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sexta-feira, 28 de julho de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 18:21

Pobres meninos ricos

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Há vários estudos demonstrando como a miséria e a pobreza dificultam a aprendizagem. Uma outra variável menos estudada é o quanto as discrepantes desigualdades sociais afetam a todos, inclusive os mais ricos. Ou seja, mesmo aqueles que têm acesso a tudo, pelo convívio em sociedades excludentes, também são negativamente atingidos, em especial na educação.

 

O Pisa – Programa Internacional de Avaliação de Alunos – é uma avaliação internacional que mede desde 2000, a cada três anos, o nível educacional de jovens de 15 anos por meio de provas de Leitura, Matemática, Ciências e, mais recentemente (desde 2012), Conhecimentos em Finanças. O exame é realizado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), entidade formada por governos de 30 países que têm como princípios a democracia e a economia de mercado. Países não membros da OCDE, como é o caso do Brasil, também podem participar do Pisa enquanto convidados. Atualmente, 70 países participam do Pisa, cujo objetivo principal é produzir indicadores que contribuam para a discussão da qualidade da educação básica e que possam subsidiar políticas nacionais de melhoria da educação.

 

Na última edição do Pisa (2015), pela primeira vez o Brasil participou da prova específica de conhecimentos financeiros, sendo um dos 15 países onde o teste foi aplicado. Nossos resultados não foram bons, a exemplo das demais matérias, mas desta vez neste quesito ficamos em último (média de 393 pontos, atrás de países da região como Peru, com 403, e Chile, com 432 pontos). Um detalhe interessante mereceu a atenção e análise de estudiosos: mesmo nossos alunos mais ricos tiveram baixíssimo rendimento. Em outras palavras, temos um problema educacional grave, em todas as áreas, acrescido do fato que mesmo aqueles com acesso a bens e serviços de mais qualidade evidenciam grandes chances de resultarem pouco competitivos em uma economia de escala global.

 

No teste de conhecimentos financeiros, se considerarmos somente os alunos brasileiros mais pobres o resultado é uma média de 364 pontos (penúltimo lugar, à frente do Peru), enquanto os mais ricos ficaram em último lugar com 441 pontos. Portanto, uma diferença de 77 pontos entre eles, enquanto nos demais países a média das diferenças entre os 25% mais ricos e os 25% mais pobres é de quase a metade, 40 pontos. Em resumo, fomos mal em ambos os extremos, sejam os mais ricos ou os mais pobres, e a desigualdade de notas entre eles é bem maior do que o observado em média nos demais países.

 

Se os resultados educacionais fossem lineares com as respectivas rendas per capita de cada país, os alunos brasileiros deveriam, em tese, ter obtido aproximadamente 40 pontos a mais do que tiveram, evidenciando que a nossa realidade econômica é agravada pelas disparidades sociais específicas. Ou seja, os enormes contrastes sociais projetam uma elite não competitiva convivendo com as classes populares também despreparadas. Em outras palavras, o Brasil pode, eventualmente, ter ciclos de crescimento, como os tem tido; porém, sem enfrentar seus dilemas sociais e educacionais, conviverá eternamente com fortes dificuldades em atingir um desenvolvimento econômico, social e ambiental que seja efetivamente sustentável.

 

Como apontado em artigo anterior, as raízes deste destino de provável baixa produtividade e consequente dificuldade de competitividade global estão bem descritas desde a clássica obra “Casa-grande & senzala” de Gilberto Freyre, publicada em 1933. De um lado, uma “casa-grande”, basicamente acomodada e pouco estimulada a competir. De outro, a “senzala” que permanece apartada, ainda que com soluços esporádicos de inclusão social, e que não dispõe das ferramentas e dos instrumentos próprios que lhe permita ser o polo principal do aumento de produtividade e a promoção do desenvolvimento econômico.

 

Um desenvolvimento sustentável não pode depender exclusivamente de educação, mas sem ela não haverá sustentabilidade alguma. No mundo da educação, temos uma singular oportunidade, a partir de nosso caldo cultural particularmente afável às tecnologias digitais e com demonstrações evidentes de competência no seu uso, de conjugarmos quantidade com qualidade. Qualidade para poucos ou má qualidade para muitos não é inovar, é repetir o passado que não está dando certo. A melhor definição contemporânea de inovação, inclusive em educação, é a geração de produtos e serviços novos que viabilizem ofertamos qualidade para muitos.

 

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Contatos: ronamota@gmail.com

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domingo, 23 de julho de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 09:23

De volta ao planeta dos bonobos

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Os bonobos até há menos de um século eram, erroneamente, assumidos como formando uma subespécie dos bastante conhecidos chimpanzés. Mais recentemente, eles deixaram de ser confundidos, passando a ser reconhecidos como espécie própria. Na verdade, ambas as espécies, o bonono (Pan paniscus) e o chimpanzé comum (Pan troglodytes), formam o gênero Pan. Um dos motivos da demora na identificação da espécie dos bonobos foi que os contatos com eles eram raros, dado estarem todos concentrados em uma pequena região da República Democrática do Congo, na África Central.

 

Os cientistas acreditam que o ancestral humano moderno tenha se separado dos chimpanzés e dos bonobos em torno de 8 milhões de anos atrás, sendo que estas duas espécies, por sua vez, se separaram entre si há aproximadamente 2 milhões de anos. Estudos recentes mostram que os bonobos, e não os chimpanzés, representam melhor o último ancestral comum com os humanos, fazendo dos bonobos nossos primos irmãos mais próximos. Seja pelo nível de compartilhamento de DNA (98,7%) ou pelas características mais assemelhadas em níveis de percepção, comportamentos gerais e habilidades. De acordo com Bernard Wood, pesquisador do Centro para Estudos Avançados de Paleobiologia Humana da George Washington University, a estrutura muscular dos bonobos alterou-se menos ao longo do tempo, tornando-os os seres vivos mais próximos do que seriam nossos ancestrais.

 

Do ponto de vista comportamental, os bonobos, diferentemente dos chimpanzés, podem partilhar alegremente seu alimento com um estranho e até mesmo desistir, altruisticamente, de sua própria refeição, como registrado pelos pesquisadores Jingzhi Tan e Brian Hare. Eles afirmam que suas descobertas podem ajudar a entender a origem do altruísmo nos humanos. Os cientistas compararam tais comportamentos a certos atos humanos de bondade, como por exemplo doar dinheiro anonimamente. De acordo com esses pesquisadores, o mais provável é que o ancestral comum das três espécies, seres humanos, bonobos e chimpanzés, já tivesse essa característica. Portanto, esta descoberta difere da hipótese anteriormente assumida de que os humanos só teriam desenvolvido o altruísmo depois da separação com o gênero Pan.

 

Os bonobos se distinguem pela postura mais ereta do que os chimpanzés, constituem uma sociedade mais igualitária e matriarcal e apresentam uma atividade sexual própria, não existindo relação direta entre sexo e reprodução. Por sinal, o sexo tem um peso grande nas suas relações, em geral como elemento reconciliador, estando presente ao longo de toda a vida adulta da espécie. Empatia e altruísmo são características que os bonobos têm particularmente desenvolvidas, ou seja, a capacidade de compreender o sentimento ou a reação de outro indivíduo, imaginando-se nas mesmas circunstâncias, e fazer algo em função disso.

 

O que nós humanos temos a, humildemente, aprender com as demais espécies? Por exemplo, os bonobos podem ser interessantes inspirações para características essenciais nos dias atuais: a empatia e o altruísmo. Temos, naturalmente, um grande potencial empático e altruísta, mas que, fruto do convívio em sociedades de grande escala, demanda permanentes reconexões, via educação, com algo que podemos ter inibido ao longo do tempo. Educar, contemporaneamente, tem múltiplos objetivos, entre eles aumentar nossa empatia e ampliar nossa capacidade de sermos solidários. Ou seja, desenvolver a compaixão, tentando compreender sentimentos e emoções dos demais, experimentando de forma objetiva e racional o que sentem outros indivíduos, e, em função disso, agir.

 

Ao promovermos, pela educação, a empatia e a solidariedade, queremos motivar que as pessoas se entendam e se tornem mais inteligentes, contribuindo com um mundo melhor. Ser empático e altruísta significa estabelecer afinidades por se identificar com os demais, saber escutar, compreender os seus problemas e emoções e, desta forma, ser um melhor profissional, seja em que campo de atividade for. Educar, cada vez mais, inclui na formação do educando, em complemento ao conjunto de técnicas e procedimentos tradicionais, novas habilidades e competências. Entre elas, trabalhar coletiva e solidariamente para resolver problemas e completar, com sucesso, as missões que lhe são conferidas.

 

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 Figura em Domínio Público, acessível em:

 https://cdn.psychologytoday.com/sites/default/files/styles/image-article_inline_full/public/field_blog_entry_teaser_image/Pan_paniscus06_0.jpg?itok=XYl7hQPD

 

 

 

 

 

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segunda-feira, 17 de julho de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 19:17

Educação superior para o mundo contemporâneo: o macro, o meso e o específico

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Nesta semana (dia 18/7), por ocasião da Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, na Mesa-redonda coordenada pela Presidente da SBPC, Helena Nader, serei um dos palestrantes. Segue abaixo um breve resumo da palestra a ser proferida às 15h no Auditório da UFMG.

 

O tema “Educação Superior” é certamente complexo e de tal natureza abrangente que seria ingenuidade imaginarmos sermos capazes de abordar todos os aspectos relevantes e, claramente, impossível cobri-los satisfatoriamente. Assim, opções de abordagens são inevitáveis e seguramente limitadoras, incluindo simplificações não desejáveis, mas inexoráveis.

 

Prefiro, pela exiguidade de tempo e espaço, simplificar a questão abordando-a sob três diferentes perspectivas, distintas entre si, ainda que complementares: a de macro escala, de mesoescala (intermediária) e de escala específica. Este tema não sugere neste momento as análises micro ou nano. Não porque não existam essas escalas, mas sim porque menos relevante à luz do propósito específico desta Mesa.

 

Aspecto macro

 

Do ponto de vista macro, educação superior trata de tema cujas abordagens ou soluções se entrelaçam globalmente, ainda que preservem características e peculiaridades regionais e locais. Um desafio geral, enfrentado por todos os países atualmente, é o papel da escola, incluindo neste tópico as missões das instituições de ensino superior.

 

A escola, pelo menos na vertente ocidental da história humana, nasce em Atenas, na Grécia Antiga, em torno de 400 a.C., em substituição aos sofistas, algo como professores particulares autônomos responsáveis pela formação da nova elite dirigente. Paradigmaticamente, o modelo de escola em vigor até hoje se assenta na Academia de Platão, sendo o Liceu da Aristóteles, na sequência, o cristalizador das práticas, das abordagens e das metodologias decorrentes.

 

A escola que nasce em Atenas se desenvolveu ao longo de séculos e milênios guardando a mesma essência de sua criação, porém, inicialmente de impacto limitado pelo baixo número de pessoas letradas e pela dificuldade de acesso aos textos (raros pergaminhos). Uma novidade positiva e transformadora somente ocorreria no século XV, quase dois milênios depois de Atenas, com a introdução do livro moderno, com Gutenberg. O reforço da acessibilidade ao conhecimento, fruto da abundância de textos escritos (Bíblia, Aristóteles, Platão e todos os demais pensadores anteriores) e do crescimento do número de letrados, deu o impulso que as nascentes universidades europeias precisavam para se cristalizarem como centros de divulgação e de produção do conhecimento. Isso incluía o conhecimento baseado no método científico, amadurecido pelas contribuições de Galileu e de Newton, nos séculos XVII e XVIII.

 

Os avanços decorrentes do método científico fizeram brotar tecnologias como a máquina a vapor, a qual, em conjunto com as leis de mecânica, da termodinâmica e do eletromagnetismo, entre outros avanços, alavancaram a Revolução Industrial que mudou a face do planeta, com a profundas marcas que permanecem até os dias atuais.

 

O ápice da dinâmica acima referida ocorreu ao longo dos séculos XIX e XX, especialmente este último, quando ficou evidente a demanda pela formação em grande escala de profissionais que fossem compatíveis com as demandas típicas dos modelos de desenvolvimento fordistas e tayloristas adotados. A escola do século XX, fruto de suas metodologias e concepções, se mostrou plena e totalmente capaz de dar conta dessa demanda. Nenhuma outra instituição foi tão bem-sucedida em suas missões como foi a escola no século passado, fazendo dela um ente quase sacro. Da mesma forma, o professor tornou-se alguém relevante e respeitado, ainda que com salários nem sempre satisfatórios.

 

A história tem seus percalços, inclusive para a escola. Similarmente às quebras de paradigmas promovidas pelo surgimento da escola em Atenas ou da invenção do livro moderno no Renascimento europeu, o século XXI trouxe junto o advento das tecnologias digitais maduras, as quais reconfiguram os hábitos, os costumes e a forma como vivemos e nos relacionamos, incluindo as maneiras diversas com que aprendemos e ensinamos. Ou seja, as concepções, as metodologias e as abordagens educacionais (observar que eram e são múltiplas) não deram conta ainda da radicalidade das mudanças, processo este ainda inconcluso e em pleno curso.

 

De forma extremamente reduzida e simplificada, o tratamento por média, adotado pelas escolas nos séculos anteriores, fizeram delas entes apropriados para atender as demandas e escalas de então. Os eventuais desvios e prejuízos decorrentes das metodologias eram minimizados pelo franco sucesso advindo do pleno cumprimento da missão proposta. A maioria dos educandos aprendia o suficiente em termos do conjunto de conhecimentos, bem como as técnicas e os procedimentos associados, necessários e adequados ao cumprimento médio das tarefas às quais seriam desafiados. Isso parecia suficiente e receita de sucesso quase eterno. Para surpresa de todos, especialmente dos educadores, o mundo contemporâneo parece hoje querer fechar aquelas portas o quanto antes, de forma abrupta e quase sem aviso prévio.

 

A realidade é que a escola, suas metodologias tradicionais e seus docentes não dão mais conta dos desafios contemporâneos. Temos naturais dificuldades em aceitar isso, muito em função do extremo respeito que devemos aos locais nos quais todos aprendemos até recentemente, bem como por causa de nossos justificáveis respeitos àqueles honrados e queridos mestres que nos ensinaram. Os elementos específicos educacionais associados serão tratados no terceiro aspecto a ser aqui abordado, após o segundo que vem a seguir.

 

Aspecto mesoescala

 

A questão anterior acerca do papel da escola no mundo contemporâneo é universal, quase sem grandes distinções em termos de desafios entre as diversas realidades, seja entre nações ou entre realidades regionais e locais. Por sua vez, não tem como abordar o papel da educação superior sem sua conexão com a realidade social e econômica de cada espaço no qual ela é praticada.

 

O “quem somos” e “onde estamos” interferem fortemente nos resultados e nas análises, mediados nessa mesoescala. O Brasil, entre as diversas características que lhes são próprias, há duas destacáveis: o grande contraste social e a aparente incapacidade para um desenvolvimento efetivamente sustentável e duradouro.

 

Sobre a primeira característica, somos, inegavelmente, um dos países de maiores contrastes sociais do planeta. Há países mais pobres, mas bem menos ricos em termos de recursos naturais e outras potencialidades. Há países menos pobres, mas, mesmo assim, sem desfrutarem da oportunidade, ainda que para poucos, do convívio com o que existe de mais avançado em termos de acesso a riquezas e tecnologias. Ou seja, compartilhamos, espacial e temporalmente, o convívio da quase miséria com o acesso ao que existe de mais avançado e sofisticado no mundo contemporâneo. Sabemos ofertar produtos e serviços de mais alta qualidade ou para muitos, porém, não sabemos fazer essas duas coisas ao mesmo tempo. Se de qualidade, sempre para poucos. Se para muitos, quase que inexoravelmente incorporando má qualidade.

 

A segunda característica é que vivenciamos vários ciclos ou fases de crescimentos econômicos e de melhorias de qualidade de vida, mas, ao que parece, paradoxalmente, temos enormes dificuldades em nos desenvolvermos econômica, social e ambiental de forma plenamente sustentável. Crescer sim, de forma sustentável não. Assim, os contrastes e a dificuldade de sustentabilidade de crescimento compartilham elementos comuns que nos impedem de desfrutarmos de avanços substantivos.

 

A raízes deste destino estão bem descritas pelo clássico “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, e têm várias consequências, sendo algumas delas muito especiais: baixa produtividade e quase ausência de competitividade global. Destaque-se o “salvo exceções”, as quais contribuem para evitar generalizações, mas, por serem poucas, servem também para comprovar a regra geral. Temos, de um lado, uma Casa Grande preguiçosa, acomodada e pouco estimulada a competir. Em que pesem os enormes recursos disponibilizados e os acessos ilimitados a todos os produtos e serviços, inclusive educacionais de máxima qualidade, os confortos, decorrentes do berço e assegurados por herança, instigam a acomodação e quase que impedem maiores ousadias e a tentação positiva de enfrentar desafios que incorporem inovações.

 

Por sua vez, a Senzala, que permanece apartada, ainda que com soluços esporádicos de inclusão social, tende a não dispor das ferramentas mais avançadas e dos instrumentos próprios que lhes permitam serem os polos principais do aumento de produtividade e do desenvolvimento econômico. Pecamos por uma baixa escolaridade, a qual até tem melhorado quando comparada com o passado, seja na educação básica como superior, porém, a ritmos não competitivos com que os demais países do planeta. E quando aumentamos o nível de escolaridade, em geral, o fazemos com má qualidade de ensino nos insuficientes anos estudados. O resultado é um conjunto enorme de trabalhadores cujas produtividades estão limitadas a priori por falta de formação escolar e a ausência de ferramentas que lhes permitam alterar essa realidade.

 

Aspecto específico

 

Se as dificuldades são gerais e o cenário parece pouco motivador, é do especifico e do peculiar que se pode tentar encontrar caminhos para as soluções. Assim, o quadro por mais desalentador que pareça, ele deve fornecer alguns ingredientes que permitam ter esperanças de mudanças à luz das novidades e das inovações, as quais sempre significam oportunidades.

 

Do ponto de vista educacional, entramos em uma nova era, onde pela primeira vez, em tese, poderemos, baseados nas tecnologias digitais, conjugar qualidade e quantidade. Ou seja, podemos pioneiramente explorar a possibilidade de ofertarmos qualidade para muitos. Por sinal, esta é a melhor definição de inovação em realidades como a brasileira. Qualidade para poucos ou má qualidade para muitos não é inovar; é repetir o passado.

 

Adentramos um novo cenário onde, pela primeira vez, será plenamente possível que todos aprendam (isso não era viável no século anterior), todos aprendem o tempo todo e em qualquer lugar (novidades do século XXI) e, especialmente, cada um aprende de maneira única e própria (nós sequer sabíamos disso antes).

 

Os maiores desafios contemporâneos educacionais estão associados a como incorporar o mundo das tecnologias digitais, incluindo o uso adequado de plataformas de aprendizagem e técnicas sofisticas de analítica da aprendizagem, as quais, em conjunto com a edugenômica, permitem conhecer o educando de forma inédita. Assim, torna-se possível estabelecermos os marcos de uma educação flexível (que combina sem preconceitos as ferramentas das modalidades presencial e a distância) e, fundamentalmente, personalizada, customizada à luz de cada realidade e apropriada para cada educando e seu contexto, em um mundo de educação permanente ao longo da vida.

 

Enquanto que no século XX o essencial era a transmissão de um determinado conteúdo, associado a um conjunto de técnicas e procedimentos, neste século há algo tão ou mais relevante que é desenvolver a consciência do educando acerca dos mecanismos de como se aprende. Ou seja, se a aprendizagem está associada à cognição, o aprender a aprender refere-se à metacognição, onde mais (ou tão) importante do que o que foi aprendido é o amadurecimento da percepção por parte do estudante acerca de como ele aprende.

 

Ainda que este último tópico possa ser o mais estimulante de todos, não teremos tempo e nem a pretensão de tratá-lo adequadamente, mas destaco que, entre as peculiaridades citadas anteriormente, geramos no Brasil um caldo cultural absolutamente afável à adoção de novas tecnologias. Se faltasse comprovação (não falta), basta observar que, mesmo tendo um dos piores e mais caros acessos à internet do planeta, somos um dos maiores usuários do mundo, seja em número ou seja em tempo médio diário de uso. Deve-se agregar a isso o fato que as tendências apontam para a predominância de recursos educacionais acessíveis via celular ou dispositivos semelhantes, áreas onde a população brasileira demonstra capacidades e apreços ímpares, bem como competências impressionantes nos usos das funcionalidades associadas.

 

Em suma, muito a aprofundar e peço desculpas pela ousadia de tratar de temas extremamente complexos em espaços de tempo e de escrita muito limitados, mas a discussão em si certamente contribui para o estímulo às investigações de soluções. São temas que ainda não foram tratados adequadamente, muito menos resolvidos, nem aqui e nem em lugar algum do mundo. Por isso mesmo, compartilhamos esta atmosfera de oportunidades inéditas que a todos motiva a continuarmos enfrentando esses desafios educacionais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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terça-feira, 11 de julho de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 11:55

Medicina sem EaD pode?

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Muitas vezes me perguntam, com certa ironia, se seria possível um curso de graduação de Medicina na modalidade educação a distância (EaD). Todas as vezes, sem titubear, respondo: “Tanto em Medicina como em um conjunto de outras carreiras, a formação exclusivamente a distância não seria adequada; porém, acho que seria igualmente inadmissível um curso contemporâneo de Medicina sem as ferramentas da educação interativa baseadas nas tecnologias digitais”.

 

Na verdade, as terminologias que separam abruptamente as modalidades presencial e a distância são anacrônicas e favorecem pouco o inexorável futuro de uma educação flexível, híbrida e personalizada. Essas denominações foram consolidadas na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira de 1996. Seria injusto exigir dos educadores e legisladores de então que tivessem a premonição do que seria este mundo atual em termos de absoluta preponderância das tecnologias digitais.

 

A adequada formação de um médico, bem como dos demais profissionais na área da saúde, demanda que eles dominem a utilização de plataformas digitais e de tecnologias móveis e que tenham familiaridade com realidade virtual imersiva, impressoras tridimensionais e com técnicas de modelagem e simulação. Aquilo que era uma opção na formação do profissional do passado passa hoje a ser experiência obrigatória para qualquer formando na área. A simples dificuldade em operar sistemas digitais mais sofisticados pode, na prática, inviabilizar que um médico usufrua das facilidades que a Telemedicina e outros tantos recursos inovadores propiciam.

 

Recentemente, a McKinsey&Company apresentou um Relatório sobre tendências e perspectivas internacionais acerca da dinâmica das organizações responsáveis por saúde em direção ao mundo completamente digitalizado. O Relatório aponta que há mais de 20 anos os detalhes de gestão das instituições de saúde já estão completamente digitalizados, mas, segundo o Relatório, esta onda é cosmética comparada com as novidades em curso e aquelas que ainda estão por vir.

 

O estado do Rio Grande Sul acaba de adotar, com aval da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, a Oftalmologia a distância. Trata-se de inovador projeto de Telemedicina que prevê, conforme reportagem do jornal Folha de São Paulo, reduzir em 40% a fila de espera pelos procedimentos. Os pacientes das unidades básicas de saúde serão encaminhados a 8 consultórios espalhados pelo estado, onde serão atendidos por técnicos de enfermagem. Estes conduzirão a parte física e presencial do exame oftalmológico (pressão ocular etc.), supervisionados por oftalmologistas em tempo real a distância, os quais são abastecidos por imagens teletransmitidas via uma plataforma de telessaúde.

 

Ainda que de forte impacto a cada um dos milhares que aguardam nas filas de atendimentos oftalmológicos, o caso em pauta é somente um pequeno exemplo dos recursos que gradativamente estarão sendo disponibilizados aos profissionais de saúde para enfrentar os gigantescos desafios em que estão envolvidos.

 

Há inúmeros outros casos ilustrativos na área. Este ano completa dez anos o Programa Telessaúde Brasil Redes do Ministério da Saúde, reconhecido pela Organização Panamericana da Saúde como exemplo aos demais países, o qual oferece laudos diagnósticos de eletrocardiogramas, retinografias na detecção de retinopatias diabéticas, entre outros serviços, além da segunda opinião aplicada à atenção primária à saúde.

 

Progressivamente, faremos uso cada vez mais intenso de “big data” agregando informações variadas sobre saúde, incluindo determinantes genéticos de doenças, controles de expressão gênica e as interações de indivíduos com ecossistemas. O mundo da internet das coisas, dispositivos baseados em nanotecnologia e inteligência artificial, entre outras novidades, por certo, darão novo significado para Medicina, área onde as novidades devem emergir com velocidades aceleradas nos próximos tempos.

 

Atualmente é imprescindível uma educação superior na área de saúde que incorpore no processo de formação básica desses profissionais as competências e habilidades no uso de múltiplas ferramentas digitais. A Telemedicina, por exemplo, deverá fazer parte obrigatória dos currículos, bem como técnicas para propedêutica médica a distância e o uso de ambulatórios didáticos virtuais.

 

Por fim, o uso apropriado de tecnologias e metodologias educativas interativas deverá propiciar a formação de redes de educação colaborativas integradas, via a articulação de desenvolvedores de conhecimento e o compartilhamento de infraestruturas laboratoriais de ensino, tanto em nível nacional como internacional.

 

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  • Contatos via: ronamota@gmail.com
  • Figura em Domínio Público, em: 

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  • Registro agradecimentos, pelas contribuições, à Dra. Ana Estela Haddad e ao Prof. Chao L. Wen, ambos da USP.
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quinta-feira, 6 de julho de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 20:14

Metacognição em três atos

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Cognição diz respeito aos processos associados à aquisição de conhecimentos. Metacognição se refere àquilo que transcende a cognição, onde tão importante quanto o que foi aprendido é a reflexão, por parte do educando, sobre a própria aprendizagem. Ou seja, a prática consciente do aprender a aprender, despertando a percepção do aprendiz acerca de como se aprende.

 

O século XX representou o apogeu das metodologias centradas nos processos cognitivos, dada a enorme compatibilidade com o atendimento das demandas. Por sua vez, a metacognição estabelece com o mundo contemporâneo pertinência diferenciada, mostrando-se indispensável para pensar os dilemas educacionais atuais.

 

Para ilustrar a metacognição, vejamos três casos elucidativos. O primeiro diz respeito a um hábito que o repetimos ao irmos ao banheiro, logo cedo, todos os dias. Bastante comum nos depararmos com um piso cerâmico e um tapetinho para os pés. Evitamos o “frio” do piso cerâmico e sentimos conforto no abrigo “quente” com os pés no tapete. Ocorre que tanto o piso como o tapete estão à mesma temperatura. Se alguém está em temperatura diversa deles é nosso corpo (em torno de 36o C).

 

Por que então a diversa sensação? Os átomos e as moléculas que compõem os materiais estão em constante agitação térmica e quanto maior for o movimento dessas partículas maior será a temperatura dos objetos. Calor está associado à transferência dessa energia térmica entre materiais a diferentes temperaturas.  Quando em equilíbrio, não há transferência de calor entre eles. No entanto, piso ou tapetinho, ao entrarem em contato com o corpo mais quente, dele recebem calor, enquanto o corpo humano se esfria. As velocidades com que o calor é transferido do corpo a cada um deles são diferentes, sendo que o piso cerâmico, diferentemente do tapete, é um ótimo condutor de calor e, portanto, conduz calor rapidamente. Assim, mesmo com conhecimento superficial dos conceitos envolvidos, a metacognição, baseada na reflexão metódica, contribui com elucidar o enigma. Somos estimulados a seguir o mesmo método, sobre qualquer outro tema, ao longo do restante do dia.

 

Um segundo caso, inspirado no filme “O homem que eu escolhi”, um convidado seu em sua casa, ao se servir de um drink, escorrega em uma pedra de gelo caída no chão minutos antes. Como resultado do forte choque da cabeça do convidado com a sua mesa, ele vem a falecer. Há duas hipóteses: a) você pode ser acionado como responsável, ainda que involuntário, pela morte, com as consequências decorrentes, ou b) você é totalmente inocente, ao ponto de poder, se assim o desejar, demandar do inventário do falecido o ressarcimento dos danos causados em sua mesa.

 

Juridicamente há somente uma pergunta a ser feita e ela demanda uma visão de complexidade que inclui supor que a pergunta está incompleta. E a única resposta no caso é depende. Depende se o convidado foi à sua casa sem convite e neste caso cabe a ele se adaptar às condições de vida que você adota, incorrendo ele nos riscos e nas consequências. Ou, alternativamente, se você o convidou e neste caso cabe a você garantir as condições de segurança do convidado, incluindo evitar o risco de um descuidado piso molhado. No primeiro caso, prevalece a hipótese a) acima, e no outro, a hipótese b). Este caso ilustra a metacognição que vai além de perguntas ou respostas simples, sugerindo que na vida temos, predominantemente, casos complexos, onde as questões tal como apresentadas, na maioria das vezes, podem ser insuficientes para se permitir chegar a consistentes soluções.

 

Por fim, um terceiro caso onde a metacognição sugere uma abordagem metodológica educacional. Foi sugerido a uma turma de alunos um tema polêmico, aborto, sendo parte da turma a favor e outra contrária. O procedimento padrão indicaria solicitar à parte da turma a favor do aborto que escrevesse enfaticamente sobre esta opção e valendo o mesmo para aqueles contrários. Por sua vez, a abordagem metacognitiva inverteria, tal que aqueles contrários ao aborto seriam desafiados a escrever sobre situações excepcionais nas quais eles eventualmente poderiam aceitar o aborto. Aos defensores do aborto seria colocada a tarefa de discorrer sobre a questão de limites ou efeitos indesejáveis de uma permissividade abusiva.

 

A grande vantagem de tal postura é demonstrar que pessoas, fazendo uso de legítimos raciocínios, podem chegar a conclusões respeitáveis, ainda que bem diversas das suas. Neste caso, a postura metacognitiva, que transcende a solução simples, resultou em aumento dos níveis de tolerância e da capacidade de entender o outro por se colocar na posição do outro.

 

A metacognição explora elementos que a cognição pode, eventualmente, desconsiderar. A partir dos três casos acima, a adoção do método, a noção da complexidade e o exercício da tolerância, podemos afirmar que o mais relevante foi termos ampliando nossa consciência acerca de como, afinal, aprendemos.

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  • Contatos via: ronamota@gmail.com
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quinta-feira, 29 de junho de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 17:28

IGC, por detrás dos números: aspectos socioemocionais

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Em complemento aos dois artigos anteriores (“Considerações preliminares” e “Caso Universidade Estácio de Sá”) neste texto, finalizando a trilogia, alguns aspectos socioemocionais dos alunos são analisados. O tema geral “Habilidades socioemocionais dos educandos” já foi abordado anteriormente, sendo que no atual priorizamos um elemento comportamental específico do formando frente ao Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE).

 

A partir de 2015, tínhamos mais clareza de que tão importante quanto o conteúdo específico ensinado e aprendido seria a atitude do formando frente ao ENADE. Em que pese a tendência natural do aluno de conferir ao exame menor importância, dado ele não constar de seu histórico escolar ou diploma, nosso papel era mostrar exatamente o contrário.

 

Procuramos demonstrar, de forma coletiva e solidária, que na Lei do SINAES está previsto que cada formando tem acesso ao seu próprio relatório de desempenho individual, a mais rica peça de todo o exame. Por meio dele é possível ao estudante se localizar individualmente e se comparar, seja no contexto de sua turma, de sua região ou do país como um todo. Embora o documento seja individual e emitido por solicitação do formando, o seu uso é público e geral, a critério do interessado. Orientamos os formandos que em alguns processos seletivos tais resultados já são solicitados, desde que voluntariamente entregues. Lembramos também que o Currículo Lattes, de uso cada vez mais generalizado, já traz nele inscritos os conceitos atualizados dos cursos de mestrado e doutorado registrados, queiram os usuários do Lattes ou não. O mesmo pode, em tese, ser adotado para os Conceitos Preliminares de Curso (CPC) dos cursos de graduação ou Índices Gerais de Cursos (IGC) das respectivas instituições.

 

Em resumo, o desempenho de cada qual, bem como as consequências para todos, acompanharão os formandos de cada curso de todas as instituições para sempre. Portanto, uma prova bem realizada garantirá ao curso uma boa reputação que se estende a toda a comunidade envolvida, mas especialmente ao egresso que carregará em seu currículo os louros do seu próprio desempenho.

 

Especificamente sobre os desempenhos dos que fazem o ENADE, embora haja uma correlação entre os resultados e as notas que os mesmos educandos obtiveram nas disciplinas dos semestres anteriores, a maior correlação com o desempenho é claramente com o tempo utilizado no ENADE. Um estudante mediano que entregue a prova após uma hora terá uma nota muito inferior que um outro de mesmo nível que fique até o final da prova. Portanto, o grande desafio foi estimular a todos que ficassem até o final.

 

Sabíamos que um incremento razoável no tempo médio dispendido no exame teria como consequência um aumento substancial nos desempenhos médios finais. Porém, não bastava saber, era preciso conhecer os caminhos de atingimento do objetivo, os quais eram e são múltiplos e complexos. Os formandos só se comportariam assim se comprometidos e estimulados por ganhos visíveis provenientes de suas conquistas individuais e, principalmente, resultantes de um sentimento de pertencimento e gratidão à instituição. Não se obtém tais características sem que os docentes, principais interfaces da instituição com seus estudantes, não as tenham eles mesmos e, de forma abundante e generosa, as compartilhem.

 

A título de exemplo singular, além dos convencimentos em sala de aula e fora dela sobre a relevância do ENADE, a participação voluntária de docentes e gestores no dia do exame e e nos dias que o antecede é essencial. Ao saudarem os educandos, desejando a todos uma boa prova, faz toda a diferença acompanhar os cumprimentos com a especial solicitação para que fiquem até o final do exame, explorando todo o tempo disponibilizado.

 

Fundamental percebermos que estamos falando de desafios estritamente educacionais, seja ENADE ou qualquer outro, que visam a preparar o formando para enfrentar, posteriormente, os mais variados obstáculos em sua vida profissional. Em todos os contextos, tão importante quanto o imprescindível e indispensável conteúdo aprendido, serão as habilidades socioemocionais desenvolvidas, envolvendo suas atitudes e comportamentos.

 

Ao introduzir aspectos metodológicos contemporâneos e abordagens inovadoras ao tema ENADE, a instituição transforma algo que poderia, preliminarmente, parecer burocrático e entediante ao educando em instrumento desafiador e com ganhos educacionais substantivos no processo de formação do futuro profissional.

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Figura em Domínio Público: https://publicdomainvectors.org/photos/123.png

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sexta-feira, 23 de junho de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 02:58

IGC, por detrás dos números: a Universidade Estácio de Sá

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unesa

 

Em complemento ao texto anterior (“Considerações preliminares”), neste artigo abordo o caso específico da Universidade Estácio de Sá (UNESA). Trata-se de instituição de ensino superior privada fundada em 1970 no bairro Rio Comprido, na zona central do Rio de Janeiro. Inicia-se com uma Faculdade de Direito e hoje contempla todas as áreas do conhecimento, com mais de duas centenas de milhares de matrículas, em cursos de graduação ou de pós-graduação, ofertados nas modalidades presencial e a distância, e com cinco programas de mestrado ou doutorado com conceitos CAPES 4 ou 5.

 

A história da Estácio é repleta de momentos significativos, com destaque para o pioneirismo de seu fundador, Dr. João Uchoa, que soube entender na época as demandas da classe média emergente por ensino superior, atendidas por instituições espalhadas nos moldes multicampi, ocupando os espaços educacionais, até então vazios, entre os locais de trabalho e as residências. Posteriormente à fase de controle familiar da instituição, há um capítulo importante dedicado à reestruturação promovida pelo grupo GP Investimentos, já ancorada em filosofias e procedimentos típicos de empresas de capital aberto. Por fim, merece destaque a sua história mais recente, com início ao final de dezembro de 2015, com a crise do FIES, até o momento em que a Estácio se prepara para processo de fusão ainda em curso.

 

Se a história da empresa é complexa e difícil de resumir (nem seria eu a pessoa mais indicada para fazê-lo), a biografia acadêmica, medida pelos indicadores acadêmicos Índice Geral de Cursos (IGC) e Conceito Preliminar de Curso (CPC), parece ser mais clara, dado que sistematicamente progressiva e sustentável até os dias atuais. Em 2009, o IGC de 1,99 (IGC discreto 3, limite inferior) colocava a UNESA à beira de um conceito 2, considerado insatisfatório pelo MEC. Em seguida, de 2010 a 2014, a instituição apresenta um crescimento sustentável com IGC contínuos de 2,05, 2,10, 2,46, 2,46 e 2,65, respectivamente. Aquilo que era tendência até 2014 torna-se uma evidência de sucesso em 2015, quando a maioria da base geral de alunos formandos realizou o ENADE, gerando o surpreendente resultado de IGC contínuo de 3,10. Na terminologia da área, pela primeira vez, um conceito 4 “gordo”, refletindo um crescimento de 17%, o que é mais surpreendente se considerado o ciclo trianual, implicando em um crescimento real ano contra ano bem maior do que esse, se considerada somente a comparação entre os resultados de 2012 (agora descartados) com 2015.

 

Instituições grandes (aquelas com centenas de milhares de matrículas) tendem, mesmo quando boas, para o conceito 3, em média. Além disso, há que se lembrar que na modalidade educação a distância (EaD) todos os polos espalhados pelo país contam como se todos os formandos estivessem no Rio de Janeiro e seus resultados são computados na UNESA. Em suma, uma instituição gigante e com metade de sua base de alunos na modalidade EaD raramente poderia sonhar com conceito 4.

 

O destaque ainda mais espetacular é que se, por ventura, levássemos em conta somente os formandos na modalidade EaD (especulativo), o resultado teria sido ainda melhor (IGC contínuo de 3,50, portanto, em direção ao conceito máximo 5).  No exercício de simulação citado acima, onde são mantidos todos os demais insumos, são excluídos os formandos presenciais, restando na graduação somente os formandos EaD, resulta que entre mais de 150 instituições credenciadas para EaD, a UNESA ficaria no IGC contínuo em quinto lugar no país. Cumpre observar que as quatro que a superam, nominalmente: FGV/Rio, Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e do Mucuri, SENAC/SP e Universidade Federal Fluminense, contaram com relativamente poucos alunos matriculados nos respectivos cursos. Todos os quatro citados com menos de vinte vezes o número de alunos da UNESA. Como responsável direto pela área de EaD na Estácio em 2015, insisto, uma vez mais, que o mérito especial da modalidade a distância é a sua capacidade potencial de conjugar qualidade com quantidade.

 

Há que se considerar também que no último resultado liberado o Índice de Diferença entre os Desempenhos observado e esperado dos formandos (IDD) foi basicamente calculado levando em conta os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) do próprio estudante, permitindo a correta aferição e na devida escala. Ou seja, anteriormente, um cálculo artificial de média era adotado por insuficiência de dados específicos, o que foi recentemente facilitado pelo grande contingente de alunos fazendo o ENEM a partir de 2010 e 2011. A adoção mais rigorosa deste indicador tende a favorecer as instituições, como a UNESA, que trabalham com ingressantes, em média, com maior deficiência de formação anterior e desfavorecer aquelas instituições que tipicamente atraem concluintes do ensino médio com relativamente melhores resultados no ENEM.

 

Isoladamente nenhum dos argumentos acima explicaria o significativo avanço observado à luz desses indicadores na UNESA. O essencial certamente foi a melhoria real da qualidade da educação ministrada, um trabalho coletivo e de longo prazo que elevou consistentemente cada indicador. Porém, outras medidas adicionais adotadas devem ser consideradas. Assim, no próximo e último artigo da trilogia destaco a relevância de terem sido especialmente considerados alguns aspectos socioemocionais dos formandos atendendo ao exame ENADE a partir de 2015.

 

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Foto: Formandos de Medicina da UNESA 2015

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domingo, 18 de junho de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 12:42

IGC, por detrás dos números: considerações preliminares

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A avaliação do ensino superior no Brasil é estabelecida via o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES), Lei no 10.861, de 2004. O pressuposto geral é que o processo regulatório, mais dinâmico e sujeito aos programas específicos de Governo, seja assentado na avaliação, esta sim mais perene e com características de política de Estado. Nem sempre funciona exatamente assim, mas conceitualmente é o que se espera.

 

Em 2007, há uma década, o Ministério da Educação (MEC), por meio de sua Secretaria de Educação Superior (SESu), da qual eu era o titular na época, propôs, via a Portaria no 40, a criação de indicadores de qualidade. Além dos indicadores que são aferidos in loco, a Portaria trouxe novos indicadores avaliados em um ciclo trianual, que contempla diferentes áreas do conhecimento a cada ano. Entre eles, o IGC (Índice Geral de Cursos), que tenta refletir a qualidade da instituição como um todo, resultante de uma cesta de outros indicadores, tais como o CPC (Conceito Preliminar do Curso), o qual pretende dizer algo, ainda que preliminar, sobre a qualidade de cada um dos cursos analisados.

 

Por sua vez, um dos ingredientes mais importantes para formar o CPC, e consequentemente o IGC, é o rendimento médio dos formandos de cada curso do ENADE (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes), conforme previsto na Lei do SINAES. Complementarmente, impactam também no IGC o censo anual dos docentes, a avaliação dos próprios formandos sobre a instituição, os indicadores CAPES da pós-graduação e o Índice de Diferença entre os Desempenhos observado e esperado dos formandos (IDD).

 

Segundo o pensamento vigente no MEC de então, um dos supostos méritos funcionais dos indicadores CPC e IGC seria, a partir deste diagnóstico preliminar, viabilizar o trabalho de supervisão e acompanhamento regulatório a ser desenvolvido. A título de exemplo, um curso que reiteradas vezes tivesse rendimentos insuficientes (CPC 1 ou 2) seria objeto de visita in loco e, se fosse o caso, haveria punições correspondentes, via protocolos de compromisso a serem aplicados. Tais punições variavam desde a suspensão de novos ingressantes no curso até o seu fechamento e, em tese, o mesmo valeria para as instituições (IGC 1 ou 2). Da mesma forma, políticas regulatórias positivas, calcadas em prerrogativas de autonomia (liberdades adicionais para criar turmas, vagas, polos de educação a distância etc.), seriam conferidas àqueles cursos ou instituições com indicadores sistematicamente positivos (CPC ou IGC 4 e 5).

 

Os resultados da última avaliação disponível, frutos do exame ENADE de 2015 (formandos nas áreas de gestão e humanas) combinado em ciclos de três anos, assim cobrindo todas as demais áreas, mostram que das mais de 2 mil instituições avaliadas somente 375 (menos de um quinto delas, portanto) obtiveram os conceitos IGC 4 ou 5.

 

Mesmo cientes de que tal avaliação é preliminar e parcial, cabe refletir sobre o que medimos e o que pode ser extraído dos dados.  Se é verdade que toda medida é frágil e momentânea, dado não existirem medidas inteiramente completas, permanentes e justas, é igualmente correto afirmar que toda medida diz algo, ainda que demande análises muito cuidadosas, porque necessariamente limitadas. No caso, talvez haja pelo menos dois contextos extremos que permitem algumas possíveis conclusões razoáveis. Cursos ou instituições que reiteradas vezes permanecem nos blocos superiores muito provavelmente desenvolvem trabalhos acadêmicos de qualidade fazendo jus a prerrogativas de autonomia diferenciadas. Igualmente, grupos que sistematicamente apresentam indicadores negativos, possivelmente, demandam especiais cuidados por parte dos órgãos públicos reguladores do sistema.  Da mesma forma, um curso cujo CPC ou o IGC de uma instituição, quando analisados enquanto séries históricas, que apresentam consistentes evoluções positivas devem refletir empenhos acadêmicos adequados. O mesmo raciocínio vale para uma evolução negativa, evidenciando, eventualmente, um relativo descuido com os insumos que compõem os indicadores adotados.

 

O drama é que naturalmente a área sombreada (excluído aqui os casos limites acima referidos) é bastante extensa. Assim, quando lidamos com a maioria das instituições, fora daqueles limites extremos citados, é relativamente comum os indicadores evidenciarem claramente seus limites ou resultarem demasiadamente parciais, injustos ou circunstanciais.

 

Uma década após a Portaria no 40, pelo quarto ano consecutivo, vivencio a experiência de observar sua aplicação na prática. Nos dois próximos artigos, em complemento a este, tratarei em um deles especificamente do caso da Universidade Estácio de Sá e no último da trilogia abordarei aspectos específicos socioemocionais dos formandos neste contexto.

 

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Figura em Domínio Público, acessível em: https://hackneyhistory.files.wordpress.com/2013/09/pr_corporalpunishment.jpg

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domingo, 11 de junho de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 12:01

Educação: muitas perguntas e algumas respostas*

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1. Como as escolas vêm lidando com as tecnologias digitais nos dias de hoje?

 

As tecnologias digitais invadiram a secular instituição escola de fora para dentro, sem que as escolas tivessem o devido tempo para se preparar.  Assim, em consequência, os desafios são enormes.

Caminhamos a passos largos para um mundo de educação permanente ao longo da vida e onde a informação está, cada vez mais, totalmente acessível, instantaneamente disponibilizada e basicamente gratuita. De alguma forma, todos seremos estudantes para sempre e a informação em si o mais barato e vulgar dos produtos ou serviços.

Uma das mais relevantes consequências da preponderância das tecnologias digitais é que, do ponto de vista metodológico, observamos uma mudança progressiva de foco em direção a privilegiar as chamadas competências metacognitivas, incluindo as habilidades transdisciplinares e socioemocionais. Entre as características metacognitivas, destaco, a título de ilustração, aprendizagem independente, solução de problemas complexos, perseverança, resiliência, autocontrole emocional e cumprimento simultâneo de multitarefas em equipe. Tais predicados são especialmente relevantes em missões envolvendo pensamento crítico, capacidade analítica, uso do método científico, comunicação, colaboração, criatividade, empreendedorismo, empatia, cordialidade, respeito e gestão da informação e de emoções.

 

2. E isso é fácil de ser adaptado em escolas particulares. Mas, e as escolas públicas? Como podem ser adaptadas?

 

Sobre a questão mais relevante a ser enfrentada, creio que tanto faz a escola ser pública ou privada. Tão ou mais relevante do que aquilo que foi aprendido (associado genericamente à cognição ou ao aprender simples) é o amadurecimento da consciência, por parte do educando, acerca dos mecanismos segundo os quais ele aprende (metacognição ou o sofisticado aprender a aprender). Tais estratégias educacionais passam por enfatizar elementos motivacionais, incluindo atenção especial a trabalhos colaborativos (capacidade de produzir em equipe) e em aspectos interdisciplinares (habilidade de estabelecer conexões entre diversas áreas do saber), acrescidos de relevância de comportamentos como tolerância e compaixão (empatia aplicada, isto é, entender o outro por se colocar na posição do outro e agir em função disso). São também relevantes os estímulos à visão empreendedora (criativa conjugada com exequibilidade e sustentabilidade) e o especial domínio de linguagens e de plataformas digitais.

 

3. E esse modelo de escola do futuro que vem surgindo e ganhando espaço no Brasil?

 

A escola do futuro deve dar respostas hoje para temas que estão presentes desde ontem e continuam sem respostas satisfatórias. Educar tem se tornado mais complexo porque abarca o imprescindível conteúdo acadêmico, mas introduz, adicionalmente, novas exigências e perspectivas. Atitudes, comportamentos e posturas são elementos transversais presentes nos processos de aprendizagem de praticamente todas as áreas do conhecimento e em todas as suas fases.

No passado recente, a formação de um profissional estava bastante centrada na aquisição de um conjunto razoavelmente bem delimitado de conteúdos previamente estabelecidos, somado a uma série conhecida de técnicas e procedimentos. Essa formação era considerada razoavelmente suficiente para atender as demandas previsíveis de um modelo de desenvolvimento econômico predominante no século XX. Na perspectiva Fordista/Taylorista, tal profissional findava atendendo ao mercado, gerando cidadãos minimamente satisfeitos. Não mais. O mundo mudou rapidamente, os principais desafios contemporâneos apresentam ingredientes basicamente imprevisíveis.

Aprender a aprender passa a ser tão ou mais relevante do que simplesmente aprender. Mais relevante do que o conteúdo aprendido é a percepção acerca de como se aprende. Em um mundo de educação permanente ao longo da vida, a formação metacognitiva se constitui em um diferencial significativo na capacidade dos futuros profissionais de enfrentar os problemas que lhes serão apresentados pela sociedade contemporânea.

 

4. Mesmo com toda essa tecnologia, os jovens ainda enfrentam graves problemas em redes sociais, como erros de português e falta de entendimento de textos. Como as redes sociais podem se tornar aliadas na educação?

 

As tecnologias digitais, suponhamos, podem ser o veneno. E, de fato, às vezes, são mesmo. Mas é do próprio veneno que se produz o antídoto a ele, assim como se faz com cobras peçonhentas. Há que se explorar metodologias inovadoras, acompanhadas das novas tecnologias, que contribuam para que nossos jovens e crianças leiam mais, escrevam mais e melhor, bem como sejam capazes de entender – e bem – textos complexos. Entendo que explorar a metacognição vai além dos procedimentos usuais de transmissão simples do conhecimento, privilegiando a curadoria precisa e eficiente do conteúdo digital a ser disponibilizado e a adoção de abordagens emancipadoras, especialmente aquelas baseadas em aprendizagem independente.

Cabe ao educador ampliar as competências e habilidades que habilitam o educando a enfrentar, sem medo, as imprevisíveis novas realidades. Preparar os docentes para explorar essas especiais capacidades é um dos maiores desafios da educação contemporânea e ainda estamos aprendendo a formar adequadamente tais professores. O drama é que temos pouco tempo e estamos atrasados. Esse educador é imprescindível imediatamente para a geração de profissionais e cidadãos aptos a colaborarem com uma sociedade mais justa e harmônica, com desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável.

 

5. Portugal é um país que vem se destacando na educação e um dos métodos utilizados é a memorização. O senhor é a favor desse método?

 

Portugal tem enfrentado bem seus problemas, dentro de sua realidade e acho fundamental que conheçamos profundamente suas soluções preliminares. No entanto, isso não quer dizer copiá-los acriticamente, tampouco desconhecer as diferenças, incluindo que a escolaridade dos pais em Portugal é superior à escolaridade média dos pais brasileiros.

Mais do o esforço da memorização, creio que a realidade brasileira sugere particularmente estimular a criatividade, a capacidade de enfrentar problemas e o desenvolvimento de resiliência. A maioria das metodologias educacionais, envolvendo os respectivos procedimentos e abordagens, tem tradicionalmente adotado como objetivo central evitar os tropeços dos alunos. Fundamentalmente, o ensino tradicional, ao informar, o faz para que o educando acerte e evite, a qualquer custo, os erros. De forma resumida, ter sucesso, normalmente, quer dizer não levar tombos, sabendo responder as questões corretamente e completando positivamente e no menor tempo possível os desafios apresentados.

A título de exemplo, num teste padrão de múltipla escolha interessa, em geral, somente a resposta certa, sendo que, usualmente, as respostas erradas nada mais são do que respostas erradas. A educação contemporânea, no contexto dos usos adequados das tecnologias digitais, diverge frontalmente de tal postura. Atualmente, tendemos a aproveitar tanto a resposta certa, valorizando o aprendido, como a resposta errada, como elemento que ilumina os caminhos de superação das deficiências. Os erros, potencialmente, podem dizer mais sobre o educando do que o acerto eventual.

Os modelos padrão e suas práticas usuais de ensino têm sobrevivido porque níveis razoáveis de sucesso puderam ser observados no passado, gerando a expectativa de que, provendo informações com competência e evitando os tropeços, teríamos solução educacional também para o presente e, eventualmente, até mesmo para o futuro. Nada mais ingênuo. Os velhos tempos, onde razoáveis eficiências e eficácias educacionais foram observadas, se caracterizam, principalmente, pela previsibilidade do mundo do trabalho, por demandas profissionais bem estabelecidas e futuros próximos razoavelmente conhecidos. Os novos tempos apresentam mudanças profundas, implicando em desafios inéditos, onde o ensino tradicional, tal como o praticamos, dá mostras claras de incapacidade de decifrá-los ou resolvê-los.

Entre as rápidas mudanças em curso está aquela que torna progressivamente a informação o produto mais disponível e o mais barato da atualidade. O surgimento de uma sociedade em que a informação está totalmente acessível, instantaneamente disponibilizada e gratuitamente adquirível traz consequências educacionais ainda não assimiladas e, por vezes, sequer percebidas. As ênfases e os focos demandam imediatas mudanças, em especial deslocando o centro do processo de aprendizagem baseado no simples saber, enquanto ser informado, em direção ao complexo saber resolver, baseado na informação assumida como completamente disponível, instantânea e gratuita.

Mais do que o simples acesso à informação, gerir corretamente o conhecimento disponível, trabalhar em equipe e assim decifrar e resolver os problemas passam a ser atitudes fundamentais, tanto no mundo profissional como no dia-a-dia. O ensino segmentado e com terminalidades definitivas dá lugar à educação permanente ao longo da vida, onde o aprender a aprender é mais relevante do que o aprender em si. Mais importante do que aquilo que foi aprendido é ampliar a consciência e o domínio acerca dos mecanismos associados a como se aprende.

Assim, os novos tempos impõem uma realidade em que é mais importante focar no processo de aprendizagem e nos procedimentos de superação, após o erro, do que a obsessão simples por, a partir das informações adquiridas, tentar nunca tropeçar. Não há nenhuma garantia de que aqueles que nunca tropeçaram saberão levantar, caso errem. Mas há fortes indicadores de que aqueles que aprenderam a aprender terão todas as condições de enfrentar os tombos. Muito mais importante que a ênfase na memória e evitar tropeços, portanto, é aprender a levantar.

 

6. Por onde começar para o Brasil ter uma educação pública de qualidade?

 

Educação e o contexto social onde ela se realiza não são coisas estanques e totalmente separáveis. Nossa carga cultural traz marcas bem descritas em obras consolidadas. Entre elas, destaco “Casa Grande & Senzala” de Gilberto Freire. Neste e em outros estudos, são enfatizados, de um lado, uma elite acostumada às benesses e aos privilégios, que justificam e estimulam o paternalismo e a acomodação, e, de outro, os demais, em geral submetidos à exclusão e à opressão, que desfavorecem a emancipação e as iniciativas empreendedoras. A tradição histórica que se reflete nas relações, seja nas ruas ou no trabalho, infelizmente, também repercute nas salas de aula, via pedagogias que prioritariamente estimulam a aprendizagem marcadamente dependente e distante da emancipação.

Ou seja, em outras palavras, o Brasil tem que perceber algo simples e que parecemos querer, ingenuamente, enganar a nós mesmos. Somos um dos países de maior contraste social do planeta e pagamos um preço muito alto por isso. Entre eles, a notável incapacidade de termos um desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável. Isso decorre principalmente de termos uma produtividade muito baixa, a qual é consequência da baixa escolaridade (anos de estudo) e da má qualidade dos anos estudados. Os da camada de cima, que são poucos e têm tudo, apresentam poucos motivos para se aprimorarem e se desafiarem adequadamente e se tornam, intelectualmente, preguiçosos, com as devidas exceções (que contribuem para confirmar a regra). Os da camada de baixo, que são muitos e têm muito pouco, mesmo que se por ventura talentosos, têm baixíssimas chances de progredir. Assim, uma sociedade de Casa Grande de um lado e a Senzala de outro raramente é competitiva, produtiva e sustentável. Assim, embora educação seja uma ferramenta indispensável para a solução do problema, definitivamente, ela não é a raiz isolada do problema.

 

7. Hoje mudou muito o perfil de uma instituição de educação superior com o avanço dos cursos a distância. É o futuro?

 

Mais do que a educação a distância, a qual é somente uma modalidade disponível, creio que as ferramentas advindas do uso intenso e adequado das tecnologias digitais deverão alterar a face da educação superior.

Destaco, entre outras novidades, a analítica da aprendizagem (em inglês, learning analytics), a qual diz respeito à abordagem baseada na coleta e análise sistemática de dados sobre os educandos e seus contextos, tendo em vista o entendimento e a otimização do processo de aprendizagem e do ambiente no qual ele ocorre. Analítica da aprendizagem está associado ao desenvolvimento de ações e estratégias educacionais implementadas com o suporte de modelos, simulações e padrões estatísticos. Tal processo viabiliza conferir a eficiência e eficácia de metodologias educacionais, conhecer mais sobre todos os atores envolvidos e aprimorar de forma inteligente e substantiva a prática pedagógica.

Coletar e analisar dados, como elemento de suporte para tomada de decisões, é o que nós fazemos todos os dias, mesmo que de forma natural e inconsciente. A novidade é que no mundo digital são gerados dados em níveis sem precedentes e, consequentemente, podemos dispor atualmente de estratégias inovadoras, assentadas na capacidade de predições inéditas, decorrentes do uso sistemático, sofisticado e inteligente de estatísticas de grandes massas de dados. Esta realidade é amplificada no mundo educacional atual pelo uso crescente de ambientes virtuais de aprendizagem, tanto na modalidade presencial como a distância. A plataforma virtual, a qual permite a utilização de diversas mídias e demais recursos para apresentar as informações associadas à aprendizagem, é o mesmo ambiente que viabiliza coletar automaticamente dados e analisar o desempenho dos alunos, tanto coletivamente como individualmente.

A mais relevante característica da estratégia baseada na analítica da aprendizagem é que pela primeira vez quebramos o paradigma de que o aumento da quantidade é necessariamente associado ao rebaixamento de qualidade. Pelo contrário, ela permite conjugar escala e qualidade, de tal forma que quanto maior a quantidade de dados as análises geradas tendem a ser mais confiáveis, colaborando ainda mais no conhecimento e na avaliação das ações educacionais em curso e no incremento do potencial das iniciativas futuras.

Atualmente, é possível conceber que todos os educandos podem aprender e todos aprendem o tempo todo, porém, cada educando aprende de maneira única e personalizada. Para tanto, educação contemporânea significa construir um ensino híbrido, flexível e customizado. A partir dos comportamentos dos estudantes, individualmente ou coletivamente, seja nas atitudes frente a desafios propostos ou via respostas, certas ou igualmente úteis erradas, às questões formuladas, é possível, por meio do desenvolvimento de algoritmos especiais, saber muito sobre cada educando. Isso inclui conhecer suas principais características, expectativas, lacunas, predicados etc. De posse da máxima percepção global sobre o aluno e frente a cada situação educacional específica, podem os educadores e educandos, apoiados por plataformas inteligentes, escolher de uma multiplicidade de trilhas educacionais a mais adaptada. Não menos importante, ao longo do processo, o aluno se permite conhecer melhor a si mesmo, ampliando seu nível de consciência acerca dos mecanismos e contextos nos quais ele otimiza seu aprendizado.

Com a abordagem baseada em analítica da aprendizagem passamos a dispor de uma ferramenta adicional indispensável aos educadores contemporâneos. Portanto, torna-se possível ampliar significativamente a capacidade de aprender a aprender, o que é absolutamente imprescindível em um contexto de educação permanente ao longo da vida. Fruto do uso adequado de novas tecnologias, em conjunto com a adoção de metodologias educacionais inovadoras, temos, pela primeira vez, a real oportunidade de propiciar educação de qualidade para todos.

 

8. A escola do futuro defende que futuramente vários cursos superiores desaparecerão e haverá uma mudança mais para cursos profissionalizantes. Como o senhor imagina isso?

 

Creio que, ao contrário, no futuro as escolas, da creche à pós-graduação, se dedicarão cada vez mais a ensinar a aprender a aprender. As aplicações em si (profissionalizantes) serão processos adaptativos associados a missões específicas e poderão, a depender do caso, ser aprendidos no próprio ambiente de trabalho sem maiores problemas. Portanto, no processo educacional, adicionalmente aos conteúdos a serem abordados, em complemento às técnicas e procedimentos que um futuro profissional ou cidadão devem dominar, há outros elementos, tão ou mais relevantes, que demandam estar presentes. Entre eles, a aprendizagem independente é essencial e não exclui o professor; ao contrário, o inclui via a adoção de metodologias que estimulem processos emancipatórios na aprendizagem.

A notícia positiva é que o mundo das tecnologias digitais favorece a missão de estimular processos emancipatórios e mantém grande coerência com as metodologias ativas que se baseiam em aprendizagem independente, mediadas tanto pelo educador como pelos ambientes virtuais. Via as interfaces educacionais inteligentes e os recursos e ferramentas atualmente disponíveis, é plenamente possível traçar trajetórias educacionais personalizadas que levam em conta cada indivíduo, bem como fortalecer aspectos culturais e demais especificidades regionais e locais.

Temos a oportunidade inédita de conjugar escala e qualidade, contrariando as práticas anteriores, caracterizadas por qualidade para poucos ou, alternativamente, má qualidade sempre que estendida aos demais (todos). Contemporaneamente, ao contrário, podemos afirmar que só haverá qualidade se tivermos variadas referências para acesso, fruto de adotarmos tecnologias e metodologias que sejam aplicáveis para muitos. Hoje, seja na educação, na saúde ou em demais setores, inovar no Brasil é ousar propiciar qualidade para todos.

Os níveis extremos de compatibilidade e de pertinência das organizações educacionais, incluindo as metodologias e os modelos de gestão escolares adotados, fizeram delas das mais bem-sucedidas e respeitadas instituições do mundo moderno. Especialmente no século XX, seu ápice. A escola, no sentido amplo, contribuiu significativamente para grandes avanços em termos de ampliação do acesso a serviços e a produtos de qualidade. Foi dentro dos seus muros que foram gerados os conhecimentos que resultaram no aumento da expectativa de vida e, principalmente, produziram as condições para a grande revolução decorrente das tecnologias digitais, as quais estão a transformar, num processo ainda em curso, o mundo contemporâneo.

A escola tem cumprido várias funções, entre elas, a de ser o espaço de transmissão de conhecimento, formando cidadãos que dominam certos conteúdos e profissionais habilitados a determinadas técnicas e procedimentos específicos. Nesta concepção, os níveis escolares refletem etapas formativas com diferentes graus de profundidades e os respectivos diplomas e certificados atestam os conhecimentos adquiridos e as respectivas competências e habilidades associadas a cada uma das áreas do saber.

Todas as instituições e setores contemporâneos estão sendo e serão profundamente afetados pelas tecnologias digitais, em especial a escola, dado que a marca dos novos tempos é a emergência de uma sociedade na qual a informação está plenamente disponível, imediatamente acessível e essencialmente gratuita. Assim, as instituições educacionais, por sua relação orgânica com a informação e o conhecimento, demandam ser especialmente reconceptualizadas. Neste século XXI, mais do que no século anterior, elas devem ser repensadas à luz de um cenário onde mais relevante do o que foi aprendido é aprimorar a capacidade de aprender a aprender. Informação, em si, passa a ser o mais disponível e vulgar dos produtos.

Aprendemos, a partir de agora, dentro e fora da escola, a qualquer tempo e por qualquer meio e o fazemos, principalmente, como meio de ampliar nossa consciência acerca dos mecanismos segundo os quais ampliamos nossa capacidade de aprender a aprender.  A escola que marcava suas etapas pelos diplomas e certificados, atestando os conhecimentos adquiridos, nas formas de conteúdos, técnicas e procedimentos, dá espaço a um novo conceito onde as etapas correspondentes, da creche ao pós-doutorado, se caracterizam essencialmente pelos níveis diversos da capacidade de aprender continuamente em um mundo de educação permanente ao longo da vida.

Há uma essência perene nas funções da escola e do professor, mas certamente ela não está em seus prédios ou nos modelos de gestão, tampouco nas atuais metodologias e abordagens educacionais. Enfim, é rica e bela a história da escola, uma instituição que hoje, promissoramente, se prepara para se reconfigurar plenamente visando a atender as demandas do futuro. Futuro que começou na semana passada.

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* Texto baseado, preliminarmente, em perguntas recebidas e respondidas ao Caderno de Domingo (11/6/2017) do Jornal A CIDADE de Ribeirão Preto-SP e região (veja link)

  

Figura em Domínio Público em http://www.publicdomainpictures.net/pictures/190000/velka/school-41.jpg

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domingo, 4 de junho de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 07:26

A ilusão do especialista, segundo Henry Ford

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Model_T_Ford_takes_a_couple_off_on_their_honeymoon,_1913

 

 

Henry Ford (1863-1947) foi pioneiro, inovador e, seguramente, um dos mais importantes empresários do século passado. Foi o primeiro a aplicar, de forma sistemática e na escala devida, a montagem em série, o que viabilizou a produção em massa de automóveis. O menor tempo de produção resultou em custos acessíveis e seu modelo de produção, posteriormente, se espalhou para os demais segmentos, celebrando um mundo inédito de generalizado alto consumo.  Ford é autor de dois importantes livros: “Minha filosofia de indústria” e “Minha vida e minha obra”, além de mais de uma centena de relevantes patentes.

 

Segue abaixo uma de suas mais interessantes afirmações e que talvez melhor caracterize quem foi Ford (em tradução livre do texto original): “Nenhum de nossos colaboradores são experts completos. Infelizmente, tivemos que demitir nossos funcionários assim que eles passaram a se considerar especialistas satisfeitos. Quanto mais um funcionário domina seu serviço, melhor ele deve perceber que sempre restará muito mais ainda a ser feito. Precisamos de pessoas que estejam permanentemente pressionando a si mesmos e que não se acomodem jamais, independente de quão eficientes elas sejam. Pensar sempre adiante, raciocinando melhor e tentando mais, assumindo que nada é impossível. O problema é que no momento em que alguém se sente um expert em algum assunto, algumas possibilidades passam a ser consideradas por ele como sendo impossíveis”.

 

Podemos considerar como inauguração do século XX a Fundação da Ford Motor Company em 1903. A primeira padronização, fruto da incipiente linha de montagem, gerou o Modelo A de dois cilindros, atingindo a incrível marca de cem veículos produzidos por dia. Em seguida, o modelo foi substituído pelo Modelo T (ou Ford Bigode), o qual foi posto no mercado em 1908 ao acessível preço na época de 850 dólares. Este valor foi gradativamente diminuindo à medida que o número de veículos produzidos crescia e em 1925 um novo Ford ficava pronto a cada 15 segundos. Em 1928, a empresa empregava mais de 200.000 operários para fabricar 6.000 carros por dia, além de caminhões, tratores, ônibus etc.

 

Henry Ford foi também inovador na forma como tratava seus funcionários, reduzindo as horas de trabalho, via aumento de produtividade, e incentivando-os com sucessivos aumentos de salários, via participação nos lucros, além de repartir o controle acionário com os colaboradores. Ford foi a expressão maior de um modelo de desenvolvimento econômico e social de grande sucesso no século passado. Em nada sua reputação é ofendida ao percebermos que suas ideias, seus modelos e suas abordagens simplesmente não funcionam mais. Ele mesmo previu isso ao afirmar que o desafio maior da inovação é inovar permanentemente. Ser inovador hoje é fazer como Ford, fazendo bem diferente de Ford.

 

Da mesma maneira, a escola que se moldou ao longo do século passado foi muito influenciada pelo atendimento às demandas decorrentes do modelo vitorioso por ele proposto. Hoje vivemos mais do que uma era de grandes mudanças; vivenciamos uma mudança de era. Novos Fords têm aparecido, em geral associados ao mundo digital e, ao que parece, este ainda será o território de emergência de novos líderes empresariais nos próximos anos ou décadas. A questão que permanece é como repensar a escola que fez tanto sucesso na era fordista e que, visivelmente, colhe fracassos numa era com novos paradigmas. Pensar uma nova escola compatível com o mundo contemporâneo não é e nem pode ser um exercício abstrato no vazio de lógicas auto-consistentes. Ao mesmo tempo que educar deve manter uma desejável distância de demandas imediatas, educação necessariamente é fortemente influenciada pelo contexto.

 

A escola que emergirá será também decorrência da capacidade de atender às demandas dos novos tempos, caracterizados pela abundante informação, a qual está cada vez mais acessível, disponibilizada imediatamente e basicamente gratuita. Saber disso não transforma a complexa missão em algo fácil. Porém, desconhecer ou desconsiderar esses fatos torna, praticamente, impossível pensar ou propor metodologias e abordagens educacionais inovadoras. A escola e os educadores do futuro estarão, de alguma forma, conectados aos novos modelos de desenvolvimento econômicos e sociais, os quais, por sua vez, impregnam, desde já, os hábitos e costumes da sociedade atual.

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Figura de Domínio Público, em:

 

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/a6/StateLibQld_2_179851_1913_Model_T_Ford_takes_a_couple_off_on_their_honeymoon%2C_1913.jpg

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