Publicidade

Arquivo da Categoria EaD

segunda-feira, 6 de agosto de 2018 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 14:07

Concluintes do Ensino Médio: diminuição ou novos caminhos?

Compartilhe: Twitter

ensinomedio

 

 

O número de concluintes do Ensino Médio Regular em 2017, algo em torno de 1 milhão e 780 mil, é 2,6% menor do que o de 2016, 1 milhão e 830 mil, aproximadamente. De fato, são números assustadores em si, porém, não é tão simples indicar que eles, isoladamente, impliquem em retração inevitável de interessados em Educação Superior nos próximos anos. Claro que o desejável seria termos um crescimento contínuo e substantivo de jovens se formando naquele nível, no entanto, há outros fenômenos ocorrendo simultaneamente e que devem ser levados em conta.

 

No último domingo (05 de agosto), foi aplicado o Exame Nacional para a Certificação de Competências de Jovens e Adultos (ENCCEJA), quando 1 milhão e 340 mil inscritos, número 7,6% maior do que no ano anterior, visam a obtenção do diploma de Ensino Médio. Parte significa deles declara a expectativa de, posteriormente, pleitear vagas no Ensino Superior. Assim, é possível observar que a diminuição de formandos no Ensino Médio Regular é compensada pelo incremento, mais do que o dobro de um ano para outro, de potenciais postulantes vindos por um outro caminho.

 

Duas observações preliminares sobre o ENCCEJA. Primeira, o exame é constituído basicamente de quatro partes: matemática; ciências da natureza suas tecnologias; linguagens e códigos; redação; e ciências humanas e suas tecnologias. Segunda, o Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM) até 2016 possibilitava o recebimento de diploma do Ensino Médio, sendo que mais de 1 milhão de postulantes ao ENEM atestavam ter tal objetivo como requisito essencial para o ingresso no nível superior.

 

Assim, parte da dinâmica de interesses e opções acima parece estar associada ao relativo e crescente desinteresse dos jovens pelo Ensino Médio Regular na forma que ele é hoje. No passado, os postulantes do ENCCEJA e de seus exames predecessores eram basicamente pessoas maduras que haviam perdido a oportunidade de estudar quando na idade apropriada. Contemporaneamente, é crescente a quantidade de jovens que preferem aguardar completar 18 anos para, via caminhos alternativos, testar seus conhecimentos e, se aprovados, obter seus certificados.

 

Interessante observar que, pela primeira vez, é significativo e crescente o percentual de candidatos ao diploma de Ensino Médio que consegue acesso ao conteúdo do exame via outras formas, que não a escola tradicional. Atualmente, há várias iniciativas inéditas e estão disponíveis um conjunto de atraentes portais educativos de qualidade, parte deles gratuitos e os demais acessíveis a baixos custos. Tais caminhos se mostram cada vez mais interessantes àqueles que expressam compatibilidade com metodologias e tecnologias que permitem ao educando aprender o tempo todo e em qualquer lugar.

 

Não deve surpreender a ninguém que acompanha os processos educacionais no Brasil o fato de que, em poucos anos, o número de matrículas do Ensino Superior na modalidade a distância superará o correspondente no presencial. Da mesma forma e mais enfaticamente ainda, quanto às crianças e os mais jovens, sempre que eles tiverem a opção de explorar novas abordagens educacionais, desde que demonstrem mais compatibilidade com as formas segundo as quais eles vivem, trabalham e se relacionam com amigos e família, parte deles assim procederá.

 

São fenômenos complexos e com variáveis múltiplas. Portanto, na tentativa de simplificá-los, corremos o risco de gerar interpretações equivocadas ou demasiadamente parciais. Porém, parece inequívoco que, em geral, a tendência aponta para um sucesso educacional relativamente maior via a adoção progressiva de metodologias híbridas e flexíveis. Ou seja, a partir da incorporação apropriada de tecnologias digitais, é possível propiciar um ensino personalizado, mais atraente e eficiente. Desta forma, temos a oportunidade de cumprir com os objetivos de uma educação de qualidade para muitos, propiciando que todos estudem, desde que atendendo à indispensável customização que leva em conta o fato de que cada educando aprende de maneira pessoal e única.

 

 

—–

Imagem em Domínio Público: https://pixabay.com/pt/on-line-educa%C3%A7%C3%A3o-tutorial-3412473/

 

 

Autor: Tags: , , , , , , ,

domingo, 1 de abril de 2018 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 10:47

O mundo é FÍGITAL

Compartilhe: Twitter

IMG_0013

 

O termo Fígital, junção das palavras físico com digital (em inglês, “Phygital”), foi originalmente utilizado em marketing para descrever as experiências dos usuários em ambientes de vendas híbridos, simultaneamente físicos e digitais.  Hoje, o uso do termo transcende o significado inicial e pode ser aplicado ao conjunto de oportunidades vivenciadas nas quais não são claros os limites e as distinções entre aquilo que chamamos classicamente de real ou físico e aquilo que associamos ao virtual ou digital.

 

A título de ilustração, Realidade Mista é um exemplo mais recente desse tipo de percepção fígital, combinando experiências virtuais e aumentadas. Realidade Virtual, também conhecida como híbrida ou hiper-realidade, complementa o mundo físico do usuário com um mundo virtual, produzido digitalmente. Neste caso, é exigido que algum dispositivo seja utilizado pelo usuário, gerando um ambiente novo, tridimensional e interativo. Por sua vez, Realidade Aumentada sobrepõe o mundo físico com elementos digitais adicionais, ainda que sem a possibilidade de interação direta com eles. Ela atua como uma ponte entre os mundos físicos e digitais, inserindo elementos (informações ou objetos) virtuais à realidade física, ou seja, ao mundo original do usuário. Finalmente, a Realidade Mista combina os aspectos da Realidade Aumentada com a Realidade Virtual, sendo uma junção das duas e permitindo ancorar objetos virtuais em pontos do espaço real, tornando possível manipulá-los.

 

Tais novas realidades, especialmente a Realidade Mista, apresentam aplicações e possibilidades ilimitadas. São experiências visuais e sensoriais imersivas que permitem tanto aproximar o público comprador para testar, com níveis de detalhamentos sem precedentes, produtos do varejo, do setor imobiliário ou de entretenimento, bem como podem ser extremamente úteis em delicadas cirurgias ou outros procedimentos médicos.

 

Outro exemplo interessante de Fígital ocorre no filme Star Wars, no episódio “Rogue One”, produzido em 2016. Um dos atores do filme, Peter Cushing, falecido 22 anos antes, participa sem que os espectadores sejam informados ou percebam. Se é possível que um dos atores não esteja mais vivo, é igualmente razoável termos uma película onde todos os atores e atrizes sejam já falecidos. No limite, via plataformas digitais inteligentes, associadas ao uso de dados em grande escala disponíveis de pessoas já falecidas, é possível, em tese, viabilizar experiências inimagináveis entre vivos e mortos, integrando interativamente o físico e o virtual.  Adentramos o mundo fígital, onde as barreiras entre os espaços analógicos/presenciais e digitais/virtuais são rompidas. Um universo de novas aplicações se torna evidentes e promissor.

 

Em particular, na área da educação, as separações vigentes entre modalidades e aulas presenciais ou a distância desparecem quase por completo. As aulas podem ser holograficamente simuladas, permitindo todas as formas de interação e socialização entre os atores envolvidos no processo educacional. Onde o docente se encontra fisicamente fará menos diferença para efeito da experiência de aprendizagem vivenciada pelos seus educandos e a aprendizagem pode ser altamente favorecida. Mesmo assim, não há, e nem precisa ter, a pretensão de substituir por completo as interações humanas desprovidas de dispositivos.

 

Qualquer que seja o contexto que se avizinha, os desafios, os espantos e as oportunidades estarão presentes. A opção de desprezar ou minimizar a relevância dessas novas possibilidades representa, especialmente aos mais jovens, um risco enorme de exclusão pessoal e profissional sem precedentes. A melhor forma de naturalizarmos ao máximo essas novas tecnologias é criando mecanismos que permitam que todos, sem exceção, delas se apropriem de forma crítica e ética, ao mesmo tempo que, por causa delas, permaneçam ativos, produtivos e criativos.

———-

Imagem gentilmente cedida pelo colega Prof. Maurício Garcia.

 

 

Autor: Tags: , , , , ,

domingo, 11 de fevereiro de 2018 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 09:21

Analítica da aprendizagem disposicional: melhor agora do que depois

Compartilhe: Twitter

Os dados oficiais do ensino superior brasileiro mostram que as matrículas na modalidade presencial entre os anos de 2012 a 2016 avançaram 10%, enquanto na educação a distância o crescimento foi de 34%. Quanto ao número de concluintes, no ensino presencial a variação positiva nesse período foi de 7% e na modalidade a distância de 32%. Os dados mais impressionantes referem-se aos números de ingressantes. Frente ao substantivo crescimento de 44% em educação a distância (aproximadamente 542 mil ingressantes em 2012 contra 781 mil em 2016), houve uma redução de mais de 18% (2.204 mil ingressantes em 2012 para 1.858 mil em 2016) no ensino presencial.

 

humancomputer

 

No início desta década, qualquer alerta acerca do incrível potencial de crescimento da modalidade a distância seria objeto de alguns olhares de desconfiança. Da mesma forma, para a maioria, ainda não era clara a forte tendência para a dominância do e-learning (baseado na internet), em contraposição ao chamado semipresencial. Idêntico ceticismo valeria para a previsão de que o dispositivo dominante de aprendizagem online viria a ser o celular, como é hoje, e não os computadores, notebooks e tabletes.

 

Contemporaneamente, um dos grandes desafios no ensino superior é dimensionar o papel da analítica da aprendizagem (em inglês, “learning analytics”). Esta ferramenta e suas evoluções se mostrarão, cada vez mais, essenciais e imprescindíveis, contribuindo nos desenhos dos processos de aprendizagem mais efetivos.

 

Analítica da aprendizagem diz respeito à técnica que se caracteriza pela coleta sistemática e pela análise rigorosa de dados dos educandos e de seus contextos educacionais, tendo como propósito o entendimento dos processos de aprendizagem e dos ambientes nos quais eles ocorrem. Assim, é possível desenvolver e aprimorar desenhos de aprendizagem (em inglês, “learning designs”), nos quais múltiplas trilhas educacionais podem ser construídas e disponibilizadas aos alunos. Nesta perspectiva, é possível viabilizar processos personalizados, atendendo características peculiares de cada educando ou próprias do ambiente educacional específico.

 

Nos estágios iniciais da analítica de aprendizagem, os estudiosos se limitavam a modelos preditivos simples baseados em dados extraídos das informações disponíveis dos estudantes. O uso crescente de plataformas digitais pelos alunos e dos sistemas de gestão de aprendizagem pelas instituições, progressivamente, tem gerado uma quantidade inédita de dados qualificados. A partir deles, observamos avanços significativos nas aplicações da analítica da aprendizagem, nos desenhos educacionais propostos e nas intervenções pedagógicas deles decorrentes.

 

Mais recentemente, foi introduzida a estratégia da analítica da aprendizagem disposicional (em inglês, “dispositional learning analytics”), a qual combina os dados gerais de aprendizagem com elementos disposicionais próprios dos educandos, incluindo seus comportamentos, suas atitudes e seus valores. A coleta desses dados disposicionais tanto pode ser realizada via respostas fornecidas diretamente pelos próprios estudantes, como via o monitoramento de suas reações, a partir de situações induzidas com propósitos específicos.  Os aspectos disposicionais que estamos interessados devem representar diferenciais característicos dos educandos e de suas circunstâncias, incluindo aspectos comportamentais, cognitivos, metacognitivos (envolvendo a percepção do aprendiz sobre a própria aprendizagem) e afetivos.

 

No Brasil, temos a oportunidade de adotar quanto antes esta estratégia, em complemento às metodologias inovadoras associadas e às novas tecnologias disponíveis. A aplicação da analítica da aprendizagem disposicional, certamente, contribui para a construção de abordagens educacionais que viabilizem que todos aprendam, aprendam o tempo todo e em qualquer lugar, e, especialmente, que cada um aprenda de maneira única e personalizada.

 

————

Fonte da figura: University of Rochester, em “Dancing with Computers. In the field of Human-computer interaction, computer science meets human behavior”. De Kathleen McGarvey, com ilustrações de John W. Tomac para “Rochester Review”. Ver o link:

https://www.rochester.edu/pr/Review/V78N2/images/slide_hci3.jpg

 

Autor: Tags: , , , , , , , ,

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018 EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 09:00

Educação digital em 2018: do linear para o exponencial

Compartilhe: Twitter

exp

 

Comportamentos de variáveis ao longo do tempo podem ser descritos por modelos matemáticos.  Dois dos modelos mais utilizados são: o modelo linear, representado por funções do tipo y = ax + b, e o modelo exponencial, no qual se empregam funções do tipo y =  beax.

 

No início, podem ocorrer períodos em que os dois comportamentos se confundem e um desafio é tentar identificar quando eles se separam. Um exemplo atual interessante é o número de matrículas na modalidade Educação a Distância (EaD) no ensino superior brasileiro. Os dados mais recentes, ainda não oficiais, indicam que, provavelmente, neste ano o crescimento exponencial seja evidenciado.

 

O número de matrículas EaD vem crescendo de forma contínua e sustentável por mais de uma década, tendo atingido quase 1,5 milhão em 2016 (dados disponíveis do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira/ INEP/MEC), o que já representa uma participação de quase 20% do total de matrículas da educação superior. Interessante observar também que o número de matrículas em cursos de graduação presencial diminuiu nos últimos anos (decréscimo de 1,2% entre 2015 e 2016, enquanto na EaD o aumento de matrículas foi de 7,2%). Tais tendências, provavelmente, têm sido acentuadas mais recentemente.

 

Se neste ano o crescimento da EaD evidenciar ser mais bem descrito pela forma exponencial e se considerarmos que no ensino presencial a adoção da EaD no limite superior de 20% está, praticamente, universalizada, poderemos afirmar que, antes do final desta década, mais da metade das atividades didáticas serão ministradas via EaD.

 

Em 2017, foi inaugurado um novo marco regulatório para o ensino superior brasileiro, o qual tende a induzir mudanças mais profundas e abrangentes ao longo da próxima década. Destaque-se que a separação abrupta entre as duas modalidades, presencial e a distância, conforme previsto em lei, é algo peculiar do Brasil. No restante do mundo, a grande tendência é o modelo híbrido, o qual visa a combinar, com bastante liberdade e customizado caso a caso, as melhores ferramentas advindas tanto das experiências presenciais como não-presenciais. O que torna ainda mais complexo este processo é que, à luz de uma nova realidade baseada em educação híbrida, flexível e aberta, o próprio conceito atual de presencialidade, em poucos anos, se perderá por completo, quando sequer saberemos distinguir a presença da criptopresença.

 

Não completamos ainda sequer metade do caminho previsto no Plano Nacional de Educação (PNE) da década passada “garantir acesso ao ensino superior a 30% dos jovens entre 18 a 24 anos” –, tampouco o previsto nesta década “1/3 desses jovens na educação superior”. Portanto, a utilização das novas tecnologias e a adoção de metodologias educacionais inovadoras são certamente imprescindíveis e estratégicas para oportunizar que interessados de todas as classes sociais possam ter acesso à educação superior.  Além disso, como apontado pelo INEP, progressivamente, mais de 40% dos ingressantes no ensino superior estão em faixas etárias mais maduras (acima de 24 anos). Esta população demanda abordagens educacionais próprias capazes de permitir que, mesmo tardiamente, possa qualificar-se profissionalmente.

 

Distintamente da educação presencial, na educação digital a escala não compromete a qualidade, muito pelo contrário. Todos os especialistas internacionais têm segurança em afirmar que a racionalidade e a economicidade envolvidas na utilização das tecnologias digitais na educação permitem baixar custos e aumentar qualidade simultaneamente. Os estímulos para o acesso pleno ao conteúdo antes das aulas e a intensa utilização de portais eletrônicos e de plataformas educacionais, especificamente desenhadas para cada contexto, são possibilidades inovadoras e disponíveis. A ênfase na aprendizagem independente, centrada no aprender a aprender ao longo de toda vida, e o ensino baseado em metodologias ativas e em solução de problemas são novidades já incorporadas, ainda que preliminarmente. Enfim, metodologias que levem em conta as características personalizadas de cada educando, suas demandas específicas e os ambientes peculiares do mundo do trabalho contemporâneo são exemplos de iniciativas positivas em curso.

 

A título de reforço da abrangência do fenômeno acima, qualquer outra área de atividade humana pode ser considerada para estabelecermos possíveis analogias. Isso só é possível porque o motor comum dessas transformações é a presença das tecnologias digitais. Ou seja, a velocidade e o nível de radicalidade das mudanças estão associados à migração, ainda em curso, em direção a uma sociedade em que a informação se torna totalmente acessível, instantânea e basicamente gratuita.

 

Portanto, unicamente como referência do avanço do digital sobre o analógico, adota-se aqui um caso ilustrativo, a capitalização de mercado, a qual se refere a uma das medidas do tamanho de uma empresa. Trata-se do valor de mercado total das ações em circulação de uma empresa, também conhecido como limite de mercado.

 

Durante o século passado, as maiores empresas do mercado acionário estiveram associadas ao mundo analógico, seja à energia (basicamente petróleo), à indústria automobilística e ao setor bancário. Na virada do século, há apenas 17 anos, entre as cinco maiores aparecia, de forma inédita, uma empresa do mundo literalmente digital, a Microsoft.  Neste caso, dividindo a dianteira com duas de energia (Exxon e GE), um Banco (Citi) e uma empresa de varejo (Walmart).

 

O quadro atual, conforme descrito no Relatório 2017 da respeitável PricewaterhouseCoopers, lembra pouco aquele anterior. A empresa que atualmente é, pelo sexto ano seguido, a número 1 do ranking (Apple) sequer constava entre as cinco maiores no começo deste século. Além disso, a única que ainda sobrevive nesse restrito clube é a Microsoft. Desnecessário chamar a atenção para o fato de que atualmente todas, sem exceção, estão diretamente associadas ao mundo das tecnologias digitais. Por outro lado, empresas como a GE já não constam entre as 100 maiores.

 

Atualmente, empresas baseadas em tecnologias digitais predominam entre as maiores, acompanhadas, com certa distância, por aquelas do setor financeiro e, na sequência, companhias do setor de varejos. Os Estados Unidos, ao contrário do que possa parecer aos incautos, têm aumentado sua participação (hoje em 55%) entre as 100 maiores e é a sede das 10 principais empresas. É cada vez mais notável a presença crescente de empresas chinesas, como era de se esperar, e a Europa, que detinha 36% do mercado há 10 anos, agora detém somente 17%. A título de comparação, o Brasil em 2009 tinha 3 companhias listadas entre as 100 maiores, hoje resta somente uma.

 

As transformações na economia impactam, bem como são afetadas, pelos cenários educacionais vigentes. As tecnologias digitais invadem as escolas e impregnam o seu entorno, em especial no que diz respeito aos cidadãos e profissionais que nelas se formam. Elas transcendem os espaços de aprendizagem e também ocupam e definem as oportunidades de novos empregos e de negócios inovadores.

 

Assim as consequências educacionais são complexas, múltiplas e ilimitadas. Uma delas, a mais simples e direta, é que os modelos educacionais e as estratégias de ensino e aprendizagem fortemente influenciados pelos referenciais Fordistas/Tayloristas, dominantes no século XX, já não são mais suficientes. Ou seja, a escola tradicional, que desempenhou, com competência e pertinência, papel central em tempos recentes, está distante de atender plenamente às demandas do mundo contemporâneo.

 

Se no século passado a capacidade de memorizar conteúdo e a aprendizagem de técnicas e procedimentos eram o centro, atualmente o amadurecimento dos níveis de consciência do educando acerca de como ele aprende torna-se gradativamente mais relevante. Em termos mais simples, aprender a aprender passa a ser tão ou mais importante do que aquilo que foi aprendido.

 

Pessoas educadas são essenciais para a melhoria da qualidade de vida e para o aumento da competitividade e produtividade de um país. A formação de cidadãos aptos a desempenharem tarefas complexas é missão urgente e imprescindível. Explorar esta nova realidade, onde todos aprendem, aprendem o tempo todo e cada um aprende de forma personalizada, é, portanto, o maior de todos os desafios do mundo da educação.

—–

Figura: conforme linkado em “modelos matemáticos”.

Autor: Tags: , , , ,

terça-feira, 28 de novembro de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 09:01

Lançamento do livro e do aplicativo em Brasília dia 05/12 na ABMES

Compartilhe: Twitter

CONVITEBRASILIAjpeg

 

No próximo dia 05/12, terça-feira, das 08h30 às 12h30, em Brasília-DF, na sede da ABMES,  o livro “A Arte da Educação” e o app “Ronaldo Mota Online” serão lançados.

 

Aqueles interessados em adquirir o livro online podem fazê-lo imediatamente via o link da Editora Obliq:  https://www.obliq.com.br/uc6e0tmk-a-arte-da-educacao.

 

Com o aplicativo “Ronaldo Mota Online”, desenvolvido em conjunto com Digital Pages, será possível acessar gratuitamente a versão completa do e-book “A Arte da Educação” e os diversos depoimentos realizados sobre a obra, para leitura tanto em modo online quanto off-line. Diversas ferramentas interativas de leitura estarão disponíveis, como anotações, favoritos, sumário, ferramentas de busca, atalhos para páginas e um menu ajuda. Para acessar o aplicativo, basta baixá-lo, a partir de 05/12, em uma das lojas disponíveis (Google Play ou Apple Store).

 

Abaixo, mais sobre a obra:

 

———————————-

A ARTE DA EDUCAÇÃO

 

Ao início era a obra

com cara de segunda-feira.

 

Trigo na forma bruta

água que não faz espuma

letras que se desentendem

movimento e energia.

 

Em seguida vem o corpo

expressão de sexta-feira.

 

Massa enquanto barro

caldo que se mistura

sentenças que se conversam

cansaço querendo espaço.

 

No meio temos o forno

com jeito de precisão.

 

Alimento quase pronto

recheio que se junta

páginas que se seguem

fome de conclusão.

 

Tempo feito em partes

a arte da educação.

 

Ciclo permanente

quando todos aprendem

aprendem o tempo todo

cada um cada qual.

 

Final lembrando recomeço

parecido mas diferente.

 

Não somos mais os mesmos

sabemos pouco mais

cientes que nunca fecha

nova volta a completar.

 

Ronaldo Mota

 

Autor: Tags: , , , , , ,

quinta-feira, 17 de agosto de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 16:42

O conteúdo, um álibi perfeito

Compartilhe: Twitter

alibi3

 

Nas culturas primitivas, onde não havia ensinamentos formais ou escolas, todas as atividades poderiam ser vistas como processos de aprendizagem e de transmissão de cultura. À medida que as sociedades foram se tornando mais complexas, os conhecimentos a serem repassados de uma geração para outra se organizaram de forma sistemática em áreas do saber. Estas foram, progressivamente, ficando mais sofisticadas, exigindo da educação formal um nível diferenciado de institucionalização, envolvendo modelos de organização próprios com a presença de atores bem definidos.

 

As crianças e os jovens, como alunos, passaram, gradativamente, a ter acesso a uma educação que lhes permitia, via a escola e seus mestres, avançarem muito além da simples observação e da imitação genérica de adultos. No mundo ocidental, costuma-se adotar como paradigmas originais da instituição “escola” a Academia de Platão e o Liceu de Aristóteles, instituições inauguradas no século IV a.C. em Atenas na Grécia Antiga.

 

Ao longo dos tempos, a transmissão de conhecimento para públicos cada vez maiores, progressivamente, mostrou-se mais adequada ser desenvolvida sob a forma de áreas do saber. Assim, a preparação de alunos via abordagens cognitivas, baseadas em conteúdos, e as metodologias educacionais associadas desfrutaram de enorme sucesso, em especial pela capacidade do atendimento pleno da formação de profissionais para a Revolução Industrial, nos séculos XIX e XX. O essencial era o domínio de um determinado conteúdo, acoplado a um conjunto de técnicas e procedimentos razoavelmente bem definidos.

 

O mundo contemporâneo evidencia grandes contrastes com o passado recente, em especial pela onipresença das tecnologias digitais, as quais inundam todos os setores, mudando hábitos e comportamentos e contribuindo com a redefinição de culturas. Muito mais do que uma era de mudanças, vivenciamos uma mudança de era. Novos modelos de desenvolvimentos econômicos, sociais e ambientais estão sendo discutidos e implementados, demandando cidadãos com características bastante diversas do século anterior.

 

Dos profissionais do futuro, tanto quanto o domínio de conteúdos específicos, serão exigidos, cada vez mais, o destemor de enfrentar desafios inéditos, as habilidades socioemocionais acopladas, a competência para trabalhar em equipe e, principalmente, a capacidade de completar, com sucesso, missões complexas. Tudo isso à luz do acesso ilimitado, instantâneo e gratuito a todo o conhecimento disponível.

 

Do ponto de vista das metodologias educacionais, os maiores desafios contemporâneos estão associados à adequada incorporação das tecnologias digitais e a adoção de arquiteturas curriculares e percursos formativos que contemplem as habilidades com a mesma atenção que o conteúdo desfruta, garantindo uma educação compatível com a realidade atual na qual todos aprendem, aprendem o tempo todo e cada um à sua maneira.

 

Tais tarefas incluem o uso adequado de plataformas de aprendizagem e técnicas de analítica da aprendizagem, as quais, em conjunto com a edugenômica, permitem conhecer o educando de forma inédita. Assim, torna-se possível estabelecermos os marcos de uma educação flexível e personalizada, customizada à luz da realidade específica e apropriada para cada educando e seus propósitos.

 

Neste contexto, é preponderante o papel que a metacognição, que transcende a cognição, passa a ter. A ênfase na metacognição permite ir além do conteúdo e sua assimilação, evidenciando ser igualmente importante um conjunto de habilidades socioemocionais e a reflexão, por parte do estudante, sobre a sua própria aprendizagem.

 

As metodologias educacionais especialmente preocupadas com a metacognição não dispensam o conteúdo, nem o desprezam. Ele era, é e sempre será importante, sendo que quanto mais profundo melhor. Mas, por vezes, o conteúdo pode ser visto também como uma espécie de álibi perfeito. Ou seja, tão relevante quanto o que foi aprendido (o conteúdo) é garantir que o educando tenha ampliada sua consciência acerca de como ele aprende (a arte do aprender a aprender), preparando-o para uma educação permanente ao longo da vida.

 

 

—————————————-

A figura é o do filme “Um álibi perfeito / Reasonable Doubt”, de Peter Howitt, Canadá-Alemanha, 2014. Ver mais em:

Um Álibi Perfeito / Reasonable Doubt

 

Autor: Tags:

sexta-feira, 11 de agosto de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 07:50

Flexibilizar as diretrizes curriculares: estímulo às práticas inovadoras

Compartilhe: Twitter

innovation

 

A Lei 9.394/1996 (Lei de Diretrizes e Bases/LDB), entre outras contribuições, desfez a vinculação presumida entre diploma de nível superior e exercício profissional. A LDB define que os diplomas se constituem em prova da formação recebida por seus titulares. Cabe às corporações regular os exercícios dos profissionais após formados.

 

A exigência de currículos mínimos nos cursos superiores até meados da década de 1990 havia sido fortemente influenciada pelas ordens profissionais, com indesejáveis detalhamentos de disciplinas e cargas horárias e inibindo a inovação dos projetos pedagógicos dos cursos. A LDB apontou no sentido de assegurar maior flexibilidade na organização de cursos e carreiras, coerente com as tendências contemporâneas de considerar a formação no nível de graduação como etapa inicial da formação continuada.

 

Dentro do mesmo espírito, a Lei 9.131/1995, a qual criou o Conselho Nacional de Educação (CNE), conferiu, entre as atribuições de sua Câmara de Educação Superior (CNE/CES), deliberar sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para os cursos de graduação. As DCN representaram um avanço em relação à concepção baseada em currículos mínimos. Elas deveriam contribuir para a inovação e a qualidade do projeto pedagógico do ensino de graduação, oferecendo uma sólida formação básica, preparando o futuro graduado para enfrentar os desafios das rápidas transformações da sociedade, do mercado de trabalho e das condições de exercício profissional.

 

As DCN, progressivamente, explicitariam as competências e as habilidades a serem desenvolvidas em cada curso, as respectivas cargas horárias mínimas e contemplariam orientações para os estágios e demais atividades que integrem o saber acadêmico à prática profissional, incentivando o reconhecimento de saberes adquiridos dentro e fora do ambiente escolar.

 

Com o tempo, porém, aquilo que havia sido um progresso, gradativamente, se cristalizou como um novo obstáculo aos avanços necessários para dar conta das demandas acerca da formação de um profissional contemporâneo. Atualmente, mediados pelas tecnologias digitais que invadem todos os espaços e setores sociais, temos o desafio de inovarmos as práticas educacionais conjugando quantidade com qualidade. Para tanto, há que se ofertar boa educação para todos, acessível o tempo todo e em todos os lugares e, principalmente, personalizada, customizada a partir das características e circunstâncias de cada educando.

 

Neste novo contexto, as DCN representam camisas de força inibidoras de novas experiências pedagógicas. Recentemente, ouvi do Prof. Edson Nunes, ex-presidente do CNE e grande educador, a afirmação de que uma desejável primeira medida de uma eventual reforma do ensino superior seria declarar extintas todas as DCN.

 

A LDB prevê estimular novas práticas educacionais, em caráter experimental, sem prejuízo aos espaços de controle regulatório exercido pelos órgãos de estado responsáveis. O art. 81 da LDB estabelece que é permitida a organização de cursos em caráter experimental, desafiando os educadores a explorarem inovações.

 

Fazendo uso desse dispositivo da LDB, seria altamente positivo um eventual desafio, partindo do Ministério da Educação (MEC), estimulando, por um período delimitado, que as instituições com cursos já reconhecidos e bem avaliados apresentassem propostas experimentais. Salvo engano, uma Portaria simples do MEC, em consonância com o CNE, abriria as portas para bem-vindos projetos acadêmicos inovadores.

 

A título unicamente de exemplo, seriam viáveis propostas de cursos híbridos e flexíveis que, entre outras novidades, fossem além do limite de 20% de educação a distância em cursos presenciais. Ou seja, seriam autorizados, de forma ágil, experimentos acadêmicos inovadores, desde que com justificativas convincentes de melhoria da qualidade de aprendizagem. Comissões de educadores, sob coordenação da CNE/CES ou de quem mais o MEC designar, fariam os acompanhamentos e análises dos resultados.

 

Findos os prazos previstos de experimentação e de avaliação das iniciativas, seria possível examinar se há ou não argumentos para alterar as DCN e demais regras em vigor. O relevante neste processo proposto é que terão sido as inovações acadêmicas e suas práticas educacionais induzidas, examinadas a partir de evidências de atingimento de resultados, que inspirarão as futuras orientações.

————————– 

Figura em Domínio Público, acessível em:  

http://www.publicdomainpictures.net/pictures/10000/velka/1210-1240955589bN31.jpg

Autor: Tags:

sábado, 5 de agosto de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 08:21

Blockchain: o que é e para que serve

Compartilhe: Twitter

blockchain

 

Blockchain é uma ideia original e genial apresentada em 2008 no artigo “Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System”, publicado em nome de Satoshi Nakamoto, cuja real identidade é ainda controversa. O conceito é simples e claro: toda informação digitalizada pode ser amplamente distribuída em toda a rede internet e validada de forma descentralizada, confiável, fiel e eficiente, dispensando intermediários. Sua aplicação mais relevante e conhecida é a moeda digital Bitcoin. A partir do seu grande sucesso, novas aplicações têm sido sugeridas.

 

Contratos, transações e registros ocorrem o tempo todo na internet. Ao adotar a tecnologia blockchain, os registros são formatados, validados e acumulados em blocos, retratando tudo o que já foi realizado, adicionados linear e cronologicamente. Todos os nós associados a um específico processo, ou seja, todos os computadores autorizados e conectados, têm a tarefa de disponibilizar e validar as transações e ao fazê-lo obtêm uma cópia da blockchain registrada. A posse do registro permite acesso à informação completa sobre os endereços e dados diretamente do bloco original até o bloco recentemente finalizado, constituindo-se na prova acerca das transações ocorridas na rede relativas àquele processo. Como ilustração de autenticações digitais em áreas diversas da financeira, o Massachusetts Institute of Technology, MIT, é o pioneiro no uso de blockchain na emissão de diplomas e o Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio, ITS, o primeiro a emitir certificados no Brasil.

 

Se uma eventual correção de transação existente for necessária, os nós envolvidos devem majoritariamente executar alguns algoritmos para avaliar e verificar o histórico, gerando um novo consenso e assim, se for o caso, um novo bloco é adicionado à cadeia de transações. Eventualmente, uma parte dos nós não reconhece a adição e a entrada é negada e nada é adicionado à cadeia. O fato dos nós autorizados verificarem diretamente as transações elimina a necessidade de câmaras de compensação e outros agentes intermediários, reduzindo custos, eliminando burocracias e burocratas, aumentando a velocidade e ampliando a fidelidade dos dados registrados. Assim, as assinaturas digitais evitam que estranhos ou mal-intencionados possam causar danos à fidelidade dos dados e à integridade criptográfica, associados ao exame dos múltiplos nós da arquitetura blockchain.

 

A título de exemplo de área potencial de aplicação da tecnologia, cito a regulação do ensino superior brasileiro, em especial do setor privado na sua relação com o governo federal. A regulação tem como centro a Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior, SERES, do Ministério da Educação (MEC), tendo como referencial básico o processo avaliativo a cargo do Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais, INEP, do mesmo ministério. A regulação, portanto, envolve, além dos dois atores citados, milhares de instituições de ensino superior, incluindo seus docentes, estudantes e colaboradores, contemplando no processo as relações com os demais interessados (Secretaria da Educação Superior/MEC, Conselho Nacional de Educação, associações profissionais, pais dos alunos, concorrentes no setor, empresas etc.).

 

A execução desse processo tem se mostrado demasiadamente complexa, dado que os protocolos e os agentes envolvidos demandam burocracias enormes e níveis de confiabilidade que sugerem, mesmo quando bem feitos, questionamentos. Além de ser um sistema oneroso que impacta no estado, demandando forte burocracia, e, em última instância, custeado em parte pelos estudantes do ensino superior, dado que naturalmente os custos são repassados às mensalidades.

 

O Censo da Educação Superior, parte integrante do processo avaliativo e regulatório, poderia ser extraído online com total fidelidade, contendo os registros do corpo docente bem como os acompanhamentos diários dos dados de cada disciplina e turma, tornados públicos naquilo que for pertinente, gerando validações contínuas e confiáveis. Os registros acadêmicos, individuais de cada estudante e os coletivos de toda a instituição, assim como as instalações, laboratórios, bibliotecas etc. constituiriam dados registráveis, validados e verificáveis instantaneamente.  Como ocorre com o Bitcoin, só seria tornado público aquilo que foi acordado entre as partes, com diversos níveis de privacidade a serem respeitados.

 

Assim, a regulação do ensino superior brasileiro, especialmente do setor privado, poderia ser efetivada em níveis de transparência e eficiência sem precedentes e a um custo infinitamente menor. As ações adicionais de outras naturezas (supervisões, visitas in loco etc.) estariam reservadas para casos excepcionais, frutos de indicação de necessidades apontadas pelo sistema implementado.

 

É possível, portanto, a partir da adoção de adequadas tecnologias inovadoras, melhorar efetivamente a oferta de vários produtos e serviços regulados pelo estado. Da mesma forma, a fidelidade e a completeza dos dados disponíveis permitem a elaboração e a implementação de políticas públicas de alta qualidade em muitos setores no mundo contemporâneo.

—–

Figura em Domínio Público, disponível em: https://images.pexels.com/photos/356358/pexels-photo-356358.jpeg?h=350&auto=compress&cs=tinysrgb

 

Autor: Tags:

sexta-feira, 28 de julho de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 18:21

Pobres meninos ricos

Compartilhe: Twitter

happy-boy-1490280477Eu2

 

Há vários estudos demonstrando como a miséria e a pobreza dificultam a aprendizagem. Uma outra variável menos estudada é o quanto as discrepantes desigualdades sociais afetam a todos, inclusive os mais ricos. Ou seja, mesmo aqueles que têm acesso a tudo, pelo convívio em sociedades excludentes, também são negativamente atingidos, em especial na educação.

 

O Pisa – Programa Internacional de Avaliação de Alunos – é uma avaliação internacional que mede desde 2000, a cada três anos, o nível educacional de jovens de 15 anos por meio de provas de Leitura, Matemática, Ciências e, mais recentemente (desde 2012), Conhecimentos em Finanças. O exame é realizado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), entidade formada por governos de 30 países que têm como princípios a democracia e a economia de mercado. Países não membros da OCDE, como é o caso do Brasil, também podem participar do Pisa enquanto convidados. Atualmente, 70 países participam do Pisa, cujo objetivo principal é produzir indicadores que contribuam para a discussão da qualidade da educação básica e que possam subsidiar políticas nacionais de melhoria da educação.

 

Na última edição do Pisa (2015), pela primeira vez o Brasil participou da prova específica de conhecimentos financeiros, sendo um dos 15 países onde o teste foi aplicado. Nossos resultados não foram bons, a exemplo das demais matérias, mas desta vez neste quesito ficamos em último (média de 393 pontos, atrás de países da região como Peru, com 403, e Chile, com 432 pontos). Um detalhe interessante mereceu a atenção e análise de estudiosos: mesmo nossos alunos mais ricos tiveram baixíssimo rendimento. Em outras palavras, temos um problema educacional grave, em todas as áreas, acrescido do fato que mesmo aqueles com acesso a bens e serviços de mais qualidade evidenciam grandes chances de resultarem pouco competitivos em uma economia de escala global.

 

No teste de conhecimentos financeiros, se considerarmos somente os alunos brasileiros mais pobres o resultado é uma média de 364 pontos (penúltimo lugar, à frente do Peru), enquanto os mais ricos ficaram em último lugar com 441 pontos. Portanto, uma diferença de 77 pontos entre eles, enquanto nos demais países a média das diferenças entre os 25% mais ricos e os 25% mais pobres é de quase a metade, 40 pontos. Em resumo, fomos mal em ambos os extremos, sejam os mais ricos ou os mais pobres, e a desigualdade de notas entre eles é bem maior do que o observado em média nos demais países.

 

Se os resultados educacionais fossem lineares com as respectivas rendas per capita de cada país, os alunos brasileiros deveriam, em tese, ter obtido aproximadamente 40 pontos a mais do que tiveram, evidenciando que a nossa realidade econômica é agravada pelas disparidades sociais específicas. Ou seja, os enormes contrastes sociais projetam uma elite não competitiva convivendo com as classes populares também despreparadas. Em outras palavras, o Brasil pode, eventualmente, ter ciclos de crescimento, como os tem tido; porém, sem enfrentar seus dilemas sociais e educacionais, conviverá eternamente com fortes dificuldades em atingir um desenvolvimento econômico, social e ambiental que seja efetivamente sustentável.

 

Como apontado em artigo anterior, as raízes deste destino de provável baixa produtividade e consequente dificuldade de competitividade global estão bem descritas desde a clássica obra “Casa-grande & senzala” de Gilberto Freyre, publicada em 1933. De um lado, uma “casa-grande”, basicamente acomodada e pouco estimulada a competir. De outro, a “senzala” que permanece apartada, ainda que com soluços esporádicos de inclusão social, e que não dispõe das ferramentas e dos instrumentos próprios que lhe permita ser o polo principal do aumento de produtividade e a promoção do desenvolvimento econômico.

 

Um desenvolvimento sustentável não pode depender exclusivamente de educação, mas sem ela não haverá sustentabilidade alguma. No mundo da educação, temos uma singular oportunidade, a partir de nosso caldo cultural particularmente afável às tecnologias digitais e com demonstrações evidentes de competência no seu uso, de conjugarmos quantidade com qualidade. Qualidade para poucos ou má qualidade para muitos não é inovar, é repetir o passado que não está dando certo. A melhor definição contemporânea de inovação, inclusive em educação, é a geração de produtos e serviços novos que viabilizem ofertamos qualidade para muitos.

 

—————————–

Contatos: ronamota@gmail.com

Figura em Domínio Público, via:

http://www.publicdomainpictures.net/pictures/210000/velka/happy-boy-1490280477Eu2.jpg

Autor: Tags:

segunda-feira, 17 de julho de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 19:17

Educação superior para o mundo contemporâneo: o macro, o meso e o específico

Compartilhe: Twitter

sbpc2

 

Nesta semana (dia 18/7), por ocasião da Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, na Mesa-redonda coordenada pela Presidente da SBPC, Helena Nader, serei um dos palestrantes. Segue abaixo um breve resumo da palestra a ser proferida às 15h no Auditório da UFMG.

 

O tema “Educação Superior” é certamente complexo e de tal natureza abrangente que seria ingenuidade imaginarmos sermos capazes de abordar todos os aspectos relevantes e, claramente, impossível cobri-los satisfatoriamente. Assim, opções de abordagens são inevitáveis e seguramente limitadoras, incluindo simplificações não desejáveis, mas inexoráveis.

 

Prefiro, pela exiguidade de tempo e espaço, simplificar a questão abordando-a sob três diferentes perspectivas, distintas entre si, ainda que complementares: a de macro escala, de mesoescala (intermediária) e de escala específica. Este tema não sugere neste momento as análises micro ou nano. Não porque não existam essas escalas, mas sim porque menos relevante à luz do propósito específico desta Mesa.

 

Aspecto macro

 

Do ponto de vista macro, educação superior trata de tema cujas abordagens ou soluções se entrelaçam globalmente, ainda que preservem características e peculiaridades regionais e locais. Um desafio geral, enfrentado por todos os países atualmente, é o papel da escola, incluindo neste tópico as missões das instituições de ensino superior.

 

A escola, pelo menos na vertente ocidental da história humana, nasce em Atenas, na Grécia Antiga, em torno de 400 a.C., em substituição aos sofistas, algo como professores particulares autônomos responsáveis pela formação da nova elite dirigente. Paradigmaticamente, o modelo de escola em vigor até hoje se assenta na Academia de Platão, sendo o Liceu da Aristóteles, na sequência, o cristalizador das práticas, das abordagens e das metodologias decorrentes.

 

A escola que nasce em Atenas se desenvolveu ao longo de séculos e milênios guardando a mesma essência de sua criação, porém, inicialmente de impacto limitado pelo baixo número de pessoas letradas e pela dificuldade de acesso aos textos (raros pergaminhos). Uma novidade positiva e transformadora somente ocorreria no século XV, quase dois milênios depois de Atenas, com a introdução do livro moderno, com Gutenberg. O reforço da acessibilidade ao conhecimento, fruto da abundância de textos escritos (Bíblia, Aristóteles, Platão e todos os demais pensadores anteriores) e do crescimento do número de letrados, deu o impulso que as nascentes universidades europeias precisavam para se cristalizarem como centros de divulgação e de produção do conhecimento. Isso incluía o conhecimento baseado no método científico, amadurecido pelas contribuições de Galileu e de Newton, nos séculos XVII e XVIII.

 

Os avanços decorrentes do método científico fizeram brotar tecnologias como a máquina a vapor, a qual, em conjunto com as leis de mecânica, da termodinâmica e do eletromagnetismo, entre outros avanços, alavancaram a Revolução Industrial que mudou a face do planeta, com a profundas marcas que permanecem até os dias atuais.

 

O ápice da dinâmica acima referida ocorreu ao longo dos séculos XIX e XX, especialmente este último, quando ficou evidente a demanda pela formação em grande escala de profissionais que fossem compatíveis com as demandas típicas dos modelos de desenvolvimento fordistas e tayloristas adotados. A escola do século XX, fruto de suas metodologias e concepções, se mostrou plena e totalmente capaz de dar conta dessa demanda. Nenhuma outra instituição foi tão bem-sucedida em suas missões como foi a escola no século passado, fazendo dela um ente quase sacro. Da mesma forma, o professor tornou-se alguém relevante e respeitado, ainda que com salários nem sempre satisfatórios.

 

A história tem seus percalços, inclusive para a escola. Similarmente às quebras de paradigmas promovidas pelo surgimento da escola em Atenas ou da invenção do livro moderno no Renascimento europeu, o século XXI trouxe junto o advento das tecnologias digitais maduras, as quais reconfiguram os hábitos, os costumes e a forma como vivemos e nos relacionamos, incluindo as maneiras diversas com que aprendemos e ensinamos. Ou seja, as concepções, as metodologias e as abordagens educacionais (observar que eram e são múltiplas) não deram conta ainda da radicalidade das mudanças, processo este ainda inconcluso e em pleno curso.

 

De forma extremamente reduzida e simplificada, o tratamento por média, adotado pelas escolas nos séculos anteriores, fizeram delas entes apropriados para atender as demandas e escalas de então. Os eventuais desvios e prejuízos decorrentes das metodologias eram minimizados pelo franco sucesso advindo do pleno cumprimento da missão proposta. A maioria dos educandos aprendia o suficiente em termos do conjunto de conhecimentos, bem como as técnicas e os procedimentos associados, necessários e adequados ao cumprimento médio das tarefas às quais seriam desafiados. Isso parecia suficiente e receita de sucesso quase eterno. Para surpresa de todos, especialmente dos educadores, o mundo contemporâneo parece hoje querer fechar aquelas portas o quanto antes, de forma abrupta e quase sem aviso prévio.

 

A realidade é que a escola, suas metodologias tradicionais e seus docentes não dão mais conta dos desafios contemporâneos. Temos naturais dificuldades em aceitar isso, muito em função do extremo respeito que devemos aos locais nos quais todos aprendemos até recentemente, bem como por causa de nossos justificáveis respeitos àqueles honrados e queridos mestres que nos ensinaram. Os elementos específicos educacionais associados serão tratados no terceiro aspecto a ser aqui abordado, após o segundo que vem a seguir.

 

Aspecto mesoescala

 

A questão anterior acerca do papel da escola no mundo contemporâneo é universal, quase sem grandes distinções em termos de desafios entre as diversas realidades, seja entre nações ou entre realidades regionais e locais. Por sua vez, não tem como abordar o papel da educação superior sem sua conexão com a realidade social e econômica de cada espaço no qual ela é praticada.

 

O “quem somos” e “onde estamos” interferem fortemente nos resultados e nas análises, mediados nessa mesoescala. O Brasil, entre as diversas características que lhes são próprias, há duas destacáveis: o grande contraste social e a aparente incapacidade para um desenvolvimento efetivamente sustentável e duradouro.

 

Sobre a primeira característica, somos, inegavelmente, um dos países de maiores contrastes sociais do planeta. Há países mais pobres, mas bem menos ricos em termos de recursos naturais e outras potencialidades. Há países menos pobres, mas, mesmo assim, sem desfrutarem da oportunidade, ainda que para poucos, do convívio com o que existe de mais avançado em termos de acesso a riquezas e tecnologias. Ou seja, compartilhamos, espacial e temporalmente, o convívio da quase miséria com o acesso ao que existe de mais avançado e sofisticado no mundo contemporâneo. Sabemos ofertar produtos e serviços de mais alta qualidade ou para muitos, porém, não sabemos fazer essas duas coisas ao mesmo tempo. Se de qualidade, sempre para poucos. Se para muitos, quase que inexoravelmente incorporando má qualidade.

 

A segunda característica é que vivenciamos vários ciclos ou fases de crescimentos econômicos e de melhorias de qualidade de vida, mas, ao que parece, paradoxalmente, temos enormes dificuldades em nos desenvolvermos econômica, social e ambiental de forma plenamente sustentável. Crescer sim, de forma sustentável não. Assim, os contrastes e a dificuldade de sustentabilidade de crescimento compartilham elementos comuns que nos impedem de desfrutarmos de avanços substantivos.

 

A raízes deste destino estão bem descritas pelo clássico “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, e têm várias consequências, sendo algumas delas muito especiais: baixa produtividade e quase ausência de competitividade global. Destaque-se o “salvo exceções”, as quais contribuem para evitar generalizações, mas, por serem poucas, servem também para comprovar a regra geral. Temos, de um lado, uma Casa Grande preguiçosa, acomodada e pouco estimulada a competir. Em que pesem os enormes recursos disponibilizados e os acessos ilimitados a todos os produtos e serviços, inclusive educacionais de máxima qualidade, os confortos, decorrentes do berço e assegurados por herança, instigam a acomodação e quase que impedem maiores ousadias e a tentação positiva de enfrentar desafios que incorporem inovações.

 

Por sua vez, a Senzala, que permanece apartada, ainda que com soluços esporádicos de inclusão social, tende a não dispor das ferramentas mais avançadas e dos instrumentos próprios que lhes permitam serem os polos principais do aumento de produtividade e do desenvolvimento econômico. Pecamos por uma baixa escolaridade, a qual até tem melhorado quando comparada com o passado, seja na educação básica como superior, porém, a ritmos não competitivos com que os demais países do planeta. E quando aumentamos o nível de escolaridade, em geral, o fazemos com má qualidade de ensino nos insuficientes anos estudados. O resultado é um conjunto enorme de trabalhadores cujas produtividades estão limitadas a priori por falta de formação escolar e a ausência de ferramentas que lhes permitam alterar essa realidade.

 

Aspecto específico

 

Se as dificuldades são gerais e o cenário parece pouco motivador, é do especifico e do peculiar que se pode tentar encontrar caminhos para as soluções. Assim, o quadro por mais desalentador que pareça, ele deve fornecer alguns ingredientes que permitam ter esperanças de mudanças à luz das novidades e das inovações, as quais sempre significam oportunidades.

 

Do ponto de vista educacional, entramos em uma nova era, onde pela primeira vez, em tese, poderemos, baseados nas tecnologias digitais, conjugar qualidade e quantidade. Ou seja, podemos pioneiramente explorar a possibilidade de ofertarmos qualidade para muitos. Por sinal, esta é a melhor definição de inovação em realidades como a brasileira. Qualidade para poucos ou má qualidade para muitos não é inovar; é repetir o passado.

 

Adentramos um novo cenário onde, pela primeira vez, será plenamente possível que todos aprendam (isso não era viável no século anterior), todos aprendem o tempo todo e em qualquer lugar (novidades do século XXI) e, especialmente, cada um aprende de maneira única e própria (nós sequer sabíamos disso antes).

 

Os maiores desafios contemporâneos educacionais estão associados a como incorporar o mundo das tecnologias digitais, incluindo o uso adequado de plataformas de aprendizagem e técnicas sofisticas de analítica da aprendizagem, as quais, em conjunto com a edugenômica, permitem conhecer o educando de forma inédita. Assim, torna-se possível estabelecermos os marcos de uma educação flexível (que combina sem preconceitos as ferramentas das modalidades presencial e a distância) e, fundamentalmente, personalizada, customizada à luz de cada realidade e apropriada para cada educando e seu contexto, em um mundo de educação permanente ao longo da vida.

 

Enquanto que no século XX o essencial era a transmissão de um determinado conteúdo, associado a um conjunto de técnicas e procedimentos, neste século há algo tão ou mais relevante que é desenvolver a consciência do educando acerca dos mecanismos de como se aprende. Ou seja, se a aprendizagem está associada à cognição, o aprender a aprender refere-se à metacognição, onde mais (ou tão) importante do que o que foi aprendido é o amadurecimento da percepção por parte do estudante acerca de como ele aprende.

 

Ainda que este último tópico possa ser o mais estimulante de todos, não teremos tempo e nem a pretensão de tratá-lo adequadamente, mas destaco que, entre as peculiaridades citadas anteriormente, geramos no Brasil um caldo cultural absolutamente afável à adoção de novas tecnologias. Se faltasse comprovação (não falta), basta observar que, mesmo tendo um dos piores e mais caros acessos à internet do planeta, somos um dos maiores usuários do mundo, seja em número ou seja em tempo médio diário de uso. Deve-se agregar a isso o fato que as tendências apontam para a predominância de recursos educacionais acessíveis via celular ou dispositivos semelhantes, áreas onde a população brasileira demonstra capacidades e apreços ímpares, bem como competências impressionantes nos usos das funcionalidades associadas.

 

Em suma, muito a aprofundar e peço desculpas pela ousadia de tratar de temas extremamente complexos em espaços de tempo e de escrita muito limitados, mas a discussão em si certamente contribui para o estímulo às investigações de soluções. São temas que ainda não foram tratados adequadamente, muito menos resolvidos, nem aqui e nem em lugar algum do mundo. Por isso mesmo, compartilhamos esta atmosfera de oportunidades inéditas que a todos motiva a continuarmos enfrentando esses desafios educacionais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Autor: Tags:

  1. Primeira
  2. 1
  3. 2
  4. 3
  5. Última