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domingo, 4 de novembro de 2018 Sem categoria | 05:22

Brasil avaliando a China

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Recentemente, fui convidado para integrar o Comitê Internacional de Avaliação do Instituto de Tecnologia de Pequim (BIT, Beijing Institute of Technology, em inglês). O BIT é uma das universidades públicas chinesas com foco principal em ciência e tecnologia, atuando também em outras áreas como gestão e humanidades.

 

Periodicamente, as universidades chinesas passam por avaliações supervisionadas por comissões formadas por pesquisadores seniores, especialmente selecionados em todo o mundo. Creio ser a primeira vez que um brasileiro é convidado. Neste ano, a fase presencial do processo avaliativo será em novembro próximo.

 

Acostumado às avaliações das universidades nacionais, não há como não se surpreender acerca dos principais indicadores que norteiam o processo chinês. Ainda que a qualidade do ensino e a produção científica tradicional sejam consideradas, as ênfases do processo estão na análise das parcerias com o mundo corporativo e no incentivo ao empreendedorismo entre os educandos.

 

Para quem se acostumou a associar os produtos chineses com cópias e imitações, seja na indústria de computadores, automóveis, jogos eletrônicos e celulares, a realidade atual mostra que, definitivamente, eles aprenderam a fazer do seu próprio jeito, ou seja, inovando mais do que seus concorrentes.

 

A parceria entre governo, academia e empresas pode ser exemplificada pela valorização que o mundo universitário confere ao que eles chamam de BAT, sigla que corresponde às iniciais das três grandes estrelas: Baidu, Alibaba e Tencent. Juntas, essas empresas representam mais de US$ 1 trilhão. Ao lado delas, brilham as quase duas centenas de unicórnios (startups que superaram a casa dos US$ 1 bilhão), que juntas se aproximam do mesmo montante da BAT. Em outras palavras, somente a BAT somada aos unicórnios, grosso modo, equivalem ao PIB brasileiro.

 

Em ações sincronizadas, na China, todos os atores envolvidos promovem e valorizam inovações disruptivas em áreas que incluem infraestrutura urbana inteligente, veículos autônomos e plataformas de medicina personalizada, sempre baseadas em inteligência artificial e comércio eletrônico generalizado.

 

Os chineses têm absoluta clareza que tudo isso é fruto de fortes investimentos em educação, os quais crescem anualmente acima de 10%, atingindo a incrível cifra de mais de US$ 500 bilhões no ano passado. Atualmente, em torno de 14% dos estudantes da Universidade de Pequim abriram ou trabalham em startups e há a meta de dobrar esse percentual. Sem isso, entendem eles que o objetivo de fazer do país líder global em inteligência artificial e em outras áreas estratégicas não será atingido.

 

Considerando que a China é, há quase uma década, nosso principal parceiro comercial, período no qual os investimentos chineses no Brasil cresceram 3.000%, é fundamental que os conheçamos bem. No primeiro semestre de 2018, os investimentos chineses no Brasil, concentrados em energia, alimentos, mineração e telecomunicações, atingiram US$ 1,4 bilhão, volume quatro vezes maior do no mesmo período no ano passado.

 

As perspectivas, seja no comércio, no mundo da política global ou nas parcerias acadêmicas, são, potencialmente, favoráveis ao Brasil. Porém, a China saberá identificar se o país é somente uma fonte de commodities ou se a parceria será também em empreendimentos comuns, calcados em educação qualificada e planos substantivos em ciência, tecnologia e inovação. E ao Brasil, cabe decidir que relações pretende estabelecer com a China, com o  resto do mundo e consigo mesmo.

 

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Este artigo, com pequenas modificações, intitulado “As Relações Brasil e China, foi publicado em O DIA: 
http://www.clipnaweb.com.br/v3/clipping/conteudoNoticia.aspx?cliente=estacio&idNoticia=86296&arquivo=20181102%2F0000086296.pdf&data=02%2F11%2F2018&midia=impresso&tipo=impresso&vitrine=3&usu=estacioclip

 

 

 

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domingo, 18 de fevereiro de 2018 Sem categoria | 12:21

Canoas havaianas do Posto 6: o Forte onde Copacabana vira Polinésia

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23 de Novembro de 2016 - Rio de Janeiro/RJ, Brasil. Aereas no Rio de Janeiro, Rio de Janeiro/RJ. (Credits: Gabriel Heusi/Heusi Action).fortecanoas

 

Canoas havaianas do Posto 6: o Forte onde Copacabana vira Polinésia. As canoas havaianas têm sua origem há milhares de anos na região do triângulo polinésio, onde foram fundamentais no processo de colonização daquela área. Conhecidas como Wa’a no Havaí, Va’a no Taiti e Waka na Nova Zelândia, elas compõem parte essencial da cultura milenar dos polinésios. As canoas, em suas diversas formas, serviram tanto para deslocamento entre as ilhas quanto para a pesca em oceanos abertos ou para demonstração de força dos chefes e reis de diversas épocas.

 

No formato como elas são conhecidas atualmente, as canoas havaianas se caracterizam pelas três partes: o casco (hull), o flutuador (ama), que garante a estabilidade, e os braços que ligam um ao outro (yakos). Na canoa há 6 lugares, cada um possuindo funções específicas, além de remar. O primeiro mais adiante, conhecido como voga, dá o ritmo das remadas, sendo que enquanto os remadores 1, 3 e 5 remam de um lado, os remadores 2, 4 e 6 remam do lado oposto. O terceiro ou o quarto remadores, em geral, fazem a contagem para a troca de lado, anunciando a mudança em um comando (algo como Hop, versão abrasileirada do Hip Ho original). O sexto remador é o leme, o capitão da canoa. Um bom remador não é medido somente pela força, mas, principalmente, pela técnica, por respeitar o sincronismo de comunhão da canoa com o mar, expresso no espírito de integração da equipe e por acompanhar, de forma solidária e colaborativa, os demais remadores da canoa.

 

No Brasil, a chegada da canoa havaiana ocorreu ao final do ano 2000, em Santos, com a primeira canoa importada dos Estados Unidos sendo batizada de Lanakila.  Atualmente, o Rio de Janeiro é um centro de referência nacional na prática deste esporte, em especial no Posto 6, ao lado do Forte de Copacabana, o qual lhe serve de excepcional abrigo, garantindo águas calmas, com ondas adequadas conjugadas com belíssimas opções de entradas para o mar aberto.

 

O Forte de Copacabana, oficialmente denominado como Museu Histórico do Exército/Forte de Copacabana (MHEx/FC), constitui-se em um dos mais belos cartões-postais da cidade. O projeto de construção remonta à época da transferência, em 1763, da capital do Brasil, Salvador, para o Rio de Janeiro. Sua implementação definitiva se deu por ocasião da vinda da corte portuguesa para o Brasil no início do século XIX. D. João VI, em 1823, receoso de um possível ataque da armada portuguesa em função da Independência do Brasil de Portugal em 1822, acelerou sua adequação para a efetiva proteção do Rio de Janeiro. O Forte foi centro de outros relevantes momentos da pátria. Entre tantos fatos históricos, destaco a Revolta da Armada de 1893 e o contencioso em função de demarcação de fronteiras com a Argentina em 1895, ocasião em que foram instalados os seis canhões de longo alcance.

 

Canoas realizam seus ondulados movimentos no Posto 6 acompanhadas de outros atores de máxima riqueza. Entre eles, a ainda ativa Colônia de Pescadores, cuja origem data da década de 1920, o Quartel de Serviços de Salvamentos dos Bombeiros, o Clube dos Marimbás etc. As canoas ajudam a compor um dos mais prósperos cenários mundiais de aprendizagem e de prática de inúmeras outras atividades esportivas aquáticas e de areia de praia. Desde aprendizes a atletas olímpicos, naquele espaço compartilhado nadam, fazem stand-up paddle, praticam surf e bodyboard, jogam frescobol etc.

 

A evolução harmônica das canoas do Posto 6 se expressa também em sons das ondas quebrando na areia carregando consigo fantasias, alegorias e adereços naturais. Esta harmonia única sugere enredos maravilhosos para celebrar a transformação de Copacabana em especial espaço polinésio.

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Foto 1. De Gabriel Heusi/Heusi Action, em Portal Brasil 2016 (“Todo o conteúdo desse site está licenciado sob a Licença Creative Commons Atribuição 3.0 Brasil“);

Foto 2. De Beto Vaz, remador da Equipe Esquilo no Posto 6.

 

 

 

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domingo, 4 de fevereiro de 2018 Sem categoria | 20:27

Pedido Póstumo

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Caros viventes cariocas, sei bem que dita a boa educação que recebamos as eventuais homenagens sem contestar e de bom grado, sempre. Dizem que eu teria dito em vida: “a cavalo dado não se olha os dentes”. Bobagem, jamais disse isso e o linguajar difere do meu. Além de suspeitar ser uma tradução liberal do inglês: “never look a gift horse in the mouth”, literalmente, algo como: “nunca olhe a boca de um cavalo ganho de presente”.

 

Alguém, bem-intencionado, em 2002, quis celebrar meu centenário de nascimento colocando uma estátua de bronze de 150 quilos no Posto 6 em Copacabana. A escolha do local não poderia ser mais apropriada. Morei na Conselheiro Lafaiete, 60. Para ir para a Avenida Atlântica costumava caminhar, por vezes, pela Júlio de Castilhos, outras, pela Rainha Elizabeth. A estátua ficou entre as duas ruas, perfeito.  Só elogios e nada a reclamar, demonstrando meu apreço pela cidade e minha permanente tendência à transigência.

 

Mas, indo direto ao ponto da reclamação: sou mineiro, de Itabira para quem não sabe. Mineiro adora mar, e disso todos estão cientes. O escultor da obra, Leo Santana, meu conterrâneo, é igualmente louco pelo mar. É verdade que a ele deram uma foto de Rogério Reis, a qual, pelos idos do início da década de 1980 saiu na revista Veja. Mas, convenhamos, eu escrevi: “No mar estava escrita uma cidade”, consequentemente, o foco é o mar e a cidade o acidente. Se pensasse diferente, teria escrito: “Na cidade estava escrito o mar”. Além de sem sentido, o centro seria a cidade, portanto…

 

Então, pergunto de forma direta e objetiva: por que diabos me puseram de costas para o mar? E, pior, na forma de estátua, a qual, por definição, assim permanece, para sempre. Meu vizinho (uma quadra adiante, em direção ao Forte), Dorival Caymmi, com quem converso muito por aqui, está plenamente satisfeito com a estátua dele. Baiano não é assim tão obsessivo pelo mar e ele tem, particularmente, homenageado aquele muitas vezes. No caso, se há dívida, é do mar com o baiano, e não o contrário. Tanto que ele chega a estar cansado. Já é um esforço danado, além de carregar seu instrumento, estar sempre feliz e de braços abertos.

 

Voltemos ao meu pleito. Hoje, ao contrário dos saudosistas que aqui chegam do Rio, acho o Posto 6 mais interessante do que antes. Preservaram a Colônia e o Forte, que eu tanto apreciei, e temos agora stand-up paddle, grupos animados de natação, frescobol e as fantásticas canoas havaianas, que fariam os polinésios morrer de inveja do Rio. Mas, convenhamos, de onde estou, de costas, vejo tudo somente de soslaio…

 

Em suma, a quem receber esta mensagem póstuma, ainda que viva, peço que considerem virar minha estátua para o mar. Esqueçam aquela foto, ela diz respeito a hábitos do passado, tão somente. Eu agora pretendo ficar de frente, mirando o mar, no qual estava escrita uma cidade.

 

                                                                                                                C. D. de Andrade (by R. Mota)

 

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segunda-feira, 2 de outubro de 2017 Sem categoria | 00:00

ENADE e CPC são a mesma coisa? Não, não são

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Em qualquer área de atividade, indicadores de qualidade são essenciais para uma permanente melhoria dos serviços prestados, bem como para informar aos usuários que os utilizam. Por mais bem elaborados que eles sejam, os retratos que os indicadores fornecem sempre serão limitados e parciais, sendo tentativas de captar elementos complexos e nem sempre objetivos.

 

Na educação superior brasileira, há a Lei do Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior/SINAES, Lei no 10.861/2014, estabelecendo os marcos referenciais de qualidade. Tendo como referência os indicadores de qualidade, sob responsabilidade do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira/INEP, o processo regulatório é implementado por outros órgãos do Ministério da Educação/MEC.

 

O Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes/ENADE é previsto na Lei do SINAES para mensurar a qualidade dos formandos e ele é aplicado a cada três anos a uma das três grandes áreas  do conhecimento (Saúde, Gestão e Engenharia e Licenciaturas). Os resultados obtidos pretendem ser fotografias das linhas de chegada tentando mensurar, à luz das Diretrizes Curriculares de cada curso, os conhecimentos dos formandos. Além do conceito ENADE de cada curso, cada formando tem acesso à sua avaliação individual, via relatório individual de desempenho, onde ele pode se situar relativamente aos demais formandos de sua turma, bem como comparativamente aos demais formandos de sua carreira no país. Este documento, por lei, é de caráter privativo, mas pode e deve ser amplamente utilizado pelo futuro profissional em todos os contextos em que ele assim o desejar.

 

Sendo o ENADE uma fotografia na linha de chegada, se ele fosse o único indicador, poderíamos, ingenuamente, concluir que dois formandos com os mesmos resultados tenham tido desempenhos similares. A título de ilustração, se alguém na linha de chegada testemunhar a chegada simultânea de dois atletas, poderia perguntar se ambos saíram do mesmo ponto de partida. A resposta óbvia seria sim. Mas, no caso do ensino superior, a resposta é não. Cada um saiu de um ponto diverso, o qual hoje, grosso modo, pode ser medido razoavelmente pelo Exame Nacional de Desempenho do Ensino Médio/ENEM. Assim, dois atletas chegando juntos, se um saiu de um ponto mais distante, o seu desempenho é superior ao outro que correu menos. Por isso é previsto um outro indicador, o índice que representa o conhecimento agregado pelo curso superior ao aluno (IDD). Neste caso, se o ENADE representa mais adequadamente a qualidade do formando, o IDD diz respeito mais à qualidade do curso em si no seu papel de formar o aluno ao longo da graduação.

 

Com o tempo, restou evidente que seria aconselhável criar um novo indicador que combinasse esses dois insumos (ENADE e IDD) e incluísse outros igualmente relevantes, tais como a qualificação do corpo docente, incluindo titulação e regime de trabalho, e uma avaliação pelos formandos das condições oferecidas para o desenvolvimento do processo, incluindo organização pedagógica, infraestrutura etc.

 

Em 2008, com a participação da Secretaria de Ensino Superior/SESu, da qual eu era o secretário, foi desenvolvido no MEC o Conceito Preliminar de Curso (CPC), com a intenção de ajudar a estabelecer um conceito apropriado a cada curso de graduação, incluindo ENADE, IDD e os demais indicadores. Na mesma oportunidade, foi implantado o Índice Geral de Cursos (IGC), previsto para fornecer um conceito para a instituição como um todo, onde os CPCs resultantes das avaliações dos últimos três anos seriam agregados às avaliações dos programas de mestrado e doutorado.

 

Na semana passada, o INEP, que realiza avaliações qualificadas, liberou separadamente o ENADE  e o IDD e só liberará o CPC em novembro próximo. Assim, temos um hiato onde as especulações podem, eventualmente, levar a conclusões menos embasadas do que elas seriam se ambos, ENADE e CPC, fossem liberados juntos. Por exemplo, conclui-se, somente pelo ENADE, que as universidades federais foram bem melhores do que as instituições do setor privado. Na verdade, o que atesta o ENADE isoladamente é que os formandos das federais obtiveram, em média, notas superiores que os formandos do setor privado. No entanto, visto separadamente, está oculto que os estudantes ingressaram no ensino superior diferentemente, sendo de conhecimento geral que os ingressantes das federais, em média, entram mais bem preparados, fruto de processos seletivos mais concorridos. Quando observados à luz dos CPCs, de fato, as públicas evidenciam, em média, um melhor desempenho, ainda que essas distâncias sejam menores do que as observadas somente pelo ENADE e é visível que as distâncias estão diminuindo.

 

Sobre IGC, que retrata a qualidade da instituição, interessante observar, a partir dos dados disponíveis de 2015, que de 193 universidades somente 15, todas elas públicas, ostentam o conceito máximo 5, considerado de excelência. Entre as universidades com conceito 4, equivalente a muito bom, temos 18 universidades privadas, sendo que destas somente quatro são com fins lucrativos. A Universidade Estácio de Sá tem o orgulho de ser uma das quatro, especialmente porque fruto de um crescimento sistemático e sustentável.

 

Enfim, indicadores de qualidade são relevantes, mas há que se tomar extremo cuidado na leitura sobre o que se está efetivamente medindo. Atualmente, temos séries históricas de CPCs e IGCs que permitem aos órgãos do MEC dispor de importantes referências em suas tarefas de regulação e supervisão. Da mesma forma, a sua publicização, na sua forma mais completa, atende ao pressuposto de informar bem ao cidadão sobre elementos de qualidade dos serviços educacionais à disposição no país.

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Este artigo, em versão resumida, com o título “Ampla avaliação” foi publicado no Jornal O GLOBO em 25 de setembro de 2017.

Figura da Empresa Brasileira de Comunicação – EBC, disponível em:

http://agenciabrasil.ebc.com.br/sites/_agenciabrasil2013/files/unb2.jpg

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segunda-feira, 22 de agosto de 2016 Sem categoria | 11:08

Olimpíada do Rio, um Quarup contemporâneo

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Antônio Callado, autor nascido no Estado do Rio de Janeiro em 1917, tem como principal obra Quarup, retratando o período em torno da implantação do Regime Militar em 1964. O livro, publicado em 1967, versa também sobre eventos ocorridos na década anterior nas reservas indígenas da região do Xingu, no centro-oeste do Brasil. O enredo gira em torno de conflitos pessoais e políticos vivenciados pelo protagonista, padre Nando.

 

Ainda que Quarup e Olimpíadas sejam eventos muito distintos, há elementos de similaridade de contextos que permitem enxergar uma possível premonição de Callado sobre fatos que viriam a ocorrer somente meio século depois. Nesta versão contemporânea, os fatos guardam algumas semelhanças em termos de espaços de ocorrência e circunstâncias políticas vivenciadas simultaneamente com grandes eventos incluindo atividades desportivas.

 

No livro, a difícil realidade indígena sensibiliza o visitante padre Nando em meio a acontecimentos como o fim do Governo Getúlio, o qual havia prometido a consolidação do Parque Nacional do Xingu para mudar a realidade de conflitos de terra na região. Simultaneamente com o suicídio do presidente Getúlio em 1954, os índios preparam uma grande festa no Xingu envolvendo várias tribos, o ritual Quarup, uma homenagem aos mortos celebrada com cerimônias ritualísticas com atividades de caça e pesca.

 

A obra retrata dez anos após a morte de Getúlio, já em pleno Regime Militar, um contexto de fortalecimento de grupos conservadores. O personagem Nando pretende celebrar a morte de companheiros de luta política reproduzindo um novo Quarup, desta vez reunindo antigos aliados e membros de uma comunidade de pescadores e de diversas outras “tribos” em torno de um grande jantar. A festa de Nando é invadida pela polícia e por grupos reacionários, entre eles participantes da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, e ele é brutalmente espancado. Nando sobrevive socorrido pelos amigos, incluindo uma prostituta, e é protegido por representantes da Igreja.

 

Passados mais de meio século, o Brasil ainda enfrenta seus conflitos sociais e políticos, incluindo o fortalecimento dos setores conservadores e um processo de impeachment em curso. Tudo isso ocorrendo simultaneamente a um grande evento esportivo, no caso a Olimpíada. O Rio de Janeiro, presente tanto nos momentos descritos por Callado como no presente, reflete e sintetiza esse conjunto de contrastes de um país que mescla grandes perspectivas, belezas incomparáveis e demonstrações inequívocas de criatividade com seus opostos, expressos por frustrações generalizadas e evidências de realidade social perversa e injusta.

 

Um exemplo interessante da complexidade do país é o papel dos militares, contrastando os acontecimentos de meio século atrás com a positiva participação dos mesmos nos tempos atuais. Hoje não só colaboram na garantia complementar da segurança do evento, mas têm fundamental papel no suporte aos atletas brasileiros ganhadores de medalhas.

 

Tal qual Callado, que descreveu a singeleza do evento Quarup com a não solução dos conflitos indígenas, é razoável supor que o enorme sucesso da Olimpíada também não seja em si a solução definitiva dos complexos problemas do Rio. No entanto, tais semelhanças traduzem em comum os contrastes e potencialidades que caracterizam o país e atestam um movimento transformador. Entender essa dinâmica permite enxergar aquilo que a foto estática do Brasil, por vezes, oculta: os bons motivos que temos para acreditar numa nação orgulhosamente mestiça e plural que constrói sua própria história e busca permanentemente enfrentar seus imensos desafios.

 

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quinta-feira, 8 de outubro de 2015 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação, Sem categoria | 07:26

Por que nós professores avaliamos os alunos?

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Avaliar certamente tem a ver com aprovar ou não os educandos, mas esse não deve ser o único motivo, talvez nem o principal. Tão ou mais importante que medir o quanto sabem nossos alunos é tentar obter dados que permitam conferir e repensar permanentemente as abordagens educacionais adotadas. Se possível, ao avaliarmos, conhecê-los melhor e porque os conhecemos e os reconhecemos individualmente sermos capazes de traçar percursos de aprendizagem adequados.
Nas abordagens mais comuns boa parte das avaliações se dá via questões ou tarefas que pretendem responder se o aluno sabe ou não sabe. Sendo assim, em geral, importa quase exclusivamente se as repostas às questões estão certas ou erradas. Normalmente, as respostas erradas, além de indesejáveis, são, em geral, inúteis do ponto de vista consequências futuras no próprio processo em curso. O fruto da avaliação, nesta perspectiva mais simplista, não vai além de um atestado que pretende informar se o estudante domina ou não aquele conteúdo específico.
Para os professores mais comprometidos as respostas erradas têm a mesma relevância que as certas. Se as respostas certas atestam algum domínio do conteúdo, as erradas permitem identificar eventuais lacunas, possíveis conceitos equivocados, ritmos adequados de aprendizagem, dificuldades em interpretar texto, falta de foco e concentração, ausência de atitudes e iniciativas etc.
Na verdade, não somente respostas às questões importam, elas se somam a um conjunto enorme de atos, comportamentos, velocidades, reações e capacidades de enfrentar desafios, de forma isolada ou em equipe, que no global evidenciam habilidades e competências muitas vezes difíceis, ou mesmo impossíveis, de serem identificadas somente via testes padrão. As provas tradicionais somente enxergam, quando bem feitas, se as informações foram ou não assimiladas. As demandas do presente, e especialmente do futuro, vão muito além da informação pura e simples e tendem a não ter esse elemento como parâmetro central. Avaliar não ficou mais simples, ficou muito mais complexo.
A título de exemplo, optaria, preliminarmente, por uma comparação com jazz. Observe uma banda de jazz e perceba: (i) que o público sabe identificar diferenças entre uma banda que tem qualidade de outra com menor valor; e (ii) se todos os componentes tocarem solo, também saberão, razoavelmente, identificar quem toca bem e quem não toca tão bem. Insisto nesta comparação, mais uma vez, para destacar que avaliar implica em estimular, sempre que possível, o trabalho em grupo, ressaltando o quão essencial é criar em equipe, mas que tal processo também demanda, em geral, individualizar, permitindo perceber no grupo o que cada um efetivamente fez ou deixou de fazer.
Assim, nas boas “performances” de jazz, ao longo da apresentação coletiva, cada instrumentista é convocado a tocar separadamente. Neste caso, é esperado que o solo contivesse todos os compassos da música, evitando os chamados “riffs”, frases curtas e repetidas de poucas notas. Mesmo assim, talentosos músicos saberão tocar “riffs” com habilidade e competência, alterando suas notas e seus tempos.
Da diversidade e da pluralidade nascem equipes fantásticas, em que, talvez, nenhum deles, individualmente, seja tão diferenciado. Às vezes, o mais discreto e não necessariamente o mais habilidoso instrumentista pode ser, por outras razões, a mola propulsora do grupo. Há, por outro lado, casos de junção de bons músicos sem que os resultados esperados tenham emergido. Há casos desastrosos em que a banda não funciona coletivamente e nem individualmente e o som final sugere mudanças ou reprovações.
Nestes dias próximos do Dia do Professor celebremos aqueles docentes que avaliam para aprovar ou reprovar, mas que vão além. Eles o fazem para conhecer melhor os educandos e ao conhecê-los poder traçar trajetórias específicas que reflitam os caminhos mais adequados de um processo de aprendizagem que demanda ser, cada vez mais, personalizado, ainda que conjugado com grande escala. Parabéns especiais a esses professores que viabilizam quantidade e qualidade e que entendem que todos aprendem, todos aprendem sempre, mas cada qual aprende na sua maneira única.

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segunda-feira, 28 de setembro de 2015 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação, Sem categoria | 17:25

Papel dos Preceptores na Formação de Professores

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Ao introduzirmos na modalidade a distância componentes híbridos envolvendo atividades online e presenciais, somados à incorporação de professores preceptores neste processo, temos a oportunidade de inserir na formação de professores, tanto nos cursos de Pedagogia como de Licenciaturas, um ensino integrado e integrador, explorando a utilização de plataformas digitais e propiciando contatos e usos efetivos de objetos de aprendizagem na educação básica. Almeja-se formandos nestas áreas com a mesma qualidade das melhores experiências tradicionais acrescidas da particularidade de saberem lidar muito bem com plataformas educacionais e a utilização de objetos digitais de aprendizagem.
O ensino híbrido e flexível representa a estratégia educacional com as melhores possibilidades de incorporar as boas experiências das duas modalidades, presencial e a distância. Na educação flexível, via o uso de plataformas e metodologias adequadas, bem como aplicativos e ferramentas digitais amplamente disponíveis, é possível personalizar o ensino de acordo com as especificidades de cada contexto e das necessidades de cada aluno, oferecendo um aprendizado cada vez mais direcionado e efetivo.
Neste contexto, o papel do professor preceptor vai além de fornecer preceitos ou instruções, sendo especialmente um profissional experiente que, por meio de situações e problemas reais, auxilia na formação integral de seus educandos, preparando-os para os desafios do futuro, especificamente neste caso para o exercício da docência na educação básica.
Na sociedade contemporânea, onde a informação está, cada vez mais, totalmente disponibilizada e instantânea e gratuitamente acessível, se consolida a percepção de que todos aprendem e que todos aprendem sempre ao longo de toda a vida. Mais do que isso, esta formação deve evidenciar aos futuros professores que cada educando aprende em seu próprio ritmo e de maneira própria e única. Assim, despertar nos alunos das áreas de Licenciaturas e Pedagogia a percepção de que, fazendo uso de pedagogias apropriadas e de tecnologias inovadoras, temos como, pela primeira vez, conjugar qualidade com quantidade e escala com individualidade. Ou seja, via atendimento personalizado, cabe ao preceptor trabalhar com seus alunos explorando práticas didáticas, ajustáveis e adaptadas a cada contexto específico e a cada grupo de alunos.
Desta forma, o professor preceptor atua, ao longo do curso de graduação, numa combinação muito interessante, tanto como o educador capaz de conjugar teoria e prática, num particular campo de estágio que prepara o futuro professor, como do orientador de estudos integrados a educandos que aprimoram continuamente suas capacidades de aprender a aprender e, assim procedendo, progressivamente se emancipam ao colaborar na aprendizagem dos demais.
O preceptor pode, combinando atividades presenciais e a distância, preparar seus alunos para auxiliar, complementarmente, na utilização em escolas públicas de educação básica de bancos públicos de objetos de aprendizagem. Por exemplo, o MEC tem um bom repositório de objetos digitais de aprendizagem e o seu uso poderia ser muito ampliado se ao longo do percurso formativo na graduação os alunos fossem estimulados a praticar sua adoção junto às escolas de ensino fundamental e médio. Um provável motivo de um uso ainda a ser melhor explorado é que os docentes atuais talvez demandem uma formação complementar. Os alunos dos cursos nesta modalidade poderiam ter como especial tarefa interagir com os docentes, preparando os adequadamente para potencial o uso desses portais.
Assim, caberia ao aluno de graduação em Pedagogia ou Licenciaturas, sob supervisão do preceptor, em sintonia com as escolas de educação básica selecionadas, colaborar principalmente na capacitação dos docentes dessas escolas quanto ao uso de portais de aprendizagem, a exemplo do repositório Banco Internacional de Objetos de Aprendizagem, BIOE. Este citado repositório, a título de ilustração, possui objetos educacionais de acesso público, em vários formatos e para todos os níveis de ensino. Os objetos podem ser acessados gratuitamente, possuindo da ordem de 20 mil objetos publicados, cobrindo todas as áreas, do ensino infantil ao ensino superior e temas de interesse geral.
O BIOE foi criado em 2008 pelo Ministério da Educação, em parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia, Rede Latino-americana de Portais Educacionais – RELPE e Organização dos Estados Ibero-americanos Seu propósito principal é manter e compartilhar recursos educacionais digitais de livre acesso, mais elaborados e em diferentes formatos – como áudio, vídeo, animação, simulação, software educacional – além de imagem, mapa, hipertexto considerados relevantes e adequados à realidade da comunidade educacional local, respeitando-se as diferenças de língua e culturas regionais. O repositório está integrado ao Portal do Professor, também do Ministério da Educação.
Os materiais publicados neste espaço estão disponíveis gratuitamente aos gestores de políticas educacionais locais, gestores escolares, gestores de repositórios educacionais, bem como os professores da educação básica, profissional e superior, além dos produtores de recursos pedagógicos digitais, pesquisadores e da população em geral. O BIOE pode ser consultado via o endereço eletrônico: http://objetoseducacionais2.mec.gov.br e é composto de recursos que se encontram em domínio público ou que contam com a devida licença por parte dos titulares dos direitos autorais para visualização, cópia, distribuição ou tradução, permitindo esta licença o uso estritamente educacional, sendo vedada a sua utilização para fins lucrativos.
Assim, a construção de uma educação híbrida e flexível, que incorpore os atributos inerentes da educação presencial às possibilidades ilimitadas da educação a distância, permite formar professores contando com a participação estratégica do professor preceptor. Seu papel na formação dos alunos deverá atender a peculiaridades de cada área de atuação futura e contextualizada especificamente para cada etapa do processo formativo. Conjugar o atendimento personalizado dos educandos via preceptores, especialmente designados para cada um dos momentos dos respectivos percursos educacionais, com o objetivo de emancipação progressiva de todos via o estímulo ao aprender a aprender, é talvez a peça estratégica mais importante das metodologias ativas, baseadas na capacidade de resolver problemas, tendo como frutos formandos com plena competência para enfrentar as demandas educacionais contemporâneas.

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segunda-feira, 31 de agosto de 2015 Sem categoria | 16:10

Rio, onde é normal ser diferente

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Toda cidade tem sua alma, tal qual ser vivo que de fato é. Decifrá-la é tarefa muito complexa. Fazê-lo projetando a cidade para meio século depois, tentando imaginar como ela será ou como gostaríamos que ela se tornasse, é um desafio gigantesco. Esta semana participei no Rio de Janeiro de um evento onde a questão a ser respondida era qual a cidade que a gente quer para daqui a 50 anos. Construir coletivamente uma resposta é justamente o objetivo do Projeto Visão Rio 500, parte integrante das celebrações dos 450 anos da cidade fundada por Estácio de Sá em 1565. O debate promovido pela Prefeitura se pretende aberto para a sociedade, com uso intenso de plataformas colaborativas e assentado na formação de rede de instituições parceiras. Assim, via o estabelecimento de diálogos com o futuro, o fruto desejado é contribuir com a visão da cidade para os próximos 50 anos, com a intenção explícita de colher elementos que possam nortear a escolha das estratégias, bem como definir as correspondentes prioridades para os próximos anos. O espírito carioca, coerente com sua propensão à bondade, tende a expressar a sua marcante solidariedade com as causas das minorias e dos menos favorecidos. Igualmente, coerente com o perfil do cidadão médio imaginário, é inerente entender a tolerância como predicado associado a um povo que se enxerga principalmente fraterno. Na qualidade de “estrangeiro” e quase recém-chegado, só me cabe testemunhar a favor desses atributos, incluindo o clima cosmopolita e a boa receptividade aos “estranhos”. Elementos esses que vão além da autoimagem, portanto, com raízes razoavelmente fincadas na realidade do comportamento do dia a dia. Ao se procurar escolher um slogan que melhor retrate a cidade naquilo que dela se espera nos seus 500 anos, preponderam, na maioria das sugestões, estímulos à tolerância, manifestos de intenção de que a cidade seja apropriada igualmente por todos e elogios a aspectos de cidadania e de liberdade. Confesso que tenho apreço pela tolerância, mas dela desconfio. Talvez influenciado por uma frase lapidar de Raquel de Queiroz: “tolerância é apenas paciência com um pouco de antipatia”. Da mesma forma, pouco me atrai uma ingênua igualdade, a qual, salvo a igualdade de oportunidades, não sei se desejável na sua forma mais literal e estrita. Nem sei se bem-vinda uma liberdade mal definida, a qual no exercício da sua versão individual nem sempre se mostra compatível com o coletivo, ou vice-versa. Restando a admirável fraternidade cidadã, melhor expressa na forma de empatia, ou seja, de sabiamente entender o outro por se colocar no lugar do outro. Foi então que me veio à mente um slogan que tenha, de fato, a cara do Rio que vemos e reflita aquilo que desejamos para o planejado futuro: “um espaço territorial em que seja normal ser diferente”. Este slogan, no passado, serviu e serve aos portadores de síndrome de Down, mas certamente é suficientemente  inclusivo e extensível a todos. Enfim, o slogan “onde é normal ser diferente” conjuga bem com a requalificação do espaço público, onde todos cabem, com a ampliação de oportunidades de encontro e o reconhecimento do diferente e, especialmente, a universalização do acesso às benfeitorias urbanas. O mais importante é que o Rio, premiado por uma singular beleza herdada de uma natureza exuberantemente pródiga e habitado por um povo alegre e criativo, se permita a, solidariamente, expressar suas múltiplas diferenças. Diferenças que muito mais que toleradas, devam ser naturalizadas por meio do acatamento pleno. Ou seja, em poucas palavras, que aqui no Rio seja totalmente normal ser diferente.

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terça-feira, 11 de agosto de 2015 Sem categoria | 13:17

O país do futuro está apaixonado pelo seu passado

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Se há uma sensação coletiva que se possa chamar de generalizada neste momento no Brasil é a de que, mais uma vez, o almejado futuro não se materializou. Ou seja, o sonhado desenvolvimento econômico, social, ambiental e cultural sustentável dá espaço ao sabor de frustração e ficamos, os mais otimistas, no aguardo de um novo ciclo, cuja data de inauguração não foi sequer anunciada.

Sabemos crescer, mas não sabemos fazê-lo de forma sustentável. Temos uma riqueza natural e humana reconhecida mundialmente, mas ela parece periodicamente perder para nossas fragilidades. Identificar as complexas causas das recorrentes derrotas é tarefa hercúlea e fruto de muita controvérsia. Tal cenário, onde a esperança parece adormecida, é acompanhado de modesta inspiração para produção cultural.

Um destacável reflexo de nossa pobreza cultural contemporânea são nossos olhos voltados ao passado como nunca. A ausência de aderência ao presente e a falta de perspectiva de futuro próximo nos faz estimular no mundo da cultura um evidente apego sem precedentes pelo passado.

No campo da música, jamais se ouviu com tanto vigor os artistas das décadas de 60 e 70. Mesmo entre os mais jovens, muitos findam por estabelecer entre seus ídolos aqueles mesmos que foram de seus pais, refletindo possivelmente que temos uma geração tímida de novos artistas.

No teatro, particularmente os musicais, exatamente onde o Brasil mais avançou, é sintomático que quase todos os grandes sucessos dos últimos anos estejam dedicados a recuperar a vida de artistas antigos, a exemplo de Tim Maia, Elis Regina, Cazuza, Chacrinha, Simonal, Raul Seixas, Cássia Eller, Imperial e tantos outros. Isso tudo talvez reflita um país desgostoso com seu presente, sem claras perspectivas para seu futuro e buscando no seu passado recente motivos para continuar a crer na sua história.

No cinema mesmo com novidades pontuais de valor na praça, a revalorização recente de personagens antigos como José Mojica Marins, o famoso Zé do Caixão, é sintoma claro da possível ausência de produção atual mais significativa, em profundo contraste com a pujança da vizinha Argentina nesta área. Neste caso específico, evidenciando que nem sempre as crises econômicas estejam irremediavelmente associadas à pobreza de produção cultural, mas no Brasil, infelizmente, amargamos a possibilidade de estarmos vivendo todas elas simultaneamente.

Ainda que não seja o objetivo deste breve texto apontar possíveis causas, dado que por serem múltiplas e complexas qualquer simplificação estaria errada ou insuficiente, não há como não perceber que falhamos, ao menos parcialmente, na educação. Nesta área tivemos sim sucessos, inegáveis por sinal, como universalizar a educação fundamental, ampliar de forma significativa o acesso ao ensino superior ou a construção eficiente de um respeitável sistema nacional de pós-graduação.

Por outro lado, claramente falhamos em conjugar qualidade e quantidade. Quando universalizamos ou ampliamos de forma significativa, o fizemos com rebaixamento de qualidade. Quando ofertamos qualidade, o fizemos para poucos, muito poucos. A inovação que deixamos de criar foi ofertar qualidade para muitos. Esta sim, a meu ver, se não é a única, é a principal razão da sensação de fracasso que nos move a olhar para trás e de forma saudosista pedir mais uma chance de sermos, mais uma vez, o país do futuro.

Eppur si muove e voltaremos ao tema com mais detalhes posteriormente.

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