanência”.

 

No budismo é assumido que “nada é permanente, a não ser a própria impermanência das coisas”. Assim, o conceito de impermanência está estritamente ligado ao da variância do mundo. Ou seja, nada é permanente ao longo do tempo. Tanto as causas como as condições se alteram constantemente e o seu resultado, inexoravelmente, também varia. Este complexo conceito dentro da tradição budista pode contribuir com a adequada percepção da realidade atual.

 

A impermanência, a partir da ótica budista, deve ser vista conectada a um outro conceito, a onisciência, conhecida como “a plena atenção”.  A onisciência possibilitaria ao seu praticante perceber a impermanência do mundo e assim se libertar de apegos àquilo que em sua essência é variante, e, portanto, causa de sofrimento. Apesar das duas visões serem próximas, o fato de se introduzir o elemento de consciência no processo permite atingir a necessária percepção da variância do mundo.

 

Segundo o budismo, todos os fenômenos são impermanentes e nada no universo perdura para sempre, tudo se transforma continuamente e caminha para a própria dissolução. Consequentemente, é indicado não nos apegarmos demais às coisas, pois, afinal, todas as coisas são temporárias. O apego gerará, inevitavelmente, sofrimento, dado que nada perdura para sempre.

 

Os pensamentos acima podem ser traduzidos em três níveis de reconhecimento, detalhados, de forma simples, da seguinte maneira: i) As coisas não duram, isto é, elas, constantemente, surgem e desaparecem. As coisas boas acabam e as coisas ruins acabam, bem como as coisas neutras também acabam; ii) As coisas se transformam, mesmo enquanto elas duram. Elas nunca são as mesmas, elas estão em constante alteração; iii) As coisas não têm sustentação plena ou continuidade absoluta. Embora elas pareçam surgir e se transformar, de fato, esses fenômenos se dão por causas que, por sua vez, também estão sujeitas a transformações e surgimentos-desaparecimentos. Não há uma substância subjacente permanente que perdure por trás de qualquer ocorrência.

 

Claro que o budismo é muito mais profundo e complexo do que a simplificação superficial que este limitado espaço permite e que o autor, inexperiente no tema, alcança. A ideia, quase ingênua, é tentar contribuir para que a nossa quase generalizada angústia possa dar espaço a pensamentos racionais e a imprescindível esperança nas mudanças sempre em curso.  Neste momento da história política do país o que mais precisamos é de racionalidade ativa. Que a inspiração, calcada na sabedoria budista, possa ser, eventualmente, útil. Afinal, são reflexões milenares sobre este universo, felizmente em constante transformação.

 

Representações artísticas destes pensamentos podem ser encontradas em diversas obras. Unicamente como ilustração, destaco a canção “Como uma onda”, de Lulu Santos (1983). Quem tiver a oportunidade de rememorá-la agora perceberá que a arte pode ser mais eficiente do que todas estas palavras.

 

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