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Arquivo da Categoria Inovação e Educação

sábado, 4 de junho de 2016 Inovação e Educação | 08:40

Copacabana, diagonal do eclipse

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Copacabana, principal destino turístico do Brasil, é provavelmente uma das praias mais conhecidas do planeta, devendo constar de algumas listas de preferências fotográficas do mundo. Mesmo assim, ela, soberanamente, não perde sua austeridade, ou melhor, singelamente, se move ao ritmo das ondas, que sabem se deixar serem clicadas sem perder a graça ou a naturalidade.

 

Permanentemente se transforma, sem deixar de ser ela mesma. Um dia amanheceu sem a boate Help, no outro acordou repleta de stand-ups, bem como aguarda um Museu de Imagem e Som que se alonga no tempo. São mudanças que se anunciam e se completam incessantemente. Copacabana parece, pacientemente, suportar suas transições, certa de não perder nunca sua integridade mutante.

 

Copa um dia foi colônia de pescadores e o Posto Seis (que, curiosamente, não existe enquanto posto) nos lembra que permanece sendo. Na dúvida, um peixe fresco comprado no local, ainda hoje, nos comprova em definitivo tudo o que foi um dia.

 

As princesas que lhe seguem, Arpoador, Ipanema e Leblon, não lhe fazem sombra porque simplesmente com ela não competem. Não por não serem melhores, em alguns aspectos talvez o sejam, mas porque às princesas sábias não cabe lutar contra a rainha, especialmente se a sabem imortal.

 

Aquilo que gerou, o fez por assim ser. Os estilos musicais, a exemplo da Bossa Nova, refletiam, de alguma forma, a necessidade de tocar e cantar baixinho sem o que os vizinhos de Copacabana (e também de Ipanema, justiça se faça) reclamassem. Todos, sem exceção, movimentos culturais do país tiveram aqui seu especial espaço de expressão, criação e repercussão.

 

As festas de réveillon que abrem o ano em suas praias se estendem, de alguma forma, por todos os dias, a cada novo raiar de sol, quando tudo parece recomeçar neste Brasil. Ainda que tenhamos que conviver muitas vezes com as sujeiras, os maus tratos e algumas indesejáveis, inaceitáveis e deslocadas violências.

 

Ela, que renasce todos os dias ao alvorecer e que não vai dormir ao anoitecer, sabe fazer jus a todas as suas origens denominativas. Uns dizem que Copacabana teria origem no idioma quíchua, falado no Império Inca, significando “lugar luminoso” ou “mirante do azul”. Há quem diga que a origem seria da língua aimará, falada na Bolívia, cuja tradução seria “vista do lago”. Por sinal, há naquele país um lugar de mesmo nome no Lago Titicaca, que consta ter sediado cultos Incas dedicados a uma divindade Kopakawana, que protegia o casamento e a fertilidade das mulheres.

 

Se hoje Copacabana luta contra as intempéries das crises, sejam elas a nacional, a estadual, da indústria naval ou da indústria de óleo e gás, ela se lembra bem que tem enfrentado há quase um século o fechamento de cassinos, o movimento tenentista, as ditaduras e outras tantas intempéries. Há mais de meio século, o fim dos cassinos lhe parecia ser um golpe definitivo e que findou não sendo, bem como a crise atual também não terá esta competência de abalar sua beleza e vitalidade. Ela se refaz, como a beleza das rainhas austeras e eternas, sabendo se expressar pelas artes, pela vocação democrática e pela tolerância, em especial no respeito aos menos jovens.

 

Mais do que resistir, à sua maneira, Copacabana é um pouco a cara e a essência do Brasil, refletindo seus momentos de prosperidade e suas contradições. Neste momento, em que o país procura e encontrará seus caminhos, que ela saiba refletir de forma positiva as novas expectativas, construindo, com a sabedoria de uma rainha experiente, a diagonal de um eclipse que, por certo, atravessaremos.

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segunda-feira, 23 de maio de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 09:11

Metacognição política brasileira

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Metacognição, etimologicamente, significa “para além da cognição”, ou seja, algo além do aprender e suas etapas clássicas, abrangendo também conhecer o próprio ato de aprender, associado à consciência ativa dos atores envolvidos no processo de aprendizagem. Assim, o conceito de metacognição está relacionado ao ato de pensar sobre o próprio pensamento, onde a reflexão e a autoconsciência sobre a maneira como se aprende tornam-se, progressivamente, tão importantes como o próprio conhecer.

 

Portanto, nesta linha, assume-se que tão ou mesmo mais importante do que aquilo que se aprendeu é se ao educando foi possível adquirir, ao longo do processo de aprendizagem, mais clareza acerca de como ele aprende, aumentando o seu nível de consciência sobre os mecanismos segundo os quais a educação se desenvolve.

 

A situação econômica e social brasileira não é boa e a crise política instaurada é grave, portanto, nem há sequer pílula para dourar. No entanto, não há como enxergar o país somente com o olhar clássico, fotográfico e simples. É possível, complementarmente, perceber o que está embutido, o dinâmico e o complexo. A pergunta a ser feita, talvez a mais relevante, seja se estamos aprendendo ao longo do processo e, principalmente, se estamos entendendo a nós mesmos melhor enquanto atores políticos, aprendizes permanentes do processo. Curiosamente a resposta seria sim, mesmo que olhado dos pontos de vista mais díspares.

 

A crise econômica pode ter muitas explicações, mas fica cada vez mais evidente que todas estão associadas às tarefas não cumpridas antes e à baixa produtividade do trabalhador brasileiro. Esta, por sua vez, correlacionada à baixa escolaridade, entendida aqui enquanto limitadíssimo número de anos de estudo e má qualidade de ensino nos poucos anos frequentados.

 

A questão social, vinculada à crise, remonta a acúmulos que vieram progressivamente se agravando, desde o evidente e perverso contraste social que separa a casa grande da senzala e que, com pequenas oscilações, nunca se alterou na sua essência. Na política, nossa marca maior continua sendo a eterna vocação patrimonialista de confundir o público com o privado, o geral com o particular, findando os interesses coletivos submetidos aos interesses localizados. Esta lógica opera, desde o Brasil Colônia, para grupos e setores econômicos comodamente sempre alojados dentro do poder instituído. Da mesma forma, o mesmo raciocínio é válido para corporações diversas que se fazem representar ao nível do poder, ainda que cultivando um discurso por vezes progressista, e que findam sempre por desculpar privilégios setoriais em detrimento do todo.

 

Pela primeira vez, graças ao mundo das tecnologias digitais, exploramos, enquanto cidadãos e agentes políticos em potencial, a oportunidade de termos informação plena e total para todos, instantaneamente e gratuitamente acessível. Um dos reflexos decorrentes desta revolução diz respeito ao fato de que cognição divide sua centralidade, abrindo espaço, em termos de relevância, para um conceito mais amplo, a metacognição política.

 

Portanto, a cognição, associada a ser informado, de certa forma, atende principalmente ao passado e a metacognição, associada a cada vez mais refletir melhor sobre aquilo que lhe é informado, contempla prioritariamente o futuro. Claramente ainda estamos nos primórdios, mas estamos avançando e podemos fazê-lo com muito mais rapidez. Enquanto a cognição diz respeito, na sua forma mais simples, a constatar se o cidadão aprendeu ou não, a metacognição política inclui, com igual peso, o quanto o indivíduo e o coletivo percebem as formas e os mecanismos com que eles próprios aprendem e atuam, em preparação ao estratégico e improrrogável saber resolver.

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sexta-feira, 13 de maio de 2016 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 21:27

Educação a distância: no começo estranha-se, depois, entranha-se!

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Há 80 anos, em Portugal, o escritor Fernando Pessoa foi convidado a produzir uma peça publicitária para um grande grupo internacional do ramo de refrigerantes, e assim o fez: “Primeiro estranha-se, depois, entranha-se!”. Naquela época, a bebida escura gaseificada estava chegando a Portugal, era desconhecida, de gosto estranho, e precisava de um pouco de poesia para abrir-lhe o caminho.

Hoje, parafraseando o poeta, em contexto sensivelmente distinto do original, permito-me apropriar da ideia do autor para descrever a educação aberta e a distância, que está, cada vez mais, presente em nosso cotidiano. Trata-se de uma modalidade de educação fortemente impulsionada pelas novas tecnologias de informação e comunicação, cujas potencialidades apontam para o atendimento às demandas inéditas da sociedade contemporânea, e em particular no Brasil, país privilegiado com dimensões continentais, nossos atrasos em termos de escolaridade e as desigualdades sociais e econômicas.

Muito além de ser um meio de superar problemas emergenciais ou forma de enfrentar questões de espaços territoriais, educação a distância (EaD) vem, progressivamente, conquistando espaços junto aos diversos sistemas acadêmicos e educacionais, sua oferta combinada aos modelos tradicionais de ensino, em diversos níveis, tem apontado para melhorias.

Por outro lado, no espírito de educação ao longo da vida, a educação a distância tem sido ingrediente fundamental na educação continuada da população adulta. EaD tem forte conexão com democratização de oportunidades educacionais, contribuindo com a formação de profissionais com competências múltiplas. Da mesma forma, estabelece fortes vínculos com democratização de oportunidades educacionais, contribuindo com a formação de profissionais com competências múltiplas, com especial ênfase no trabalho em equipe e na capacidade de aprender a aprender e estimulando o individuo a adaptar-se a novas situações.

Assim, a realidade de exigência de formação ao longo da vida propiciara desejáveis conexões entre o campo educacional e o campo do trabalho, que demandarão inéditas ferramentas pedagógicas que, por sua vez, gerarão fortes impactos, tanto sobre os métodos de ensino como sobre a organização dos ambientes de trabalho.

A Lei 5.692, de 1971, que fixava Diretrizes e Bases para o ensino de 1º e 2º graus, de forma pioneira no país e para atingir maior número de estudantes, se referiu à possibilidade de cursos supletivos utilizarem a modalidade a distância, por meio de rádios, televisão e ensino por correspondência. A nova Lei de Diretrizes e Bases (1996), consolida essa tendência, inovando com a possibilidade de educação a distância em todos os níveis e modalidades de ensino. No ano de 1998, dois Decretos publicados caracterizaram EaD e regulamentam a LDB, definindo competências entre os sistemas federal, estaduais e municipais.

Posteriormente, duas Portarias do MEC (uma de 2001 e outra de 2004) tratam da possibilidade de introdução de métodos não-presenciais na organização curricular e pedagógica dos cursos superiores reconhecidos.

Em um contexto em que a informação estará totalmente acessível, instantaneamente disponibilizada e gratuitamente ofertada, o processo ensino-aprendizagem será profundamente afetado e a incorporação de novas tecnologias e a introdução de metodologias inovadoras serão a marca destes novos tempos. Muito além da simples modalidade, o ensino a distância representa a real possibilidade de conjugarmos quantidade com qualidade e é o prenúncio de um novo período de educação híbrida e flexível, em um mundo globalizado e literalmente sem fronteiras.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, (LDB, Lei n.º 9.394, de 20 de dezembro de 1996) apresentou uma inovação no seu art. 80 estimulando o ensino a distância nos diferentes níveis. A criação da Secretaria de Educação a Distância (Seed/MEC), no início do Governo Fernando Henrique Cardoso (1994-2002), representou uma iniciativa positiva para a institucionalização da modalidade. No Governo Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011), houve um significativo avanço da educação a distância, chegando ao quadro atual em que a educação a distância é a principal responsável pelo crescimento de matrículas no ensino superior.

Educação a distância baseada nas tecnologias digitais rompe fronteiras entre as nações e cumpre o mesmo papel no interior de cada país. Particularmente no Brasil, onde ainda não completamos sequer metade do caminho previsto no Plano Nacional de Educação (PNE) da década passada – “garantir acesso ao ensino superior a 30% dos jovens entre 18 a 24 anos” –, a utilização da modalidade é certamente imprescindível e estratégica para oportunizar que interessados de todas as classes sociais possam ter acesso à educação superior. Além disso, como apontado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC), progressivamente, mais de 40% dos ingressantes no ensino superior estão em faixas etárias mais maduras (acima de 24 anos). Esta população demanda metodologias educacionais próprias capazes de permitir que mesmo tardiamente, possa qualificar-se profissionalmente.

Distintamente da educação presencial, na educação a distância a escala não compromete a qualidade, muito pelo contrário. Todos os especialistas internacionais têm segurança em afirmar que a racionalidade e a economicidade envolvidas na modalidade permitem baixar custos e aumentar qualidade simultaneamente. Tal que é mais do que razoável afirmar que na boa educação a distância pode-se obter o dobro da qualidade pela metade dos custos.

Os estímulos para o estudo antes das aulas, a ênfase na existência de portais eletrônicos, aprender a não ter medo de utilizar plataformas, o estímulo à aprendizagem independente e ao ensino baseado em solução de problemas, incluindo metodologias que levem em conta os ambientes do mundo do trabalho, são exemplos de iniciativas que podem ampliar nos educandos habilidades e competências desejadas.

Pessoas educadas são essenciais para a melhoria da qualidade de vida de todos e para o aumento da competitividade e produtividade de um país. A formação de profissionais atualizados é estratégica para as economias competitivas globais. Profissionais com pouca escolaridade desenvolvem de um modo geral  atividades manuais simples, sendo quase impossível a adaptação deles às técnicas e aos processos de produção mais sofisticados. Portanto, a formação de cidadãos aptos a desempenhar tarefas complexas e dispostos a enfrentar os desafios das novas e desconhecidas demandas, por meio do uso intenso e consciente de tecnologias inovadoras, é essencial para a educação contemporânea.

 

Imagem: Domínio público em https://pixabay.com/pt/in%C3%ADcio-364177/

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segunda-feira, 2 de maio de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 18:32

Ser olímpico é ser grande e de qualidade

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Os gregos, em torno de 2.500 a.C., homenagearam Zeus, o maior dos deuses de sua mitologia, com a criação dos Jogos Olímpicos. As Olimpíadas da Grécia Antigas perduraram até 394 d.C., quando o Imperador Teodósio II, convertido ao cristianismo, proibiu todas as festas pagãs, inclusive os Jogos. As Olimpíadas renasceram somente 1.500 anos mais tarde, por iniciativa do francês Pierre de Fredy (1863-1937), o Barão de Coubertin.

 

Além dos Jogos Olímpicos, os gregos também são considerados os fundadores da instituição escola, tal qual a conhecemos hoje. Platão, um dos mais importantes filósofos da história, fundou em Atenas a Academia em 383 a.C., a qual é considerada um paradigma, ao menos no mundo ocidental. Assim, Olimpíadas e instituições educacionais têm em comum suas raízes fortemente fincadas na Civilização Grega e ambas inspiradas em elementos de grandeza e de qualidade.

 

O Rio de Janeiro foi escolhido para sediar neste ano as XXXI Olimpíadas da era moderna, sendo a primeira vez que elas ocorrem na América do Sul, quando serão disputadas 28 modalidades, duas a mais do que as Olimpíadas de 2012. É também a primeira vez, salvo engano, que uma instituição educacional, no caso a Estácio, é parceira integral do evento e responsável direta pela capacitação de dezenas de milhares de voluntários e outros participantes da organização do evento.

 

Contemporaneamente, celebramos a reunificação de dois dos maiores legados dos gregos: as Olimpíadas e a escola. As instituições educacionais estão representadas neste evento pela Estácio, a qual é uma das maiores organizações educacionais privadas do país, com mais de meio milhão de alunos matriculados no ensino superior atendidos por quase nove mil professores e cinco mil colaboradores não docentes.

 

Entre as missões da Estácio para transformar a sociedade por meio da educação, a mais relevante delas é propiciar um ensino de qualidade para muitos. O Brasil tem provado ser um país capaz de prestar atendimentos de qualidade, desde que para poucos, ou então de atender muitos, desde que sem garantias de qualidade. Não aprendemos ainda, infelizmente, fazer as duas coisas, qualidade e quantidade, ao mesmo tempo. Harmonizar bom nível e escala é a mais importante inovação olímpica que o país precisa. Propiciar qualidade para poucos ou então ofertar qualidade precária para muitos não é inovar e nem ser olímpico. Inovar e ser olímpico no Brasil de hoje é romper as barreiras que inviabilizam qualidade para muitos.

 

Pessoas educadas são essenciais para a melhoria da qualidade de vida de todos e para o aumento da competitividade e produtividade de um país. A formação de profissionais atualizados é estratégica para as economias competitivas globais. Profissionais com pouca escolaridade desenvolvem, de um modo geral, atividades manuais simples, sendo quase impossível a adaptação deles às técnicas e aos processos de produção mais sofisticados.

 

Portanto, ser olímpico na educação contemporânea, sendo simultaneamente grande e de qualidade, implica na formação de cidadãos competitivos, aptos a desempenharem tarefas complexas e dispostos a enfrentarem os desafios das novas e desconhecidas demandas, por meio do uso intenso e consciente de tecnologias inovadoras.

 

As Olimpíadas sempre foram e continuarão sendo grandes e de qualidade e o evento Rio 2016 servirá para reforçar, uma vez mais, a sua essência. A Estácio está honrada de fazer parte desta história e se integra aos mesmos propósitos olímpicos, certos que é parte de sua missão maior conjugar bom nível com quantidade, ofertando educação de qualidade para muitos.

 

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quarta-feira, 20 de abril de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 11:08

Gestão e educação

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FeRazao

Fé é, basicamente, a ausência de dúvida. Ciência é, antes de tudo, o território da indagação. Esses dois conceitos, sem dúvida, reduzem e simplificam demasiadamente entes complexos. Ainda que sejam afirmações simples, as ideias centrais de ambos, fé e ciência, permitem ser assim explicitadas e enfatizadas.

 

Gestão não se enquadra exatamente em fé e há muita discussão sobre sua classificação enquanto ciência. No entanto, na prática, as implementações de modelos de gestão estabelecem no cotidiano interessantes vínculos associados tanto a fé como a ciência.

 

Pelo que sugerem as experiências, a adoção de um modelo de gestão, qualquer que seja ele, tende a melhorar os resultados. A opção pela absoluta ausência de modelos dá espaço ao individualismo, ao voluntarismo aleatório e ao uso destemperado de bom senso, caracterizados pela ausência de padrão, de rotina e de processos sistemáticos, dificultando, no decorrer do processo, analisar rumos e, mais ainda, corrigi-los, se for o caso. Da mesma forma, bons modelos de gestão devem, necessariamente, apresentar características suficientemente flexíveis, tais que individualidades e peculiaridades sejam contempladas.

 

A proposta deste texto não é aprofundar acerca de estratégias, planejamentos ou abordar outros temas específicos de gestão, mas sim analisar brevemente as eventuais conexões entre gestão, fé e ciência, à luz do mundo da educação. Para tanto, cabe observar que, ao implementar um modelo de gestão, há momentos que se caracterizam como de planejamento e discussões e, em tempos consecutivos, outros de implementação de ações e de exercícios práticos de campo. Esses limites não são absolutos e nem são fronteiras tão rígidas, persistindo sempre áreas sombreadas entre planejamento e ação.

 

A ciência diz respeito à promoção da discussão e da análise aprofundada, associada a estimular a dúvida e o uso das ferramentas derivadas do método científico, especialmente observação, lógica e análise crítica dos resultados e das experimentações. Tais características se adequam perfeitamente aos momentos de planejamento das ações.

 

Por sua vez, desde que estabelecidos os modelos, as estratégias e os planos de ação, entramos no território das ações propriamente. Momento em que é desejável que tenhamos máxima convergência, harmonia e sincronicidade. Para tanto, são requeridos comportamentos, individuais e de equipe, em que, a partir dos conhecimentos e acordos prévios, rotinas e padrões são assumidos, implicando no acatamento de sistemas e procedimentos, os quais tendem a funcionar melhor se os participantes têm nesses momentos menos dúvidas e mais fé ou convicção.

 

Essas conexões talvez fiquem mais evidentes quando expostas ao contrário. Seria inadequado analisar planos estratégicos, envolvendo a complexidade natural das diversas variáveis, se limitados pela fé cega em um único modelo de gestão. A crença na infalibilidade de um particular modelo de gestão é um caminho para o desastre, portanto, a fé é, neste caso, má conselheira. No planejamento há que se enaltecer e estimular as dúvidas e os questionamentos. Retirá-los, inibi-los ou não os estimular é enfraquecer fortemente esta etapa do processo, empobrecendo-a criticamente.

 

Por sua vez, após definidas estratégias e planos de ação, há que se perseverar no que foi proposto antes, implementando o programado. O espaço das ações em campo é corretamente refratário a se debater os pressupostos do planejado e há que se seguir adiante, até mesmo para permitir que as análises, ainda que parciais, sejam em cima de um processo de maturação de processos, padrões e rotinas em curso. Estimular prematuras e não sistematizadas análises, bem como excessivos debates sobre processos ainda em curso, tendem, em geral, a prejudicar a execução, não contribuindo com a necessária concentração nos elementos sistêmicos que permitam uma aferição posterior mais balizada.

 

Em suma, a educação nos ensina que gestão não se reduz a fé e nem a ciência, mas há ingredientes de ambos que podem sim contribuir com a gestão. Cabe ao processo educacional elucidar em quais momentos dos procedimentos de implementação de qualquer modelo de gestão há características que mais se aproximam de um e se distanciam do outro e vice-versa.

 

Sobre a figura: Faith and Reason United by Ludwig Seitz (1844-1908). Vatican Museum.

 

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domingo, 10 de abril de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 14:30

Iconoclastia mal-educada

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Em torno do século VII, o termo iconoclasta designava os adeptos do movimento de contestação à veneração de ícones religiosos. De fato, iconoclasta significa literalmente “quebrador de imagem”, derivado do grego eikon (imagem ou ícone) e klastein (quebrar). Contemporaneamente, este termo passou a ser aplicado também a qualquer um que quebre dogmas, convenções ou mesmo que desdenhe das regras estabelecidas.

 

O neurocientista Gregory Berns, ao final da década passada, lançou o livro “O Iconoclasta”, onde o conceito é atualizado e passa a ser aplicado também a uma pessoa rebelde que interpreta a realidade de uma maneira não usual e faz aquilo que o senso comum julga impossível ou não aconselhável de ser feito. Neste especial sentido, é permitido se referir como iconoclasta a alguém inovador e que, pela sua provocação e ousadia, gera avanços e questionamentos. Na perspectiva de Berns, enquanto uma pessoa comum percebe o mundo baseado na história passada e naquilo que lhe é relatado, o iconoclasta, antes de tudo, arrisca enxergar o diferente, assumindo os riscos das discordâncias, dos pioneirismos e das visões divergentes sobre temas supostamente bem estabelecidos.

 

Se, por um lado, podemos chamar a iconoclastia criativa de Berns de positiva, há igualmente a iconoclastia puramente resultante da má educação e da disposição permanente de descumprir regras estabelecidas, caracterizada por não respeitar aos demais, por desacatar as normas gerais de convivência social e reflete, de alguma forma, elementos de percepção de superioridade com relação aos outros. Nesta categoria estão comportamentos que refletem nosso passado, ainda tão presente em nosso hábitos e costumes do dia-a-dia, onde as rebeldias podem ter um viés puro de egoísmo e de desrespeito ao coletivo. A iconoclastia mal-educada pode ser evidenciada em pequenos delitos, os quais findam por respaldar e dar guarida aos grandes defeitos.

 

Vejamos um frugal e simples exemplo: aos domingos e feriados, assim como em tantas outras cidades, a orla do Rio de Janeiro tem uma das pistas fechada ao tráfego de automóveis, permitindo aos pedestres e ciclistas desfrutarem de espaço urbano essencial e prazeroso. Do Leme ao Leblon, há uma pequena pista dedicada exclusivamente aos ciclistas, nas quais se anuncia às demais pessoas que a evitem, bem como há uma faixa maior reservada aos pedestres, onde é explicitamente informado a todos que somente crianças com menos de oito anos a utilizem de bicicleta.

 

Ainda que não faltem avisos, é extremamente comum observar a dificuldade dos ciclistas de conviverem em harmonia com os pedestres. Muitas vezes vemos pessoas caminhando na pista de ciclismo, não raro em duplas, dificultando por completo a mobilidade das bicicletas, bem como observamos muitas bicicletas trafegando perigosamente no meio dos pedestres na faixa, em tese, a eles reservada. Bastaria que as proibições fossem respeitadas e todos, tanto ciclistas como pedestres, aproveitariam bem melhor seus respectivos espaços. Ao contrário, na prática, resultado da má educação, amplificam-se os conflitos e não raros desentendimentos surgem, transformando aquilo que deveria ser prazeroso em disputas e transtornos sem sentido.

 

Seria aconselhável que um policial ou autoridade municipal tentassem impor as regras, mas as chances de insucesso, infelizmente, seriam altas. Esta iconoclastia mal-educada não tem nenhum vínculo com a iconoclastia criativa de Berns, mas sim está atada ao que existe de pior em nossa cultura e é fruto da descrença nos governantes, estando ancorada nos estímulos às práticas individualistas de usufruir do máximo que puder, mesmo que em detrimento do coletivo.

 

O caso específico é exemplo muito trivial, mas que guarda profunda correlação com uma transformação, via boa educação, que todos acreditamos possível. E que essas mudanças, em todas as suas dimensões, contribuam para moldar para melhor a formação cultural de um povo que saiba, de forma coletiva e solidária, definir bem seus próprios destinos.

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quinta-feira, 31 de março de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 08:08

Monges copistas eram brilhantes, mas sumiram

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Os tempos contemporâneos são marcados pela profundidade e rapidez das mudanças em curso. Neste ambiente de informação plenamente acessível, instantaneamente disponibilizada e praticamente gratuita é absolutamente natural que atividades que estamos acostumados hoje sejam profundamente abaladas amanhã e que profissões que nos parecem eternas desapareçam, ou se tornem, raras brevemente.

 

Assim também foi no passado, ainda que em ritmo mais lento, quando grandes transformações se efetivaram. Uma das mais curiosas e ilustrativas diz respeito aos monges copistas. Esses monges eram totalmente dedicados à cópia de livros, os quais eram escritos à mão, utilizando penas de ganso e tinturas, decorados com pinturas e feitos sobre pergaminhos, ou seja, peles tratadas de carneiros ou cabras.

 

Essas cópias eram preparadas com especial esmero e, consequentemente, demoravam muito e os produtos finais resultavam extremamente caros, portanto, raros. Os monges copistas na Idade Média (séculos V a XV) eram cultos e faziam parte do extremamente seleto grupo que sabia ler e escrever. Na absoluta ausência de tecnologias que fizessem este trabalho, os monges copistas acreditavam que ao copiarem os livros estariam prestando um serviço a Deus, esforço recompensado pela liberdade que tinham em ilustrar as obras. Em geral, o trabalho manual de cópia dos manuscritos na Idade Média era realizado no interior dos mosteiros, em um quarto chamado scriptorium, daí a terminologia com significado amplo da palavra escritório tal como adotamos hoje.

 

O século XV não trouxe boas novidades aos monges copistas. O final da Idade Média, o começo do Renascimento, as novas descobertas, o crescimento do contato com o mundo oriental e o acesso às novidades vindas da China, da Índia e do mundo árabe promoveram mudanças profundas. Entre elas, a introdução do papel, invenção chinesa barata, abundante e de fácil recorte e manuseio.

 

Nos primeiros séculos da era cristã, a gravura em pedra e a produção de cópias eram dominadas pelos orientais, tanto pelos chineses como pelos coreanos e japoneses. Da mesma forma, usavam pranchas de madeira para gravar imagens e textos, os quais podiam ser reproduzidos por estampagens. Em torno do século XI, as primeiras impressões utilizando caracteres móveis começaram a ser adotadas na China, porém, dado serem os caracteres feitos de terracota precisavam ser substituídos a cada impressão, o que tornava o processo pouco prático e muito custoso. Houve tentativas na época de utilização de caracteres metálicos, mas mesmo assim muito dispendiosos.

 

Interessante observar que antes do século XV os europeus simplesmente não se interessaram por essas novidades em curso na Ásia. Esse quadro se altera no século XV. O alemão Johannes Gutenberg não inventou, mas sim “reinventou” a imprensa e é considerado o homem que aperfeiçoou de maneira decisiva a arte asiática, dado que ele desenvolveu os caracteres móveis de chumbo, que podiam ser utilizados indefinidamente, além de uma nova tinta de impressão e a prensa de imprimir. Com isso, mudou definitivamente o mundo dos livros, em todas as suas dimensões e consequências: política, econômica, social e religiosa. A partir de Gutenberg, uma nova história se desenvolve e os livros, antes raros, se tornaram abundantes porque baratos e de muito mais fácil manuseio, seja na fabricação ou sua utilização mais direta. Por sua enorme contribuição, Gutenberg pode ser chamado de pai da tipografia e do livro moderno.

 

Bem, e como ficaram os brilhantes e competentes monges copistas após Gutenberg? Eles foram se tornando cada vez menos necessários e praticamente desapareceram poucas gerações depois. Os tempos atuais reproduzem, à luz das tecnologias digitais, quadros muito similares e a história dos monges copistas se repetirá em escala muito maior em praticamente todas as ocupações atuais. O certo é que as atividades humanas em geral serão atingidas, umas mais rapidamente, outras perdurarão um pouco mais, mas todas as profissões, de alguma forma, serão revistas e algumas simplesmente desaparecerão.

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segunda-feira, 21 de março de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 21:15

Trabalhar em equipe se aprende na escola

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Os seres humanos, desde as primeiras civilizações, sempre sobreviveram graças ao trabalho em grupo. Sem esse ingrediente, talvez, sequer tivéssemos existido enquanto espécie. A arte de armazenar o fogo, a eficiência das caças coletivas e até mesmo as inscrições rupestres deixadas nas cavernas foram algumas das marcas coletivas dos povos primitivos, cujas práticas nos permitiram chegar onde estamos hoje.

Assim, não há novidade na relevância do trabalho em equipe em nossa sociedade. No entanto, os processos ensino e aprendizagem, em geral, exploram muito pouco esta característica humana, sendo que a organização da escola tem desprezado este potencial, muitas vezes reprimindo-o. A escola tradicional supervaloriza a aprendizagem individual no processo de ensino via salas de aulas com alunos basicamente passivos e, especialmente, nos métodos avaliativos normalmente adotados.

Não chega a ser surpreendente que as organizações empresariais se anteciparam à escola na percepção da recente relevância do trabalho em equipe, reconhecido hoje como elemento estratégico e crucial nas instituições mais modernas e inovadoras. Na prática, findou-se por descobrir fora do ambiente escolar elementos interessantes como o fato que na maior parte dos casos estudados a equipe tende a ter maior sucesso quando composta por grupo entre cinco a nove membros. Da mesma forma, contrariando o senso comum, maior diversidade cultural, incluindo de gênero, étnica e de faixa etária, tende a gerar melhores resultados.

Além disso, as companhias se viram obrigadas a repensarem hierarquias clássicas, dado que, graças às tecnologias digitais, as equipes conseguem uma dinâmica que sugere um nível de horizontalização inédito, viabilizando soluções em tempos bem menores se comparados com o cumprimento de rituais clássicos cristalizados. Por fim, os conceitos de líder e liderança se adaptam aos novos tempos e assumem características inéditas, entre elas que o líder nem sempre é o mesmo ao longo de toda a missão e que o excesso de liderança individual pode gerar inibição dos demais, podendo mesmo, no limite, ser prejudicial.

As escolas gradativamente estão incorporando trabalho em equipe como elemento cada vez mais presente em seus processos educacionais. No entanto, avaliar trabalho em equipe é, de fato, sempre complexo, mas é possível ser bem executado em ambientes escolares que reconhecem nesta estratégia elemento essencial do processo de aprendizagem. Uma sugestão inspiradora, entre várias, para avaliar equipes vem da observação de bandas de jazz. Interessante observar que qualquer público atento, apreciador de boa música, sabe muito bem identificar diferenças entre uma banda que tem boa qualidade e outra de menor valor. Tão importante quanto isso, se todos os componentes tocarem solo, também saberão, razoavelmente, identificar quem toca bem e quem não executa tão bem.

Trabalhar em equipe viabiliza algo imprescindível nos tempos atuais, a aquisição e a construção coletivas do conhecimento, práticas nas quais o aluno se relaciona de forma diferente com o saber e quando as relações interpessoais desempenham papel preponderante. No trabalho em grupo, além do domínio do conhecimento, o aluno desenvolve várias habilidades, entre elas, aprender a avaliar, decidir, considerar as opiniões dos demais e, especialmente, compartilhar acerca das próprias práticas, dominando melhor os mecanismos segundo os quais ele aprende. Essas competências são cruciais para a vida, seja como profissional ou cidadão.

Em suma, trabalhar em equipe se aprende na vida, mas pode e deve ser estimulado e aprimorado na escola, e avaliar coletivamente deve ser um instrumento adicional de estímulo ao aprendizado. Preparar profissionais e cidadãos para um futuro que se avizinha torna imprescindível incluir trabalhos em grupo de forma sistemática com uso de metodologias que explorem soluções de problemas ou realizações de projetos.

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domingo, 13 de março de 2016 aprendizagem, Inovação e Educação | 10:16

Educação e tolerância política

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Não nascemos tolerantes, mas podemos sim aprender a sermos cada vez mais tolerantes. Ou seja, tolerância é algo que se ensina e é algo que se aprende. E se aprende sempre, ao longo de toda a vida. Particularmente, aos jovens é ainda mais relevante este conceito, dado que eles permanentemente testam a aplicação de conceitos abstratos a situações concretas.

Bobo e Licari são dois pesquisadores americanos que se dedicaram a este tema de forma sistemática (http://scholar.harvard.edu/bobo/files/education.pdf) e examinaram os efeitos da educação e da sofisticação cognitiva na extensão das liberdades civis a grupos inconformados ou indignados. De forma não surpreendente, eles identificaram efeitos positivos da educação nesses grupos e nas ações decorrentes, tanto para aqueles com pensamentos mais conservadores como mais progressistas. Segundo os autores, uma fração substantiva do efeito da educação no reforço da tolerância é mediada pela sofisticação cognitiva. Tais efeitos são ainda maiores quando as pessoas têm sentimentos negativos acerca dos grupos discordantes de suas ideias e de suas crenças.

Esse estudo citado evidencia de forma sistemática a relação entre educação e tolerância. Quanto maior o nível de educação da sociedade, mensurável pela escolaridade, expressa pelo número de anos na escola e qualidade do ensino, melhor para as instituições democráticas. Essa relação não é direta e nem simples ou imediata, no entanto, um nível de correlação é evidente, ainda que de natureza complexa.

Aparentemente são identificados pelo menos três dimensões ou mecanismos por meio dos quais educação impacta na qualidade dos processos democráticos: 1. nos valores e crenças individuais, onde é possível observar que pessoas mais educadas demonstram ser mais tolerantes à diversidade, elemento essencial ao estado democrático; 2. indivíduos mais escolarizados tendem a participar mais de processos democráticos, incluindo protestos políticos, o que contribui com enraizar os valores democráticos; 3. grupos mais educados têm uma melhor compreensão das características essenciais da democracia, aqui contidos os direitos das minorias e a liberdade plena de expressão.

Estudos em adultos evidenciam que características psicológicas, no que diz respeito aos níveis de tolerância, desempenham papel mais relevante do que variáveis outras como status social ou renda. Assim, pessoas com autoestima elevada tendem a ser menos dogmáticas e menos autoritárias. Da mesma forma, os níveis educacionais, em média, são bons preditores da capacidade de tolerância a ideias contrárias às convicções estabelecidas, evidenciando conexão entre maior escolaridade e maior conforto no convívio com crenças diversas.

O Brasil vive uma crise de dimensões econômicas e políticas superpostas e mais uma vez, em ambas, educação desempenha papel crucial. Do ponto de vista econômico, de forma muito breve, poderíamos traduzir, entre outras possíveis leituras, como uma crise de competitividade. Ou seja, porque somos menos escolarizados do que nossos competidores, temos uma produtividade mais baixa e, consequentemente, geramos produtos ou ofertamos serviços não competitivos, o que nos faz perder mercados, expondo-nos, como nação, a meros fornecedores de commodities. Isso em um cenário onde os valores agregados, decorrentes de aplicação intensiva do conhecimento, são os elementos definidores da capacidade de competir globalmente. De forma clara, na face econômica da crise pagamos um preço alto pela educação que deixamos de propiciar.

Na outra vertente da crise, a face política, de novo, a capacidade de superação destes difíceis momentos dependerá daquilo que formos capazes de construir, a partir da educação que estamos desenvolvendo em nosso cotidiano. Educação neste sentido não é algo estanque e dado a priori. Claro que os elementos formais de escolaridade contam, mas a educação produzida nas ruas e em curso também educa e contribui para melhorar (ou piorar, se malconduzida) nosso cenário político.

As melhores aulas práticas de democracia serão aquelas que materializam e solidificam nossos conceitos assimilados de formas mais abstratas até então. Assim, que aproveitemos as aulas em curso nas ruas para aprendermos cada vez mais e melhor. Nossos votos para que os exercícios práticos contribuam para elevar os níveis de tolerância, ampliem nossa educação política e culminem com maior capacidade reflexiva sobre o mundo que nos cerca.

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domingo, 14 de fevereiro de 2016 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 16:04

Domínios de aprendizagem e o preceptor contemporâneo

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Benjamin Bloom, importante educador/psicólogo americano falecido ao final do século passado, é considerado o responsável pela formulação da taxonomia dos domínios de aprendizagem, a qual é ancorada, entre outros elementos, na suposição de que as operações mentais podem ser classificadas em níveis de complexidade crescentes.

Na década de 1980, Bloom, seguindo essa abordagem, apresentou um método de ensino conhecido como “Problema Sigma 2”. Essencialmente, tratava de prover aos estudantes tutoria individual ou em pequenos grupos. Esses alunos, quando comparados com colegas submetidos a métodos tradicionais baseados em salas de aula convencionais, apresentaram, em geral, rendimentos 98% melhores. O termo Sigma 2 deriva do fato que tal diferença implica em superar aproximadamente duas vezes o desvio padrão estatístico, garantindo que as melhorias são realmente muito significativas. Em outras palavras, 90% dos alunos submetidos à técnica de Bloom apresentaram resultados equivalentes aos 20% melhores das salas tradicionais.

A questão que persistiu durante muito tempo sem resposta era se os procedimentos associados seriam viáveis do ponto de vista custos e acessibilidade. Na época de Bloom, certamente, a resposta provável e comum seria: “qualidade custa caro e é mesmo para poucos”. Hoje, podemos, pioneiramente, começar a explorar novas possibilidades, via tecnologias digitais, para conjugar qualidade com quantidade.

Entre outros textos recentes, o artigo de Roshan Choxi (http://techcrunch.com/2016/01/09/how-startups-are-solving-a-decades-old-problem-in-education/#.iokds6t:zSpx/) discute como as startups do mundo digital podem tentar enfrentar e resolver problemas aparentemente insolúveis do passado. Ainda sabemos limitadamente acerca do quanto alternar o atendimento presencial, previsto por Bloom, por online poderá eventualmente trazer impactos sobre a qualidade, mas, por certo, pode contribuir muito com a viabilização orçamentária do atendimento individual ou pequenos grupos. Uma das missões das startups é explorar tais possibilidades, fazendo uso apropriado das tecnologias digitais e garantido mesma qualidade ou mesmo ampliá-la com competência.

A plataforma educacional Udacity, por exemplo, em 2013, adicionou em alguns cursos certificados de pequena duração (“nanodegrees”) a possibilidade de atendimento personalizado explorando videoconferências entre o mentor e o educando, simulando algo análogo ao proposto por Bloom, neste caso em versão digital. Os “coaches” do Udacity são basicamente profissionais do mercado que, conjuntamente a outros profissionais do ensino, dão o suporte personalizado e realizam o acompanhamento pleno dos projetos sob responsabilidade dos alunos, procurando ir além de análises simples de respostas de questões, sejam elas objetivas ou discursivas.

Mais recentemente, temos várias iniciativas preliminares explorando a combinação deste tipo de abordagem com a metodologia de aprendizagem baseada em problema (ou projeto), conhecida como PBL (do inglês, “Problem/Project Learning”). Podemos pensar, por exemplo, na formação de alta qualidade de profissionais como engenheiros de produção. Neste caso, adicionalmente ao conjunto de disciplinas online, há previstos, durante todo o curso, atendimentos presenciais em pequenos grupos (em torno de cinco) via preceptores. Eles são responsáveis tanto pelo acolhimento ao início do percurso educacional, incluindo a adaptação às novas metodologias e tecnologias, como pela supervisão dos projetos ao final do curso, colaborando na preparação ao exercício profissional. O preceptor, fazendo uso de PBL, atende os alunos tanto presencialmente, onde todas as atividades com estas características são desenvolvidas sob sua supervisão, como, complementarmente, via videoconferências remotas.

Ainda estamos longe de escrevermos os capítulos finais deste desafiante tema, mas a utilização das tecnologias digitais como forma de conjugar aprendizagem de qualidade com grande escala, certamente, é um caminho sem retorno. Mesmo assim, por mais que avancem as abordagens via plataformas digitais, elas não são capazes de, isoladamente, dar conta do amplo espectro de nuances individuais no que tange à forma de cada um aprender com mais eficiência. O professor, na sua atuação como orientador, mentor, “coach”, ou preceptor, é fundamental para ajudar a preencher todas as lacunas dos domínios de aprendizagem, evitando reduzir todos os alunos a meras curvas estatísticas, exageradamente impessoais. Os resultados dos esforços em curso poderão representar, em um futuro próximo, significativo avanço na democratização do acesso à educação de qualidade.

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