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Arquivo da Categoria Inovação e Educação

domingo, 3 de junho de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 17:16

Educação: quando tudo ainda é pouco

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Educação tem uma propriedade quase única no rol de produtos ou serviços em geral. Alimentos, por exemplo, quando ingeridos em excesso podem fazer mal. Automóveis, a partir de uma certa concentração, geram engarrafamento e poluição. Dinheiro, em qualquer moeda, aumenta seu valor à medida que falte aos demais, atendendo ao pressuposto da valorização pela exclusividade ou baixa disponibilidade.

 

Educação segue a lógica contrária. Quando alguém é educado, individualmente a pessoa ganha, mas a comunidade à qual ela pertence é mais favorecida ainda. Ao sermos educados, um não tira do outro quando aprende ou ensina. Por outro lado, é certo que todos são prejudicados pela ausência de educação ou pelo ensino de má qualidade.

 

Além disso, não há nenhum antídoto melhor contra a violência do que pessoas educadas. Polidez gera gentileza, bem como agressividade promove brutalidade. Da mesma forma, a falta de emprego decorre, na maioria dos casos, da falta de escolaridade, evidenciada pelo fato de que o desemprego mais crônico está associado a lacunas nas competências e habilidades demandadas.

 

Mesmo sendo uma nação privilegiada em recursos naturais, o Brasil não consegue promover um desenvolvimento sustentável. Cresce, mas alterna ciclos de euforias com frustrações. Provavelmente, a mais relevante causa da não sustentabilidade do desenvolvimento é a baixa produtividade em geral. Há evidências de que o aumento da educação média da população traz reflexos imediatos para a qualidade de vida, gerando oportunidades de empregos e de negócios, e, consequentemente, maior competitividade global dos produtos e dos serviços de uma região.

 

Na área educacional, tudo que tem sido feito, na prática, é ainda muito pouco. Ressalte-se que tivemos avanços, ainda que insuficientes, tais como o aumento da percentagem do PIB na educação pública de 2,9% para 5,6% em uma geração, redução de 35% para 7% de crianças de 4 a 14 anos fora de escola e o analfabetismo adulto decresceu de 25% para 8% nesse período. No ensino superior, programas como PROUNI e FIES têm viabilizado que milhões tenham acesso às universidades. Mesmo assim, em que pesem esses resultados, educacionalmente, estamos muito aquém de outros países com os quais teria algum significado compararmos.

 

Há que, urgentemente, estabelecermos novas estratégias com focos mais claros, cujos impactos resultantes sejam, ao longo do tempo, mais efetivos. Uma proposta, de caráter complementar e não excludente de outras, seria estabelecer um ponto de corte etário, baseado em uma política pública de atenção diferenciada aos mais jovens, e que, progressivamente, atinja a todos os educandos em um futuro adiante.

 

O Art. 81 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei nº 9.394/1996) estimula a organização de cursos ou instituições de ensino experimentais. Dentro desse espírito, seria possível estabelecer um abrangente programa experimental, articulado entre todos os sistemas educacionais, via a adoção de práticas amparadas em flexibilidades e prerrogativas especiais. A título de exemplo, no primeiro ano de sua implantação, seria conferida atenção diferenciada somente à primeira série do ensino fundamental. Como orientação aos gestores escolares, os melhores professores e infraestruturas disponíveis seriam garantidos para esta série e recursos adicionais extraordinários seriam, especialmente, dirigidos a essas turmas.

 

Entre outras diversas ações, em função de uma convocação cívica nacional, atividades complementares no contraturno seriam desenvolvidas por profissionais voluntários com nível superior. Estes seriam selecionados e ficariam responsáveis por ações definidas pelas direções locais das escolas, em consonância com orientações gerais do programa. Ilustrando, um dentista voluntário poderia abordar, complementarmente, elementos de saúde e biologia, um engenheiro contribuições adicionais na matemática, artistas abordariam temas nas áreas de cultura e artes etc.

 

No ano seguinte, manter-se-ia o foco nas turmas inicialmente selecionadas, já agora na segunda série, e seriam incorporadas, com a mesma qualidade, as novas turmas do primeiro ano. Ao final de menos de uma década, teríamos formado uma nova geração educacional, agora frequentando o ensino médio, incluindo o profissionalizante. Ao se completar uma década e meia, estaríamos colhendo os devidos frutos no nível superior.

 

O único real privilégio destas novas gerações, diferenciadamente educadas, será carregar nos ombros o compromisso de colaborar para um desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável.

 

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Foto: Própria, vista da Universidade de Salamanca

 

 

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domingo, 27 de maio de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 16:58

O eixo do tempo na educação

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A seta do tempo é ainda um mistério para a ciência. As equações fundamentais da natureza são reversíveis, possibilitando irmos para frente ou para trás, sem ofendê-las. No mundo real, os processos se desenvolvem no sentido do passado para o futuro. Tal anisotropia temporal está ligada ao grau de desorganização do sistema, quantificada na termodinâmica por uma propriedade denominada entropia. Ao longo do eixo do tempo, a entropia média sempre aumenta.
Quanto à nossa percepção, vista do ponto de vista do tempo presente, é natural que observemos, contemporaneamente, marcas remanescentes de um passado, que insiste em não ir embora, convivendo com elementos de um futuro que ainda não chegou completamente.

 

Recentemente, estive participando de um evento na Espanha, celebrando os 800 anos da Universidade de Salamanca, que é uma das mais antigas universidades do mundo e referência de destaque na formação do pensamento ibero-americano. Restam poucas dúvidas que a instituição comemorará, daqui a dois séculos, o seu milênio com os mesmos louros e méritos de ser guardiã permanente das tradições e dos valores mais caros da comunidade acadêmica. No entanto, ela não está imune aos desafios dos tempos atuais, onde mudanças abruptas e radicais, inéditas em sua profundidade e na rapidez com que ocorrem, produzem impactos significativos em como ensinamos e promovem o surgimento de múltiplas formas surpreendentes de aprendizagem.

 

Tive a oportunidade de assistir naquela instituição quase milenar a uma mesa-redonda com seis educadores seniores apresentando suas visões quanto ao emergente mundo digital. Seus slides, em geral, com letras miúdas, reproduzindo quase literalmente os textos lidos, ilustram em termos de meios as mensagens proferidas. Salvo exceções, eram bem-intencionados analógicos tratando do inusitado digital. Por mais que percebessem as alterações em curso no presente, suas abordagens, naturalmente, expressavam, na forma e no conteúdo, seus conceitos enraizados em referências do passado. Respeitáveis valores e tradições que tornam difícil enxergar, com clareza, todos os elementos do futuro que já se começou. São olhares honestos e competentes que priorizam tentar reorganizar o passado e o presente mutantes, os quais insistem em não nos deixar.

 

É ilusão imaginar que as abordagens educacionais comumente adotadas para formar profissionais até recentemente permaneçam válidas, sendo suficientes pequenos ajustes acrescidos da incorporação de algumas tecnologias. Muito além do domínio simples de conteúdos circunscritos em programas fixos e transcendendo as séries previsíveis de técnicas e procedimentos, o desafio agora é preparar ao desconhecido, envolvendo, especialmente, habilidades e aspectos comportamentais não previstos antes.

 

Vivemos ou, gradativamente, passaremos a viver em uma realidade onde a informação estará totalmente acessível, instantaneamente disponibilizada e, basicamente, gratuita. Cada vez é menos relevante o que se aprendeu frente a ter explorado as possibilidades de ampliar a capacidade de aprender continuamente, ao longo da vida, o aprender a aprender. A cognição tradicional e suas diversas metodologias associadas dão espaço às abordagens metacognitivas, onde o centro é ampliar os níveis de consciência dos próprios educandos acerca de como eles aprendem. Dos debates acercas de pedagogias adotadas para todos, indistintamente, enfrentamos a complexa tarefa da construção de uma educação híbrida e flexível, onde todos os educandos aprendem, aprendem o tempo todo e cada um de maneira única e personalizada.

 

Os educadores, legitimamente, se expressam a partir dos seus referenciais, ancorados em suas tradições e refletindo suas experiências. É certamente tarefa difícil entender a migração de uma avaliação baseada na dicotomia entre o saber versus o não saber à luz de uma realidade emergente onde o mais relevante é saber decifrar realidades complexas, solucionar problemas e cumprir missões. Para quem tem valores cristalizados quanto a mensurar o conhecimento aprendido não é nada simples descobrir que passam a ser considerados, com pesos iguais ou mesmo preponderantes, atributos adicionais como saber trabalhar em equipe ou capacidade de compreender o outro.

 

A dificuldade essencial está na encruzilhada de tentar entender o presente com os mesmos instrumentos do passado ou ousar pensar o futuro com menos amarras tradicionais, as quais, embora importantes, tendem a eclipsar a visibilidade do que está por vir. Estacionados no presente do eixo do tempo, há que se escolher priorizar enxergar aquilo que os faróis iluminam à frente ou, alternativamente, manter os olhos fixos no retrovisor.

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quinta-feira, 3 de maio de 2018 Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 07:21

“O segredo da verdade: não existem fatos, só existem histórias”

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O título acima é inspirado na epígrafe da obra “Viva o Povo Brasileiro” de João Ubaldo Ribeiro, publicada em 1984. O livro fez jus ao Prêmio Jabuti de Melhor Romance e representa uma importante referência em termos de literatura brasileira de ficção. Com muita imaginação, o autor mistura fatos com suas próprias criações, cumprindo ao final o propósito de narrar, à sua maneira, quatro séculos de história da Bahia.

 

A essência do citado texto é evidenciar, desde o início, a ousadia que é tentar, com palavras, descrever com exatidão os fatos ocorridos. É ilusão imaginar que textos reproduzam plenamente as histórias, as quais as letras somente ousam tentar descrever. Não se trata, portanto, de desonestidade ou incompetência de quem relata, mas sim reflete a inexorável fragilidade dos instrumentos disponíveis.

 

As palavras, bem como as artes plásticas, a música ou as demais artes não têm, felizmente, o compromisso de fidelidade a priori, sendo desejáveis espaços de imaginação e criatividade, muitas vezes calcados em fantasias e transgressões. Feitas essas observações, quando o mundo das artes se superpõe às áreas das ciências, da política, do direito e da moral, ocorrem regiões sombreadas que podem exigir que limites sejam estabelecidos. A principal motivação é que liberdades poéticas, em geral, e notícias falsas ou relatos mentirosos, especialmente nos debates cotidianos, não se enquadram nos mesmos pressupostos, ainda que possam habitar os mesmos espaços e tempos.

 

A complexidade do tema é tão grave que o conceito de realidade, cientificamente, tem dinâmicas e peculiaridades próprias, envolvendo dificuldades em separar o observador da coisa observada. As sofisticadas análises incluem questionamentos legítimos sobre a isenção dos instrumentos de medida e a neutralidade das linguagens adotadas para “pretensamente” descrever com “exatidão” os fenômenos.

 

Em educação, não existem antídotos simples, preventivo às malícias das falsas notícias. Mas, certamente, há metodologias e abordagens que estimulam a capacidade de leitura crítica de textos complexos, fazendo intenso uso de raciocínios científicos e exercícios de lógica, e que contribuem para propiciar uma visão mais clara da realidade ao redor.

 

O que já era em si complicado, na sociedade contemporânea, é agravado pelo fato de que todas as informações passam a ser instantâneas, dificultando qualquer possibilidade de contestação em tempo hábil antes que elas já tenham se espalhado, mesmo que sem a solidez ou o atendimento a critérios de falseabilidade que seriam recomendáveis.

 

As chamadas “fake news”, em sua versão mais recente, estão assentadas nas facilidades das tecnologias digitais. É desafiador imaginarmos mecanismos que possam impor limites ou culpabilidade às falsidades e mentiras, propositalmente espalhadas, as quais, muitas vezes, ofendem a verdade, causam danos às reputações de pessoas ou grupos, ou atentam contra a lógica e o bom senso.

 

Enfim, as “histórias” que se superpõem aos “fatos” na criativa epígrafe de João Ubaldo foram, de fato, premonições dos riscos das perversidades embutidas nas evidências de que, a partir dos mesmos fatos, múltiplas e distintas histórias podem ser contadas.

 

 

 

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sábado, 21 de abril de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 11:28

Habilidades, Competências e Cafuringa

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Ter habilidade não é, em si, garantia de competência. Por outro lado, ser competente demanda ter domínio mínimo das habilidades associadas. Ainda que “habilidade” e “competência” sejam coisas distintas, a área de superposição entre as respectivas definições é enorme, ao ponto que nem sempre uma separação inequívoca é possível. Fruto de tal complexidade, inevitáveis confusões afloram, por vezes juntando, indevidamente, o que deveria ser distinto e, em outras, separando o que seria, talvez, indissociável.

 

Uma maneira tradicional e informal de classificá-las é assumir que habilidades compõem uma das três partes das competências. As outras duas seriam os conhecimentos e as atitudes. Neste sentido, habilidades são capacidades adquiridas para desempenhar determinado papel ou função específicos. Competências, de caráter mais amplo, demandam agregar a essas habilidades um conjunto de conhecimentos e de atitudes para que uma determinada missão seja realizada.

 

Em geral, não me agradam as metáforas futebolísticas, mas devo admitir que, às vezes, elas podem ser úteis para clarear conceitos. No caso, tomo a liberdade de recuperar a história de um jogador de futebol das décadas de 1960 e 1970, o famoso Cafuringa, ou simplesmente “Cafu”. Jogando pelo Fluminense, foi campeão brasileiro em 1970, tendo conquistado também os estaduais de 1969, 1971, 1973 e 1975. Tratava-se de excepcional ponta direita e apontado por todos como um dos maiores dribladores da história do futebol brasileiro. Parte fato e parte lenda, certo é que ele jamais transformou a inquestionável habilidade do drible em competência, no mesmo nível, quanto à estratégia do jogo, os gols.

 

Nos 336 jogos no Fluminense, Cafuringa só marcou 26 gols, resultando em uma média de um gol a cada treze jogos. Para um dos craques atacantes da equipe é considerado muito pouco. Sem prejuízo, espero, à merecida memória positiva de Cafu, certo que ele detinha excepcional habilidade para o drible em parâmetros muito superiores à sua competência enquanto artilheiro.

 

No campo da educação, uma boa ilustração é o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), o qual pretende avaliar competências e habilidades, como forma de mensurar o desempenho acadêmico dos alunos.  Para tanto, dispõe de uma Matriz de Referência, contendo os descritores das competências previstas e das respectivas habilidades a elas associadas. A cada competência é listado um conjunto de habilidades. No total, são explicitadas cerca de 24 competências e 120 habilidades, nas 4 grandes áreas que compõem o exame: linguagens e códigos; ciências humanas; ciências da natureza; e matemática.

 

A título de exemplo, na área específica de Ciências Humanas há estabelecidas para o ENEM 6 competências e 30 habilidades. As competências, que na analogia proposta seriam os gols, são listadas como: “compreender os elementos culturais que constituem as identidades”; “compreender as transformações dos espaços geográficos como produtos das relações socioeconômicas e culturais do poder”; “compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais”; “entender as transformações técnicas e tecnológicas e seu impacto nos processos de produção, no desenvolvimento do conhecimento e na vida social”; “utilizar os conhecimentos históricos para compreender e valorizar os fundamentos da cidadania e da democracia, favorecendo uma atuação consciente do indivíduo na sociedade”; e “compreender a sociedade e a natureza, reconhecendo suas interações no espaço em diferentes contextos históricos e geográficos”.

 

Vejamos agora exemplos das 30 habilidades associadas. Elas são os dribles na comparação adotada. São 5 habilidades para cada competência, sendo que aqui listamos somente uma delas para cada competência. Na ordem: “interpretar historicamente e/ou geograficamente fontes documentais acerca de aspectos da cultura”; “interpretar diferentes representações gráficas e cartográficas dos espaços geográficos”; “identificar registros de práticas de grupos sociais no tempo e no espaço”; “identificar registros sobre o papel das técnicas e tecnologias na organização do trabalho e/ou da vida social”; “identificar o papel dos meios de comunicação na construção da vida social”; e “identificar em fontes diversas o processo de ocupação dos meios físicos e as relações da vida humana com a paisagem”.

 

Cafuringa, já falecido e reconhecido em vida como “nosso Garrincha sem grife”, merece todo nosso respeito, incluindo por contribuir na tentativa de esclarecer matéria tão difícil. Futebolisticamente, em que pese excelente domínio na habilidade do drible, restam poucas dúvidas que lhe faltaram outros elementos que o permitissem ser lembrado, no mesmo nível, quanto à competência estratégica de marcar gols.

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Fonte da imagem: https://www.uol/esporte/especiais/a-historia-de-cafuringa.htm

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domingo, 15 de abril de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 18:37

Tecnologias digitais, economia e educação

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Vivenciamos em todos os setores da sociedade transformações rápidas e profundas. O motor principal que impõe tal velocidade está associado à emergência das tecnologias digitais e à consequente migração para uma sociedade em que a informação se torna totalmente acessível, instantânea e basicamente gratuita.

 

Educar é atividade social fortemente afetada pelas demandas do meio social, seja por necessidades expressas pelo exercício pleno de cidadania ou pelas exigências decorrentes do mundo do trabalho e pelas oportunidades de novos negócios. Estas se moldam a partir dos modelos de desenvolvimento econômico adotados.

 

Durante o século passado, as maiores empresas do mercado estiveram, tradicionalmente, associadas à energia (basicamente petróleo), à indústria automobilística e ao setor bancário. Na recente virada do século, entre as cinco maiores, aparecia na lista a primeira empresa do mundo digital, a Microsoft. Ela dividia a dianteira com duas de energia (Exxon e GE), um Banco (Citi) e uma empresa de varejo (Walmart). Atualmente, todas as maiores estão diretamente associadas ao mundo das tecnologias digitais, sendo que a empresa Apple, a primeira do ranking pelo sexto ano seguido, sequer constava entre as maiores no começo deste século.

 

Mediados pelas tecnologias digitais, educação e economia se influenciam e se definem mutuamente. A título de ilustração, o número de matrículas na modalidade educação a distância vem crescendo de forma contínua e sustentável por mais de uma década, tendo atingido quase 1,5 milhão em 2016, o que já representa uma participação de quase 20% do total de matrículas da educação superior. Interessante observar também que o número de matrículas em cursos de graduação presencial diminuiu nos últimos anos (decréscimo de 1,2% entre 2015 e 2016, enquanto na modalidade a distância o aumento de matrículas foi de 7,2%). Se considerarmos que no ensino presencial a adoção da educação a distância no limite superior de 20% está universalizada, poderemos afirmar que, antes do final desta década, mais da metade das atividades didáticas no ensino superior no Brasil serão ministradas via educação digital.

 

Os estímulos para o acesso pleno aos conteúdos antes das aulas e a intensa utilização de portais eletrônicos e de plataformas educacionais, especificamente desenhadas para cada contexto, são possibilidades inovadoras e plenamente disponíveis. A ênfase na aprendizagem independente, centrada no aprender a aprender ao longo de toda a vida, e o ensino baseado em metodologias ativas e em soluções de problemas são novidades já incorporadas. Enfim, metodologias que levem em conta as características personalizadas de cada educando, suas demandas específicas e seus ambientes peculiares são exemplos de iniciativas positivas em curso.

 

Se no século passado a capacidade de memorizar conteúdo e a aprendizagem de técnicas e procedimentos eram os centros, atualmente o amadurecimento dos níveis de consciência do educando acerca de como ele aprende torna-se gradativamente mais relevante. Aprender a aprender passa a ser tão ou mais importante do que aquilo que foi aprendido. O maior de todos os desafios educacionais atualmente é explorar esta nova realidade, onde todos aprendem, aprendem o tempo todo e cada um aprende de maneira única e personalizada.

 

Conhecimentos específicos, domínio de técnicas e conhecimentos são e sempre serão relevantes, porém, definitivamente, não são mais suficientes. A complexidade do educar, contemporaneamente, exige que educação se transforme em arte, ao mesmo tempo que o ensino tradicional cede espaço à educação aberta, híbrida e flexível. Neste cenário, mediado pela emergência disruptiva das tecnologias digitais, compreender o educando, o educador e a vida demanda elementos que somente a arte pode nos inspirar.

 

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Figura em Domínio Público: WE ALL, a design-build installation in North Allston, de Francisco Alarcon, Carla Ferrer Llorca, e Rudy Weissenberg, como visto em: http://www.gsd.harvard.edu/design-studies/art-and-the-public-domain/

 

 

 

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domingo, 1 de abril de 2018 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 10:47

O mundo é FÍGITAL

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O termo Fígital, junção das palavras físico com digital (em inglês, “Phygital”), foi originalmente utilizado em marketing para descrever as experiências dos usuários em ambientes de vendas híbridos, simultaneamente físicos e digitais.  Hoje, o uso do termo transcende o significado inicial e pode ser aplicado ao conjunto de oportunidades vivenciadas nas quais não são claros os limites e as distinções entre aquilo que chamamos classicamente de real ou físico e aquilo que associamos ao virtual ou digital.

 

A título de ilustração, Realidade Mista é um exemplo mais recente desse tipo de percepção fígital, combinando experiências virtuais e aumentadas. Realidade Virtual, também conhecida como híbrida ou hiper-realidade, complementa o mundo físico do usuário com um mundo virtual, produzido digitalmente. Neste caso, é exigido que algum dispositivo seja utilizado pelo usuário, gerando um ambiente novo, tridimensional e interativo. Por sua vez, Realidade Aumentada sobrepõe o mundo físico com elementos digitais adicionais, ainda que sem a possibilidade de interação direta com eles. Ela atua como uma ponte entre os mundos físicos e digitais, inserindo elementos (informações ou objetos) virtuais à realidade física, ou seja, ao mundo original do usuário. Finalmente, a Realidade Mista combina os aspectos da Realidade Aumentada com a Realidade Virtual, sendo uma junção das duas e permitindo ancorar objetos virtuais em pontos do espaço real, tornando possível manipulá-los.

 

Tais novas realidades, especialmente a Realidade Mista, apresentam aplicações e possibilidades ilimitadas. São experiências visuais e sensoriais imersivas que permitem tanto aproximar o público comprador para testar, com níveis de detalhamentos sem precedentes, produtos do varejo, do setor imobiliário ou de entretenimento, bem como podem ser extremamente úteis em delicadas cirurgias ou outros procedimentos médicos.

 

Outro exemplo interessante de Fígital ocorre no filme Star Wars, no episódio “Rogue One”, produzido em 2016. Um dos atores do filme, Peter Cushing, falecido 22 anos antes, participa sem que os espectadores sejam informados ou percebam. Se é possível que um dos atores não esteja mais vivo, é igualmente razoável termos uma película onde todos os atores e atrizes sejam já falecidos. No limite, via plataformas digitais inteligentes, associadas ao uso de dados em grande escala disponíveis de pessoas já falecidas, é possível, em tese, viabilizar experiências inimagináveis entre vivos e mortos, integrando interativamente o físico e o virtual.  Adentramos o mundo fígital, onde as barreiras entre os espaços analógicos/presenciais e digitais/virtuais são rompidas. Um universo de novas aplicações se torna evidentes e promissor.

 

Em particular, na área da educação, as separações vigentes entre modalidades e aulas presenciais ou a distância desparecem quase por completo. As aulas podem ser holograficamente simuladas, permitindo todas as formas de interação e socialização entre os atores envolvidos no processo educacional. Onde o docente se encontra fisicamente fará menos diferença para efeito da experiência de aprendizagem vivenciada pelos seus educandos e a aprendizagem pode ser altamente favorecida. Mesmo assim, não há, e nem precisa ter, a pretensão de substituir por completo as interações humanas desprovidas de dispositivos.

 

Qualquer que seja o contexto que se avizinha, os desafios, os espantos e as oportunidades estarão presentes. A opção de desprezar ou minimizar a relevância dessas novas possibilidades representa, especialmente aos mais jovens, um risco enorme de exclusão pessoal e profissional sem precedentes. A melhor forma de naturalizarmos ao máximo essas novas tecnologias é criando mecanismos que permitam que todos, sem exceção, delas se apropriem de forma crítica e ética, ao mesmo tempo que, por causa delas, permaneçam ativos, produtivos e criativos.

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Imagem gentilmente cedida pelo colega Prof. Maurício Garcia.

 

 

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quinta-feira, 15 de março de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 19:52

Nanocertificados: claramente, o futuro!

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Houve um tempo, próximo passado, em que nas formaturas os concluintes do ensino superior celebravam a despedida da vida de estudante. Mais do que isso, era razoável supor que lograssem algum sucesso nas empreitadas seguintes, sem que fosse imprescindível continuar estudando. Afinal, era esperado que, ao final de um curso de graduação, com duração da ordem de 4 a 6 anos, os principais conteúdos, os procedimentos básicos e as técnicas associadas tivessem sido plenamente adquiridos. Mesmo que fosse ingenuidade, o passado, por vezes, foi permissivo quanto à possibilidade dessa leitura.

 

Os tempos contemporâneos se caracterizam pela radicalidade e rapidez nas transformações. O mercado de trabalho já não é o mesmo, tampouco as características principais que são demandadas daqueles que pretendem aproveitar oportunidades de novos negócios são as mesmas. Adentramos, progressivamente, uma era em que a informação passa estar plenamente disponível, instantânea e gratuita. Caminhamos em direção a um cenário de educação permanente ao longo de toda a vida. Neste contexto, tão ou mais relevante do que o conteúdo aprendido em um curso de graduação é ampliar a percepção acerca de como se aprende. Ou seja, o saber aprender passa a ser a chave principal para enfrentar o desconhecido, que caracteriza o período que vivenciamos.

 

Se o mundo não é mais o mesmo, se as demandas da sociedade se alteraram e se os educandos e seus propósitos são diferentes, não há motivos para imaginarmos que os cursos, em seus formatos e em seus conteúdos, devam permanecer inalterados. Eles se adaptarão ao novo contexto, alguns mais rapidamente, outros com algum atraso, mas, nada permanecerá imune às inevitáveis e aceleradas transformações. Neste cenário, observaremos os cursos de graduação e de MBA (“Master of Business Administration”), gradativamente, sendo complementados ou migrando em direção àquilo que se adotou chamar de nanocursos, emissores de nanocertificados.

 

O prefixo “nano” começou a ser utilizado ao final da década de 1940 e é derivado da palavra que em grego significa “anão”. No contexto estritamente científico, representa uma unidade de medida associada à bilionésima parte de algo, tal como nanosegundo ou nanometro. Popularmente, passou a significar algo muito pequeno.

 

Educacionalmente, em torno de 2014, surgiram os primeiros nanocertificados (em inglês, “nanodegrees”), os quais buscavam atender, em curto espaço de tempo e sendo extremamente focados, as demandas por aprendizagem de habilidades específicas, particularmente aquelas voltadas para as necessidades do mercado de trabalho, na maioria dos casos na área de tecnologias da informação. Em geral, são projetos práticos que avaliam e certificam os educandos após um período de cerca de seis meses de estudo. Os nanocursos tendem a representar uma alternativa relativamente mais prática, ágil e de menor custo para quem quer alavancar sua carreira e comprovar capacitação para missões bem definidas. Para as empresas, significa a oportunidade de customizar as formações demandadas de seus profissionais de maneira mais objetiva, direta e eficiente. Os pioneiros nesses cursos eram ligados à empresa americana de cursos online, Udacity. Hoje, tais iniciativas estão bastante disseminadas, com diferentes origens, formatos e propósitos.

 

Vivenciaremos realidades inéditas, sendo a maior parte delas mediadas pela chegada das ferramentas da inteligência artificial, da onipresença da internet das coisas e dos inevitáveis robôs. As tarefas que permitem ser automatizadas, certamente, o serão. Várias profissões como nós as conhecemos atualmente terão, em geral, duas opções: desaparecer ou mudar radicalmente. Nada será de imediato, nem por isso quer dizer que será demorado ou prorrogável. Quanto antes nos adaptarmos, maior a possibilidade de sobrevivência e de sucesso, seja enquanto indivíduo, grupo ou organização. Os nanocursos estão longe de serem as causas das mudanças; são somente claros sintomas de processos que alterarão de forma substantiva os caminhos segundo os quais aprendemos e ensinamos. Afinal, estamos falando de um futuro que começou a acontecer ontem.

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Figura em Domínio Público, como visto em:

https://publicdomainvectors.org/pt/vetorial-gratis/Coruja-esperta/69141.html

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quarta-feira, 7 de março de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 15:02

Analítica da Aprendizagem enquanto diferencial competitivo

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Houve um período em que a adoção de modelos de gestão mais competitivos por si só era suficiente para que uma instituição educacional conseguisse obter resultados superiores às demais. Isso não foi simples, foi inovador e gerou resultados significativos. No entanto, com o tempo, os modelos de gestão se mostraram, por um lado, limitados e, por outro, transferíveis e copiáveis. O cenário futuro traz desafios ainda mais complexos. Entre eles, o fato de que as instituições que souberem incorporar adequadamente as novas tecnologias e as metodologias inovadoras serão aquelas que se destacarão e terão como recompensa a oportunidade de conjugar, com sustentabilidade, escala e qualidade. Entre as tecnologias com maior potencial de aproveitamento, em termos de resultados acadêmicos, destaco a Analítica da Aprendizagem.

 

Analítica da Aprendizagem (em inglês, “Learning Analytics”) é a metodologia que permite que os educadores possam tomar decisões levando em conta análises sistemáticas e elaboradas de dados dos educandos e dos contextos educacionais nos quais a aprendizagem se desenvolve. A partir da análise dos dados acerca de quanto e de como os alunos estão aprendendo, é possível uma percepção mais apurada das realidades educacionais. Tais procedimentos viabilizam que desenhos educacionais adequados (em inglês, “Learning Designs”) possam ser propostos, bem como estratégias e trilhas de aprendizagem diversas sejam implementadas. Ao mesmo tempo, esta metodologia colabora na seleção de quais recursos, inclusive tecnológicos e modos de entrega de conteúdos, são os mais adequados para cada contexto e, no limite, para cada educando.

 

Na verdade, os professores no ensino tradicional utilizam de forma corriqueira dados nos processos de ensino. Porém, o fazem, em geral, em uma versão limitada e preliminar, precursora daquilo que hoje denominamos Analítica de Aprendizagem. Por exemplo, notas finais, resultante de alguns poucos produtos, têm consequências relevantes, tais como aprovar ou não os alunos. Excepcionalmente, docentes mais dedicados conseguem, fruto de suas sensibilidades, perceber peculiaridades de uma turma de estudantes, identificar carências típicas e alterar procedimentos, porém, são casos raros e em pequena escala. Em geral, os dados disponíveis, alguns rendimentos acadêmicos dos alunos, são insuficientes para motivar e orientar mudanças de percursos educacionais. Analítica da Aprendizagem, em tese, permite e estimula adaptações, melhorando a aprendizagem à medida que reconfigura, em tempo hábil, os processos educacionais, customizando-os às realidades específicas e, sempre que possível, às características de cada um dos atores envolvidos.

 

Em profundo contraste com os poucos dados disponíveis até pouco tempo (basicamente notas de provas individuais), graças às tecnologias digitais, hoje dispomos de uma abundância de informações (“big data”), que nos permite tentar entender, de forma inédita e inovadora, realidades educacionais complexas. Adicionalmente às formas usuais de avaliação, podemos explorar, dentre inúmeras outras possibilidades, dados resultantes de: i) nível e velocidade de assimilação de informações, ii) capacidade do estudante de acessar conteúdos e sua autonomia na utilização de conhecimentos, iii) características das respostas “erradas” em testes de múltipla escolha, iv) habilidades de comunicação via capacidade de interpretação e de redação de textos complexos, v) habilidade de colaboração em equipe, percebendo e conjugando fragilidades e potencialidades de cada membro, vi) produtividade e efetividade na confecção de artefatos, vii) competência na solução de problemas e no cumprimento de missões, viii) atitudes e comportamentos socioemocionais diante de desafios complexos, ix) letramento matemático, e x) adaptação individualizada a diferentes modos de entrega de conteúdos.

 

A título de exemplo, vejamos, em particular, o item iii) acima, referente a como podemos fazer uso das respostas não certas (na Analítica da Aprendizagem elas são tão relevantes como as corretas) para melhorarmos o aprendizado. De forma simples, suponhamos que em um certo item do teste de múltipla escolha a resposta correta seja b). É possível um enunciado, especialmente assim desenhado, que busque identificar o educando que, mesmo dominando os conceitos básicos envolvidos, porque lê sem a devida atenção, opte por a). Neste caso, é uma potencial indicação de que se trata de aluno cuja capacidade de foco merece toda nossa atenção. Agora, suponhamos que, apesar de ter estudado e compreendido o tema objeto, o estudante, mesmo concentrado, tenha dificuldade em interpretação de textos um pouco mais complexos. É possível construir um enunciado que, provavelmente, fruto desta deficiência, ele seja guiado para alternativa c). da mesma forma, imaginemos alguém que tenha fragilidade em letramento matemático; assim, mesmo com domínio eventual do conteúdo, uma operação matemática na qual ele tenha dificuldade, o leva à alternativa d). Por fim, um enunciado especialmente preparado pode tentar identificar, caso a caso, mais do que uma falha no domínio do conteúdo geral, podemos estar diante de deficiência em um particular conceito específico envolvido e, sendo este o caso, ele, provavelmente, optará pela alternativa e).

 

A receita acima é puramente ilustrativa e não há a menor chance de, a partir de um único item ou de um único teste, afirmarmos algo substantivo. No entanto, fruto de questões e respostas abundantes, e como um elemento a mais no conjunto mais amplo de dados qualificados acima citados, certamente, há características educacionais relevantes que podem ser extraídas. O grande segredo é que, a partir de uma quantidade imensa de informações, algumas considerações mais bem embasadas podem começar a ser ponderadas acerca dos contextos educacionais específicos e sobre cada educando em particular.

 

Uma vez que tenhamos material mais consolidado e adequadamente analisado, podemos começar a construir caminhos educacionais múltiplos e personalizados. São trilhas individuais que dão conta, ou tentam dar conta, de: i) melhorar capacidade de foco, ii) aprimorar competências em ler e escrever textos mais complexos, iii) orientar e capacitar em operações matemáticas básicas, iv) explorar um particular conceito sobre o qual o aluno demonstrou fragilidade etc.

 

Curiosamente, quanto mais estudantes, maior o número de testes e quanto mais analistas e curadores de conteúdo tivermos, mais bem elaborados serão os caminhos e abordagens específicas que poderemos propor. Para quem sempre associou qualidade a poucos e má qualidade a muitos, temos um novo paradigma: a escala que gera qualidade.

 

Começamos, portanto, a construir algoritmos educacionais inteligentes que nos permitem sair do artesanato e de outras limitações, que caracterizam o ensino tradicional, para darmos respostas qualificadas às demandas e propiciarmos atendimento em grande escala. Esta é marca de uma educação contemporânea onde todos aprendem, aprendem o tempo todo e cada qual de maneira única. Este é o caminho de uma educação flexível, híbrida, adaptativa e personalizada.

 

Quanto, em especial, às empresas educacionais e suas instituições de ensino, cabe destacar que os desafios em busca da sustentabilidade e de lucratividade, por certo, dependem de bons modelos de gestão. No entanto, enquanto a guerra pode, de fato, ser perdida na gestão, por outro lado, para se ter conquistas substantivas há que se explorar metodologias inovadoras que façam uso adequado de novas tecnologias. Neste caso, não há soluções milagrosas e nem receitas prontas. Mas, por certo, Analítica da Aprendizagem é ingrediente indispensável para enfrentar, com sucesso, os desafios educacionais contemporâneos.

 

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 Sobre a imagem:  O influente pintor e teórico russo Wassily Kandinsky tem sua obra em domínio público. Na foto, . Ver: “Composição VII”, considerada pelo autor sua obra mais complexa, Ver: http://www.portaldaindustria.com.br/cni/canais/propriedade-intelectual/noticias/e-tudo-free-as-obras-que-viraram-dominio-publico-em-2015/

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In English:

Ronaldo Mota – Chancellor of Estácio Group, educational executive, lecturer, member of the board of the Brazilian Association of Owners of Private Institutions of Higher Education, he writes about new technologies in education and innovative educational methodologies.

There was a period when the adoption of more competitive management models alone was sufficient for one educational institution to achieve high results. This was not simple, it was innovative and generated significant results. However, over time, management models have been limited, on the one hand, and transferable and replicable, on the other. The future scenario brings even more complex challenges. Among them is the fact that institutions that know how to appropriately incorporate new technologies and innovative methodologies will be those that will stand out and will be rewarded with the opportunity to combine, with sustainability, scale and quality. Among the technologies with the greatest potential for achievement, in terms of academic results, I highlight Learning Analytics.

Learning Analytics is the methodology that enables educators to make decisions by taking into account systematic and elaborate analyses of learners’ data and the educational contexts in which learning develops. By analyzing the data on how much and how students are learning, a sharper perception of educational realities is possible. Such procedures enable appropriate learning designs (“Learning Designs”) as well as strategies and learning paths to be implemented. At the same time, this methodology contributes to the selection of which resources, including technological and content delivery modes, are the most appropriate for each context and, in the limit, for each student.

In fact, teachers in traditional teaching routinely use data in teaching processes. However, they usually do so in a limited and preliminary version, precursor to what we now call Learning Analytics. For example, final grades, resulting from a few products, have relevant consequences, such as approving students or not. Exceptionally, more dedicated teachers are able, through their sensibilities, to perceive the peculiarities of a student group, to identify typical needs and to change procedures, but these are rare cases and in small in scale. In general, according to the available data, some academic achievement of the students are insufficient to motivate and guide changes in educational pathways. Learning Analytics, in theory, allows and stimulates adaptations, improving learning as it reconfigures, in a timely manner, the educational processes, adapting them to the specific realities and, whenever possible, to the characteristics of each of the actors involved.

In sharp contrast to the few data available until very recently (basically individual test notes), thanks to digital technologies, today we have an abundance of information (“big data”), which allows us to try to understand, in a new and innovative way, complex educational realities. In addition to the usual forms of evaluation, we can explore, among countless other possibilities, data resulting from:

  1. i) level and speed of information assimilation,
  2. ii) the student’s ability to access content and its autonomy in the use of knowledge,
  3. iii) characteristics of “wrong” answers in multiple choice tests,
  4. iv) communication skills through ability to interpret and write complex texts,
  5. v) ability of team collaboration, perceiving and combining frailties and potentialities of each member,
  6. vi) productivity and effectiveness in the manufacture of artifacts,
  7. (vii) competence in solving problems and performing missions,
  8. viii) social-emotional attitudes and behavior in the face of complex challenges,
  9. ix) mathematical literacy, and
  10. x) individualized adaptation to different modes of content delivery.

As an example, let’s look in particular at item iii) above, regarding how we can make use of the non-correct answers (in Learning Analytics they are as relevant as the correct ones) to improve learning. In a simple way, suppose that in a certain multiple-choice test item the correct answer is b). It is possible for a statement, especially designed, that seeks to identify the learner who, even if he dominates the basic concepts involved, because he reads without due attention, choose a). In this case, it is a potential indication that it is a student whose ability to focus deserves our full attention. Now, let us suppose that, although he has studied and understood the subject matter, the student, even if concentrated, has difficulty interpreting slightly more complex texts. It is possible to construct a statement that, probably as a result of this deficiency, is guided to alternative c). in the same way, imagine someone who has weaknesses in mathematical literacy; thus, even with eventual mastery of the content, a mathematical operation in which he/she has difficulty, takes it to alternative d). Finally, a specially prepared statement may try to identify, on a case-by-case basis, more than a fault in the general content domain, we may be deficient in a specifically particular concept involved and, if this is the case, he/she will probably opt for alternative e).

The above recipe is purely illustrative and there is not the slightest chance, from a single item or a single test, to be able to say anything substantive. However, with abundant questions and answers, and with the additional element in the broader set of qualifying data cited above, there are certainly relevant educational features that can be drawn. The great secret is that, from an immense amount of information, some more well-grounded considerations can begin to be weighed on the specific educational contexts and on each individual student.

Once we have more consolidated and properly analyzed material, we can begin to build multiple and personalized educational paths. These are individual tracks that tell or attempt to account for:

  1. i) improved focus,
  2. ii) improved skills in reading and writing more complex texts,
  3. iii) guidance and enabling of basic mathematical operations,
  4. iv) exploring a particular concept on which the student demonstrated fragility, etc.

Curiously, the more students, the greater the number of tests and the more analysts and curators we have, the better elaborated will be the specific paths and approaches that we can propose. For those who have always associated quality with a few and poor quality to many, we have a new paradigm: the scale that generates quality.

We began, therefore, to build intelligent educational algorithms that allow us to get out of the handicrafts and other limitations that characterize traditional teaching, to give qualified answers to the demands and to provide large-scale care. This is a mark of a contemporary education where everyone learns, learns all the time and each one in a unique way. This is the path of a flexible, hybrid, adaptive and personalized education.

In particular, educational businesses and their educational institutions must highlight that the challenges in search of sustainability and profitability, of course, depend on good management models. However, while warfare may indeed be lost in management, on the other hand, in order to have substantive achievements one has to explore innovative methodologies that make appropriate use of new technologies. In this case, there are no miracle solutions or ready recipes. But, of course, Learning Analytics is an indispensable ingredient for successfully addressing contemporary educational challenges.


Learning Analytics as a Competitive Differential

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domingo, 11 de fevereiro de 2018 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 09:21

Analítica da aprendizagem disposicional: melhor agora do que depois

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Os dados oficiais do ensino superior brasileiro mostram que as matrículas na modalidade presencial entre os anos de 2012 a 2016 avançaram 10%, enquanto na educação a distância o crescimento foi de 34%. Quanto ao número de concluintes, no ensino presencial a variação positiva nesse período foi de 7% e na modalidade a distância de 32%. Os dados mais impressionantes referem-se aos números de ingressantes. Frente ao substantivo crescimento de 44% em educação a distância (aproximadamente 542 mil ingressantes em 2012 contra 781 mil em 2016), houve uma redução de mais de 18% (2.204 mil ingressantes em 2012 para 1.858 mil em 2016) no ensino presencial.

 

humancomputer

 

No início desta década, qualquer alerta acerca do incrível potencial de crescimento da modalidade a distância seria objeto de alguns olhares de desconfiança. Da mesma forma, para a maioria, ainda não era clara a forte tendência para a dominância do e-learning (baseado na internet), em contraposição ao chamado semipresencial. Idêntico ceticismo valeria para a previsão de que o dispositivo dominante de aprendizagem online viria a ser o celular, como é hoje, e não os computadores, notebooks e tabletes.

 

Contemporaneamente, um dos grandes desafios no ensino superior é dimensionar o papel da analítica da aprendizagem (em inglês, “learning analytics”). Esta ferramenta e suas evoluções se mostrarão, cada vez mais, essenciais e imprescindíveis, contribuindo nos desenhos dos processos de aprendizagem mais efetivos.

 

Analítica da aprendizagem diz respeito à técnica que se caracteriza pela coleta sistemática e pela análise rigorosa de dados dos educandos e de seus contextos educacionais, tendo como propósito o entendimento dos processos de aprendizagem e dos ambientes nos quais eles ocorrem. Assim, é possível desenvolver e aprimorar desenhos de aprendizagem (em inglês, “learning designs”), nos quais múltiplas trilhas educacionais podem ser construídas e disponibilizadas aos alunos. Nesta perspectiva, é possível viabilizar processos personalizados, atendendo características peculiares de cada educando ou próprias do ambiente educacional específico.

 

Nos estágios iniciais da analítica de aprendizagem, os estudiosos se limitavam a modelos preditivos simples baseados em dados extraídos das informações disponíveis dos estudantes. O uso crescente de plataformas digitais pelos alunos e dos sistemas de gestão de aprendizagem pelas instituições, progressivamente, tem gerado uma quantidade inédita de dados qualificados. A partir deles, observamos avanços significativos nas aplicações da analítica da aprendizagem, nos desenhos educacionais propostos e nas intervenções pedagógicas deles decorrentes.

 

Mais recentemente, foi introduzida a estratégia da analítica da aprendizagem disposicional (em inglês, “dispositional learning analytics”), a qual combina os dados gerais de aprendizagem com elementos disposicionais próprios dos educandos, incluindo seus comportamentos, suas atitudes e seus valores. A coleta desses dados disposicionais tanto pode ser realizada via respostas fornecidas diretamente pelos próprios estudantes, como via o monitoramento de suas reações, a partir de situações induzidas com propósitos específicos.  Os aspectos disposicionais que estamos interessados devem representar diferenciais característicos dos educandos e de suas circunstâncias, incluindo aspectos comportamentais, cognitivos, metacognitivos (envolvendo a percepção do aprendiz sobre a própria aprendizagem) e afetivos.

 

No Brasil, temos a oportunidade de adotar quanto antes esta estratégia, em complemento às metodologias inovadoras associadas e às novas tecnologias disponíveis. A aplicação da analítica da aprendizagem disposicional, certamente, contribui para a construção de abordagens educacionais que viabilizem que todos aprendam, aprendam o tempo todo e em qualquer lugar, e, especialmente, que cada um aprenda de maneira única e personalizada.

 

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Fonte da figura: University of Rochester, em “Dancing with Computers. In the field of Human-computer interaction, computer science meets human behavior”. De Kathleen McGarvey, com ilustrações de John W. Tomac para “Rochester Review”. Ver o link:

https://www.rochester.edu/pr/Review/V78N2/images/slide_hci3.jpg

 

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terça-feira, 30 de janeiro de 2018 Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 18:18

A Kodak e a revanche na mesma moeda

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KodakFoto

 

É comum ouvir dizer que a tecnologia matou a empresa Kodak. Citam que, ao final do século XX, ela dispunha de quase 200 mil funcionários e detinha em torno de 85% da então próspera indústria de papel para fotografia. O surgimento da fotografia digital, de fato, levou a empresa às portas da falência. Menos de duas décadas depois, a quase falecida surge das cinzas, tal qual fênix, ancorada agora no que existe de mais atual em tecnologia contemporânea, o blockchain.

 

A plataforma de direitos de imagens KODAKOne, baseada na tecnologia blockchain, permite criar registros digitais encriptografados, viabilizando processos de licenciamento de imagens em um nível sem precedentes. Desta forma, fotógrafos, enquanto autores, passam a participar de forma diferenciada da nova economia criativa. Pagamentos por licenciamentos, como reconhecimento por seus trabalhos, podem ser implementados de forma inédita, confiável e segura. Quando uma imagem não licenciada é detectada, o que é razoavelmente simples, a plataforma KODAKOne, de forma eficiente, cuida dos processos associados, garantindo recompensar adequadamente os legítimos autores.

 

Parte deste ousado projeto inclui a criação da própria criptomoeda, o KodakCoin. Assim, os fotógrafos, ao registrarem suas imagens e licenciá-las, poderão ser devidamente recompensados em KodakCoins. Fato é que, mesmo antes de sua aplicação em escala significativa, as ações da Kodak duplicaram em valor após o anúncio desta iniciativa.

 

Nas palavras de Jeff Clarke, presidente da Kodak: “Para muitos na indústria de tecnologia, blockchain e criptomoedas são expressões promissoras, ainda que distantes. Mas, para os fotógrafos que há muito se esforçaram para afirmar o controle de seu trabalho e como ele é usado, essas palavras-chave são o caminho para resolver o que parecia ser até então um problema sem solução. A Kodak sempre procurou democratizar a fotografia e tornar os licenciamentos justos para os artistas. Essas tecnologias darão à comunidade da fotografia uma maneira inovadora e fácil de resolver este problema”.

 

Este é mais um exemplo de que enfrentar os problemas decorrentes do uso intensivo de tecnologias inovadoras implica, na maior parte das vezes, em utilizar as próprias como parte da solução. No mundo educacional é o mesmo. Os educandos são em número sem precedentes e a tentativa de conhecê-los individualmente pode parecer uma ilusão. No entanto, as tecnologias digitais permitem dizer exatamente o contrário: “quanto maior o número de envolvidos, melhor para identificá-los individualmente”. Ferramentas como Learning Analytics (Analítica da Aprendizagem, em português) e Edugenômica são exemplos de como criar trilhas educacionais personalizadas com qualidade, precisão e racionalidade.

 

Estamos nos inserindo em uma sociedade onde a informação estará totalmente acessível, instantaneamente disponibilizada e basicamente gratuita. As transformações que vivenciamos são preliminares de algo muito mais radical e cada vez mais surpreendente. O que sabemos é que se trata de caminho sem retorno, onde a cada nova etapa novos horizontes se descortinam. Como nos mostrou a Kodak, é do próprio veneno que se produz o antídoto, o qual revigora e dá vida aos que aparentemente foram dele vítimas circunstanciais.

 

 

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