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Arquivo da Categoria Educação e Tecnologia

sexta-feira, 13 de maio de 2016 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 21:27

Educação a distância: no começo estranha-se, depois, entranha-se!

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homeschooling

 

Há 80 anos, em Portugal, o escritor Fernando Pessoa foi convidado a produzir uma peça publicitária para um grande grupo internacional do ramo de refrigerantes, e assim o fez: “Primeiro estranha-se, depois, entranha-se!”. Naquela época, a bebida escura gaseificada estava chegando a Portugal, era desconhecida, de gosto estranho, e precisava de um pouco de poesia para abrir-lhe o caminho.

Hoje, parafraseando o poeta, em contexto sensivelmente distinto do original, permito-me apropriar da ideia do autor para descrever a educação aberta e a distância, que está, cada vez mais, presente em nosso cotidiano. Trata-se de uma modalidade de educação fortemente impulsionada pelas novas tecnologias de informação e comunicação, cujas potencialidades apontam para o atendimento às demandas inéditas da sociedade contemporânea, e em particular no Brasil, país privilegiado com dimensões continentais, nossos atrasos em termos de escolaridade e as desigualdades sociais e econômicas.

Muito além de ser um meio de superar problemas emergenciais ou forma de enfrentar questões de espaços territoriais, educação a distância (EaD) vem, progressivamente, conquistando espaços junto aos diversos sistemas acadêmicos e educacionais, sua oferta combinada aos modelos tradicionais de ensino, em diversos níveis, tem apontado para melhorias.

Por outro lado, no espírito de educação ao longo da vida, a educação a distância tem sido ingrediente fundamental na educação continuada da população adulta. EaD tem forte conexão com democratização de oportunidades educacionais, contribuindo com a formação de profissionais com competências múltiplas. Da mesma forma, estabelece fortes vínculos com democratização de oportunidades educacionais, contribuindo com a formação de profissionais com competências múltiplas, com especial ênfase no trabalho em equipe e na capacidade de aprender a aprender e estimulando o individuo a adaptar-se a novas situações.

Assim, a realidade de exigência de formação ao longo da vida propiciara desejáveis conexões entre o campo educacional e o campo do trabalho, que demandarão inéditas ferramentas pedagógicas que, por sua vez, gerarão fortes impactos, tanto sobre os métodos de ensino como sobre a organização dos ambientes de trabalho.

A Lei 5.692, de 1971, que fixava Diretrizes e Bases para o ensino de 1º e 2º graus, de forma pioneira no país e para atingir maior número de estudantes, se referiu à possibilidade de cursos supletivos utilizarem a modalidade a distância, por meio de rádios, televisão e ensino por correspondência. A nova Lei de Diretrizes e Bases (1996), consolida essa tendência, inovando com a possibilidade de educação a distância em todos os níveis e modalidades de ensino. No ano de 1998, dois Decretos publicados caracterizaram EaD e regulamentam a LDB, definindo competências entre os sistemas federal, estaduais e municipais.

Posteriormente, duas Portarias do MEC (uma de 2001 e outra de 2004) tratam da possibilidade de introdução de métodos não-presenciais na organização curricular e pedagógica dos cursos superiores reconhecidos.

Em um contexto em que a informação estará totalmente acessível, instantaneamente disponibilizada e gratuitamente ofertada, o processo ensino-aprendizagem será profundamente afetado e a incorporação de novas tecnologias e a introdução de metodologias inovadoras serão a marca destes novos tempos. Muito além da simples modalidade, o ensino a distância representa a real possibilidade de conjugarmos quantidade com qualidade e é o prenúncio de um novo período de educação híbrida e flexível, em um mundo globalizado e literalmente sem fronteiras.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, (LDB, Lei n.º 9.394, de 20 de dezembro de 1996) apresentou uma inovação no seu art. 80 estimulando o ensino a distância nos diferentes níveis. A criação da Secretaria de Educação a Distância (Seed/MEC), no início do Governo Fernando Henrique Cardoso (1994-2002), representou uma iniciativa positiva para a institucionalização da modalidade. No Governo Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011), houve um significativo avanço da educação a distância, chegando ao quadro atual em que a educação a distância é a principal responsável pelo crescimento de matrículas no ensino superior.

Educação a distância baseada nas tecnologias digitais rompe fronteiras entre as nações e cumpre o mesmo papel no interior de cada país. Particularmente no Brasil, onde ainda não completamos sequer metade do caminho previsto no Plano Nacional de Educação (PNE) da década passada – “garantir acesso ao ensino superior a 30% dos jovens entre 18 a 24 anos” –, a utilização da modalidade é certamente imprescindível e estratégica para oportunizar que interessados de todas as classes sociais possam ter acesso à educação superior. Além disso, como apontado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC), progressivamente, mais de 40% dos ingressantes no ensino superior estão em faixas etárias mais maduras (acima de 24 anos). Esta população demanda metodologias educacionais próprias capazes de permitir que mesmo tardiamente, possa qualificar-se profissionalmente.

Distintamente da educação presencial, na educação a distância a escala não compromete a qualidade, muito pelo contrário. Todos os especialistas internacionais têm segurança em afirmar que a racionalidade e a economicidade envolvidas na modalidade permitem baixar custos e aumentar qualidade simultaneamente. Tal que é mais do que razoável afirmar que na boa educação a distância pode-se obter o dobro da qualidade pela metade dos custos.

Os estímulos para o estudo antes das aulas, a ênfase na existência de portais eletrônicos, aprender a não ter medo de utilizar plataformas, o estímulo à aprendizagem independente e ao ensino baseado em solução de problemas, incluindo metodologias que levem em conta os ambientes do mundo do trabalho, são exemplos de iniciativas que podem ampliar nos educandos habilidades e competências desejadas.

Pessoas educadas são essenciais para a melhoria da qualidade de vida de todos e para o aumento da competitividade e produtividade de um país. A formação de profissionais atualizados é estratégica para as economias competitivas globais. Profissionais com pouca escolaridade desenvolvem de um modo geral  atividades manuais simples, sendo quase impossível a adaptação deles às técnicas e aos processos de produção mais sofisticados. Portanto, a formação de cidadãos aptos a desempenhar tarefas complexas e dispostos a enfrentar os desafios das novas e desconhecidas demandas, por meio do uso intenso e consciente de tecnologias inovadoras, é essencial para a educação contemporânea.

 

Imagem: Domínio público em https://pixabay.com/pt/in%C3%ADcio-364177/

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segunda-feira, 2 de maio de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 18:32

Ser olímpico é ser grande e de qualidade

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Os gregos, em torno de 2.500 a.C., homenagearam Zeus, o maior dos deuses de sua mitologia, com a criação dos Jogos Olímpicos. As Olimpíadas da Grécia Antigas perduraram até 394 d.C., quando o Imperador Teodósio II, convertido ao cristianismo, proibiu todas as festas pagãs, inclusive os Jogos. As Olimpíadas renasceram somente 1.500 anos mais tarde, por iniciativa do francês Pierre de Fredy (1863-1937), o Barão de Coubertin.

 

Além dos Jogos Olímpicos, os gregos também são considerados os fundadores da instituição escola, tal qual a conhecemos hoje. Platão, um dos mais importantes filósofos da história, fundou em Atenas a Academia em 383 a.C., a qual é considerada um paradigma, ao menos no mundo ocidental. Assim, Olimpíadas e instituições educacionais têm em comum suas raízes fortemente fincadas na Civilização Grega e ambas inspiradas em elementos de grandeza e de qualidade.

 

O Rio de Janeiro foi escolhido para sediar neste ano as XXXI Olimpíadas da era moderna, sendo a primeira vez que elas ocorrem na América do Sul, quando serão disputadas 28 modalidades, duas a mais do que as Olimpíadas de 2012. É também a primeira vez, salvo engano, que uma instituição educacional, no caso a Estácio, é parceira integral do evento e responsável direta pela capacitação de dezenas de milhares de voluntários e outros participantes da organização do evento.

 

Contemporaneamente, celebramos a reunificação de dois dos maiores legados dos gregos: as Olimpíadas e a escola. As instituições educacionais estão representadas neste evento pela Estácio, a qual é uma das maiores organizações educacionais privadas do país, com mais de meio milhão de alunos matriculados no ensino superior atendidos por quase nove mil professores e cinco mil colaboradores não docentes.

 

Entre as missões da Estácio para transformar a sociedade por meio da educação, a mais relevante delas é propiciar um ensino de qualidade para muitos. O Brasil tem provado ser um país capaz de prestar atendimentos de qualidade, desde que para poucos, ou então de atender muitos, desde que sem garantias de qualidade. Não aprendemos ainda, infelizmente, fazer as duas coisas, qualidade e quantidade, ao mesmo tempo. Harmonizar bom nível e escala é a mais importante inovação olímpica que o país precisa. Propiciar qualidade para poucos ou então ofertar qualidade precária para muitos não é inovar e nem ser olímpico. Inovar e ser olímpico no Brasil de hoje é romper as barreiras que inviabilizam qualidade para muitos.

 

Pessoas educadas são essenciais para a melhoria da qualidade de vida de todos e para o aumento da competitividade e produtividade de um país. A formação de profissionais atualizados é estratégica para as economias competitivas globais. Profissionais com pouca escolaridade desenvolvem, de um modo geral, atividades manuais simples, sendo quase impossível a adaptação deles às técnicas e aos processos de produção mais sofisticados.

 

Portanto, ser olímpico na educação contemporânea, sendo simultaneamente grande e de qualidade, implica na formação de cidadãos competitivos, aptos a desempenharem tarefas complexas e dispostos a enfrentarem os desafios das novas e desconhecidas demandas, por meio do uso intenso e consciente de tecnologias inovadoras.

 

As Olimpíadas sempre foram e continuarão sendo grandes e de qualidade e o evento Rio 2016 servirá para reforçar, uma vez mais, a sua essência. A Estácio está honrada de fazer parte desta história e se integra aos mesmos propósitos olímpicos, certos que é parte de sua missão maior conjugar bom nível com quantidade, ofertando educação de qualidade para muitos.

 

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quarta-feira, 20 de abril de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 11:08

Gestão e educação

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FeRazao

Fé é, basicamente, a ausência de dúvida. Ciência é, antes de tudo, o território da indagação. Esses dois conceitos, sem dúvida, reduzem e simplificam demasiadamente entes complexos. Ainda que sejam afirmações simples, as ideias centrais de ambos, fé e ciência, permitem ser assim explicitadas e enfatizadas.

 

Gestão não se enquadra exatamente em fé e há muita discussão sobre sua classificação enquanto ciência. No entanto, na prática, as implementações de modelos de gestão estabelecem no cotidiano interessantes vínculos associados tanto a fé como a ciência.

 

Pelo que sugerem as experiências, a adoção de um modelo de gestão, qualquer que seja ele, tende a melhorar os resultados. A opção pela absoluta ausência de modelos dá espaço ao individualismo, ao voluntarismo aleatório e ao uso destemperado de bom senso, caracterizados pela ausência de padrão, de rotina e de processos sistemáticos, dificultando, no decorrer do processo, analisar rumos e, mais ainda, corrigi-los, se for o caso. Da mesma forma, bons modelos de gestão devem, necessariamente, apresentar características suficientemente flexíveis, tais que individualidades e peculiaridades sejam contempladas.

 

A proposta deste texto não é aprofundar acerca de estratégias, planejamentos ou abordar outros temas específicos de gestão, mas sim analisar brevemente as eventuais conexões entre gestão, fé e ciência, à luz do mundo da educação. Para tanto, cabe observar que, ao implementar um modelo de gestão, há momentos que se caracterizam como de planejamento e discussões e, em tempos consecutivos, outros de implementação de ações e de exercícios práticos de campo. Esses limites não são absolutos e nem são fronteiras tão rígidas, persistindo sempre áreas sombreadas entre planejamento e ação.

 

A ciência diz respeito à promoção da discussão e da análise aprofundada, associada a estimular a dúvida e o uso das ferramentas derivadas do método científico, especialmente observação, lógica e análise crítica dos resultados e das experimentações. Tais características se adequam perfeitamente aos momentos de planejamento das ações.

 

Por sua vez, desde que estabelecidos os modelos, as estratégias e os planos de ação, entramos no território das ações propriamente. Momento em que é desejável que tenhamos máxima convergência, harmonia e sincronicidade. Para tanto, são requeridos comportamentos, individuais e de equipe, em que, a partir dos conhecimentos e acordos prévios, rotinas e padrões são assumidos, implicando no acatamento de sistemas e procedimentos, os quais tendem a funcionar melhor se os participantes têm nesses momentos menos dúvidas e mais fé ou convicção.

 

Essas conexões talvez fiquem mais evidentes quando expostas ao contrário. Seria inadequado analisar planos estratégicos, envolvendo a complexidade natural das diversas variáveis, se limitados pela fé cega em um único modelo de gestão. A crença na infalibilidade de um particular modelo de gestão é um caminho para o desastre, portanto, a fé é, neste caso, má conselheira. No planejamento há que se enaltecer e estimular as dúvidas e os questionamentos. Retirá-los, inibi-los ou não os estimular é enfraquecer fortemente esta etapa do processo, empobrecendo-a criticamente.

 

Por sua vez, após definidas estratégias e planos de ação, há que se perseverar no que foi proposto antes, implementando o programado. O espaço das ações em campo é corretamente refratário a se debater os pressupostos do planejado e há que se seguir adiante, até mesmo para permitir que as análises, ainda que parciais, sejam em cima de um processo de maturação de processos, padrões e rotinas em curso. Estimular prematuras e não sistematizadas análises, bem como excessivos debates sobre processos ainda em curso, tendem, em geral, a prejudicar a execução, não contribuindo com a necessária concentração nos elementos sistêmicos que permitam uma aferição posterior mais balizada.

 

Em suma, a educação nos ensina que gestão não se reduz a fé e nem a ciência, mas há ingredientes de ambos que podem sim contribuir com a gestão. Cabe ao processo educacional elucidar em quais momentos dos procedimentos de implementação de qualquer modelo de gestão há características que mais se aproximam de um e se distanciam do outro e vice-versa.

 

Sobre a figura: Faith and Reason United by Ludwig Seitz (1844-1908). Vatican Museum.

 

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domingo, 10 de abril de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 14:30

Iconoclastia mal-educada

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ciclist

Em torno do século VII, o termo iconoclasta designava os adeptos do movimento de contestação à veneração de ícones religiosos. De fato, iconoclasta significa literalmente “quebrador de imagem”, derivado do grego eikon (imagem ou ícone) e klastein (quebrar). Contemporaneamente, este termo passou a ser aplicado também a qualquer um que quebre dogmas, convenções ou mesmo que desdenhe das regras estabelecidas.

 

O neurocientista Gregory Berns, ao final da década passada, lançou o livro “O Iconoclasta”, onde o conceito é atualizado e passa a ser aplicado também a uma pessoa rebelde que interpreta a realidade de uma maneira não usual e faz aquilo que o senso comum julga impossível ou não aconselhável de ser feito. Neste especial sentido, é permitido se referir como iconoclasta a alguém inovador e que, pela sua provocação e ousadia, gera avanços e questionamentos. Na perspectiva de Berns, enquanto uma pessoa comum percebe o mundo baseado na história passada e naquilo que lhe é relatado, o iconoclasta, antes de tudo, arrisca enxergar o diferente, assumindo os riscos das discordâncias, dos pioneirismos e das visões divergentes sobre temas supostamente bem estabelecidos.

 

Se, por um lado, podemos chamar a iconoclastia criativa de Berns de positiva, há igualmente a iconoclastia puramente resultante da má educação e da disposição permanente de descumprir regras estabelecidas, caracterizada por não respeitar aos demais, por desacatar as normas gerais de convivência social e reflete, de alguma forma, elementos de percepção de superioridade com relação aos outros. Nesta categoria estão comportamentos que refletem nosso passado, ainda tão presente em nosso hábitos e costumes do dia-a-dia, onde as rebeldias podem ter um viés puro de egoísmo e de desrespeito ao coletivo. A iconoclastia mal-educada pode ser evidenciada em pequenos delitos, os quais findam por respaldar e dar guarida aos grandes defeitos.

 

Vejamos um frugal e simples exemplo: aos domingos e feriados, assim como em tantas outras cidades, a orla do Rio de Janeiro tem uma das pistas fechada ao tráfego de automóveis, permitindo aos pedestres e ciclistas desfrutarem de espaço urbano essencial e prazeroso. Do Leme ao Leblon, há uma pequena pista dedicada exclusivamente aos ciclistas, nas quais se anuncia às demais pessoas que a evitem, bem como há uma faixa maior reservada aos pedestres, onde é explicitamente informado a todos que somente crianças com menos de oito anos a utilizem de bicicleta.

 

Ainda que não faltem avisos, é extremamente comum observar a dificuldade dos ciclistas de conviverem em harmonia com os pedestres. Muitas vezes vemos pessoas caminhando na pista de ciclismo, não raro em duplas, dificultando por completo a mobilidade das bicicletas, bem como observamos muitas bicicletas trafegando perigosamente no meio dos pedestres na faixa, em tese, a eles reservada. Bastaria que as proibições fossem respeitadas e todos, tanto ciclistas como pedestres, aproveitariam bem melhor seus respectivos espaços. Ao contrário, na prática, resultado da má educação, amplificam-se os conflitos e não raros desentendimentos surgem, transformando aquilo que deveria ser prazeroso em disputas e transtornos sem sentido.

 

Seria aconselhável que um policial ou autoridade municipal tentassem impor as regras, mas as chances de insucesso, infelizmente, seriam altas. Esta iconoclastia mal-educada não tem nenhum vínculo com a iconoclastia criativa de Berns, mas sim está atada ao que existe de pior em nossa cultura e é fruto da descrença nos governantes, estando ancorada nos estímulos às práticas individualistas de usufruir do máximo que puder, mesmo que em detrimento do coletivo.

 

O caso específico é exemplo muito trivial, mas que guarda profunda correlação com uma transformação, via boa educação, que todos acreditamos possível. E que essas mudanças, em todas as suas dimensões, contribuam para moldar para melhor a formação cultural de um povo que saiba, de forma coletiva e solidária, definir bem seus próprios destinos.

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quinta-feira, 31 de março de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 08:08

Monges copistas eram brilhantes, mas sumiram

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Escribanofree

 

Os tempos contemporâneos são marcados pela profundidade e rapidez das mudanças em curso. Neste ambiente de informação plenamente acessível, instantaneamente disponibilizada e praticamente gratuita é absolutamente natural que atividades que estamos acostumados hoje sejam profundamente abaladas amanhã e que profissões que nos parecem eternas desapareçam, ou se tornem, raras brevemente.

 

Assim também foi no passado, ainda que em ritmo mais lento, quando grandes transformações se efetivaram. Uma das mais curiosas e ilustrativas diz respeito aos monges copistas. Esses monges eram totalmente dedicados à cópia de livros, os quais eram escritos à mão, utilizando penas de ganso e tinturas, decorados com pinturas e feitos sobre pergaminhos, ou seja, peles tratadas de carneiros ou cabras.

 

Essas cópias eram preparadas com especial esmero e, consequentemente, demoravam muito e os produtos finais resultavam extremamente caros, portanto, raros. Os monges copistas na Idade Média (séculos V a XV) eram cultos e faziam parte do extremamente seleto grupo que sabia ler e escrever. Na absoluta ausência de tecnologias que fizessem este trabalho, os monges copistas acreditavam que ao copiarem os livros estariam prestando um serviço a Deus, esforço recompensado pela liberdade que tinham em ilustrar as obras. Em geral, o trabalho manual de cópia dos manuscritos na Idade Média era realizado no interior dos mosteiros, em um quarto chamado scriptorium, daí a terminologia com significado amplo da palavra escritório tal como adotamos hoje.

 

O século XV não trouxe boas novidades aos monges copistas. O final da Idade Média, o começo do Renascimento, as novas descobertas, o crescimento do contato com o mundo oriental e o acesso às novidades vindas da China, da Índia e do mundo árabe promoveram mudanças profundas. Entre elas, a introdução do papel, invenção chinesa barata, abundante e de fácil recorte e manuseio.

 

Nos primeiros séculos da era cristã, a gravura em pedra e a produção de cópias eram dominadas pelos orientais, tanto pelos chineses como pelos coreanos e japoneses. Da mesma forma, usavam pranchas de madeira para gravar imagens e textos, os quais podiam ser reproduzidos por estampagens. Em torno do século XI, as primeiras impressões utilizando caracteres móveis começaram a ser adotadas na China, porém, dado serem os caracteres feitos de terracota precisavam ser substituídos a cada impressão, o que tornava o processo pouco prático e muito custoso. Houve tentativas na época de utilização de caracteres metálicos, mas mesmo assim muito dispendiosos.

 

Interessante observar que antes do século XV os europeus simplesmente não se interessaram por essas novidades em curso na Ásia. Esse quadro se altera no século XV. O alemão Johannes Gutenberg não inventou, mas sim “reinventou” a imprensa e é considerado o homem que aperfeiçoou de maneira decisiva a arte asiática, dado que ele desenvolveu os caracteres móveis de chumbo, que podiam ser utilizados indefinidamente, além de uma nova tinta de impressão e a prensa de imprimir. Com isso, mudou definitivamente o mundo dos livros, em todas as suas dimensões e consequências: política, econômica, social e religiosa. A partir de Gutenberg, uma nova história se desenvolve e os livros, antes raros, se tornaram abundantes porque baratos e de muito mais fácil manuseio, seja na fabricação ou sua utilização mais direta. Por sua enorme contribuição, Gutenberg pode ser chamado de pai da tipografia e do livro moderno.

 

Bem, e como ficaram os brilhantes e competentes monges copistas após Gutenberg? Eles foram se tornando cada vez menos necessários e praticamente desapareceram poucas gerações depois. Os tempos atuais reproduzem, à luz das tecnologias digitais, quadros muito similares e a história dos monges copistas se repetirá em escala muito maior em praticamente todas as ocupações atuais. O certo é que as atividades humanas em geral serão atingidas, umas mais rapidamente, outras perdurarão um pouco mais, mas todas as profissões, de alguma forma, serão revistas e algumas simplesmente desaparecerão.

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segunda-feira, 21 de março de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 21:15

Trabalhar em equipe se aprende na escola

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Os seres humanos, desde as primeiras civilizações, sempre sobreviveram graças ao trabalho em grupo. Sem esse ingrediente, talvez, sequer tivéssemos existido enquanto espécie. A arte de armazenar o fogo, a eficiência das caças coletivas e até mesmo as inscrições rupestres deixadas nas cavernas foram algumas das marcas coletivas dos povos primitivos, cujas práticas nos permitiram chegar onde estamos hoje.

Assim, não há novidade na relevância do trabalho em equipe em nossa sociedade. No entanto, os processos ensino e aprendizagem, em geral, exploram muito pouco esta característica humana, sendo que a organização da escola tem desprezado este potencial, muitas vezes reprimindo-o. A escola tradicional supervaloriza a aprendizagem individual no processo de ensino via salas de aulas com alunos basicamente passivos e, especialmente, nos métodos avaliativos normalmente adotados.

Não chega a ser surpreendente que as organizações empresariais se anteciparam à escola na percepção da recente relevância do trabalho em equipe, reconhecido hoje como elemento estratégico e crucial nas instituições mais modernas e inovadoras. Na prática, findou-se por descobrir fora do ambiente escolar elementos interessantes como o fato que na maior parte dos casos estudados a equipe tende a ter maior sucesso quando composta por grupo entre cinco a nove membros. Da mesma forma, contrariando o senso comum, maior diversidade cultural, incluindo de gênero, étnica e de faixa etária, tende a gerar melhores resultados.

Além disso, as companhias se viram obrigadas a repensarem hierarquias clássicas, dado que, graças às tecnologias digitais, as equipes conseguem uma dinâmica que sugere um nível de horizontalização inédito, viabilizando soluções em tempos bem menores se comparados com o cumprimento de rituais clássicos cristalizados. Por fim, os conceitos de líder e liderança se adaptam aos novos tempos e assumem características inéditas, entre elas que o líder nem sempre é o mesmo ao longo de toda a missão e que o excesso de liderança individual pode gerar inibição dos demais, podendo mesmo, no limite, ser prejudicial.

As escolas gradativamente estão incorporando trabalho em equipe como elemento cada vez mais presente em seus processos educacionais. No entanto, avaliar trabalho em equipe é, de fato, sempre complexo, mas é possível ser bem executado em ambientes escolares que reconhecem nesta estratégia elemento essencial do processo de aprendizagem. Uma sugestão inspiradora, entre várias, para avaliar equipes vem da observação de bandas de jazz. Interessante observar que qualquer público atento, apreciador de boa música, sabe muito bem identificar diferenças entre uma banda que tem boa qualidade e outra de menor valor. Tão importante quanto isso, se todos os componentes tocarem solo, também saberão, razoavelmente, identificar quem toca bem e quem não executa tão bem.

Trabalhar em equipe viabiliza algo imprescindível nos tempos atuais, a aquisição e a construção coletivas do conhecimento, práticas nas quais o aluno se relaciona de forma diferente com o saber e quando as relações interpessoais desempenham papel preponderante. No trabalho em grupo, além do domínio do conhecimento, o aluno desenvolve várias habilidades, entre elas, aprender a avaliar, decidir, considerar as opiniões dos demais e, especialmente, compartilhar acerca das próprias práticas, dominando melhor os mecanismos segundo os quais ele aprende. Essas competências são cruciais para a vida, seja como profissional ou cidadão.

Em suma, trabalhar em equipe se aprende na vida, mas pode e deve ser estimulado e aprimorado na escola, e avaliar coletivamente deve ser um instrumento adicional de estímulo ao aprendizado. Preparar profissionais e cidadãos para um futuro que se avizinha torna imprescindível incluir trabalhos em grupo de forma sistemática com uso de metodologias que explorem soluções de problemas ou realizações de projetos.

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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior | 11:39

Videoaula sobre a fundação do Rio de Janeiro

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Na educação contemporânea, o uso de videoaulas tende a se tornar cada vez mais comum e desejável. Na verdade, conteúdos multimídia, que vão muito além da vertente vídeo, passam a ser de uso corriqueiro, contribuindo enormemente com ampliação da aprendizagem.

A cidade do Rio de Janeiro comemorou no ano passado 450 anos de sua fundação. A história pode ser contada a partir de Estácio de Sá, sobrinho de Mem de Sá, terceiro governador-geral do Brasil. Ele foi nomeado por Dona Catarina, Rainha de Portugal, capitão de armada com a missão específica de expulsar os franceses da costa brasileira.

Estácio aporta na Bahia ao final de 1563 e depois, passando pelo Espírito Santo, chega ao litoral do Rio de Janeiro. Frente aos conflitos intensos com os índios, Estácio desloca-se inicialmente para São Vicente, onde fica em torno de nove meses, à espera de reforços vindos dos padres Manuel da Nóbrega e José de Anchieta.

Em 01 de março de 1565, Estácio de Sá e sua frota desembarcam em definitivo entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar, onde fundam a cidade do Rio de Janeiro, dispostos a acabar com o domínio de mais de uma década dos franceses na região.

Os índios tamoios, aliados dos franceses, imediatamente atacam os portugueses recém-chegados. Somente dois anos depois, com reforços enviados por Mem de Sá, os portugueses consolidam seus domínios, contando com o apoio dos índios termiminós, inimigos dos tamoios. Porém, ao longo deste processo de conquista, o pioneiro Estácio de Sá é ferido mortalmente por uma flecha que lhe vazou um olho na Batalha de Uruçu-mirim, vindo a falecer um mês depois do incidente, provavelmente por septicemia decorrente do ferimento.

O nome Estácio de Sá estaria a partir daí marcado para sempre na história, eternizado como fundador daquela que viria a ser conhecida mundialmente como Cidade Maravilhosa. Cidade esta que seria depois capital do país e também estendendo sua denominação ao estado que até hoje a abriga.

O projeto de 1973 do Monumento a Estácio de Sá é de autoria de Lúcio Costa renomado arquiteto com obras de destaque no Rio de Janeiro e também autor do plano piloto de Brasília. Trata-se de uma construção com uso de pedras típicas do Rio de Janeiro, parecendo ser granito, tendo ao centro um obelisco também de granito. O obelisco que se inicio no subsolo, passa por sobre uma laje entremeada de vigas de concreto, laje esta que faz teto para o subsolo, e piso para a base do monumento, um pouco elevada e acima do solo do Parque ou Aterro do Flamengo.

Esta história é contada na videoaula que é parte integrante da Disciplina “Bases Físicas para Engenharia”, no tema “Método Científico”. Ela foi gravada no Memorial Estácio de Sá, no Aterro do Flamengo e pode ser assistida via o link abaixo:

http://portaldoaluno.webaula.com.br/cursos/O03473/Aula1/___A/01BasesFisicas.mp4

Bom proveito a todos.

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domingo, 14 de fevereiro de 2016 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 16:04

Domínios de aprendizagem e o preceptor contemporâneo

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Benjamin Bloom, importante educador/psicólogo americano falecido ao final do século passado, é considerado o responsável pela formulação da taxonomia dos domínios de aprendizagem, a qual é ancorada, entre outros elementos, na suposição de que as operações mentais podem ser classificadas em níveis de complexidade crescentes.

Na década de 1980, Bloom, seguindo essa abordagem, apresentou um método de ensino conhecido como “Problema Sigma 2”. Essencialmente, tratava de prover aos estudantes tutoria individual ou em pequenos grupos. Esses alunos, quando comparados com colegas submetidos a métodos tradicionais baseados em salas de aula convencionais, apresentaram, em geral, rendimentos 98% melhores. O termo Sigma 2 deriva do fato que tal diferença implica em superar aproximadamente duas vezes o desvio padrão estatístico, garantindo que as melhorias são realmente muito significativas. Em outras palavras, 90% dos alunos submetidos à técnica de Bloom apresentaram resultados equivalentes aos 20% melhores das salas tradicionais.

A questão que persistiu durante muito tempo sem resposta era se os procedimentos associados seriam viáveis do ponto de vista custos e acessibilidade. Na época de Bloom, certamente, a resposta provável e comum seria: “qualidade custa caro e é mesmo para poucos”. Hoje, podemos, pioneiramente, começar a explorar novas possibilidades, via tecnologias digitais, para conjugar qualidade com quantidade.

Entre outros textos recentes, o artigo de Roshan Choxi (http://techcrunch.com/2016/01/09/how-startups-are-solving-a-decades-old-problem-in-education/#.iokds6t:zSpx/) discute como as startups do mundo digital podem tentar enfrentar e resolver problemas aparentemente insolúveis do passado. Ainda sabemos limitadamente acerca do quanto alternar o atendimento presencial, previsto por Bloom, por online poderá eventualmente trazer impactos sobre a qualidade, mas, por certo, pode contribuir muito com a viabilização orçamentária do atendimento individual ou pequenos grupos. Uma das missões das startups é explorar tais possibilidades, fazendo uso apropriado das tecnologias digitais e garantido mesma qualidade ou mesmo ampliá-la com competência.

A plataforma educacional Udacity, por exemplo, em 2013, adicionou em alguns cursos certificados de pequena duração (“nanodegrees”) a possibilidade de atendimento personalizado explorando videoconferências entre o mentor e o educando, simulando algo análogo ao proposto por Bloom, neste caso em versão digital. Os “coaches” do Udacity são basicamente profissionais do mercado que, conjuntamente a outros profissionais do ensino, dão o suporte personalizado e realizam o acompanhamento pleno dos projetos sob responsabilidade dos alunos, procurando ir além de análises simples de respostas de questões, sejam elas objetivas ou discursivas.

Mais recentemente, temos várias iniciativas preliminares explorando a combinação deste tipo de abordagem com a metodologia de aprendizagem baseada em problema (ou projeto), conhecida como PBL (do inglês, “Problem/Project Learning”). Podemos pensar, por exemplo, na formação de alta qualidade de profissionais como engenheiros de produção. Neste caso, adicionalmente ao conjunto de disciplinas online, há previstos, durante todo o curso, atendimentos presenciais em pequenos grupos (em torno de cinco) via preceptores. Eles são responsáveis tanto pelo acolhimento ao início do percurso educacional, incluindo a adaptação às novas metodologias e tecnologias, como pela supervisão dos projetos ao final do curso, colaborando na preparação ao exercício profissional. O preceptor, fazendo uso de PBL, atende os alunos tanto presencialmente, onde todas as atividades com estas características são desenvolvidas sob sua supervisão, como, complementarmente, via videoconferências remotas.

Ainda estamos longe de escrevermos os capítulos finais deste desafiante tema, mas a utilização das tecnologias digitais como forma de conjugar aprendizagem de qualidade com grande escala, certamente, é um caminho sem retorno. Mesmo assim, por mais que avancem as abordagens via plataformas digitais, elas não são capazes de, isoladamente, dar conta do amplo espectro de nuances individuais no que tange à forma de cada um aprender com mais eficiência. O professor, na sua atuação como orientador, mentor, “coach”, ou preceptor, é fundamental para ajudar a preencher todas as lacunas dos domínios de aprendizagem, evitando reduzir todos os alunos a meras curvas estatísticas, exageradamente impessoais. Os resultados dos esforços em curso poderão representar, em um futuro próximo, significativo avanço na democratização do acesso à educação de qualidade.

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 08:09

Zika e Educação

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O vírus zika está ligado aos estudos na formas mais múltiplas e diretas. Ele foi identificado por pesquisadores ao final da década de 40 na floresta Zika, em Uganda. A sua identificação é fruto da ciência, bem como a compreensão de sua ação no corpo humano e as possíveis ferramentas disponíveis para tentar evitá-la. Igualmente, o encaminhamento de possíveis soluções, seja vacina ou outros mecanismos, certamente passarão por mais conhecimento.

No começo do ano passado, casos em humanos foram detectados no nordeste brasileiro e muito rapidamente se espalharam pelo restante da América do Sul, Caribe, América Central e México. Além da transmissão confirmada pelo mosquito aedes aegypti, semana passada o Instituto Oswaldo Cruz detectou a presença do vírus ativo na salina e na urina, portanto, com potencial para causar infecções.

Esse vírus, embora mostre fortes evidências de ser extremamente perigoso, especialmente para grávidas, está, por enquanto, longe de ser o mais perigoso que já lidamos e, por certo, não será o último ou o mais letal. A preocupação maior diz respeito à possibilidade de microcefalia em fetos, podendo causar, sem cura, deficiência mental, limitação na fala, audição e movimentos.

O que se pode garantir é que todas os instrumentos disponíveis de enfrentamento conhecidos até aqui demandam, adicionalmente às ações regulares das autoridades na área da saúde, um envolvimento ativo diferenciado da população. Ou seja, o seu grau de disseminação é de tal natureza generalizado e pulverizado que somente convencendo todas as pessoas a agirem organizada e coletivamente teremos chances de evitar um grande desastre.

Esses pontos, associados ao esclarecimento e atitude da população, remetem ao nível de escolaridade, à qualidade da educação e, no limite, ao processo formativo decorrente das metodologias de aprendizagem comumente adotadas. Epidemias de vírus e bactérias surgirão, quase que inevitavelmente, em todos os países e de forma progressivamente crescente ao longo dos anos vindouros. O que diferenciará as nações e as regiões na efetividade dos embates será a qualidade do exército populacional que as compõem. Quanto mais educação e melhor qualidade de vida, incluindo saneamento básico, menos difícil será enfrentar os surtos, valendo igualmente o inverso.

No Brasil, temos graves deficiências educacionais, expressas pelo baixo nível de escolaridade e pelo fato dos escolarizados serem vítimas de processos de aprendizagem precários, cujas formações resultantes podem representar desvantagens relativas. As ações que são demandadas em momentos como estes exigem processos reflexivos e percepções de processos que, em geral, a educação focada somente em cognição simples fica a desejar, por ser insuficiente. Se cognição está associada ao processo geral de aprendizagem, notadamente transmissão de informação, a metacognição privilegia o avanço dos níveis de consciência do educando acerca dos mecanismos com que aprendemos. Em linhas gerais e de forma reduzida, cognição tem a ver com aprender, metacognição mais associada com aprender a aprender.

Neste particular momento, os atributos que serão exigidos da população em geral estão especialmente, não exclusivamente, ligados ao nível de amadurecimento dos processos metacognitivos. Assim, os fatos de não termos eliminado plenamente a miséria, expressa também pelo analfabetismo, os baixos níveis de escolaridade e as carências das metodologias educacionais adotadas poderão cobrar um preço muito alto. Resta aproveitar a situação para evidenciar as deficiências e transformá-las em ações que, simultaneamente a combater a disseminação do vírus, permitam refletir e agir sobre como temos conduzido nossas políticas educacionais.

A adoção da metacognição enquanto uma das centralidades educacionais significa, por exemplo, ir além do conteúdo e bases curriculares mínimas, incluindo, com a mesma importância, como explorar as múltiplas conexões entre os saberes integrados e a preparação para aprendizagem integrada baseada em projetos, em trabalhos em equipe e em solução de problemas. Ao não conferirmos ao segundo item a mesma ênfase do primeiro, somado a executarmos o primeiro com severas fragilidades, têm como produto reduzirmos nosso potencial de enfrentamento, seja neste evento epidêmico ou dos que virão a seguir.

Certamente a crise na saúde, a partir também deste evento específico zika, somado à grave crise de baixa produtividade no trabalho, portanto deficiente nível de competitiva global, com consequente aumento de desemprego e clara dificuldade de crescimento econômico, social e ambiental sustentável, tornarão prementes uma ação do Estado via mobilizações coletivas. Tais ações somente serão eficientes e eficazes se associadas diretamente à educação. Nesse sentido, o espaço educacional não é periférico ou de uso eventual, mas de natureza central e essencial. Quanto mais demorarmos a perceber tais conexões, estaremos desperdiçando recursos, tempo e, especialmente, oportunidades.

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domingo, 24 de janeiro de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 06:53

Os bastidores da Finlândia e os atalhos do Brasil

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Durante a semana passada, em Londres, tive a oportunidade de participar, enquanto convidado da CISCO, da Exposição BETT (em inglês, “British Educational Training and Technology Show”). Ela é considerada, desde 1985, uma das mais importantes feiras na área de tecnologias na educação, atraindo algo em torno de 40 mil visitantes de mais de uma centena de países.

O Programa da delegação brasileira CISCO deste ano incluiu uma visita com palestras e debates no Institute of Education (IoE), classificado recentemente pelo “Times Higher Education Ranking” como a melhor instituição do mundo na área de educação. Professor David Scott do IoE, uma das maiores autoridades em teorias de aprendizagem e meu co-autor no livro “Educando para Inovação e Aprendizagem Independente”, argumentou à delegação brasileira que seria pouco recomendável ao Brasil definir suas estratégias educacionais na educação básica tendo como referência principal melhorar seus indicadores no PISA. A explicação dele para não exagerarmos na ênfase ao PISA tem a ver com o caso Finlândia e seus bastidores.

A Finlândia é sempre uma referência importante em educação. Pelo seu passado e mais recentemente pelo que está fazendo ao se preparar para o futuro. A Finlândia entrou no século XXI liderando os resultados do PISA (Programa Internacional para a Avaliação de Estudantes da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico/OCDE). Curiosamente, desde então, tudo se passa como se a Finlândia, quase que propositalmente, caísse de forma sistemática no ranking. A grande percepção dos gestores da educação finlandesa foi suspeitar que o sucesso no PISA poderia, eventualmente, inibir mudanças necessárias e urgentes. Ou seja, a régua do PISA, provavelmente, mede melhor qualidades e expectativas do passado do que os predicados e exigências do futuro.

A Finlândia tem sido ultrapassada no PISA por outros países (Cingapura, Hong Kong, Taiwan, Coréia do Sul e Japão), mas as escolas finlandesas têm adotado, sem receio, metodologias ativas inovadoras que estimulam a aprendizagem independente. Parte significativa das aulas tradicionais são substituídas pelo desenvolvimento de projetos temáticos nos quais os alunos refletem principalmente acerca do processo de aprendizagem em si.

Os formuladores de políticas educacionais e os docentes da Finlândia parecem saber melhor do que os demais países que a forma tradicional de educação, basicamente estruturada em aulas expositivas sobre disciplinas estanques, ainda que com um passado vitorioso, não mais prepara adequadamente as crianças e os jovens para o futuro. A necessidade do desenvolvimento da capacidade de pensamento transdisciplinar, ou seja, olhar os mesmos problemas a partir de perspectivas e ferramentas diferentes, ao mesmo tempo que o educando aumenta a percepção acerca dos mecanismos segundo os quais ele aprende (metacognição, ou aprender a aprender), compõem as estruturas centrais da nova metodologia.

São mudanças complexas e que afetam a todos, em particular os professores, os quais passam a ter, relativamente, menos controle sobre os cursos, demandando que necessariamente eles trabalhem de forma colaborativa entre si e, especialmente, com seus alunos. Gradativamente, os mestres deixam de ter como atribuição principal as aulas expositivas (embora elas permaneçam, em algum nível, existindo) e, cada vez mais, se assemelham à figura de preceptores. Seja enquanto aqueles que acolhem e ajudam o educando a entender a si mesmo e a refletir sobre sua própria aprendizagem, ou então aqueles que promovem a mentoria, especialmente conectando e ajudando a integrar as disciplinas e conhecimentos fragmentados. Assim, cabe aos docentes atuar junto a seus alunos para extrair da multidisciplinaridade e das posturas metacognitivas os ingredientes principais para que eles possam aprender a, autonomamente, resolver problemas e desenvolver projetos.

Em suma, olhemos para a frente, respeitemos as enormes diferenças de realidades, dado que, certamente, temos no Brasil muitas trilhas básicas ainda por cumprir, ao mesmo tempo que temos que enfrentar complexidades similares às finlandesas. Sem isso, a chance de errar por adotarmos remédios inadequados é muito alta. Felizmente, o Brasil, em princípio, tem sim atalhos possíveis e bons ingredientes. Precisamos saber com clareza onde queremos chegar, conhecer bem outras experiências e definir o quanto estamos dispostos a ousar na educação.

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