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Arquivo da Categoria Inovação e Educação

quinta-feira, 31 de março de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 08:08

Monges copistas eram brilhantes, mas sumiram

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Escribanofree

 

Os tempos contemporâneos são marcados pela profundidade e rapidez das mudanças em curso. Neste ambiente de informação plenamente acessível, instantaneamente disponibilizada e praticamente gratuita é absolutamente natural que atividades que estamos acostumados hoje sejam profundamente abaladas amanhã e que profissões que nos parecem eternas desapareçam, ou se tornem, raras brevemente.

 

Assim também foi no passado, ainda que em ritmo mais lento, quando grandes transformações se efetivaram. Uma das mais curiosas e ilustrativas diz respeito aos monges copistas. Esses monges eram totalmente dedicados à cópia de livros, os quais eram escritos à mão, utilizando penas de ganso e tinturas, decorados com pinturas e feitos sobre pergaminhos, ou seja, peles tratadas de carneiros ou cabras.

 

Essas cópias eram preparadas com especial esmero e, consequentemente, demoravam muito e os produtos finais resultavam extremamente caros, portanto, raros. Os monges copistas na Idade Média (séculos V a XV) eram cultos e faziam parte do extremamente seleto grupo que sabia ler e escrever. Na absoluta ausência de tecnologias que fizessem este trabalho, os monges copistas acreditavam que ao copiarem os livros estariam prestando um serviço a Deus, esforço recompensado pela liberdade que tinham em ilustrar as obras. Em geral, o trabalho manual de cópia dos manuscritos na Idade Média era realizado no interior dos mosteiros, em um quarto chamado scriptorium, daí a terminologia com significado amplo da palavra escritório tal como adotamos hoje.

 

O século XV não trouxe boas novidades aos monges copistas. O final da Idade Média, o começo do Renascimento, as novas descobertas, o crescimento do contato com o mundo oriental e o acesso às novidades vindas da China, da Índia e do mundo árabe promoveram mudanças profundas. Entre elas, a introdução do papel, invenção chinesa barata, abundante e de fácil recorte e manuseio.

 

Nos primeiros séculos da era cristã, a gravura em pedra e a produção de cópias eram dominadas pelos orientais, tanto pelos chineses como pelos coreanos e japoneses. Da mesma forma, usavam pranchas de madeira para gravar imagens e textos, os quais podiam ser reproduzidos por estampagens. Em torno do século XI, as primeiras impressões utilizando caracteres móveis começaram a ser adotadas na China, porém, dado serem os caracteres feitos de terracota precisavam ser substituídos a cada impressão, o que tornava o processo pouco prático e muito custoso. Houve tentativas na época de utilização de caracteres metálicos, mas mesmo assim muito dispendiosos.

 

Interessante observar que antes do século XV os europeus simplesmente não se interessaram por essas novidades em curso na Ásia. Esse quadro se altera no século XV. O alemão Johannes Gutenberg não inventou, mas sim “reinventou” a imprensa e é considerado o homem que aperfeiçoou de maneira decisiva a arte asiática, dado que ele desenvolveu os caracteres móveis de chumbo, que podiam ser utilizados indefinidamente, além de uma nova tinta de impressão e a prensa de imprimir. Com isso, mudou definitivamente o mundo dos livros, em todas as suas dimensões e consequências: política, econômica, social e religiosa. A partir de Gutenberg, uma nova história se desenvolve e os livros, antes raros, se tornaram abundantes porque baratos e de muito mais fácil manuseio, seja na fabricação ou sua utilização mais direta. Por sua enorme contribuição, Gutenberg pode ser chamado de pai da tipografia e do livro moderno.

 

Bem, e como ficaram os brilhantes e competentes monges copistas após Gutenberg? Eles foram se tornando cada vez menos necessários e praticamente desapareceram poucas gerações depois. Os tempos atuais reproduzem, à luz das tecnologias digitais, quadros muito similares e a história dos monges copistas se repetirá em escala muito maior em praticamente todas as ocupações atuais. O certo é que as atividades humanas em geral serão atingidas, umas mais rapidamente, outras perdurarão um pouco mais, mas todas as profissões, de alguma forma, serão revistas e algumas simplesmente desaparecerão.

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segunda-feira, 21 de março de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 21:15

Trabalhar em equipe se aprende na escola

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Os seres humanos, desde as primeiras civilizações, sempre sobreviveram graças ao trabalho em grupo. Sem esse ingrediente, talvez, sequer tivéssemos existido enquanto espécie. A arte de armazenar o fogo, a eficiência das caças coletivas e até mesmo as inscrições rupestres deixadas nas cavernas foram algumas das marcas coletivas dos povos primitivos, cujas práticas nos permitiram chegar onde estamos hoje.

Assim, não há novidade na relevância do trabalho em equipe em nossa sociedade. No entanto, os processos ensino e aprendizagem, em geral, exploram muito pouco esta característica humana, sendo que a organização da escola tem desprezado este potencial, muitas vezes reprimindo-o. A escola tradicional supervaloriza a aprendizagem individual no processo de ensino via salas de aulas com alunos basicamente passivos e, especialmente, nos métodos avaliativos normalmente adotados.

Não chega a ser surpreendente que as organizações empresariais se anteciparam à escola na percepção da recente relevância do trabalho em equipe, reconhecido hoje como elemento estratégico e crucial nas instituições mais modernas e inovadoras. Na prática, findou-se por descobrir fora do ambiente escolar elementos interessantes como o fato que na maior parte dos casos estudados a equipe tende a ter maior sucesso quando composta por grupo entre cinco a nove membros. Da mesma forma, contrariando o senso comum, maior diversidade cultural, incluindo de gênero, étnica e de faixa etária, tende a gerar melhores resultados.

Além disso, as companhias se viram obrigadas a repensarem hierarquias clássicas, dado que, graças às tecnologias digitais, as equipes conseguem uma dinâmica que sugere um nível de horizontalização inédito, viabilizando soluções em tempos bem menores se comparados com o cumprimento de rituais clássicos cristalizados. Por fim, os conceitos de líder e liderança se adaptam aos novos tempos e assumem características inéditas, entre elas que o líder nem sempre é o mesmo ao longo de toda a missão e que o excesso de liderança individual pode gerar inibição dos demais, podendo mesmo, no limite, ser prejudicial.

As escolas gradativamente estão incorporando trabalho em equipe como elemento cada vez mais presente em seus processos educacionais. No entanto, avaliar trabalho em equipe é, de fato, sempre complexo, mas é possível ser bem executado em ambientes escolares que reconhecem nesta estratégia elemento essencial do processo de aprendizagem. Uma sugestão inspiradora, entre várias, para avaliar equipes vem da observação de bandas de jazz. Interessante observar que qualquer público atento, apreciador de boa música, sabe muito bem identificar diferenças entre uma banda que tem boa qualidade e outra de menor valor. Tão importante quanto isso, se todos os componentes tocarem solo, também saberão, razoavelmente, identificar quem toca bem e quem não executa tão bem.

Trabalhar em equipe viabiliza algo imprescindível nos tempos atuais, a aquisição e a construção coletivas do conhecimento, práticas nas quais o aluno se relaciona de forma diferente com o saber e quando as relações interpessoais desempenham papel preponderante. No trabalho em grupo, além do domínio do conhecimento, o aluno desenvolve várias habilidades, entre elas, aprender a avaliar, decidir, considerar as opiniões dos demais e, especialmente, compartilhar acerca das próprias práticas, dominando melhor os mecanismos segundo os quais ele aprende. Essas competências são cruciais para a vida, seja como profissional ou cidadão.

Em suma, trabalhar em equipe se aprende na vida, mas pode e deve ser estimulado e aprimorado na escola, e avaliar coletivamente deve ser um instrumento adicional de estímulo ao aprendizado. Preparar profissionais e cidadãos para um futuro que se avizinha torna imprescindível incluir trabalhos em grupo de forma sistemática com uso de metodologias que explorem soluções de problemas ou realizações de projetos.

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domingo, 13 de março de 2016 aprendizagem, Inovação e Educação | 10:16

Educação e tolerância política

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Não nascemos tolerantes, mas podemos sim aprender a sermos cada vez mais tolerantes. Ou seja, tolerância é algo que se ensina e é algo que se aprende. E se aprende sempre, ao longo de toda a vida. Particularmente, aos jovens é ainda mais relevante este conceito, dado que eles permanentemente testam a aplicação de conceitos abstratos a situações concretas.

Bobo e Licari são dois pesquisadores americanos que se dedicaram a este tema de forma sistemática (http://scholar.harvard.edu/bobo/files/education.pdf) e examinaram os efeitos da educação e da sofisticação cognitiva na extensão das liberdades civis a grupos inconformados ou indignados. De forma não surpreendente, eles identificaram efeitos positivos da educação nesses grupos e nas ações decorrentes, tanto para aqueles com pensamentos mais conservadores como mais progressistas. Segundo os autores, uma fração substantiva do efeito da educação no reforço da tolerância é mediada pela sofisticação cognitiva. Tais efeitos são ainda maiores quando as pessoas têm sentimentos negativos acerca dos grupos discordantes de suas ideias e de suas crenças.

Esse estudo citado evidencia de forma sistemática a relação entre educação e tolerância. Quanto maior o nível de educação da sociedade, mensurável pela escolaridade, expressa pelo número de anos na escola e qualidade do ensino, melhor para as instituições democráticas. Essa relação não é direta e nem simples ou imediata, no entanto, um nível de correlação é evidente, ainda que de natureza complexa.

Aparentemente são identificados pelo menos três dimensões ou mecanismos por meio dos quais educação impacta na qualidade dos processos democráticos: 1. nos valores e crenças individuais, onde é possível observar que pessoas mais educadas demonstram ser mais tolerantes à diversidade, elemento essencial ao estado democrático; 2. indivíduos mais escolarizados tendem a participar mais de processos democráticos, incluindo protestos políticos, o que contribui com enraizar os valores democráticos; 3. grupos mais educados têm uma melhor compreensão das características essenciais da democracia, aqui contidos os direitos das minorias e a liberdade plena de expressão.

Estudos em adultos evidenciam que características psicológicas, no que diz respeito aos níveis de tolerância, desempenham papel mais relevante do que variáveis outras como status social ou renda. Assim, pessoas com autoestima elevada tendem a ser menos dogmáticas e menos autoritárias. Da mesma forma, os níveis educacionais, em média, são bons preditores da capacidade de tolerância a ideias contrárias às convicções estabelecidas, evidenciando conexão entre maior escolaridade e maior conforto no convívio com crenças diversas.

O Brasil vive uma crise de dimensões econômicas e políticas superpostas e mais uma vez, em ambas, educação desempenha papel crucial. Do ponto de vista econômico, de forma muito breve, poderíamos traduzir, entre outras possíveis leituras, como uma crise de competitividade. Ou seja, porque somos menos escolarizados do que nossos competidores, temos uma produtividade mais baixa e, consequentemente, geramos produtos ou ofertamos serviços não competitivos, o que nos faz perder mercados, expondo-nos, como nação, a meros fornecedores de commodities. Isso em um cenário onde os valores agregados, decorrentes de aplicação intensiva do conhecimento, são os elementos definidores da capacidade de competir globalmente. De forma clara, na face econômica da crise pagamos um preço alto pela educação que deixamos de propiciar.

Na outra vertente da crise, a face política, de novo, a capacidade de superação destes difíceis momentos dependerá daquilo que formos capazes de construir, a partir da educação que estamos desenvolvendo em nosso cotidiano. Educação neste sentido não é algo estanque e dado a priori. Claro que os elementos formais de escolaridade contam, mas a educação produzida nas ruas e em curso também educa e contribui para melhorar (ou piorar, se malconduzida) nosso cenário político.

As melhores aulas práticas de democracia serão aquelas que materializam e solidificam nossos conceitos assimilados de formas mais abstratas até então. Assim, que aproveitemos as aulas em curso nas ruas para aprendermos cada vez mais e melhor. Nossos votos para que os exercícios práticos contribuam para elevar os níveis de tolerância, ampliem nossa educação política e culminem com maior capacidade reflexiva sobre o mundo que nos cerca.

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domingo, 14 de fevereiro de 2016 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 16:04

Domínios de aprendizagem e o preceptor contemporâneo

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Benjamin Bloom, importante educador/psicólogo americano falecido ao final do século passado, é considerado o responsável pela formulação da taxonomia dos domínios de aprendizagem, a qual é ancorada, entre outros elementos, na suposição de que as operações mentais podem ser classificadas em níveis de complexidade crescentes.

Na década de 1980, Bloom, seguindo essa abordagem, apresentou um método de ensino conhecido como “Problema Sigma 2”. Essencialmente, tratava de prover aos estudantes tutoria individual ou em pequenos grupos. Esses alunos, quando comparados com colegas submetidos a métodos tradicionais baseados em salas de aula convencionais, apresentaram, em geral, rendimentos 98% melhores. O termo Sigma 2 deriva do fato que tal diferença implica em superar aproximadamente duas vezes o desvio padrão estatístico, garantindo que as melhorias são realmente muito significativas. Em outras palavras, 90% dos alunos submetidos à técnica de Bloom apresentaram resultados equivalentes aos 20% melhores das salas tradicionais.

A questão que persistiu durante muito tempo sem resposta era se os procedimentos associados seriam viáveis do ponto de vista custos e acessibilidade. Na época de Bloom, certamente, a resposta provável e comum seria: “qualidade custa caro e é mesmo para poucos”. Hoje, podemos, pioneiramente, começar a explorar novas possibilidades, via tecnologias digitais, para conjugar qualidade com quantidade.

Entre outros textos recentes, o artigo de Roshan Choxi (http://techcrunch.com/2016/01/09/how-startups-are-solving-a-decades-old-problem-in-education/#.iokds6t:zSpx/) discute como as startups do mundo digital podem tentar enfrentar e resolver problemas aparentemente insolúveis do passado. Ainda sabemos limitadamente acerca do quanto alternar o atendimento presencial, previsto por Bloom, por online poderá eventualmente trazer impactos sobre a qualidade, mas, por certo, pode contribuir muito com a viabilização orçamentária do atendimento individual ou pequenos grupos. Uma das missões das startups é explorar tais possibilidades, fazendo uso apropriado das tecnologias digitais e garantido mesma qualidade ou mesmo ampliá-la com competência.

A plataforma educacional Udacity, por exemplo, em 2013, adicionou em alguns cursos certificados de pequena duração (“nanodegrees”) a possibilidade de atendimento personalizado explorando videoconferências entre o mentor e o educando, simulando algo análogo ao proposto por Bloom, neste caso em versão digital. Os “coaches” do Udacity são basicamente profissionais do mercado que, conjuntamente a outros profissionais do ensino, dão o suporte personalizado e realizam o acompanhamento pleno dos projetos sob responsabilidade dos alunos, procurando ir além de análises simples de respostas de questões, sejam elas objetivas ou discursivas.

Mais recentemente, temos várias iniciativas preliminares explorando a combinação deste tipo de abordagem com a metodologia de aprendizagem baseada em problema (ou projeto), conhecida como PBL (do inglês, “Problem/Project Learning”). Podemos pensar, por exemplo, na formação de alta qualidade de profissionais como engenheiros de produção. Neste caso, adicionalmente ao conjunto de disciplinas online, há previstos, durante todo o curso, atendimentos presenciais em pequenos grupos (em torno de cinco) via preceptores. Eles são responsáveis tanto pelo acolhimento ao início do percurso educacional, incluindo a adaptação às novas metodologias e tecnologias, como pela supervisão dos projetos ao final do curso, colaborando na preparação ao exercício profissional. O preceptor, fazendo uso de PBL, atende os alunos tanto presencialmente, onde todas as atividades com estas características são desenvolvidas sob sua supervisão, como, complementarmente, via videoconferências remotas.

Ainda estamos longe de escrevermos os capítulos finais deste desafiante tema, mas a utilização das tecnologias digitais como forma de conjugar aprendizagem de qualidade com grande escala, certamente, é um caminho sem retorno. Mesmo assim, por mais que avancem as abordagens via plataformas digitais, elas não são capazes de, isoladamente, dar conta do amplo espectro de nuances individuais no que tange à forma de cada um aprender com mais eficiência. O professor, na sua atuação como orientador, mentor, “coach”, ou preceptor, é fundamental para ajudar a preencher todas as lacunas dos domínios de aprendizagem, evitando reduzir todos os alunos a meras curvas estatísticas, exageradamente impessoais. Os resultados dos esforços em curso poderão representar, em um futuro próximo, significativo avanço na democratização do acesso à educação de qualidade.

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 08:09

Zika e Educação

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O vírus zika está ligado aos estudos na formas mais múltiplas e diretas. Ele foi identificado por pesquisadores ao final da década de 40 na floresta Zika, em Uganda. A sua identificação é fruto da ciência, bem como a compreensão de sua ação no corpo humano e as possíveis ferramentas disponíveis para tentar evitá-la. Igualmente, o encaminhamento de possíveis soluções, seja vacina ou outros mecanismos, certamente passarão por mais conhecimento.

No começo do ano passado, casos em humanos foram detectados no nordeste brasileiro e muito rapidamente se espalharam pelo restante da América do Sul, Caribe, América Central e México. Além da transmissão confirmada pelo mosquito aedes aegypti, semana passada o Instituto Oswaldo Cruz detectou a presença do vírus ativo na salina e na urina, portanto, com potencial para causar infecções.

Esse vírus, embora mostre fortes evidências de ser extremamente perigoso, especialmente para grávidas, está, por enquanto, longe de ser o mais perigoso que já lidamos e, por certo, não será o último ou o mais letal. A preocupação maior diz respeito à possibilidade de microcefalia em fetos, podendo causar, sem cura, deficiência mental, limitação na fala, audição e movimentos.

O que se pode garantir é que todas os instrumentos disponíveis de enfrentamento conhecidos até aqui demandam, adicionalmente às ações regulares das autoridades na área da saúde, um envolvimento ativo diferenciado da população. Ou seja, o seu grau de disseminação é de tal natureza generalizado e pulverizado que somente convencendo todas as pessoas a agirem organizada e coletivamente teremos chances de evitar um grande desastre.

Esses pontos, associados ao esclarecimento e atitude da população, remetem ao nível de escolaridade, à qualidade da educação e, no limite, ao processo formativo decorrente das metodologias de aprendizagem comumente adotadas. Epidemias de vírus e bactérias surgirão, quase que inevitavelmente, em todos os países e de forma progressivamente crescente ao longo dos anos vindouros. O que diferenciará as nações e as regiões na efetividade dos embates será a qualidade do exército populacional que as compõem. Quanto mais educação e melhor qualidade de vida, incluindo saneamento básico, menos difícil será enfrentar os surtos, valendo igualmente o inverso.

No Brasil, temos graves deficiências educacionais, expressas pelo baixo nível de escolaridade e pelo fato dos escolarizados serem vítimas de processos de aprendizagem precários, cujas formações resultantes podem representar desvantagens relativas. As ações que são demandadas em momentos como estes exigem processos reflexivos e percepções de processos que, em geral, a educação focada somente em cognição simples fica a desejar, por ser insuficiente. Se cognição está associada ao processo geral de aprendizagem, notadamente transmissão de informação, a metacognição privilegia o avanço dos níveis de consciência do educando acerca dos mecanismos com que aprendemos. Em linhas gerais e de forma reduzida, cognição tem a ver com aprender, metacognição mais associada com aprender a aprender.

Neste particular momento, os atributos que serão exigidos da população em geral estão especialmente, não exclusivamente, ligados ao nível de amadurecimento dos processos metacognitivos. Assim, os fatos de não termos eliminado plenamente a miséria, expressa também pelo analfabetismo, os baixos níveis de escolaridade e as carências das metodologias educacionais adotadas poderão cobrar um preço muito alto. Resta aproveitar a situação para evidenciar as deficiências e transformá-las em ações que, simultaneamente a combater a disseminação do vírus, permitam refletir e agir sobre como temos conduzido nossas políticas educacionais.

A adoção da metacognição enquanto uma das centralidades educacionais significa, por exemplo, ir além do conteúdo e bases curriculares mínimas, incluindo, com a mesma importância, como explorar as múltiplas conexões entre os saberes integrados e a preparação para aprendizagem integrada baseada em projetos, em trabalhos em equipe e em solução de problemas. Ao não conferirmos ao segundo item a mesma ênfase do primeiro, somado a executarmos o primeiro com severas fragilidades, têm como produto reduzirmos nosso potencial de enfrentamento, seja neste evento epidêmico ou dos que virão a seguir.

Certamente a crise na saúde, a partir também deste evento específico zika, somado à grave crise de baixa produtividade no trabalho, portanto deficiente nível de competitiva global, com consequente aumento de desemprego e clara dificuldade de crescimento econômico, social e ambiental sustentável, tornarão prementes uma ação do Estado via mobilizações coletivas. Tais ações somente serão eficientes e eficazes se associadas diretamente à educação. Nesse sentido, o espaço educacional não é periférico ou de uso eventual, mas de natureza central e essencial. Quanto mais demorarmos a perceber tais conexões, estaremos desperdiçando recursos, tempo e, especialmente, oportunidades.

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domingo, 24 de janeiro de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 06:53

Os bastidores da Finlândia e os atalhos do Brasil

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Durante a semana passada, em Londres, tive a oportunidade de participar, enquanto convidado da CISCO, da Exposição BETT (em inglês, “British Educational Training and Technology Show”). Ela é considerada, desde 1985, uma das mais importantes feiras na área de tecnologias na educação, atraindo algo em torno de 40 mil visitantes de mais de uma centena de países.

O Programa da delegação brasileira CISCO deste ano incluiu uma visita com palestras e debates no Institute of Education (IoE), classificado recentemente pelo “Times Higher Education Ranking” como a melhor instituição do mundo na área de educação. Professor David Scott do IoE, uma das maiores autoridades em teorias de aprendizagem e meu co-autor no livro “Educando para Inovação e Aprendizagem Independente”, argumentou à delegação brasileira que seria pouco recomendável ao Brasil definir suas estratégias educacionais na educação básica tendo como referência principal melhorar seus indicadores no PISA. A explicação dele para não exagerarmos na ênfase ao PISA tem a ver com o caso Finlândia e seus bastidores.

A Finlândia é sempre uma referência importante em educação. Pelo seu passado e mais recentemente pelo que está fazendo ao se preparar para o futuro. A Finlândia entrou no século XXI liderando os resultados do PISA (Programa Internacional para a Avaliação de Estudantes da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico/OCDE). Curiosamente, desde então, tudo se passa como se a Finlândia, quase que propositalmente, caísse de forma sistemática no ranking. A grande percepção dos gestores da educação finlandesa foi suspeitar que o sucesso no PISA poderia, eventualmente, inibir mudanças necessárias e urgentes. Ou seja, a régua do PISA, provavelmente, mede melhor qualidades e expectativas do passado do que os predicados e exigências do futuro.

A Finlândia tem sido ultrapassada no PISA por outros países (Cingapura, Hong Kong, Taiwan, Coréia do Sul e Japão), mas as escolas finlandesas têm adotado, sem receio, metodologias ativas inovadoras que estimulam a aprendizagem independente. Parte significativa das aulas tradicionais são substituídas pelo desenvolvimento de projetos temáticos nos quais os alunos refletem principalmente acerca do processo de aprendizagem em si.

Os formuladores de políticas educacionais e os docentes da Finlândia parecem saber melhor do que os demais países que a forma tradicional de educação, basicamente estruturada em aulas expositivas sobre disciplinas estanques, ainda que com um passado vitorioso, não mais prepara adequadamente as crianças e os jovens para o futuro. A necessidade do desenvolvimento da capacidade de pensamento transdisciplinar, ou seja, olhar os mesmos problemas a partir de perspectivas e ferramentas diferentes, ao mesmo tempo que o educando aumenta a percepção acerca dos mecanismos segundo os quais ele aprende (metacognição, ou aprender a aprender), compõem as estruturas centrais da nova metodologia.

São mudanças complexas e que afetam a todos, em particular os professores, os quais passam a ter, relativamente, menos controle sobre os cursos, demandando que necessariamente eles trabalhem de forma colaborativa entre si e, especialmente, com seus alunos. Gradativamente, os mestres deixam de ter como atribuição principal as aulas expositivas (embora elas permaneçam, em algum nível, existindo) e, cada vez mais, se assemelham à figura de preceptores. Seja enquanto aqueles que acolhem e ajudam o educando a entender a si mesmo e a refletir sobre sua própria aprendizagem, ou então aqueles que promovem a mentoria, especialmente conectando e ajudando a integrar as disciplinas e conhecimentos fragmentados. Assim, cabe aos docentes atuar junto a seus alunos para extrair da multidisciplinaridade e das posturas metacognitivas os ingredientes principais para que eles possam aprender a, autonomamente, resolver problemas e desenvolver projetos.

Em suma, olhemos para a frente, respeitemos as enormes diferenças de realidades, dado que, certamente, temos no Brasil muitas trilhas básicas ainda por cumprir, ao mesmo tempo que temos que enfrentar complexidades similares às finlandesas. Sem isso, a chance de errar por adotarmos remédios inadequados é muito alta. Felizmente, o Brasil, em princípio, tem sim atalhos possíveis e bons ingredientes. Precisamos saber com clareza onde queremos chegar, conhecer bem outras experiências e definir o quanto estamos dispostos a ousar na educação.

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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 06:47

O antigo, o novo e o profundo

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Vivemos tempos intrigantes e eles impactam na educação ou dela resultam. O mundo contemporâneo superestima valores como exclusividade, novidade e originalidade, cada qual à sua maneira. Em geral, tais características têm marcas mais externas e individuais do que internalizadas e coletivas, sendo normalmente mais cosméticas e menos profundas. Porém, estamos na transição e nas mudanças todos os gatos parecem pardos, mesmo quando não são.

Exclusividade muitas vezes é vista como sendo possuir ou desfrutar de algo que os demais não podem ter. O futuro incorporará a este conceito elementos de criatividade, especialmente reconhecidos pelo eventual impacto positivo ao bem comum. Aquilo que é medido hoje pela exclusão, terá como principal indicador ser, ou não ser, compartilhável. Novidade está, por vezes, associada a fazer uso individual em detrimento dos demais, independente do valor em si. Na fase mais madura, é possível que, transcendendo o modismo simples, novidade significará, principalmente, se distinguir por ousar, ser diverso do antes e valorizada pelo pioneirismo ou nível de inovação. Originalidade costuma ser confundida com aquilo que distingue, inibindo os demais de usufruir. Tempos virão em que ser original, essencialmente, significará propiciar bens, serviços e experiências de qualidade para muitos.

As tecnologias digitais são as grandes geradoras dessas transformações, porém, elas, isoladamente, não têm as soluções para uma transição adequada. Educação tem, por certo, um papel central neste processo, ainda que não exclusivo. Pensar as novas metodologias compatíveis com os propósitos acima representa um grande e complexo desafio contemporâneo. O que se sabe é que, em princípio, as tecnologias digitais permitem transformar escassez em abundância.

Desenvolver metodologias de aprendizagem inovadoras para um mundo onde conhecimento, progressivamente, se transforma em commodity barata e de fácil acesso, significa ter respostas para um conjunto adicional de competências que o ensino tradicional não consegue mais dar conta. Muito além da cognição, mais associada à recepção de informação ou ao simples aprender, o desafio passa a ser o desenvolvimento de habilidades metacognitivas, ou seja, o incremento da consciência do educando acerca dos mecanismos segundo os quais ele aprende, ou seja, o aprender a aprender. Enquanto podemos considerar razoável mensurar cognição por horas ou créditos, cristalizados em notas de testes clássicos, a aprendizagem metacognitiva não está diretamente correlacionada ao tempo dispendido ou mesmo à informação acumulada no período, tornando a avaliação dos níveis metacognitivos muito mais sofisticada.

O ambiente educacional que estimula aprendizagens inovadoras implicará em inéditos processos educacionais. Entre eles, destaco, a título de ilustração, a aprendizagem que se inicia com um conjunto de cursos, majoritariamente disciplinares e basicamente online, mais associados com o que estamos acostumados em termos de transmissão de conhecimento. Na sequência, ou em paralelo, a complementação do processo via a participação ativa em um “campus físico”, ou espaços similares, visando a execução de projetos, em geral interdisciplinares e desenvolvidos em equipe. A completeza do pensamento crítico, a preparação ao processo de aprendizagem contínua ao longo da vida e as habilidades em solução de problemas se darão, principalmente, nesta segunda etapa.

Quando o novo se afastar do antigo e emergir o mais profundo, os conceitos atuais de exclusividade, originalidade e novidade estarão profundamente modificados. Mais do que desfrutar individualmente de um bem ou serviço, em geral valorizado pela exclusão dos demais, no futuro, serão especialmente reconhecidas a capacidade de criação e a disponibilização abundante de produtos e processos que contribuam e sejam compatíveis com o desenvolvimento econômico, social e ambiental harmônico e sustentável. Pode parecer ingênuo, mas não é. Se não soubermos onde queremos chegar, melhor nem ousar trilhar os novos caminhos.

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domingo, 27 de dezembro de 2015 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 14:21

O futuro que começou semana passada

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As tecnologias digitais promovem uma revolução profunda, rápida e totalmente abrangente. Nenhum setor da sociedade deixará de ser atingido fortemente, alguns antes e outros depois. Educação é um desses setores relativamente tardios, mas, sendo a marca dos novos tempos a disponibilização plena, instantânea e gratuita de informação, as consequências nos processos de ensino e de aprendizagem serão de grande escala.

Para que possamos educar para o futuro, é preciso exercitar ao máximo as reflexões acerca de como ele pode eventualmente vir a ser. No campo da economia, as transformações que assistimos contemporaneamente são meras sombras do que está por acontecer. Sombras porque traduzem reflexos de algo verdadeiro, mas a real dimensão do novo objeto ainda precisamos conferir. A tensão crescente entre o advento do ilimitado conhecimento, fruto da abundante informação, versus a concepção de mercado, centrada na escassez da oferta que estimula a posse privada, expressa a grande contradição que o capitalismo haverá ainda de enfrentar.

Para citar um único exemplo, aquilo que se convencionou chamar de “internet das coisas” oculta uma nova realidade onde o conhecimento e a possibilidade de conexões presentes no objeto serão muito mais importantes e valorizados do que o objeto propriamente. Karl Marx, pensador do séc. XIX, talvez venha a ser mais lembrado no futuro pelo texto Fragments on Machines do que pelo seu clássico “O Capital”. No texto Fragmentos, Marx explora um cenário onde máquinas produzem e pessoas supervisionam, contexto no qual a força produtiva principal seria a informação. O conflito central não seria mais entre salário versus lucro, mas sim acerca do complexo controle do conhecimento “dentro” das máquinas e o interesse de que ele seja privado ou social.

Recentemente, Paul Mason na obra PostCapitalism trata da economia depois do capitalismo em uma sociedade imersa no mundo das tecnologias digitais, destacando as dificuldades das economias tradicionais, fundadas no mercado e na escassez de produtos e serviços, frente à inédita realidade de informação abundante e barata. Nesse novo contexto emerge uma economia baseada no compartilhamento e no conectivismo, o que estimula a formação de redes e ofende visões clássicas de individualismos e hierarquias. Da mesma forma, diferentemente da concepção marxista de proletariado, o novo agente motor de transformação social seria formado principalmente por pessoas educadas e conectadas.

As disputas atuais envolvendo Uber, Airbnb e similares podem ser somente prévias modestas de atritos significativos por vir, opondo monopólios, bancos e corporações, baseadas no privado e na escassez, versus a possibilidade crescente de acesso pleno a bens e serviços abundantes. Neste novo espaço, devem emergir formas sem precedentes de propriedades, de empregos, de empréstimos, de contratos legais coletivos e tácitos, viabilizando uma economia solidária de compartilhamento. Esta por sua vez baseada na formação de redes, dependente das múltiplas e ilimitadas conexões, e fruto de um universo de produção coletiva, estimulada por pares, os quais são simultaneamente produtores e usuários.

Por fim, produtos que hoje nem sequer assim se configuram podem passar a ter valores expressivos. Entre eles, a felicidade genuína. Passaremos talvez a valorizar mais experiências do que coisas, como bem descrito, por exemplo, pelos estudos de Thomas Gilovich da Universidade de Cornell. Se hoje, ilusoriamente, somos o que conseguimos adquirir em bens e títulos, é provável que no futuro, que começou semana passada, melhor possamos nos descrever como a soma total de nossas próprias experiências.

Um Feliz Ano Novo e um leve 2016 para todos!

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 14:49

Temos uma crise, ou seja, há oportunidades educacionais

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As instituições de ensino se caracterizam, sobretudo, por serem complexas e diversificadas, vivendo numa espécie de “crise permanente”, refletindo um mundo de desafios sempre presentes. E as oportunidades estão associadas a continuar expandindo o acesso à educação em todos os níveis, em escala e em qualidade, mesmo quando o cenário externo indica aumento de desemprego e diminuição de poder aquisitivo.

Albert Einstein, talvez o mais brilhante cientista do século passado, pouco antes de seu falecimento, em 1955, deixou o seguinte comentário “Crise é a benção que pode ocorrer com as pessoas e países porque traz progressos. A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite. É na crise que nascem invenções, descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise, supera a si mesmo sem ficar superado. Sem crise não há desafios, sem desafios a vida é uma rotina. Sem crise não há méritos. É na crise que aflora o melhor de cada um. Falar de crise é promovê-la. Acabemos com a única crise realmente ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para superá-la”.

É preciso perceber, e o quanto antes melhor, que na educação mudanças profundas estão em curso e é preciso identificá-las, entendê-las e usá-las estrategicamente. Por exemplo, no ensino superior, entre tantas outras novidades, o estudante ingressante não é mais somente aquele jovem que recentemente completou o ensino médio e quase precocemente se definiu por esta ou aquela futura profissão. O perfil contemporâneo, progressivamente, inclui um novo público mais adulto, com suas características específicas, demandando naturalmente novas metodologias de ensino, a incorporação competente das tecnologias digitais e outras abordagens de aprendizagem diferenciadas.

Há que se focar no educando, conhecê-lo profundamente e ter como maior motivação a formação de profissionais competentes e inovadores aptos a enfrentarem os desafios de um futuro basicamente incerto e quase imprevisível. Precisamos caminhar de forma acelerada em direção a uma educação híbrida e flexível, onde as boas características de ambas as modalidades, presencial e a distância, poderão ser contempladas simultaneamente e de forma, muitas vezes, complementar.

Enquanto no ensino tradicional priorizava-se o desempenho individual, nas abordagens educacionais contemporâneas o trabalho em grupo ocupa espaço preferencial, estimulando produzir em equipe. O espaço de aprendizagem tipicamente delimitado pela escola espalha-se pelo não espaço que contempla o ambiente doméstico, incluindo o do trabalho e o caminho de um para outro. De fato, estamos diante de um novo paradigma espaço-temporal, sem limites de qualquer natureza.

Na educação superior, o que esperar de um profissional formado é tudo menos o mesmo, se compararmos décadas atrás com os tempos atuais. Um grande complicador é que o que se espera atualmente, em termos de competências, inclui os requisitos de ontem, demandando novos atributos sem abrir mão dos anteriores. Um resumo de todas as mudanças está na diferenciação entre competência técnica e competências múltiplas, ou, em outras palavras, entre cognição e metacognição.

Houve um período que era quase suficiente o domínio de um conjunto razoavelmente delimitado de conhecimentos, associado a processos cognitivos e a um elenco restrito de técnicas e procedimentos básicos contidos nos currículos-padrão definidos para cada profissão.

O dilema atual é que o cenário acima simplesmente não funciona mais. Em complemento à competência técnica, existem múltiplas habilidades, associadas ao mundo da metacognição, a serem desenvolvidas e estimuladas. O aspecto comportamental é absolutamente crucial quando um profissional depara-se com um problema inédito, um tema inovador ou tecnologias recentes.
Enfim, crises existem para serem superadas e educação de qualidade e para muitos é, de longe, a melhor ferramenta contemporânea que dispomos.

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015 Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 09:42

O que vem por aí? Não sabemos, mas eduquemos para o futuro

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É bastante comum ouvirmos corretas reclamações dos menos jovens sobre a compulsiva e obsessiva ligação dos mais jovens com celular (geração “heads down” ou, em português, “cabeças baixas”). Ainda que pertinentes as observações, a tendência é que, ao invés dos mais jovens mudarem seus hábitos, talvez mais provável que os novos mais velhos se acostumem com os hábitos e parem de reclamar. É previsível também que o celular seja somente um prenuncio de algum novo dispositivo que ficará cada vez mais grudado ao corpo e, certamente, ativo o tempo todo.

As mudanças serão mais radicais do que possam parecer até aqui. Em todos os setores, sem exceção. Por exemplo, algo ainda embrionário e que será definitivo é a transformação nos ambientes de trabalho. O modelo de trabalho atual tem resistido, com mudanças relativamente cosméticas até aqui. A flexibilidade em termos de trabalhar onde quiser e quando quiser, sempre sendo os trabalhadores aferidos pelos resultados obtidos e jamais pelos processos adotados, será a marca dos novos tempos. Da mesma forma, as profissões serão aquelas que existem hoje reconfiguradas e modificadas profundamente, à luz das novas tecnologias digitais, acompanhadas pelo surgimento de atividades e carreiras que sequer imaginamos atualmente.

A reinvenção do mundo do trabalho em curso e que será acelerada nos próximos tempos será muito mais intensa e rápida do que foi com a revolução industrial nos séculos passados. A própria noção de profissão, como a conhecemos hoje, será redefinida, sendo que a imensa maioria usará seus atributos e conhecimentos em áreas muito diversas, mudando de campos de atividades ao longo de suas vidas profissionais. Se um dia, corretamente, alguém se preocupou com o destino dos fabricantes de velas quando do surgimento das lâmpadas, ou nos dias atuais quando vemos os taxistas enfrentando o Uber e equivalentes, a amplitude dos conflitos similares atingirá a todos, sem exceção, inundando indistintamente todos as áreas da sociedade.

Mesmo iniciativas que, contemporaneamente, parecem definitivas, como, a título de ilustração, Facebook ou a emergência dos shoppings em detrimento das lojas de ruas, podem ter seus dias contados. O primeiro, a exemplo do Orkut, pode ter esgotamento rápido, bastando que alternativas mais atraentes promovam relacionamentos diferenciados de socialização e desloquem a atenção dos usuários, os quais se movem, quando o fazem, com rapidez e em massa. Os shoppings, como eles estão concebidos, dificilmente enfrentarão os espaços eletrônicos interativos e participativos de compras.

A perenidade de dados em geral, e os pessoais em especial, é algo muito sensível, o que já foi percebido, com sucesso, por aplicativos assemelhados ao Snapchat ou por vídeos de duração limitada. Igualmente, rapidamente terá pouco sentido possuir objetos, incluindo automóveis, se houver facilidade de acesso em condições mais favoráveis e com investimento de tempo muito menor. Os tempos disponíveis serão direcionados para atividades mais produtivas, seja no trabalho ou de lazer. Os aplicativos de serviços serão tão comuns como de aquisição de objetos e as oportunidades, seja de negócios ou de empregos, terão nestes campos terrenos incrivelmente férteis.

E a educação como fica? Embora não claro, é certo que como está não será. As metodologias educacionais em curso refletem valores e demandas de um passado que se afasta muito rapidamente. As pedagogias inovadoras ainda não ocuparam seus espaços, mesmo porque ainda é nebuloso o cenário à frente e aqueles que estão em postos de decisão tendem, assustados pelas possibilidades de mudanças, a reforçar mais ainda os antigos pressupostos. Neste ponto, educadores, gestores educacionais, motoristas de taxi e nós todos em geral nos assemelhamos, demonstrando mais pontos em comum do que simplesmente compartilharmos o mesmo futuro que se aproxima.

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