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sexta-feira, 23 de junho de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 02:58

IGC, por detrás dos números: a Universidade Estácio de Sá

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Em complemento ao texto anterior (“Considerações preliminares”), neste artigo abordo o caso específico da Universidade Estácio de Sá (UNESA). Trata-se de instituição de ensino superior privada fundada em 1970 no bairro Rio Comprido, na zona central do Rio de Janeiro. Inicia-se com uma Faculdade de Direito e hoje contempla todas as áreas do conhecimento, com mais de duas centenas de milhares de matrículas, em cursos de graduação ou de pós-graduação, ofertados nas modalidades presencial e a distância, e com cinco programas de mestrado ou doutorado com conceitos CAPES 4 ou 5.

 

A história da Estácio é repleta de momentos significativos, com destaque para o pioneirismo de seu fundador, Dr. João Uchoa, que soube entender na época as demandas da classe média emergente por ensino superior, atendidas por instituições espalhadas nos moldes multicampi, ocupando os espaços educacionais, até então vazios, entre os locais de trabalho e as residências. Posteriormente à fase de controle familiar da instituição, há um capítulo importante dedicado à reestruturação promovida pelo grupo GP Investimentos, já ancorada em filosofias e procedimentos típicos de empresas de capital aberto. Por fim, merece destaque a sua história mais recente, com início ao final de dezembro de 2015, com a crise do FIES, até o momento em que a Estácio se prepara para processo de fusão ainda em curso.

 

Se a história da empresa é complexa e difícil de resumir (nem seria eu a pessoa mais indicada para fazê-lo), a biografia acadêmica, medida pelos indicadores acadêmicos Índice Geral de Cursos (IGC) e Conceito Preliminar de Curso (CPC), parece ser mais clara, dado que sistematicamente progressiva e sustentável até os dias atuais. Em 2009, o IGC de 1,99 (IGC discreto 3, limite inferior) colocava a UNESA à beira de um conceito 2, considerado insatisfatório pelo MEC. Em seguida, de 2010 a 2014, a instituição apresenta um crescimento sustentável com IGC contínuos de 2,05, 2,10, 2,46, 2,46 e 2,65, respectivamente. Aquilo que era tendência até 2014 torna-se uma evidência de sucesso em 2015, quando a maioria da base geral de alunos formandos realizou o ENADE, gerando o surpreendente resultado de IGC contínuo de 3,10. Na terminologia da área, pela primeira vez, um conceito 4 “gordo”, refletindo um crescimento de 17%, o que é mais surpreendente se considerado o ciclo trianual, implicando em um crescimento real ano contra ano bem maior do que esse, se considerada somente a comparação entre os resultados de 2012 (agora descartados) com 2015.

 

Instituições grandes (aquelas com centenas de milhares de matrículas) tendem, mesmo quando boas, para o conceito 3, em média. Além disso, há que se lembrar que na modalidade educação a distância (EaD) todos os polos espalhados pelo país contam como se todos os formandos estivessem no Rio de Janeiro e seus resultados são computados na UNESA. Em suma, uma instituição gigante e com metade de sua base de alunos na modalidade EaD raramente poderia sonhar com conceito 4.

 

O destaque ainda mais espetacular é que se, por ventura, levássemos em conta somente os formandos na modalidade EaD (especulativo), o resultado teria sido ainda melhor (IGC contínuo de 3,50, portanto, em direção ao conceito máximo 5).  No exercício de simulação citado acima, onde são mantidos todos os demais insumos, são excluídos os formandos presenciais, restando na graduação somente os formandos EaD, resulta que entre mais de 150 instituições credenciadas para EaD, a UNESA ficaria no IGC contínuo em quinto lugar no país. Cumpre observar que as quatro que a superam, nominalmente: FGV/Rio, Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e do Mucuri, SENAC/SP e Universidade Federal Fluminense, contaram com relativamente poucos alunos matriculados nos respectivos cursos. Todos os quatro citados com menos de vinte vezes o número de alunos da UNESA. Como responsável direto pela área de EaD na Estácio em 2015, insisto, uma vez mais, que o mérito especial da modalidade a distância é a sua capacidade potencial de conjugar qualidade com quantidade.

 

Há que se considerar também que no último resultado liberado o Índice de Diferença entre os Desempenhos observado e esperado dos formandos (IDD) foi basicamente calculado levando em conta os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) do próprio estudante, permitindo a correta aferição e na devida escala. Ou seja, anteriormente, um cálculo artificial de média era adotado por insuficiência de dados específicos, o que foi recentemente facilitado pelo grande contingente de alunos fazendo o ENEM a partir de 2010 e 2011. A adoção mais rigorosa deste indicador tende a favorecer as instituições, como a UNESA, que trabalham com ingressantes, em média, com maior deficiência de formação anterior e desfavorecer aquelas instituições que tipicamente atraem concluintes do ensino médio com relativamente melhores resultados no ENEM.

 

Isoladamente nenhum dos argumentos acima explicaria o significativo avanço observado à luz desses indicadores na UNESA. O essencial certamente foi a melhoria real da qualidade da educação ministrada, um trabalho coletivo e de longo prazo que elevou consistentemente cada indicador. Porém, outras medidas adicionais adotadas devem ser consideradas. Assim, no próximo e último artigo da trilogia destaco a relevância de terem sido especialmente considerados alguns aspectos socioemocionais dos formandos atendendo ao exame ENADE a partir de 2015.

 

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Foto: Formandos de Medicina da UNESA 2015

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domingo, 18 de junho de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 12:42

IGC, por detrás dos números: considerações preliminares

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A avaliação do ensino superior no Brasil é estabelecida via o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES), Lei no 10.861, de 2004. O pressuposto geral é que o processo regulatório, mais dinâmico e sujeito aos programas específicos de Governo, seja assentado na avaliação, esta sim mais perene e com características de política de Estado. Nem sempre funciona exatamente assim, mas conceitualmente é o que se espera.

 

Em 2007, há uma década, o Ministério da Educação (MEC), por meio de sua Secretaria de Educação Superior (SESu), da qual eu era o titular na época, propôs, via a Portaria no 40, a criação de indicadores de qualidade. Além dos indicadores que são aferidos in loco, a Portaria trouxe novos indicadores avaliados em um ciclo trianual, que contempla diferentes áreas do conhecimento a cada ano. Entre eles, o IGC (Índice Geral de Cursos), que tenta refletir a qualidade da instituição como um todo, resultante de uma cesta de outros indicadores, tais como o CPC (Conceito Preliminar do Curso), o qual pretende dizer algo, ainda que preliminar, sobre a qualidade de cada um dos cursos analisados.

 

Por sua vez, um dos ingredientes mais importantes para formar o CPC, e consequentemente o IGC, é o rendimento médio dos formandos de cada curso do ENADE (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes), conforme previsto na Lei do SINAES. Complementarmente, impactam também no IGC o censo anual dos docentes, a avaliação dos próprios formandos sobre a instituição, os indicadores CAPES da pós-graduação e o Índice de Diferença entre os Desempenhos observado e esperado dos formandos (IDD).

 

Segundo o pensamento vigente no MEC de então, um dos supostos méritos funcionais dos indicadores CPC e IGC seria, a partir deste diagnóstico preliminar, viabilizar o trabalho de supervisão e acompanhamento regulatório a ser desenvolvido. A título de exemplo, um curso que reiteradas vezes tivesse rendimentos insuficientes (CPC 1 ou 2) seria objeto de visita in loco e, se fosse o caso, haveria punições correspondentes, via protocolos de compromisso a serem aplicados. Tais punições variavam desde a suspensão de novos ingressantes no curso até o seu fechamento e, em tese, o mesmo valeria para as instituições (IGC 1 ou 2). Da mesma forma, políticas regulatórias positivas, calcadas em prerrogativas de autonomia (liberdades adicionais para criar turmas, vagas, polos de educação a distância etc.), seriam conferidas àqueles cursos ou instituições com indicadores sistematicamente positivos (CPC ou IGC 4 e 5).

 

Os resultados da última avaliação disponível, frutos do exame ENADE de 2015 (formandos nas áreas de gestão e humanas) combinado em ciclos de três anos, assim cobrindo todas as demais áreas, mostram que das mais de 2 mil instituições avaliadas somente 375 (menos de um quinto delas, portanto) obtiveram os conceitos IGC 4 ou 5.

 

Mesmo cientes de que tal avaliação é preliminar e parcial, cabe refletir sobre o que medimos e o que pode ser extraído dos dados.  Se é verdade que toda medida é frágil e momentânea, dado não existirem medidas inteiramente completas, permanentes e justas, é igualmente correto afirmar que toda medida diz algo, ainda que demande análises muito cuidadosas, porque necessariamente limitadas. No caso, talvez haja pelo menos dois contextos extremos que permitem algumas possíveis conclusões razoáveis. Cursos ou instituições que reiteradas vezes permanecem nos blocos superiores muito provavelmente desenvolvem trabalhos acadêmicos de qualidade fazendo jus a prerrogativas de autonomia diferenciadas. Igualmente, grupos que sistematicamente apresentam indicadores negativos, possivelmente, demandam especiais cuidados por parte dos órgãos públicos reguladores do sistema.  Da mesma forma, um curso cujo CPC ou o IGC de uma instituição, quando analisados enquanto séries históricas, que apresentam consistentes evoluções positivas devem refletir empenhos acadêmicos adequados. O mesmo raciocínio vale para uma evolução negativa, evidenciando, eventualmente, um relativo descuido com os insumos que compõem os indicadores adotados.

 

O drama é que naturalmente a área sombreada (excluído aqui os casos limites acima referidos) é bastante extensa. Assim, quando lidamos com a maioria das instituições, fora daqueles limites extremos citados, é relativamente comum os indicadores evidenciarem claramente seus limites ou resultarem demasiadamente parciais, injustos ou circunstanciais.

 

Uma década após a Portaria no 40, pelo quarto ano consecutivo, vivencio a experiência de observar sua aplicação na prática. Nos dois próximos artigos, em complemento a este, tratarei em um deles especificamente do caso da Universidade Estácio de Sá e no último da trilogia abordarei aspectos específicos socioemocionais dos formandos neste contexto.

 

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Figura em Domínio Público, acessível em: https://hackneyhistory.files.wordpress.com/2013/09/pr_corporalpunishment.jpg

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domingo, 11 de junho de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 12:01

Educação: muitas perguntas e algumas respostas*

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1. Como as escolas vêm lidando com as tecnologias digitais nos dias de hoje?

 

As tecnologias digitais invadiram a secular instituição escola de fora para dentro, sem que as escolas tivessem o devido tempo para se preparar.  Assim, em consequência, os desafios são enormes.

Caminhamos a passos largos para um mundo de educação permanente ao longo da vida e onde a informação está, cada vez mais, totalmente acessível, instantaneamente disponibilizada e basicamente gratuita. De alguma forma, todos seremos estudantes para sempre e a informação em si o mais barato e vulgar dos produtos ou serviços.

Uma das mais relevantes consequências da preponderância das tecnologias digitais é que, do ponto de vista metodológico, observamos uma mudança progressiva de foco em direção a privilegiar as chamadas competências metacognitivas, incluindo as habilidades transdisciplinares e socioemocionais. Entre as características metacognitivas, destaco, a título de ilustração, aprendizagem independente, solução de problemas complexos, perseverança, resiliência, autocontrole emocional e cumprimento simultâneo de multitarefas em equipe. Tais predicados são especialmente relevantes em missões envolvendo pensamento crítico, capacidade analítica, uso do método científico, comunicação, colaboração, criatividade, empreendedorismo, empatia, cordialidade, respeito e gestão da informação e de emoções.

 

2. E isso é fácil de ser adaptado em escolas particulares. Mas, e as escolas públicas? Como podem ser adaptadas?

 

Sobre a questão mais relevante a ser enfrentada, creio que tanto faz a escola ser pública ou privada. Tão ou mais relevante do que aquilo que foi aprendido (associado genericamente à cognição ou ao aprender simples) é o amadurecimento da consciência, por parte do educando, acerca dos mecanismos segundo os quais ele aprende (metacognição ou o sofisticado aprender a aprender). Tais estratégias educacionais passam por enfatizar elementos motivacionais, incluindo atenção especial a trabalhos colaborativos (capacidade de produzir em equipe) e em aspectos interdisciplinares (habilidade de estabelecer conexões entre diversas áreas do saber), acrescidos de relevância de comportamentos como tolerância e compaixão (empatia aplicada, isto é, entender o outro por se colocar na posição do outro e agir em função disso). São também relevantes os estímulos à visão empreendedora (criativa conjugada com exequibilidade e sustentabilidade) e o especial domínio de linguagens e de plataformas digitais.

 

3. E esse modelo de escola do futuro que vem surgindo e ganhando espaço no Brasil?

 

A escola do futuro deve dar respostas hoje para temas que estão presentes desde ontem e continuam sem respostas satisfatórias. Educar tem se tornado mais complexo porque abarca o imprescindível conteúdo acadêmico, mas introduz, adicionalmente, novas exigências e perspectivas. Atitudes, comportamentos e posturas são elementos transversais presentes nos processos de aprendizagem de praticamente todas as áreas do conhecimento e em todas as suas fases.

No passado recente, a formação de um profissional estava bastante centrada na aquisição de um conjunto razoavelmente bem delimitado de conteúdos previamente estabelecidos, somado a uma série conhecida de técnicas e procedimentos. Essa formação era considerada razoavelmente suficiente para atender as demandas previsíveis de um modelo de desenvolvimento econômico predominante no século XX. Na perspectiva Fordista/Taylorista, tal profissional findava atendendo ao mercado, gerando cidadãos minimamente satisfeitos. Não mais. O mundo mudou rapidamente, os principais desafios contemporâneos apresentam ingredientes basicamente imprevisíveis.

Aprender a aprender passa a ser tão ou mais relevante do que simplesmente aprender. Mais relevante do que o conteúdo aprendido é a percepção acerca de como se aprende. Em um mundo de educação permanente ao longo da vida, a formação metacognitiva se constitui em um diferencial significativo na capacidade dos futuros profissionais de enfrentar os problemas que lhes serão apresentados pela sociedade contemporânea.

 

4. Mesmo com toda essa tecnologia, os jovens ainda enfrentam graves problemas em redes sociais, como erros de português e falta de entendimento de textos. Como as redes sociais podem se tornar aliadas na educação?

 

As tecnologias digitais, suponhamos, podem ser o veneno. E, de fato, às vezes, são mesmo. Mas é do próprio veneno que se produz o antídoto a ele, assim como se faz com cobras peçonhentas. Há que se explorar metodologias inovadoras, acompanhadas das novas tecnologias, que contribuam para que nossos jovens e crianças leiam mais, escrevam mais e melhor, bem como sejam capazes de entender – e bem – textos complexos. Entendo que explorar a metacognição vai além dos procedimentos usuais de transmissão simples do conhecimento, privilegiando a curadoria precisa e eficiente do conteúdo digital a ser disponibilizado e a adoção de abordagens emancipadoras, especialmente aquelas baseadas em aprendizagem independente.

Cabe ao educador ampliar as competências e habilidades que habilitam o educando a enfrentar, sem medo, as imprevisíveis novas realidades. Preparar os docentes para explorar essas especiais capacidades é um dos maiores desafios da educação contemporânea e ainda estamos aprendendo a formar adequadamente tais professores. O drama é que temos pouco tempo e estamos atrasados. Esse educador é imprescindível imediatamente para a geração de profissionais e cidadãos aptos a colaborarem com uma sociedade mais justa e harmônica, com desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável.

 

5. Portugal é um país que vem se destacando na educação e um dos métodos utilizados é a memorização. O senhor é a favor desse método?

 

Portugal tem enfrentado bem seus problemas, dentro de sua realidade e acho fundamental que conheçamos profundamente suas soluções preliminares. No entanto, isso não quer dizer copiá-los acriticamente, tampouco desconhecer as diferenças, incluindo que a escolaridade dos pais em Portugal é superior à escolaridade média dos pais brasileiros.

Mais do o esforço da memorização, creio que a realidade brasileira sugere particularmente estimular a criatividade, a capacidade de enfrentar problemas e o desenvolvimento de resiliência. A maioria das metodologias educacionais, envolvendo os respectivos procedimentos e abordagens, tem tradicionalmente adotado como objetivo central evitar os tropeços dos alunos. Fundamentalmente, o ensino tradicional, ao informar, o faz para que o educando acerte e evite, a qualquer custo, os erros. De forma resumida, ter sucesso, normalmente, quer dizer não levar tombos, sabendo responder as questões corretamente e completando positivamente e no menor tempo possível os desafios apresentados.

A título de exemplo, num teste padrão de múltipla escolha interessa, em geral, somente a resposta certa, sendo que, usualmente, as respostas erradas nada mais são do que respostas erradas. A educação contemporânea, no contexto dos usos adequados das tecnologias digitais, diverge frontalmente de tal postura. Atualmente, tendemos a aproveitar tanto a resposta certa, valorizando o aprendido, como a resposta errada, como elemento que ilumina os caminhos de superação das deficiências. Os erros, potencialmente, podem dizer mais sobre o educando do que o acerto eventual.

Os modelos padrão e suas práticas usuais de ensino têm sobrevivido porque níveis razoáveis de sucesso puderam ser observados no passado, gerando a expectativa de que, provendo informações com competência e evitando os tropeços, teríamos solução educacional também para o presente e, eventualmente, até mesmo para o futuro. Nada mais ingênuo. Os velhos tempos, onde razoáveis eficiências e eficácias educacionais foram observadas, se caracterizam, principalmente, pela previsibilidade do mundo do trabalho, por demandas profissionais bem estabelecidas e futuros próximos razoavelmente conhecidos. Os novos tempos apresentam mudanças profundas, implicando em desafios inéditos, onde o ensino tradicional, tal como o praticamos, dá mostras claras de incapacidade de decifrá-los ou resolvê-los.

Entre as rápidas mudanças em curso está aquela que torna progressivamente a informação o produto mais disponível e o mais barato da atualidade. O surgimento de uma sociedade em que a informação está totalmente acessível, instantaneamente disponibilizada e gratuitamente adquirível traz consequências educacionais ainda não assimiladas e, por vezes, sequer percebidas. As ênfases e os focos demandam imediatas mudanças, em especial deslocando o centro do processo de aprendizagem baseado no simples saber, enquanto ser informado, em direção ao complexo saber resolver, baseado na informação assumida como completamente disponível, instantânea e gratuita.

Mais do que o simples acesso à informação, gerir corretamente o conhecimento disponível, trabalhar em equipe e assim decifrar e resolver os problemas passam a ser atitudes fundamentais, tanto no mundo profissional como no dia-a-dia. O ensino segmentado e com terminalidades definitivas dá lugar à educação permanente ao longo da vida, onde o aprender a aprender é mais relevante do que o aprender em si. Mais importante do que aquilo que foi aprendido é ampliar a consciência e o domínio acerca dos mecanismos associados a como se aprende.

Assim, os novos tempos impõem uma realidade em que é mais importante focar no processo de aprendizagem e nos procedimentos de superação, após o erro, do que a obsessão simples por, a partir das informações adquiridas, tentar nunca tropeçar. Não há nenhuma garantia de que aqueles que nunca tropeçaram saberão levantar, caso errem. Mas há fortes indicadores de que aqueles que aprenderam a aprender terão todas as condições de enfrentar os tombos. Muito mais importante que a ênfase na memória e evitar tropeços, portanto, é aprender a levantar.

 

6. Por onde começar para o Brasil ter uma educação pública de qualidade?

 

Educação e o contexto social onde ela se realiza não são coisas estanques e totalmente separáveis. Nossa carga cultural traz marcas bem descritas em obras consolidadas. Entre elas, destaco “Casa Grande & Senzala” de Gilberto Freire. Neste e em outros estudos, são enfatizados, de um lado, uma elite acostumada às benesses e aos privilégios, que justificam e estimulam o paternalismo e a acomodação, e, de outro, os demais, em geral submetidos à exclusão e à opressão, que desfavorecem a emancipação e as iniciativas empreendedoras. A tradição histórica que se reflete nas relações, seja nas ruas ou no trabalho, infelizmente, também repercute nas salas de aula, via pedagogias que prioritariamente estimulam a aprendizagem marcadamente dependente e distante da emancipação.

Ou seja, em outras palavras, o Brasil tem que perceber algo simples e que parecemos querer, ingenuamente, enganar a nós mesmos. Somos um dos países de maior contraste social do planeta e pagamos um preço muito alto por isso. Entre eles, a notável incapacidade de termos um desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável. Isso decorre principalmente de termos uma produtividade muito baixa, a qual é consequência da baixa escolaridade (anos de estudo) e da má qualidade dos anos estudados. Os da camada de cima, que são poucos e têm tudo, apresentam poucos motivos para se aprimorarem e se desafiarem adequadamente e se tornam, intelectualmente, preguiçosos, com as devidas exceções (que contribuem para confirmar a regra). Os da camada de baixo, que são muitos e têm muito pouco, mesmo que se por ventura talentosos, têm baixíssimas chances de progredir. Assim, uma sociedade de Casa Grande de um lado e a Senzala de outro raramente é competitiva, produtiva e sustentável. Assim, embora educação seja uma ferramenta indispensável para a solução do problema, definitivamente, ela não é a raiz isolada do problema.

 

7. Hoje mudou muito o perfil de uma instituição de educação superior com o avanço dos cursos a distância. É o futuro?

 

Mais do que a educação a distância, a qual é somente uma modalidade disponível, creio que as ferramentas advindas do uso intenso e adequado das tecnologias digitais deverão alterar a face da educação superior.

Destaco, entre outras novidades, a analítica da aprendizagem (em inglês, learning analytics), a qual diz respeito à abordagem baseada na coleta e análise sistemática de dados sobre os educandos e seus contextos, tendo em vista o entendimento e a otimização do processo de aprendizagem e do ambiente no qual ele ocorre. Analítica da aprendizagem está associado ao desenvolvimento de ações e estratégias educacionais implementadas com o suporte de modelos, simulações e padrões estatísticos. Tal processo viabiliza conferir a eficiência e eficácia de metodologias educacionais, conhecer mais sobre todos os atores envolvidos e aprimorar de forma inteligente e substantiva a prática pedagógica.

Coletar e analisar dados, como elemento de suporte para tomada de decisões, é o que nós fazemos todos os dias, mesmo que de forma natural e inconsciente. A novidade é que no mundo digital são gerados dados em níveis sem precedentes e, consequentemente, podemos dispor atualmente de estratégias inovadoras, assentadas na capacidade de predições inéditas, decorrentes do uso sistemático, sofisticado e inteligente de estatísticas de grandes massas de dados. Esta realidade é amplificada no mundo educacional atual pelo uso crescente de ambientes virtuais de aprendizagem, tanto na modalidade presencial como a distância. A plataforma virtual, a qual permite a utilização de diversas mídias e demais recursos para apresentar as informações associadas à aprendizagem, é o mesmo ambiente que viabiliza coletar automaticamente dados e analisar o desempenho dos alunos, tanto coletivamente como individualmente.

A mais relevante característica da estratégia baseada na analítica da aprendizagem é que pela primeira vez quebramos o paradigma de que o aumento da quantidade é necessariamente associado ao rebaixamento de qualidade. Pelo contrário, ela permite conjugar escala e qualidade, de tal forma que quanto maior a quantidade de dados as análises geradas tendem a ser mais confiáveis, colaborando ainda mais no conhecimento e na avaliação das ações educacionais em curso e no incremento do potencial das iniciativas futuras.

Atualmente, é possível conceber que todos os educandos podem aprender e todos aprendem o tempo todo, porém, cada educando aprende de maneira única e personalizada. Para tanto, educação contemporânea significa construir um ensino híbrido, flexível e customizado. A partir dos comportamentos dos estudantes, individualmente ou coletivamente, seja nas atitudes frente a desafios propostos ou via respostas, certas ou igualmente úteis erradas, às questões formuladas, é possível, por meio do desenvolvimento de algoritmos especiais, saber muito sobre cada educando. Isso inclui conhecer suas principais características, expectativas, lacunas, predicados etc. De posse da máxima percepção global sobre o aluno e frente a cada situação educacional específica, podem os educadores e educandos, apoiados por plataformas inteligentes, escolher de uma multiplicidade de trilhas educacionais a mais adaptada. Não menos importante, ao longo do processo, o aluno se permite conhecer melhor a si mesmo, ampliando seu nível de consciência acerca dos mecanismos e contextos nos quais ele otimiza seu aprendizado.

Com a abordagem baseada em analítica da aprendizagem passamos a dispor de uma ferramenta adicional indispensável aos educadores contemporâneos. Portanto, torna-se possível ampliar significativamente a capacidade de aprender a aprender, o que é absolutamente imprescindível em um contexto de educação permanente ao longo da vida. Fruto do uso adequado de novas tecnologias, em conjunto com a adoção de metodologias educacionais inovadoras, temos, pela primeira vez, a real oportunidade de propiciar educação de qualidade para todos.

 

8. A escola do futuro defende que futuramente vários cursos superiores desaparecerão e haverá uma mudança mais para cursos profissionalizantes. Como o senhor imagina isso?

 

Creio que, ao contrário, no futuro as escolas, da creche à pós-graduação, se dedicarão cada vez mais a ensinar a aprender a aprender. As aplicações em si (profissionalizantes) serão processos adaptativos associados a missões específicas e poderão, a depender do caso, ser aprendidos no próprio ambiente de trabalho sem maiores problemas. Portanto, no processo educacional, adicionalmente aos conteúdos a serem abordados, em complemento às técnicas e procedimentos que um futuro profissional ou cidadão devem dominar, há outros elementos, tão ou mais relevantes, que demandam estar presentes. Entre eles, a aprendizagem independente é essencial e não exclui o professor; ao contrário, o inclui via a adoção de metodologias que estimulem processos emancipatórios na aprendizagem.

A notícia positiva é que o mundo das tecnologias digitais favorece a missão de estimular processos emancipatórios e mantém grande coerência com as metodologias ativas que se baseiam em aprendizagem independente, mediadas tanto pelo educador como pelos ambientes virtuais. Via as interfaces educacionais inteligentes e os recursos e ferramentas atualmente disponíveis, é plenamente possível traçar trajetórias educacionais personalizadas que levam em conta cada indivíduo, bem como fortalecer aspectos culturais e demais especificidades regionais e locais.

Temos a oportunidade inédita de conjugar escala e qualidade, contrariando as práticas anteriores, caracterizadas por qualidade para poucos ou, alternativamente, má qualidade sempre que estendida aos demais (todos). Contemporaneamente, ao contrário, podemos afirmar que só haverá qualidade se tivermos variadas referências para acesso, fruto de adotarmos tecnologias e metodologias que sejam aplicáveis para muitos. Hoje, seja na educação, na saúde ou em demais setores, inovar no Brasil é ousar propiciar qualidade para todos.

Os níveis extremos de compatibilidade e de pertinência das organizações educacionais, incluindo as metodologias e os modelos de gestão escolares adotados, fizeram delas das mais bem-sucedidas e respeitadas instituições do mundo moderno. Especialmente no século XX, seu ápice. A escola, no sentido amplo, contribuiu significativamente para grandes avanços em termos de ampliação do acesso a serviços e a produtos de qualidade. Foi dentro dos seus muros que foram gerados os conhecimentos que resultaram no aumento da expectativa de vida e, principalmente, produziram as condições para a grande revolução decorrente das tecnologias digitais, as quais estão a transformar, num processo ainda em curso, o mundo contemporâneo.

A escola tem cumprido várias funções, entre elas, a de ser o espaço de transmissão de conhecimento, formando cidadãos que dominam certos conteúdos e profissionais habilitados a determinadas técnicas e procedimentos específicos. Nesta concepção, os níveis escolares refletem etapas formativas com diferentes graus de profundidades e os respectivos diplomas e certificados atestam os conhecimentos adquiridos e as respectivas competências e habilidades associadas a cada uma das áreas do saber.

Todas as instituições e setores contemporâneos estão sendo e serão profundamente afetados pelas tecnologias digitais, em especial a escola, dado que a marca dos novos tempos é a emergência de uma sociedade na qual a informação está plenamente disponível, imediatamente acessível e essencialmente gratuita. Assim, as instituições educacionais, por sua relação orgânica com a informação e o conhecimento, demandam ser especialmente reconceptualizadas. Neste século XXI, mais do que no século anterior, elas devem ser repensadas à luz de um cenário onde mais relevante do o que foi aprendido é aprimorar a capacidade de aprender a aprender. Informação, em si, passa a ser o mais disponível e vulgar dos produtos.

Aprendemos, a partir de agora, dentro e fora da escola, a qualquer tempo e por qualquer meio e o fazemos, principalmente, como meio de ampliar nossa consciência acerca dos mecanismos segundo os quais ampliamos nossa capacidade de aprender a aprender.  A escola que marcava suas etapas pelos diplomas e certificados, atestando os conhecimentos adquiridos, nas formas de conteúdos, técnicas e procedimentos, dá espaço a um novo conceito onde as etapas correspondentes, da creche ao pós-doutorado, se caracterizam essencialmente pelos níveis diversos da capacidade de aprender continuamente em um mundo de educação permanente ao longo da vida.

Há uma essência perene nas funções da escola e do professor, mas certamente ela não está em seus prédios ou nos modelos de gestão, tampouco nas atuais metodologias e abordagens educacionais. Enfim, é rica e bela a história da escola, uma instituição que hoje, promissoramente, se prepara para se reconfigurar plenamente visando a atender as demandas do futuro. Futuro que começou na semana passada.

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* Texto baseado, preliminarmente, em perguntas recebidas e respondidas ao Caderno de Domingo (11/6/2017) do Jornal A CIDADE de Ribeirão Preto-SP e região (veja link)

  

Figura em Domínio Público em http://www.publicdomainpictures.net/pictures/190000/velka/school-41.jpg

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domingo, 4 de junho de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 07:26

A ilusão do especialista, segundo Henry Ford

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Henry Ford (1863-1947) foi pioneiro, inovador e, seguramente, um dos mais importantes empresários do século passado. Foi o primeiro a aplicar, de forma sistemática e na escala devida, a montagem em série, o que viabilizou a produção em massa de automóveis. O menor tempo de produção resultou em custos acessíveis e seu modelo de produção, posteriormente, se espalhou para os demais segmentos, celebrando um mundo inédito de generalizado alto consumo.  Ford é autor de dois importantes livros: “Minha filosofia de indústria” e “Minha vida e minha obra”, além de mais de uma centena de relevantes patentes.

 

Segue abaixo uma de suas mais interessantes afirmações e que talvez melhor caracterize quem foi Ford (em tradução livre do texto original): “Nenhum de nossos colaboradores são experts completos. Infelizmente, tivemos que demitir nossos funcionários assim que eles passaram a se considerar especialistas satisfeitos. Quanto mais um funcionário domina seu serviço, melhor ele deve perceber que sempre restará muito mais ainda a ser feito. Precisamos de pessoas que estejam permanentemente pressionando a si mesmos e que não se acomodem jamais, independente de quão eficientes elas sejam. Pensar sempre adiante, raciocinando melhor e tentando mais, assumindo que nada é impossível. O problema é que no momento em que alguém se sente um expert em algum assunto, algumas possibilidades passam a ser consideradas por ele como sendo impossíveis”.

 

Podemos considerar como inauguração do século XX a Fundação da Ford Motor Company em 1903. A primeira padronização, fruto da incipiente linha de montagem, gerou o Modelo A de dois cilindros, atingindo a incrível marca de cem veículos produzidos por dia. Em seguida, o modelo foi substituído pelo Modelo T (ou Ford Bigode), o qual foi posto no mercado em 1908 ao acessível preço na época de 850 dólares. Este valor foi gradativamente diminuindo à medida que o número de veículos produzidos crescia e em 1925 um novo Ford ficava pronto a cada 15 segundos. Em 1928, a empresa empregava mais de 200.000 operários para fabricar 6.000 carros por dia, além de caminhões, tratores, ônibus etc.

 

Henry Ford foi também inovador na forma como tratava seus funcionários, reduzindo as horas de trabalho, via aumento de produtividade, e incentivando-os com sucessivos aumentos de salários, via participação nos lucros, além de repartir o controle acionário com os colaboradores. Ford foi a expressão maior de um modelo de desenvolvimento econômico e social de grande sucesso no século passado. Em nada sua reputação é ofendida ao percebermos que suas ideias, seus modelos e suas abordagens simplesmente não funcionam mais. Ele mesmo previu isso ao afirmar que o desafio maior da inovação é inovar permanentemente. Ser inovador hoje é fazer como Ford, fazendo bem diferente de Ford.

 

Da mesma maneira, a escola que se moldou ao longo do século passado foi muito influenciada pelo atendimento às demandas decorrentes do modelo vitorioso por ele proposto. Hoje vivemos mais do que uma era de grandes mudanças; vivenciamos uma mudança de era. Novos Fords têm aparecido, em geral associados ao mundo digital e, ao que parece, este ainda será o território de emergência de novos líderes empresariais nos próximos anos ou décadas. A questão que permanece é como repensar a escola que fez tanto sucesso na era fordista e que, visivelmente, colhe fracassos numa era com novos paradigmas. Pensar uma nova escola compatível com o mundo contemporâneo não é e nem pode ser um exercício abstrato no vazio de lógicas auto-consistentes. Ao mesmo tempo que educar deve manter uma desejável distância de demandas imediatas, educação necessariamente é fortemente influenciada pelo contexto.

 

A escola que emergirá será também decorrência da capacidade de atender às demandas dos novos tempos, caracterizados pela abundante informação, a qual está cada vez mais acessível, disponibilizada imediatamente e basicamente gratuita. Saber disso não transforma a complexa missão em algo fácil. Porém, desconhecer ou desconsiderar esses fatos torna, praticamente, impossível pensar ou propor metodologias e abordagens educacionais inovadoras. A escola e os educadores do futuro estarão, de alguma forma, conectados aos novos modelos de desenvolvimento econômicos e sociais, os quais, por sua vez, impregnam, desde já, os hábitos e costumes da sociedade atual.

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Figura de Domínio Público, em:

 

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/a6/StateLibQld_2_179851_1913_Model_T_Ford_takes_a_couple_off_on_their_honeymoon%2C_1913.jpg

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domingo, 28 de maio de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 12:00

Evidências no ensino de Engenharia

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engenheiro

Com o intuito de melhorar o rendimento acadêmico em Física dos ingressantes nos cursos de Engenharias, a Estácio introduziu há pouco mais de dois anos a disciplina “Bases Físicas para Engenharia”. Entre os objetivos estratégicos, estava o de adequar o ensino, customizando-o ao perfil dominante dos ingressantes, em geral com formação anterior deficiente em Física.

 

A disciplina foi projetada para ser um dos paradigmas do projeto inovador “Ensino 2020”, tendo nascida híbrida (metade presencial e metade a distância) e baseada na plataforma de aprendizagem inovadora SAVA (“Sala Virtual de Aprendizagem”). Neste ambiente interativo, o educando acessa videoaulas ministradas por, reconhecidamente, melhores professores de Física do país (de fora e de dentro da Estácio), textos, objetos de aprendizagem, resolução interativa de exercícios, orientação para realização de atividades práticas etc. Aspectos conceituais e históricos da Física conectada à Engenharia são explorados nesta disciplina, incluindo as bases do método científico e o estímulo à aprendizado a partir de situações contextualizadas.

 

Fruto do aumento de acessibilidade ao ensino superior na última década e da maior demanda por profissionais com conhecimentos técnicos, tecnológicos e científicos mais profundos, a opção por cursos de Engenharias é, definitivamente, uma marca dos tempos atuais. O incremento da participação do setor privado no ensino superior implicou em maior oferta de cursos no período noturno, viabilizando que profissionais que trabalham durante o dia pudessem cursar Engenharia. Diferentemente de cursos nas áreas de Gestão, Licenciaturas ou de Tecnólogos de nível superior, as carreiras em Engenharias exigem uma base diferenciada de conhecimentos preliminares de Matemática e Ciências. Em geral esses ingressantes não as têm no nível desejado, demandando, portanto, a adoção de medidas extraordinárias, sem o que as reprovações e consequentes desistências se tornam rotinas. Com o intuito de diminuir a grande reprovação em disciplinas iniciais de Física ao longo do primeiro ano, as quais, juntamente com Matemática, eram as grandes responsáveis pelo expressivo abandono, a partir de 2015, os ingressantes em cursos de Engenharias, antes de cursarem as disciplinas tradicionais de Física, passaram a cursar “Bases Físicas para Engenharia”.

 

Os resultados preliminares são surpreendentemente positivos, atestando de forma inequívoca que o caminho adotado de introduzir uma disciplina preparatória, que antecede as tradicionais, está sendo muito bem-sucedido. Submetidos os alunos ao mesmo rigor e exigência, o índice de reprovação que era de 54,3 % em Física I em 2015/2 (alunos que não fizeram a disciplina preparatória) caiu para 19,7% em 2016/1 (alunos que tiveram a oportunidade de frequentar a disciplina introdutória). A consistência permanece em Física II, onde a reprovação que era de 32,3% foi reduzida para 11,7%.  Ou seja, em termos práticos, mais de um terço da turma que tipicamente era reprovada, com enormes chances de abandono, foram, fruto desta estratégia educacional, aprovados. Ressalte-se que com grandes possibilidades de cumprirem com sucesso seus planos de se tornarem Engenheiros, dado que as reprovações nos anos seguintes retornam aos níveis de normalidade.

 

Em suma, trata-se de exemplo simples de abordagem educacional que viabiliza àqueles que, em geral, seriam assumidos como incapazes de cursar Engenharias, por falta de bagagem preliminar em Ciências e Matemática, uma vez expostos à correta abordagem educacional, possam obter sucesso. Esses alunos que lograram êxito na superação de suas deficiências anteriores, ao atingirem o nível desejado, não são simplesmente iguais àqueles que, eventualmente, já apresentavam os rendimentos esperados. Eles são melhores, dado que atingiram o mesmo patamar, mas incorporaram algo a mais: a capacidade da superação, aumento da autoestima e o consequente aprimoramento da capacidade de aprender a aprender.

 

São essas evidências, ancoradas em experiências monitoradas, que dão solidez às teorias, sobre as quais, em geral, temos somente opinião prévia antes que o exercício prático no campo real nos dê a devida segurança. É sim possível customizar trilhas educacionais, dirigidas a propósitos e educandos específicos, a partir de corretos pressupostos do processo ensino-aprendizagem.

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Figura em Domínio Público em: http://thumb7.shutterstock.com/photos/display_pic_with_logo/803866/131622179.jpg

 

 

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segunda-feira, 22 de maio de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 10:58

Herança educacional perversa

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Educação é uma das mais relevantes e eficientes ferramentas para a promoção de oportunidades de ascensão social. Porém, educação não é um instrumento neutro; ao contrário, por ser tão eficaz, ela funciona, em certas circunstâncias, cumprindo também o papel oposto, ou seja, o perverso aumento das desigualdades e a cristalização da exclusão.

 

Os tempos mudaram e certos conceitos ficaram para trás. Fácil perceber que os títulos de nobreza, muitos deles hereditários, têm bem menos relevância atualmente do que desfrutavam antigamente. Mais recentemente, as camadas mais esclarecidas e privilegiadas, progressivamente, percebem que há algo mais importante do que simplesmente deixar riquezas materiais aos seus herdeiros. Trata-se, principalmente, de proporcionar às crianças e aos jovens capacitação intelectual diferenciada, incluindo todas as formas de competências e habilidades, tal que lhes permitam competir em condições favoráveis quando adultos.

 

Ainda que em si elogiável e coerente tal atitude, interessante observar que, em consequência, remete ao poder público e à sociedade em geral um desafio complexo e sofisticado. Aquilo que os pais decidem fazer com seus recursos, dentro dos limites apropriados, é de competência exclusiva deles e optar por investir em educação é legítimo e elogiável. No Brasil, dados disponíveis mostram claramente que a máxima correlação entre os aprovados nos vestibulares mais concorridos está associada, mais do que à renda familiar, à escolaridade dos pais. Ou seja, pais escolarizados tendem, o que é natural, a ter mais preocupação com o tema e propiciam, direta ou indiretamente, um contato doméstico com letramentos preliminares, acessos a leituras e demais suportes complementares. Ao Estado cabe decifrar o contexto e implementar políticas públicas compatíveis que viabilizem procurar igualar oportunidades.

 

Na China, na província de Xangai, escolas particulares para selecionar seus alunos realizam testes com os respectivos pais e avós, fazendo dos passados educacionais e profissionais deles critérios para aceitação de seus filhos. Na mesma medida em que a desigualdade de renda cresce, os pais da emergente classe média chinesa abandonam as escolas públicas à procura de diferenciais que permitam angariar vantagens aos seus filhos. Neste caso, educação, projetada para atuar em direção à igualdade de oportunidades e aumento de mobilidade social, funciona como cristalização de diferenças e, eventual, eternização de desigualdades.

 

O drama maior, seja no Brasil ou na China, não é a oportunidade de boa educação aos filhos dos mais ricos ou escolarizados, mas sim a insuficiente qualidade da educação reservada aos menos favorecidos, resultando, na prática, numa gigantesca perda de talentos. Como consequência, ao desperdiçar talentos, a capacidade global da sociedade, em termos de desenvolvimento social, econômico e ambiental, é afetada negativamente. O que podemos estar aceitando é introduzir um nível cada vez mais forte de artificialidade em um processo que deveria, em princípio, ser baseado em maximizar as potencialidades de todos. Os futuros cidadãos e profissionais estariam largando de bases muito desiguais na infância, permitindo aos felizardos que, mesmo com menos talento, possam sobrepujar aos demais, eventualmente mais capacitados, porém, excluídos antes da partida começar.

 

A nobreza perdeu privilégios, fruto das revoluções republicanas. As democracias recentes impuseram ao domínio simples do capital algumas derrotas, expressas por importantes conquistas sociais. Claramente não havia correlação direta entre nobreza ou riqueza com talento, portanto, aquelas perdas foram reconhecidas como justos avanços e ganhos de produtividade. A versão contemporânea dos títulos de nobreza ou da riqueza de bens materiais é o papel reservado à escolaridade dos pais. Fenômeno este que se torna mais evidente quando a maioria deles viveu, quando jovens, em sociedades, a exemplo de Brasil e China, com relativamente baixo acesso à educação.

 

O enfretamento positivo deste tema é muito complexo e não há medida isolada que dê conta do enigma. A utilização intensa e adequada das oportunidades que as tecnologias digitais propiciam de acesso pleno, instantâneo e gratuito ao conhecimento, certamente, faz parte do conjunto de soluções. Cabe ao poder público e às demais iniciativas da sociedade, em seus planos de conjugar qualidade e quantidade, saberem decifrar este sofisticado e urgente desafio.

 

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Figura em Domínio Público, via o link:

https://static1.squarespace.com/static/55ffe43fe4b03b9c7803b90b/t/5601aa39e4b061985f66abbf/1442949693257/students+in+school.jpg

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sábado, 13 de maio de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 10:19

O fim da escola sem fim

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Aristoteles-school

 

As raízes mais remotas da escola, tal como nós a conhecemos hoje, estão depositadas na Grécia Antiga, especialmente referenciadas, ao redor do século IV a.C., na Academia de Platão e no Liceu de Aristóteles. A escola nasce com o objetivo de formar os futuros dirigentes de Atenas, indo além dos sofistas, à medida que estabelecia um espaço comum permanente, frequentado de forma regular por mestres e discípulos, atores fixados no mesmo objetivo de repassar e receber conhecimentos.

 

Passados quase dois milênios e meio, essa escola viria a atingir seu apogeu na fase mais madura da revolução industrial no século XX, onde a demanda em grande escala por mão de obra especializada foi atendida com enorme competência e maestria.  Nesses milênios, educação foi favorecida pelo surgimento do livro moderno no século XV, pela consolidação do método científico no século XVII, pela máquina a vapor e outras tecnologias no século seguinte e, especialmente, pela Revolução Industrial nos tempos que se seguiram.

 

Os níveis extremos de compatibilidade e de pertinência das organizações educacionais, incluindo as metodologias e os modelos de gestão escolares adotados, fizeram delas das mais bem sucedidas e respeitadas instituições do mundo moderno. A escola, no sentido amplo, contribuiu significativamente para grandes avanços em termos de ampliação do acesso a serviços e a produtos de qualidade. Foi dentro dos seus muros que foram gerados os conhecimentos que resultaram no aumento da expectativa de vida e, principalmente, produziram as condições para a grande revolução decorrente das tecnologias digitais, as quais estão a transformar, num processo ainda em curso, o mundo contemporâneo.

 

A escola tem cumprido várias funções, entre elas, a de ser o espaço de transmissão de conhecimento, formando cidadãos que dominam certos conteúdos e profissionais habilitados a determinadas técnicas e procedimentos específicos. Nesta concepção, os níveis escolares refletem etapas formativas com diferentes graus de profundidades e os respectivos diplomas e certificados atestam os conhecimentos adquiridos e as respectivas competências e habilidades associadas a cada uma das áreas do saber.

 

Todas as instituições e setores contemporâneos estão sendo e serão profundamente afetados pelas tecnologias digitais, em especial a escola, dado que a marca dos novos tempos é a emergência de uma sociedade na qual a informação está plenamente disponível, imediatamente acessível e essencialmente gratuita. Assim, as instituições educacionais, por sua relação orgânica com a informação e o conhecimento, demandam ser especialmente reconceptualizadas. Elas devem ser repensadas à luz de um cenário onde mais relevante do o que foi aprendido é aprimorar a capacidade de aprender a aprender. Informação, em si, passa a ser o mais disponível e vulgar dos produtos.

 

Aprendemos, a partir de agora, dentro e fora da escola, a qualquer tempo e por qualquer meio e o fazemos, principalmente, como meio de ampliar nossa consciência acerca dos mecanismos segundo os quais ampliamos nossa capacidade de aprender a aprender.  A escola que marcava suas etapas pelos diplomas e certificados, atestando os conhecimentos adquiridos, nas formas de conteúdos, técnicas e procedimentos, dá espaço a um novo conceito onde as etapas correspondentes, da creche ao pós-doutorado, se caracterizam essencialmente pelos níveis diversos da capacidade de aprender continuamente em um mundo de educação permanente ao longo da vida.

 

Há uma essência perene nas funções da escola e do professor, mas certamente ela não está em seus prédios ou nos modelos de gestão, tampouco nas atuais metodologias e abordagens educacionais. Enfim, é rica e bela a história da escola, uma instituição que se pensava sem fim e que hoje, promissoramente, se prepara para se reconfigurar plenamente.

 

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Figura em Domínio Público: “School of Aristotle”, fresco by Gustav Spangenberg.

 

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terça-feira, 9 de maio de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 08:40

Palestra “Educação Contemporânea e Tecnologias Digitais” na UNESP (link incluso)

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unesp

A Unesp, Universidade Estadual Paulista, foi criada em 1976, resultante da incorporação de vários Institutos Isolados de Ensino Superior, localizados no interior do Estado de Estado de São Paulo. Do conjunto inicial fizeram parte a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis (cidade onde nasci), a de Araraquara, de Franca, de Marília, de Presidente Prudente, de Rio Claro e de São José do Rio Preto. Outros Institutos Isolados foram criados com a finalidade de formação profissional como a Faculdade de Farmácia e Odontologia de Araraquara, a mais antiga de todas essas escolas, fundada em 1923 e incorporada ao patrimônio estadual em 1956. As outras foram as duas Odontologias, de Araçatuba e de São José dos Campos, a Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias de Jaboticabal, a de Engenharia de Guaratinguetá e a Medicina de Botucatu.

 

Durante os anos 80, a Unesp passou por algumas modificações que ficaram registradas em seu novo Estatuto, assinado em 1989. Entre elas, destaque-se a ênfase na democratização e expansão. Durante esse período, a Universidade esteve à procura da formação de uma identidade que pudesse superar a talvez excessiva fragmentação. Esta procura significou uma aproximação cada vez maior da Universidade com o interior do Estado de São Paulo, ao atender aos insistentes apelos das comunidades do interior, quer pela incorporação de novos espaços, como nos casos da Universidade de Bauru (1987) ou na incorporação do Instituto de Física Teórica – IFT (1987).

 

Em suma, a Unesp é hoje reconhecida como uma das melhores universidades brasileiras, seja na qualidade do ensino que ministra, na excelência da pesquisa que desenvolve e, especialmente, pelos pioneiros trabalhos de extensão em curso. Portanto, foi com enorme satisfação que atendi o Convite para ministrar a Palestra “Educação Contemporânea e Tecnologias Digitais”, no último 27 de abril, por ocasião da reunião do Conselho Universitário. Os debates tiveram foco na da inovação do ensino, tanto na Graduação quanto na Pós-Graduação.

 

A palestra teve transmissão ao vivo pela TV UNESP e, aos interessados, segue link para a Palestra completa, incluindo as manifestações posteriores:
https://www.tv.unesp.br/video/DjOSWI-lrjg

 

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terça-feira, 2 de maio de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 16:06

Novos horizontes educacionais

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Educar está progressivamente se tornando mais difícil e desafiador. Ingressamos em uma sociedade na qual a informação está totalmente acessível e é instantaneamente disponibilizada, de forma gratuita. Diante deste cenário, tão ou mais relevante do que aquilo que foi aprendido (associado genericamente à cognição ou ao ato de aprender) é o amadurecimento da consciência, por parte do educando, acerca dos mecanismos segundo os quais ele melhor aprende (metacognição ou ato de aprender a aprender).

 

Vivenciaremos uma mudança progressiva de foco em direção a privilegiar as chamadas competências metacognitivas, incluindo as habilidades interdisciplinares, transversais e socioemocionais. Entre as características metacognitivas, destaco, a título de ilustração, aprendizagem independente, solução de problemas complexos, perseverança, autocontrole emocional e cumprimento simultâneo de multitarefas em equipe. Tais predicados são especialmente relevantes em missões envolvendo pensamento crítico, capacidade analítica, uso do método científico, comunicação, colaboração, criatividade, empreendedorismo, empatia, cordialidade, respeito e gestão da informação e de emoções.

 

Visando a entender melhor os horizontes educacionais no panorama mundial, o projeto “Horizon Project”, uma iniciativa do New Media Consortium (NMC), apresenta anualmente, de forma analítica e aprofundada, um balanço acerca das metodologias educacionais e tecnologias emergentes com impactos nos processos de ensino e aprendizagem.

 

A Edição Horizon 2017 é um esforço colaborativo entre o NMC e a Iniciativa de Aprendizagem Educause (ELI). No caso específico do Brasil, o relatório é capitaneado pela Editora Saraiva e o Grupo “Somos Educação”, assessorados por um Comitê de Especialistas, do qual, a convite dos Organizadores, tenho a honra de participar. O objetivo central é identificar e definir as principais tecnologias emergentes que impactarão nos próximos cinco anos a aprendizagem e a pesquisa no contexto da educação superior brasileira. Para saber mais, basta acessar o link: http://nmc.org/nmc-horizon.

 

As novas estratégias educacionais passam agora a enfatizar elementos motivacionais, incluindo atenção especial a trabalhos colaborativos (capacidade de produzir em equipe) e aspectos interdisciplinares (habilidade de estabelecer conexões entre diversas áreas do saber), acrescidos de relevância de comportamentos como tolerância e compaixão (empatia aplicada, isto é, entender o outro por se colocar na posição do outro e agir em função disso). São também relevantes os estímulos à visão empreendedora (criatividade conjugada com exequibilidade e sustentabilidade) e o especial domínio de linguagens e de plataformas digitais.

 

Complementarmente, algumas áreas que hoje ainda estão incipientes deverão se projetar fortemente ao longo dos próximos cinco anos. Entre elas, destaco genômica educacional e analítica da aprendizagem. Devido aos avanços em genética e das tecnologias digitais, será mais simples o uso de informações detalhadas sobre o genoma humano e, desta forma, identificar sua parcela de contribuição para características particulares relacionadas aos processos educacionais.

 

Genômica educacional, juntamente com analítica da aprendizagem, podem ser as chaves para uma educação personalizada. Ao colaborar no desenho de estratégias educacionais e currículos customizados, evitamos penalizar os educandos que não se encaixam nos modelos educacionais mais tradicionais voltados ao atendimento da média.

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sábado, 22 de abril de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 17:17

Educação e corrupção

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corruption

Educação está associada a todos os comportamentos e hábitos, individuais ou coletivos. Mesmo assim, não há uma correlação simples, direta e óbvia entre educação e corrupção. Países com indicadores educacionais altos apresentam casos escandalosos e sistemáticos, enquanto países com índices de escolaridade relativamente menores, por vezes, têm históricos apenas pontuais e menos endêmicos. Guardadas as diferenças e circunstâncias, não há, e provavelmente não haverá, nação ou setor da sociedade totalmente imunes a essas práticas, as quais, demandam ser fortemente reprimidas e condenadas, sempre.

A permissividade à corrupção ou sua relativização (todos fazem ou sempre foi assim), como sabemos, cobra um preço muito alto, especialmente na formação cultural do indivíduo e da sociedade como um todo. O enfrentamento da corrupção é um processo permanente no qual educa-se mais ou educa-se menos, a depender da qualidade com que ele é desenvolvido. Se a pergunta acerca do quanto nos educamos ao longo do processo não estiver presente, mesmo ações, em tese, bem-intencionadas, podem, eventualmente, gerar resultados que se contrapõem às próprias motivações que as geraram, piorando o quadro social a ser transformado.

Educa-se quando na divulgação dos processos em curso se ressalta a transparência, os avanços obtidos e tem-se, como resultado, a consolidação das instituições e a construção coletiva de novos patamares de honestidade. Não se educa, ou educa-se mal, quando se prioriza o tom generalizante ou se estimula atos persecutórios para satisfazer a ânsia irracional ou interesses imediatos, desvalorizando a democracia e as instituições, piorando a percepção do indivíduo sobre o meio em que vive.

Como apontado pela pesquisadora Nara Pavão, o pior resultado possível de um processo político é o aumento do cinismo, fruto da conclusão generalizante de que, afinal, todos são corruptos, afastando os cidadãos das boas práticas políticas e ampliando no dia-a-dia a sua tolerância com toda sorte de comportamentos inadequados. A pesquisadora demonstra que eleitores submetidos a uma sobrecarga de noticiários mais espetaculares e menos analíticos tendem a entender a corrupção como uma constante, e não mais como uma variável a ser considerada na hora da escolha no voto.

É compreensível, ainda que nem sempre aceitável, que, do ponto de vista individual, um cidadão esteja revoltado e, em certas circunstâncias, dê vazão aos seus instintos mais irracionais, via generalizações inadequadas e desprezo pela democracia e por quaisquer práticas coletivas e solidárias. A relativa tolerância com o indivíduo não deve ser a mesma com os setores institucionalizados. Qualquer um deles, incluindo o próprio judiciário ou os meios de comunicação, se examinados com as mesmas métricas e ênfases que eles aplicam aos demais setores, provavelmente, evidenciariam níveis de corrupção de mesma monta.

Não se trata de favorecer a generalização que, indevidamente, absolve, mas sim da abrangência plena que esclarece, aprofunda e educa. Da mesma forma, não se trata jamais de deixar de fazer as coisas que devem ser executadas, como divulgar, averiguar e condenar, mas fazê-las na abordagem e na amplitude que eduque, preparando a todos para o exercício permanente e racional do combate sem tréguas à corrupção.

Para o país, mais relevante do que satisfazer os eventuais ódios momentâneos do presente é a consolidação dos mecanismos perenes que motivem acreditar no futuro. Um sonho educado e realista não é um mundo sem corrupção e sem corruptos; mas, sim uma sociedade com instituições e processos que desestimulem, julguem e punam, dentro dos marcos da lei, os infratores. Precisa, para começar, que todos queiramos construir algo que assim seja e educação também tem a ver com aquilo que se consolida, depois que estes momentos passam.

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 Imagem em Domínio Público, disponível na Biblioteca do Congresso Americano: trabalho de 1903 do artista Keppler  intitulado “At the stake”, mostrando três homens, designados por “Distúrbio, Linchamento e Violência”, queimando uma figura feminina denominada “Lei e Ordem”, portando as inscrições “Preconceito” e “Desafio”.

 

 

 

 

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