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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 09:40

O método é a essência e o obscurantismo o risco

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O conhecimento é algo mais amplo do que o conhecimento científico, englobando todas as crenças, as verdades pessoais e a cultura popular. Por sua vez, conhecimento científico é aquela limitada parte baseada no método científico.

 

Não se deve confundir verdade com ciência. Nem toda verdade é conhecimento científico. Por exemplo, individualmente, posso ter como crença que exista vida em outros planetas. Isso pode até ser verdade, sem que se constitua em verdade científica, dado não atender aos pressupostos do método científico (observação, lógica e experimentação). A separação entre os mundos da religião e da ciência, a partir desse raciocínio, pode se dar de forma clara, respeitosa e indispensável.

 

A liberdade religiosa e a livre manifestação de ideias são pressupostos inegociáveis dos tempos modernos. Felizmente, nossa sociedade garante espaços apropriados, tanto para o exercício da fé como para sua divulgação aos interessados.

 

A ciência moderna do século XVII, ancorada na observação, lógica e experimentação, conforme sintetizado por Galileu Galilei e seus contemporâneos, somada às ferramentas da matemática, a exemplo do cálculo diferencial e integral de Isaac Newton, permitiram entender e conhecer melhor a natureza e desenvolver leis, tais como as leis da mecânica, da termodinâmica e do eletromagnetismo.

 

Foi a partir da ciência moderna que tecnologias e conhecimentos extraordinários foram desenvolvidos nos séculos seguintes, tendo a máquina a vapor e a Teoria da Evolução de Darwin, e seus desdobramentos, como símbolos. Graças a esses avanços fabulosos, foi possível que a expectativa de vida, que ao início do século passado era de pouco mais do que 40 anos, quase dobrasse nos dias atuais. A Revolução Industrial, o desenvolvimento dos antibióticos, o saneamento básico, o conjunto de ferramentas tecnológicas e as novas visões de mundo colocadas ao nosso dispor representaram, graças ao método científico, enormes possibilidades de superarmos a fome, a miséria e as doenças.

 

O criacionismo, enquanto explicação para a origem e desenvolvimento da natureza, diz respeito aos conhecimentos experimentados pelo mundo da fé e não da ciência; o darwinismo e outras teorias científicas, por sua vez, pertencem ao espaço da ciência – tanto que podem e são contestadas, por não terem o caráter doutrinário como princípios.

 

Quando ouvimos sugestões de que em aulas de ciências se ensine, em pé de igualdade, as duas visões, criacionismo e darwinismo, é preciso deixar claro o que é do campo científico e o que vem do campo religioso, para evitar que se percam conquistas e saudáveis distinções que marcam o processo civilizatório contemporâneo. Abrem-se as portas para um inaceitável obscurantismo e intolerância, cujos limites, se cruzados, custarão demasiadamente caro para, posteriormente, tentarmos recuperar os danos causados a ambas as posições.

 

Um dos papeis principais da educação nos tempos atuais envolve preparar um cidadão capaz de entender, de forma emancipada, o mundo à sua volta. Para tanto, necessário desenvolver raciocínios lógicos amparados em métodos científicos, a busca do contraditório e o estímulo do espírito crítico, bem como ter capacidade analítica apurada, estar preparado para a aprendizagem permanente ao longo de toda a vida e ser tolerante, flexível e solidário. Sem domínio e clareza acerca do método, certamente, não disporemos de profissionais e cidadãos para alavancar um desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável.

 

 

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Artigo “Método e Obscurantismo” publicado em 13/12/2018 em Jornal DCI – Diário Comércio Indústria e Serviços.

 

Figura em Domínio Público em: https://www.flickr.com/photos/montrealprotest/20254442361

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terça-feira, 18 de setembro de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 15:07

Os significados das palavras aluno e educador

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O vocábulo “aluno” provém do latim alumnus, significando, literalmente, criança de peito ou aquele que se alimenta de leite. Em outras palavras, um lactante intelectual ou um discípulo. Alumnus ou alumni é proveniente do verbo alere que, em latim, significa alimentar, sustentar, nutrir ou fazer crescer.

 

Erroneamente, alguns textos tratam a palavra “aluno” como sendo a junção do prefixo grego a, que corresponderia a ausente ou sem, e o sufixo luno, derivado da palavra latina lumni, significando luz. Portanto, na incorreta versão, aluno seria aquele sem luz ou sem conhecimento. A falsa etimologia acima é menos inocente do que parece. Trata-se de equívoco que encontrou terra fértil naqueles que veem o aluno como alguém mais passivo no processo educacional. Ao tratá-lo como sem luz, corre-se o risco de findar transformando em fato algo que era, de início, somente uma simples confusão etimológica.

 

Há também uma sutileza complementar, não tão evidente, associada à possível distinção entre aluno e estudante. Embora não sejam conceitos rígidos, tende-se a utilizar o termo aluno para designar aquele que pratica a atividade de assistir a aula; enquanto estudante se refere àquele que pratica a atividade de estudar. No primeiro caso é, essencialmente, uma atividade coletiva e, predominantemente, passiva; no segundo é, fundamentalmente, de caráter mais individual e decorrente de uma postura, necessariamente, ativa.

 

Quanto ao “educador”, é normal ser tratado indistintamente de “professor”, ainda que não signifiquem exatamente a mesma coisa. Professor é, de forma simplificada, o profissional que ensina uma ciência, uma arte, uma técnica, uma disciplina. Educador, por sua vez, transcende as atividades descritas, tendo como responsabilidade inerente a formação integral do educando. O termo “educador” tem origem no vocábulo latim educatore, aquele que cria ou nutre. Todo educador é necessariamente um professor, sem que não obrigatoriamente o contrário seja verdade.

 

Educação, da mesma forma, se diferencia de ensino. O físico Alberto Einstein, falecido em meados do século passado, optou por expressar tal distinção na forma: “educação é aquilo que fica depois que esquecemos o que foi ensinado ou aprendido”. Nesse sentido, educação é um ato que envolve o ser humano holisticamente, contemplando todos os seus aspectos, sejam físicos, cognitivos ou metacognitivos. Nessa perspectiva, o aluno é entendido como um ser dotado de saberes, qualidades e potencialidades, a quem o educador não está restrito a repassar o conteúdo de sua disciplina, mas sim em emancipá-lo à medida que ele é capacitado para aprender contínua e permanentemente ao longo da vida.

 

É possível uma visão pela qual o educador, ele próprio um sujeito em constante processo de aprendizagem, se diferencie do professor tradicional, evitando se considerar o dono do saber e única parte ativa do processo educacional. O educador é capaz de construir, juntamente com seus alunos, um aprendizado dinâmico, nos quais os eventuais erros do educando compõem base fundamental para reflexões e avanços educacionais.

 

As distinções acima abordadas tratam de diferenças que não são simples, tampouco estanques, dado serem partes de processos complexos. O que sabemos é que, no mundo contemporâneo, o ensino tradicional caminha em direção a uma educação híbrida, flexível e permanente. Neste contexto, os conceitos mais apropriados acerca do aluno e do educador irão ganhando sentidos mais claros à medida que educação se torna menos rotina ou repetição e, progressivamente, se transforma em atividade mais próxima da arte, demandando criação em constante evolução.

 

 

 

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Imagem em Domínio Público:

https://pt.freeimages.com/photo/baby-boom-1240639

 

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quinta-feira, 30 de agosto de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 16:08

Saber aprender é mais do que aprender

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Houve um período, em um passado bem recente, em que o domínio de determinado conteúdo, acrescido de alguns procedimentos e técnicas, poderiam ser suficientes para que um profissional atendesse plenamente as demandas daquela época. O modelo de desenvolvimento econômico e social era compatível com tais exigências e as escolas, em todos os níveis, corresponderam às expectativas, cumprindo de forma exemplar o que estava previsto.

 

O drama é que o tempo, inexoravelmente, flui e mudanças drásticas, rápidas e profundas estão em curso, alterando de forma radical esse contexto. As tecnologias digitais apontam, a passos acelerados, para uma sociedade em que a informação estará totalmente acessível, de forma instantânea e basicamente gratuita. Educacionalmente, aquilo que um dia havia sido suficiente permanece necessário, mas novos ingredientes e características adicionais estão presentes com a mesma, ou maior, importância.

 

Na Revolução Industrial e, especialmente, durante o século XX, os predicados de um bom profissional estavam associados aos padrões de produção nos moldes fordistas e tayloristas e nas competências que lhe fossem compatíveis. O mundo contemporâneo apresenta desafios inimagináveis há poucas décadas, passando por um aspecto essencial associado ao processo de aprendizagem. Se o relevante era o que havia sido aprendido, hoje o que mais importa é o quanto o educando aumentou sua compreensão e controle sobre seu próprio processo cognitivo. Ou seja, o incremento do nível de consciência acerca de como ele aprende, permitindo, em conjunto com os demais atores do processo, gerar estratégias educacionais personalizadas que atendam suas particularidades e peculiaridades.

 

Denomina-se metacognição a esse conjunto de abordagens que transcende a cognição simples. As habilidades metacognitivas incluem: i) o conhecimento da cognição, contemplando o conhecimento dos fatores associados ao desempenho na aprendizagem, o domínio de vários tipos de estratégias adotadas para aprender e saber customizar cada estratégia para situações específicas; e ii) a regulação da cognição, dizendo respeito ao estabelecimento de planejamento e metas, monitoramento e controle da aprendizagem e avaliação da própria regulação, especialmente dos resultados e das estratégias adotadas.

 

Em suma, o estímulo para que os educandos reflitam sobre seus próprios processos e estratégias implica em autorreflexão e exigência de aprender trabalhar em equipe, incluindo a prática de entender o outro, desta forma promovendo a aprendizagem colaborativa e independente, indispensável em um cenário de aprendizagem permanente ao longo da vida.  No processo formativo do educando, agregam-se às características tradicionais de natureza mais técnica, um conjunto de elementos socioemocionais, os quais alguns enxergam como sendo uma recuperação de elementos humanísticos em contraposição às ênfases exclusivamente tecnológicas. Tal dinâmica pode, igualmente, ser vista à luz da priorização dos instrumentais metacognitivos (saber aprender) em complemento à versão mais antiga de cognição simples.

 

Do ponto de vista dos empregadores de profissionais de nível superior e do aproveitamento de novas oportunidades de negócios por parte dos próprios formandos, aquilo que se aprende nas abordagens clássicas do ensino superior continua sendo indispensável, ainda que insuficiente, para as atividades do universo profissional atual. No entanto, as abordagens inovadoras que privilegiam as habilidades metacognitivas serão sim as definidoras dos níveis de sucesso desses cidadãos ao longo do cumprimento de suas missões, sejam elas quais forem.

 

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Imagem em Domínio Público, como visto em: https://medicalxpress.com/news/2017-12-mastering-features-individual.html

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segunda-feira, 6 de agosto de 2018 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 14:07

Concluintes do Ensino Médio: diminuição ou novos caminhos?

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O número de concluintes do Ensino Médio Regular em 2017, algo em torno de 1 milhão e 780 mil, é 2,6% menor do que o de 2016, 1 milhão e 830 mil, aproximadamente. De fato, são números assustadores em si, porém, não é tão simples indicar que eles, isoladamente, impliquem em retração inevitável de interessados em Educação Superior nos próximos anos. Claro que o desejável seria termos um crescimento contínuo e substantivo de jovens se formando naquele nível, no entanto, há outros fenômenos ocorrendo simultaneamente e que devem ser levados em conta.

 

No último domingo (05 de agosto), foi aplicado o Exame Nacional para a Certificação de Competências de Jovens e Adultos (ENCCEJA), quando 1 milhão e 340 mil inscritos, número 7,6% maior do que no ano anterior, visam a obtenção do diploma de Ensino Médio. Parte significa deles declara a expectativa de, posteriormente, pleitear vagas no Ensino Superior. Assim, é possível observar que a diminuição de formandos no Ensino Médio Regular é compensada pelo incremento, mais do que o dobro de um ano para outro, de potenciais postulantes vindos por um outro caminho.

 

Duas observações preliminares sobre o ENCCEJA. Primeira, o exame é constituído basicamente de quatro partes: matemática; ciências da natureza suas tecnologias; linguagens e códigos; redação; e ciências humanas e suas tecnologias. Segunda, o Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM) até 2016 possibilitava o recebimento de diploma do Ensino Médio, sendo que mais de 1 milhão de postulantes ao ENEM atestavam ter tal objetivo como requisito essencial para o ingresso no nível superior.

 

Assim, parte da dinâmica de interesses e opções acima parece estar associada ao relativo e crescente desinteresse dos jovens pelo Ensino Médio Regular na forma que ele é hoje. No passado, os postulantes do ENCCEJA e de seus exames predecessores eram basicamente pessoas maduras que haviam perdido a oportunidade de estudar quando na idade apropriada. Contemporaneamente, é crescente a quantidade de jovens que preferem aguardar completar 18 anos para, via caminhos alternativos, testar seus conhecimentos e, se aprovados, obter seus certificados.

 

Interessante observar que, pela primeira vez, é significativo e crescente o percentual de candidatos ao diploma de Ensino Médio que consegue acesso ao conteúdo do exame via outras formas, que não a escola tradicional. Atualmente, há várias iniciativas inéditas e estão disponíveis um conjunto de atraentes portais educativos de qualidade, parte deles gratuitos e os demais acessíveis a baixos custos. Tais caminhos se mostram cada vez mais interessantes àqueles que expressam compatibilidade com metodologias e tecnologias que permitem ao educando aprender o tempo todo e em qualquer lugar.

 

Não deve surpreender a ninguém que acompanha os processos educacionais no Brasil o fato de que, em poucos anos, o número de matrículas do Ensino Superior na modalidade a distância superará o correspondente no presencial. Da mesma forma e mais enfaticamente ainda, quanto às crianças e os mais jovens, sempre que eles tiverem a opção de explorar novas abordagens educacionais, desde que demonstrem mais compatibilidade com as formas segundo as quais eles vivem, trabalham e se relacionam com amigos e família, parte deles assim procederá.

 

São fenômenos complexos e com variáveis múltiplas. Portanto, na tentativa de simplificá-los, corremos o risco de gerar interpretações equivocadas ou demasiadamente parciais. Porém, parece inequívoco que, em geral, a tendência aponta para um sucesso educacional relativamente maior via a adoção progressiva de metodologias híbridas e flexíveis. Ou seja, a partir da incorporação apropriada de tecnologias digitais, é possível propiciar um ensino personalizado, mais atraente e eficiente. Desta forma, temos a oportunidade de cumprir com os objetivos de uma educação de qualidade para muitos, propiciando que todos estudem, desde que atendendo à indispensável customização que leva em conta o fato de que cada educando aprende de maneira pessoal e única.

 

 

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Imagem em Domínio Público: https://pixabay.com/pt/on-line-educa%C3%A7%C3%A3o-tutorial-3412473/

 

 

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sexta-feira, 20 de julho de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior | 08:18

Educação: mais recursos versus melhor gestão

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O relatório “Aspectos Fiscais da Educação no Brasil”, divulgado pela Secretaria do Tesouro Nacional do Ministério da Fazenda no último dia 06 de julho, aborda tema pertinente e estratégico para o país. O investimento brasileiro em educação, da ordem de 6% do Produto Interno Bruto (PIB), é comparado com a média de investimentos de 5,5% do PIB dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

 

A iniciativa é meritória e os números são precisos; mesmo assim, corre-se o risco de tentar justificar investir menos em educação porque a gestão precisa ser melhorada. Tal raciocínio é tão inadequado como desprezar inadiáveis melhorias de gestão antes que sejam assegurados mais recursos para a área. Mais investimentos, aprimoramentos na gestão e corretas definições de prioridades são missões urgentes e precisam ser realizadas de forma simultânea e sincrônica. Em educação, restringir recursos é mortal, porque asfixia definitivamente, e ser desleixado com a implementação imediata de padrões de eficiência e eficácia são, igualmente, crimes de lesa-pátria.

 

O papel essencial dos processos de aprendizagem é emancipar o educando, preparando-o para a vida, em todas as suas dimensões. Uma das funções estratégicas da educação é garantir força de trabalho qualificada, tal que os produtos e serviços de um país possam ser competitivos globalmente. Dispor de uma geração educada garante ambientes domésticos que favorecem o processo de aprendizagem da próxima.  Nações com carências educacionais maiores, como é o caso do Brasil, demandarão, naturalmente, mais investimentos do que a média de seus principais competidores. Assim, em um cenário onde a população adulta é educacionalmente frágil, o Estado se sobrecarrega em sua tarefa de garantir condições adequadas aos mais jovens.

 

O relatório destaca que da despesa primária da União com educação (R$ 117,2 bilhões em 2017) quase 70% é destinado ao ensino superior e o restante à educação básica. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB), Lei 9394/96, estabelece que a educação básica é prioritariamente responsabilidade de Estados e Municípios, em regime de colaboração, e com assistência da União. Define também que a União incumbir-se-á dos processos regulatórios das instituições de educação superior e o estabelecimento do seu sistema de ensino. Assim, na prática, o aumento da proporção na arrecadação da União dos investimentos em educação de 4,7% para 8,3% entre 2008 e 2017, embora tenham impactado positivamente a educação básica, migraram principalmente para a manutenção do ensino superior. Infelizmente, o crescimento dos investimentos da União em relação ao PIB neste período, de 1,1% para 1,8%, não foi acompanhado na mesma proporção pelos Estados e Municípios.

 

O drama nacional é que, embora tenhamos registrado significativos avanços quanto à oferta de vagas em todos os níveis de ensino, permanecemos com deficiências extremas e ocupamos as últimas posições nas avaliações internacionais. A título de exemplo, no Pisa (Programme for International Student Assesment), promovido pela OCDE e dirigido a jovens na faixa dos 15 anos, estamos, entre 70 países participantes, na 63ª posição em ciências, 59ª em leitura e 66ª em matemática. São, de fato, resultados alarmantes e inaceitáveis para um país com o potencial que o Brasil tem e que precisa promover imediatamente um desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável.

 

O relatório, ainda que pertinente em sua temática, demonstra um preocupante viés ao estabelecer enquanto principal desafio o aprimoramento da gestão nos processos educacionais. O risco evidente é findar sendo mais uma explicação para cortes de investimento e menos reflexões em direção a uma visão sistêmica que vise a conjugar esforços de mais recursos acompanhados de melhorias nos processos de gestão. Em suma, investir mais e melhor é decifrar o falso dilema entre dois aspectos que não se contrapõem. Ao contrário, são interdependentes, complementares e caminhos essenciais para que tenhamos alguma perspectiva de futuro enquanto nação.

 

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Figura disponível em: https://dcvitti.com/2018/07/06/o-que-a-biblia-diz-sobre-o-capitalismo/

 

 

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segunda-feira, 9 de julho de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 11:20

Vantagens de trabalhar com educação

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Toda forma de trabalho é válida. Qualquer trabalho honesto é nobre. Mesmo assim, nem todos os ofícios são iguais; algumas tarefas parecem ser mais prazerosas e positivamente diferenciadas. Entre os trabalhos distintos, destaco educação.

 

Nada há de errado em vender produtos e serviços. Mesmo assim, se vendo alimentos, por exemplo, eles podem fazer bem ou mal. Se ingeridos em quantidade excessiva, podem engordar e prejudicar a saúde. Se meu negócio é vender automóveis, ainda que uns sejam melhores do que outros, todos, em algum nível, poluem e geram congestionamentos, além de causarem prejuízos, às vezes fatais, em casos de acidentes. A atividade no mercado financeiro, emprestando dinheiro e garantindo créditos, busca resolver problemas e promover o desenvolvimento. Ela pode dar certo e ser útil, mas pode dar errado e findar sendo catastrófico. Em certas situações só agrava a dificuldade inicial do cliente, transformando pagar o próprio empréstimo no grande drama do futuro.

 

Há inúmeros outros exemplos de produtos e serviços que se caracterizam por terem mais valor quanto mais raros e exclusivos forem, em geral, vendendo a exclusão dos demais. Por sua vez, educação é um dos poucos serviços (saúde é outro) onde mesmo quem não o adquire ganha também. Quem dela desfruta jamais viverá a circunstância de tê-la em demasia, mesmo porque chamar alguém de excessivamente educado é um elogio. O convívio em um ambiente onde todos tiveram acesso à educação não gera poluição de conhecimento ou acidentes. Até mesmo alguém que despreze educação será um privilegiado se puder desfrutar das oportunidades geradas por uma comunidade que valoriza e estimula educação.

 

O papel essencial dos processos de aprendizagem é emancipar o educando, preparando-o para a vida, em todas as suas dimensões. Uma das funções estratégicas da educação é garantir força de trabalho qualificada, tal que os produtos e serviços gerados possam ser competitivos, promovendo um desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável.

 

No ofício docente não cabe ao professor distribuir um montante limitado de conhecimento aos seus educandos. Ensinar a um não tira de quem ensina e é ilimitado a quem aprende, sejam os aprendizes quantos forem. Quando um aprende, os demais também ganham, especialmente quem ensinou, que aprende a ensinar cada vez melhor. Aprender mais não retira do que já se sabe ou de quem já sabe.

 

Educação no mundo atual, diferentemente do passado próximo, é a principal ferramenta em qualquer circunstância. Esqueça das armas, pense no conhecimento como sendo o mais efetivo instrumento de sobrevivência nas guerras contemporâneas. O único risco da educação é a sua ausência ou deficiência, ou seja, não dispor de escolaridade suficiente é caminho quase inevitável para o sofrimento e a pobreza, material e espiritual.

 

Uma pessoa educada, pelos seus comportamentos, hábitos e posturas ganha imediato respeito de todos, em qualquer lugar e sempre. Dinheiro, fama e poder também geram sentimentos parecidos, mas não iguais, dado serem circunstanciais e não perenes, além de não necessariamente sinceros.

 

No passado, ser da família com posses determinava automaticamente o futuro dos filhos. Hoje, os melhores empregos e oportunidades de negócios estão abertos a quem estuda e aprende, adquirindo conhecimento ao longo de toda a vida, seja rico ou seja pobre. E quanto mais se estuda, mais amplas as possibilidades de sucesso, de forma abrangente e ilimitada.

 

Por fim, e não menos importante: educação faz amigos. Os mais sinceros e duradouros relacionamentos são lastreados pela admiração por quem o outro é. Ainda que dinheiro e beleza pareçam concorrer no mesmo sentido, lembremo-nos que ambos são bem menos perenes do que o conhecimento adquirido e naquilo que nos transformamos em função dele. Refletindo o apreço pela educação, nada mais charmoso e atraente do que a inteligência.

 

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domingo, 3 de junho de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 17:16

Educação: quando tudo ainda é pouco

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Educação tem uma propriedade quase única no rol de produtos ou serviços em geral. Alimentos, por exemplo, quando ingeridos em excesso podem fazer mal. Automóveis, a partir de uma certa concentração, geram engarrafamento e poluição. Dinheiro, em qualquer moeda, aumenta seu valor à medida que falte aos demais, atendendo ao pressuposto da valorização pela exclusividade ou baixa disponibilidade.

 

Educação segue a lógica contrária. Quando alguém é educado, individualmente a pessoa ganha, mas a comunidade à qual ela pertence é mais favorecida ainda. Ao sermos educados, um não tira do outro quando aprende ou ensina. Por outro lado, é certo que todos são prejudicados pela ausência de educação ou pelo ensino de má qualidade.

 

Além disso, não há nenhum antídoto melhor contra a violência do que pessoas educadas. Polidez gera gentileza, bem como agressividade promove brutalidade. Da mesma forma, a falta de emprego decorre, na maioria dos casos, da falta de escolaridade, evidenciada pelo fato de que o desemprego mais crônico está associado a lacunas nas competências e habilidades demandadas.

 

Mesmo sendo uma nação privilegiada em recursos naturais, o Brasil não consegue promover um desenvolvimento sustentável. Cresce, mas alterna ciclos de euforias com frustrações. Provavelmente, a mais relevante causa da não sustentabilidade do desenvolvimento é a baixa produtividade em geral. Há evidências de que o aumento da educação média da população traz reflexos imediatos para a qualidade de vida, gerando oportunidades de empregos e de negócios, e, consequentemente, maior competitividade global dos produtos e dos serviços de uma região.

 

Na área educacional, tudo que tem sido feito, na prática, é ainda muito pouco. Ressalte-se que tivemos avanços, ainda que insuficientes, tais como o aumento da percentagem do PIB na educação pública de 2,9% para 5,6% em uma geração, redução de 35% para 7% de crianças de 4 a 14 anos fora de escola e o analfabetismo adulto decresceu de 25% para 8% nesse período. No ensino superior, programas como PROUNI e FIES têm viabilizado que milhões tenham acesso às universidades. Mesmo assim, em que pesem esses resultados, educacionalmente, estamos muito aquém de outros países com os quais teria algum significado compararmos.

 

Há que, urgentemente, estabelecermos novas estratégias com focos mais claros, cujos impactos resultantes sejam, ao longo do tempo, mais efetivos. Uma proposta, de caráter complementar e não excludente de outras, seria estabelecer um ponto de corte etário, baseado em uma política pública de atenção diferenciada aos mais jovens, e que, progressivamente, atinja a todos os educandos em um futuro adiante.

 

O Art. 81 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei nº 9.394/1996) estimula a organização de cursos ou instituições de ensino experimentais. Dentro desse espírito, seria possível estabelecer um abrangente programa experimental, articulado entre todos os sistemas educacionais, via a adoção de práticas amparadas em flexibilidades e prerrogativas especiais. A título de exemplo, no primeiro ano de sua implantação, seria conferida atenção diferenciada somente à primeira série do ensino fundamental. Como orientação aos gestores escolares, os melhores professores e infraestruturas disponíveis seriam garantidos para esta série e recursos adicionais extraordinários seriam, especialmente, dirigidos a essas turmas.

 

Entre outras diversas ações, em função de uma convocação cívica nacional, atividades complementares no contraturno seriam desenvolvidas por profissionais voluntários com nível superior. Estes seriam selecionados e ficariam responsáveis por ações definidas pelas direções locais das escolas, em consonância com orientações gerais do programa. Ilustrando, um dentista voluntário poderia abordar, complementarmente, elementos de saúde e biologia, um engenheiro contribuições adicionais na matemática, artistas abordariam temas nas áreas de cultura e artes etc.

 

No ano seguinte, manter-se-ia o foco nas turmas inicialmente selecionadas, já agora na segunda série, e seriam incorporadas, com a mesma qualidade, as novas turmas do primeiro ano. Ao final de menos de uma década, teríamos formado uma nova geração educacional, agora frequentando o ensino médio, incluindo o profissionalizante. Ao se completar uma década e meia, estaríamos colhendo os devidos frutos no nível superior.

 

O único real privilégio destas novas gerações, diferenciadamente educadas, será carregar nos ombros o compromisso de colaborar para um desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável.

 

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Foto: Própria, vista da Universidade de Salamanca

 

 

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domingo, 27 de maio de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 16:58

O eixo do tempo na educação

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A seta do tempo é ainda um mistério para a ciência. As equações fundamentais da natureza são reversíveis, possibilitando irmos para frente ou para trás, sem ofendê-las. No mundo real, os processos se desenvolvem no sentido do passado para o futuro. Tal anisotropia temporal está ligada ao grau de desorganização do sistema, quantificada na termodinâmica por uma propriedade denominada entropia. Ao longo do eixo do tempo, a entropia média sempre aumenta.
Quanto à nossa percepção, vista do ponto de vista do tempo presente, é natural que observemos, contemporaneamente, marcas remanescentes de um passado, que insiste em não ir embora, convivendo com elementos de um futuro que ainda não chegou completamente.

 

Recentemente, estive participando de um evento na Espanha, celebrando os 800 anos da Universidade de Salamanca, que é uma das mais antigas universidades do mundo e referência de destaque na formação do pensamento ibero-americano. Restam poucas dúvidas que a instituição comemorará, daqui a dois séculos, o seu milênio com os mesmos louros e méritos de ser guardiã permanente das tradições e dos valores mais caros da comunidade acadêmica. No entanto, ela não está imune aos desafios dos tempos atuais, onde mudanças abruptas e radicais, inéditas em sua profundidade e na rapidez com que ocorrem, produzem impactos significativos em como ensinamos e promovem o surgimento de múltiplas formas surpreendentes de aprendizagem.

 

Tive a oportunidade de assistir naquela instituição quase milenar a uma mesa-redonda com seis educadores seniores apresentando suas visões quanto ao emergente mundo digital. Seus slides, em geral, com letras miúdas, reproduzindo quase literalmente os textos lidos, ilustram em termos de meios as mensagens proferidas. Salvo exceções, eram bem-intencionados analógicos tratando do inusitado digital. Por mais que percebessem as alterações em curso no presente, suas abordagens, naturalmente, expressavam, na forma e no conteúdo, seus conceitos enraizados em referências do passado. Respeitáveis valores e tradições que tornam difícil enxergar, com clareza, todos os elementos do futuro que já se começou. São olhares honestos e competentes que priorizam tentar reorganizar o passado e o presente mutantes, os quais insistem em não nos deixar.

 

É ilusão imaginar que as abordagens educacionais comumente adotadas para formar profissionais até recentemente permaneçam válidas, sendo suficientes pequenos ajustes acrescidos da incorporação de algumas tecnologias. Muito além do domínio simples de conteúdos circunscritos em programas fixos e transcendendo as séries previsíveis de técnicas e procedimentos, o desafio agora é preparar ao desconhecido, envolvendo, especialmente, habilidades e aspectos comportamentais não previstos antes.

 

Vivemos ou, gradativamente, passaremos a viver em uma realidade onde a informação estará totalmente acessível, instantaneamente disponibilizada e, basicamente, gratuita. Cada vez é menos relevante o que se aprendeu frente a ter explorado as possibilidades de ampliar a capacidade de aprender continuamente, ao longo da vida, o aprender a aprender. A cognição tradicional e suas diversas metodologias associadas dão espaço às abordagens metacognitivas, onde o centro é ampliar os níveis de consciência dos próprios educandos acerca de como eles aprendem. Dos debates acercas de pedagogias adotadas para todos, indistintamente, enfrentamos a complexa tarefa da construção de uma educação híbrida e flexível, onde todos os educandos aprendem, aprendem o tempo todo e cada um de maneira única e personalizada.

 

Os educadores, legitimamente, se expressam a partir dos seus referenciais, ancorados em suas tradições e refletindo suas experiências. É certamente tarefa difícil entender a migração de uma avaliação baseada na dicotomia entre o saber versus o não saber à luz de uma realidade emergente onde o mais relevante é saber decifrar realidades complexas, solucionar problemas e cumprir missões. Para quem tem valores cristalizados quanto a mensurar o conhecimento aprendido não é nada simples descobrir que passam a ser considerados, com pesos iguais ou mesmo preponderantes, atributos adicionais como saber trabalhar em equipe ou capacidade de compreender o outro.

 

A dificuldade essencial está na encruzilhada de tentar entender o presente com os mesmos instrumentos do passado ou ousar pensar o futuro com menos amarras tradicionais, as quais, embora importantes, tendem a eclipsar a visibilidade do que está por vir. Estacionados no presente do eixo do tempo, há que se escolher priorizar enxergar aquilo que os faróis iluminam à frente ou, alternativamente, manter os olhos fixos no retrovisor.

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domingo, 15 de abril de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 18:37

Tecnologias digitais, economia e educação

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Vivenciamos em todos os setores da sociedade transformações rápidas e profundas. O motor principal que impõe tal velocidade está associado à emergência das tecnologias digitais e à consequente migração para uma sociedade em que a informação se torna totalmente acessível, instantânea e basicamente gratuita.

 

Educar é atividade social fortemente afetada pelas demandas do meio social, seja por necessidades expressas pelo exercício pleno de cidadania ou pelas exigências decorrentes do mundo do trabalho e pelas oportunidades de novos negócios. Estas se moldam a partir dos modelos de desenvolvimento econômico adotados.

 

Durante o século passado, as maiores empresas do mercado estiveram, tradicionalmente, associadas à energia (basicamente petróleo), à indústria automobilística e ao setor bancário. Na recente virada do século, entre as cinco maiores, aparecia na lista a primeira empresa do mundo digital, a Microsoft. Ela dividia a dianteira com duas de energia (Exxon e GE), um Banco (Citi) e uma empresa de varejo (Walmart). Atualmente, todas as maiores estão diretamente associadas ao mundo das tecnologias digitais, sendo que a empresa Apple, a primeira do ranking pelo sexto ano seguido, sequer constava entre as maiores no começo deste século.

 

Mediados pelas tecnologias digitais, educação e economia se influenciam e se definem mutuamente. A título de ilustração, o número de matrículas na modalidade educação a distância vem crescendo de forma contínua e sustentável por mais de uma década, tendo atingido quase 1,5 milhão em 2016, o que já representa uma participação de quase 20% do total de matrículas da educação superior. Interessante observar também que o número de matrículas em cursos de graduação presencial diminuiu nos últimos anos (decréscimo de 1,2% entre 2015 e 2016, enquanto na modalidade a distância o aumento de matrículas foi de 7,2%). Se considerarmos que no ensino presencial a adoção da educação a distância no limite superior de 20% está universalizada, poderemos afirmar que, antes do final desta década, mais da metade das atividades didáticas no ensino superior no Brasil serão ministradas via educação digital.

 

Os estímulos para o acesso pleno aos conteúdos antes das aulas e a intensa utilização de portais eletrônicos e de plataformas educacionais, especificamente desenhadas para cada contexto, são possibilidades inovadoras e plenamente disponíveis. A ênfase na aprendizagem independente, centrada no aprender a aprender ao longo de toda a vida, e o ensino baseado em metodologias ativas e em soluções de problemas são novidades já incorporadas. Enfim, metodologias que levem em conta as características personalizadas de cada educando, suas demandas específicas e seus ambientes peculiares são exemplos de iniciativas positivas em curso.

 

Se no século passado a capacidade de memorizar conteúdo e a aprendizagem de técnicas e procedimentos eram os centros, atualmente o amadurecimento dos níveis de consciência do educando acerca de como ele aprende torna-se gradativamente mais relevante. Aprender a aprender passa a ser tão ou mais importante do que aquilo que foi aprendido. O maior de todos os desafios educacionais atualmente é explorar esta nova realidade, onde todos aprendem, aprendem o tempo todo e cada um aprende de maneira única e personalizada.

 

Conhecimentos específicos, domínio de técnicas e conhecimentos são e sempre serão relevantes, porém, definitivamente, não são mais suficientes. A complexidade do educar, contemporaneamente, exige que educação se transforme em arte, ao mesmo tempo que o ensino tradicional cede espaço à educação aberta, híbrida e flexível. Neste cenário, mediado pela emergência disruptiva das tecnologias digitais, compreender o educando, o educador e a vida demanda elementos que somente a arte pode nos inspirar.

 

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Figura em Domínio Público: WE ALL, a design-build installation in North Allston, de Francisco Alarcon, Carla Ferrer Llorca, e Rudy Weissenberg, como visto em: http://www.gsd.harvard.edu/design-studies/art-and-the-public-domain/

 

 

 

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quinta-feira, 15 de março de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 19:52

Nanocertificados: claramente, o futuro!

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coruja 

Houve um tempo, próximo passado, em que nas formaturas os concluintes do ensino superior celebravam a despedida da vida de estudante. Mais do que isso, era razoável supor que lograssem algum sucesso nas empreitadas seguintes, sem que fosse imprescindível continuar estudando. Afinal, era esperado que, ao final de um curso de graduação, com duração da ordem de 4 a 6 anos, os principais conteúdos, os procedimentos básicos e as técnicas associadas tivessem sido plenamente adquiridos. Mesmo que fosse ingenuidade, o passado, por vezes, foi permissivo quanto à possibilidade dessa leitura.

 

Os tempos contemporâneos se caracterizam pela radicalidade e rapidez nas transformações. O mercado de trabalho já não é o mesmo, tampouco as características principais que são demandadas daqueles que pretendem aproveitar oportunidades de novos negócios são as mesmas. Adentramos, progressivamente, uma era em que a informação passa estar plenamente disponível, instantânea e gratuita. Caminhamos em direção a um cenário de educação permanente ao longo de toda a vida. Neste contexto, tão ou mais relevante do que o conteúdo aprendido em um curso de graduação é ampliar a percepção acerca de como se aprende. Ou seja, o saber aprender passa a ser a chave principal para enfrentar o desconhecido, que caracteriza o período que vivenciamos.

 

Se o mundo não é mais o mesmo, se as demandas da sociedade se alteraram e se os educandos e seus propósitos são diferentes, não há motivos para imaginarmos que os cursos, em seus formatos e em seus conteúdos, devam permanecer inalterados. Eles se adaptarão ao novo contexto, alguns mais rapidamente, outros com algum atraso, mas, nada permanecerá imune às inevitáveis e aceleradas transformações. Neste cenário, observaremos os cursos de graduação e de MBA (“Master of Business Administration”), gradativamente, sendo complementados ou migrando em direção àquilo que se adotou chamar de nanocursos, emissores de nanocertificados.

 

O prefixo “nano” começou a ser utilizado ao final da década de 1940 e é derivado da palavra que em grego significa “anão”. No contexto estritamente científico, representa uma unidade de medida associada à bilionésima parte de algo, tal como nanosegundo ou nanometro. Popularmente, passou a significar algo muito pequeno.

 

Educacionalmente, em torno de 2014, surgiram os primeiros nanocertificados (em inglês, “nanodegrees”), os quais buscavam atender, em curto espaço de tempo e sendo extremamente focados, as demandas por aprendizagem de habilidades específicas, particularmente aquelas voltadas para as necessidades do mercado de trabalho, na maioria dos casos na área de tecnologias da informação. Em geral, são projetos práticos que avaliam e certificam os educandos após um período de cerca de seis meses de estudo. Os nanocursos tendem a representar uma alternativa relativamente mais prática, ágil e de menor custo para quem quer alavancar sua carreira e comprovar capacitação para missões bem definidas. Para as empresas, significa a oportunidade de customizar as formações demandadas de seus profissionais de maneira mais objetiva, direta e eficiente. Os pioneiros nesses cursos eram ligados à empresa americana de cursos online, Udacity. Hoje, tais iniciativas estão bastante disseminadas, com diferentes origens, formatos e propósitos.

 

Vivenciaremos realidades inéditas, sendo a maior parte delas mediadas pela chegada das ferramentas da inteligência artificial, da onipresença da internet das coisas e dos inevitáveis robôs. As tarefas que permitem ser automatizadas, certamente, o serão. Várias profissões como nós as conhecemos atualmente terão, em geral, duas opções: desaparecer ou mudar radicalmente. Nada será de imediato, nem por isso quer dizer que será demorado ou prorrogável. Quanto antes nos adaptarmos, maior a possibilidade de sobrevivência e de sucesso, seja enquanto indivíduo, grupo ou organização. Os nanocursos estão longe de serem as causas das mudanças; são somente claros sintomas de processos que alterarão de forma substantiva os caminhos segundo os quais aprendemos e ensinamos. Afinal, estamos falando de um futuro que começou a acontecer ontem.

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Figura em Domínio Público, como visto em:

https://publicdomainvectors.org/pt/vetorial-gratis/Coruja-esperta/69141.html

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