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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 05:17

Tio Luís e as competências transversais

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Tailor

 

Durante o ano, com maior ou menor sucesso, escrevo para os leitores, procurando temas que, eventualmente, lhes possam ser de interesse. Assim, tanto o formato como o conteúdo têm como referência balizadora principal quem lê, e não quem escreve.

 

Neste último artigo do ano, concedo-me a liberdade de escrever para mim mesmo, no tema que me agradar e no formato que resultar, sem nenhum constrangimento. Uma espécie de presente de Natal que decidimos nos dar.

 

Tive um tio, já falecido, chamado Luís José Rodrigues, ainda que irmão de meu pai de sobrenome Mota. Uma história complicada, a família homenageava por vezes os parentes do pai (Rodrigues), por outras os parentes da mãe (Mota). Assim, meu Mota, por curioso que seja, vem da avó paterna.

 

Tio Luís era alfaiate, um bom alfaiate. Dominava um ofício e dele basicamente sobreviveu e com dignidade. Seu mundo não exigiu nunca mais do que isso. Era um período de especialidades e estas perduravam, ainda que com alguns sobressaltos. As camisas volta ao mundo de nycron e as calças jeans e similares foram alguns desses obstáculos a quem produzia roupas personalizadas a partir de cortes de tecidos. As turbulências devem tê-lo atingido e, ao longo da vida, o fizeram testar outras atividades, mas nada que o tivesse afastado em definitivo da missão associada ao ofício de que gostava.

 

Aquilo que tinha um tom de cotidiano e de relativa nobreza, fazer as indumentárias sob medida, rapidamente se transformou em quase esquisitice. Mesmo que eles fossem, e eram, maravilhosos e competentes, o ofício se transformaria em atividade de nicho, para poucos de gosto extremamente refinado ou simplesmente hábito remanescente em alguns mais velhos.

 

Uma mudança drástica, ainda em curso, são os desafios de sobrevivência para profissões tradicionais no ambiente contemporâneo. Sobressai-se agora a exigência de dominar competências transversais, sem as quais podemos não dar conta das modificações sociais que enfrentamos. Competências transversais dizem respeito à aplicação de conhecimentos adquiridos previamente na solução de problemas novos ou de suas utilizações em ambientes diferentes dos originais. Este saber no meio acadêmico inclui a adoção de estudos e abordagens de natureza estritamente disciplinar em contextos inter, multi e transdisciplinares.

 

Esta especial característica, competência transversal, habilita a integrar conhecimentos de áreas diversas do saber especialmente na execução de missões complexas. Tal habilidade inclui o domínio da comunicação das fases em evolução, bem como das conclusões, para plateias de especialistas e de não especialistas, ao longo de completar uma tarefa, seja ela qual for.

 

A aquisição de tal competência é progressiva e ilimitada, mas em todos os níveis permite e estimula continuar aprendendo, caracterizando-se pela relevância de trabalhar em equipe, onde naturalmente as características e habilidades são múltiplas e diferenciadas, constituindo-se em ferramentas indispensáveis em um mundo de educação permanente ao longo de toda a vida.

 

Os mestres envolvidos nos processos de aprendizagem dessas competências se caracterizam pelas abordagens que visam a fortalecer no educando a capacidade de aprendizagem independente, emancipatória na prática de aprender a aprender continuamente.

 

Os ingredientes indispensáveis na formação educacional com tais perspectivas incluem, entre outros: capacidade de comunicação e de estabelecer diálogos positivos e enriquecedores; habilidade de analisar e sintetizar informações de natureza complexa; despertar para a crítica baseada em argumentos claros, especialmente expostos à luz de evidências; estimular o pensamento baseado em metodologia científica, fazendo uso de lógicas sofisticadas e em elementos de modelagem e simulação; respeito por espaços de liberdade, pelas características individuais e apreço pela diversidade, como elementos imprescindíveis estimuladores de processos criativos e inovadores; desenvolvimento de compromissos não negociáveis com a ética, com a cultura de paz, com os valores democráticos mais fundamentais e aversão a toda forma de preconceito; e, por fim, ênfase absoluta em elementos personalizados de flexibilidade, adaptabilidade e de motivação.

 

Tio Luís jamais imaginou que um dia vivenciaríamos um universo onde toda a informação pudesse estar absolutamente acessível, instantânea e basicamente gratuita. Mais do que isso, inimagináveis para ele as consequências deste novo estado de coisas tal a radicalidade de mudanças nas profissões, no mundo do trabalho e nas relações entre as pessoas. Porém, alguns elementos essenciais devem permanecer intactos. Entre eles, a sobriedade, a honestidade, a tolerância e a humildade que estimulam a aprender sempre e com respeito aos que conosco convivem. São elementos que permanecem, sempre. Isso acredito que Tio Luís já sabia e ele estava certo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura em Domínio Público, como visto em: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b1/The_Village_Tailor_-_Albert_Anker.png

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