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Arquivo da Categoria aprendizagem

domingo, 17 de setembro de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 13:56

O que esperam os empregadores?

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empregadores

 

O mundo está mudando e os empregadores já não são os mesmos. Há uma grande tendência de que, progressivamente, o espaço de empregos tradicionais dê lugar ao surgimento de novas oportunidades profissionais, ancoradas em atividades e negócios inéditos. Neste cenário emergente, a figura do empregador clássico pode se alterar radicalmente ou, no limite, até desaparecer.

 

Mesmo assim, ao longo desta transição, os empregadores ainda são as pessoas responsáveis por dirigir empreendimentos, privados ou públicos, que continuarão decidindo sobre o futuro de parte dos profissionais desta geração. Portanto, bom sabermos mais sobre eles, o que pretendem quando contratam alguém e o que esperam dos profissionais contratados.

 

No passado recente, as expectativas dos empregadores acerca de um profissional a ser contratado eram menos complexas e mais previsíveis do que hoje. Atualmente, as próprias tarefas e missões estão se tornando quase impossíveis de serem antecipadas. Educar era mais simples, porém, as receitas anteriores não funcionam mais. Havia para cada uma das profissões uma relativa certeza acerca do conteúdo mínimo, bem como do conjunto associado de técnicas e procedimentos, que o formando deveria dominar.

 

Educar, contemporaneamente, continua a contemplar a formação profunda em um campo profissional específico, mas transcende em muito tal exigência, incluindo também desenvolver novas competências e habilidades socioemocionais que costumavam ser menos valorizadas.  São exemplos desses ingredientes o destemor por novos desafios, o estímulo à criatividade, a propensão à inovação e o desenvolvimento do espírito empreendedor, além de saber trabalhar em grupo, explorando empatia e compaixão

 

Permanecem existindo conteúdos imprescindíveis a qualquer profissional e que serão as bases iniciais de sua capacidade de resolver problemas. Entre eles, o letramento sofisticado, que permita entender e escrever textos complexos, o domínio consistente das operações matemáticas, associado à capacidade de desenvolver raciocínios abstratos, o hábito da adoção do método, em especial o uso da metodologia científica e sua aplicação a pensamentos complexos e a percepção adequada dos contextos geográfico e histórico, além do indispensável apreço pelas artes, pela cultura e pela ciência.

 

Ensinar nos padrões tradicionais nos tempos passados recentes teve enorme sucesso porque se mostrou compatível e coerente com as demandas inerentes aos modelos de desenvolvimento adotados até então. A complexidade atual exige ir muito além, introduzindo novidades, a maior parte delas decorrentes da emergência disruptiva das tecnologias digitais. Agir educacionalmente neste novo cenário demanda repensar a ciência da aprendizagem e propor e implementar modelos pedagógicos bastante distintos daqueles que, em geral, temos adotado. A memória se desvaloriza e a excessiva centralidade no conteúdo se fragiliza à medida que, gradativamente, o acesso à informação se faz ilimitado, instantâneo e gratuito.

 

A escola e seu principais atores foram até aqui menos afetados pelas tecnologias digitais do que o mundo externo a eles. Assim, em geral, os gestores educacionais e os professores, estranhamente, se mostram mais satisfeitos com o trabalho educacional que desenvolvem do que, de fato, se sentem os formandos e, especialmente, aqueles que os empregam. Este fenômeno por si evidencia um provável diálogo interrompido, até mesmo um divórcio, entre as realidades imaginadas nas escolas e aquelas vivenciadas pelos egressos em suas vidas profissionais.

 

As soluções educacionais em curso ainda são embrionárias, porém, algumas evidências sobressaem. O educando, mais do que nunca, é o centro e a aprendizagem, cada vez mais, personalizada. Todos aprendem o tempo todo e em qualquer lugar, sendo que cada um aprende à sua própria maneira. O domínio do conteúdo em si, ainda que relevante, torna-se relativamente menos importante do que ter aprendido a aprender. Assim, uma das mais refinadas artes educacionais é propiciar que cada educando aprofunde continuamente seu nível de consciência acerca de como ele aprende.

 

E como ficam os empregadores neste contexto? Tanto quanto os empregados, serão exigidos a rever conceitos, adotar novas estratégias e, por vezes, mudar radicalmente a essência de seus negócios.

 

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Figura em Domínio Público, tal como vista em: http://freesoftwaremagazine.com/articles/promoting_public_domain_creative_commons_cc0_initiative/c20080220_LOCPD_ww2_woman_operating_engine_lathe.jpg

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sábado, 2 de setembro de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 17:17

Educar é emancipar contra o “efeito manada”

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manada

 

Tenho procurado começar as aulas e palestras com exemplos simples da vida cotidiana. Um deles diz respeito à nossa provável primeira experiência logo após acordar. Ao nos depararmos no banheiro com um piso cerâmico e um tapetinho para os pés, evitamos o “frio” do piso cerâmico e sentimos conforto no abrigo “quente” do tapete. Este é o senso comum. Ocorre que, contrariamente à nossa percepção, tanto o piso como o tapete estão exatamente à mesma temperatura. Se alguém está em temperatura diversa deles é nosso corpo (em torno de 36o C).

 

Por que então a sensação térmica tão diversa? Há uma explicação, racional e simples. Os átomos e as moléculas que compõem os entes citados estão em constante agitação térmica e quanto maior forem os movimentos dessas partículas maior será a temperatura dos objetos. Processos de transferência de calor ocorrem entre corpos a diferentes temperaturas.  Quando em equilíbrio térmico, não há este processo. Piso ou tapete, ao entrarem em contato com o corpo mais quente, ambos dele recebem energia térmica, enquanto o corpo humano se esfria. As velocidades com que os processos de transferência de calor ocorrem nos dois casos são diferentes.  O piso cerâmico conduz energia rapidamente, resultando a sensação de frio. No caso do tapete, a perda de energia é relativamente lenta, promovendo a sensação de conforto.

 

Mesmo com conhecimento superficial dos conceitos envolvidos, a reflexão metódica e científica contribui para irmos além do senso comum, evitando o “efeito manada”, onde somos guiados pela percepção simplória, às vezes equivocada. O mesmo raciocínio vale para quando repetimos, acriticamente, o que os demais dizem ou pensam sobre assuntos gerais, ainda que sequer tenhamos refletido mais adequadamente sobre os temas específicos. Enfim, se logo cedo somos capazes de elucidar minimamente o enigma piso-tapete-corpo humano, somos estimulados a, seguindo a mesma estratégia, abordar qualquer outro assunto ao longo do restante do dia.

 

Biologicamente, nosso cérebro, ainda que composto de mais de uma centena de bilhões de neurônios e realizando mais de uma centena de trilhões de conexões sinápticas, não é capaz de processar todos os dados que nos chegam, via os diversos sensores.  Consequentemente, somos todos propensos a pegar atalhos, muitas vezes enganosos.

 

Há evidências de que a maioria tende a acreditar em pessoas que, segundo os critérios de quem analisa, estão bem vestidas ou com roupas similares de quem julga. Da mesma forma, há uma clara tendência de confirmação do que acreditamos à medida que convivemos, presencialmente ou virtualmente, com pessoas que pensam parecido. Ou seja, mesmo em temas polêmicos, priorizamos, ainda que inconscientemente, ouvir opiniões que confirmem nossas preconcepções e evitamos o convívio com aqueles que supomos, eventualmente, divergir.

 

Estarmos mais próximos daqueles com quem compartilhamos crenças ou opiniões parece natural e, para alguns mais ingênuos, até mesmo recomendável. No entanto, quando em dose exagerada ou excludente dos demais, podemos incorrer no risco de desprezar aqueles que, via suas sinceras críticas ou opiniões dissonantes, poderiam contribuir com as decisões que tomamos ou as convicções que formamos.

 

Entre as boas recomendações para lidarmos com elementos comportamentais de natureza tão complexa, incluem-se duas de primeira grandeza. Primeiro, acredite mais em seus próprios raciocínios, especialmente quando frutos da adoção de métodos científicos. Segundo, aprenda a ouvir a todos indistintamente, tanto aqueles que compartilham visões de mundo similares à suas como os demais que, por ventura, pensem de forma diametralmente oposta.

 

Educação tem tudo a ver com isso. Podemos, via a adoção de metodologias e abordagens, estimular tais atitudes ou, alternativamente, inibi-las. A partir do hábito de pensar cientificamente sobre as coisas do cotidiano e da prática de realizar balanços opinativos ancorados na diversidade, certamente construímos caminhos e pensamentos mais consistentes, sempre expostos às bem-vindas críticas. Assim, fruto dessas posturas, cultivamos o espírito crítico, libertário e solidário e a formação autônoma e independente de nossos próprios conceitos e opiniões.

 

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Imagem em Domínio Público, como visto em: 

https://pixabay.com/pt/foto-montagem-faces-%C3%A1lbum-de-fotos-1768409/

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domingo, 27 de agosto de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 11:33

Rede Brasileira de Criatividade: uma iniciativa estratégica

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Do ponto de vista econômico e social, o Brasil é um país que eventualmente avança e, em seguida, regride, sem dar mostras de um desenvolvimento duradouro e sustentável. Uma das explicações é que nossos profissionais e nossas indústrias apresentam produtividades médias relativamente baixas, o que é grave em um cenário de globalização crescente e de altíssima competitividade em termos de produtos e serviços.

 

Uma das causas da baixa produtividade é nossa escolaridade insuficiente.  No competitivo cenário internacional, são poucos os anos de estudo no Brasil e a qualidade do ensino é deficiente. Por outro lado, somos uma nação muito rica em recursos naturais e habitada por um povo que dá demonstrações incontestes de alta capacidade criativa e de fácil adaptação às inovações.  Sem estes ingredientes, sequer teríamos experimentado os avanços que efetivamente temos tido, não nutriríamos os níveis de esperança que ainda temos ou conviveríamos com as persistentes alegrias eventuais, as quais continuamos a desfrutar no dia a dia.

 

Considerando esses ingredientes, temos um expressivo potencial ainda pouco explorado no segmento econômico associado à indústria criativa. Este bilionário setor e que cresce ilimitadamente no planeta se caracteriza por entender a imaginação e a criatividade como as matérias primas principais para seus negócios. De acordo com a Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro), as indústrias criativas geram no Brasil uma riqueza de mais de R$ 150 bilhões (dados de 2015) e sua participação no PIB é crescente, representando hoje algo em torno de 3% da economia nacional. É uma clara demonstração de potencial, mas podemos ir muito além.

 

A economia criativa inclui áreas como moda, design, softwares, arquitetura, audiovisual, gastronomia, música, entre tantas outras, e contempla produtos e serviços vinculados à cultura e arte, à ciência e tecnologia. Isso engloba pesquisa e desenvolvimento e todos os demais setores nos quais a criação humana faz a diferença na geração do valor agregado.

 

As metodologias e abordagens educacionais podem, ou não, ter o estímulo à criatividade e ao empreendedorismo como centro. Da mesma forma que nos tornamos hábeis em inibir a criatividade e a desprezar iniciativas empreendedoras, podemos fazer o contrário. O cenário atual das tecnologias digitais representa uma oportunidade única para repensar nossos processos de aprendizagem. Dispomos atualmente de ferramentas educativas que propiciam que todos aprendam e aprendam o tempo todo, levando sempre em conta que cada educando aprende de maneira única e personalizada.

 

Dentre as inúmeras boas iniciativas em curso, merece especial destaque a recém-lançada “Rede Brasileira de Criatividade”. A Rede tem por propósito ampliar a rede de colaboração entre pessoas, transformando a criatividade em estratégia real, acessível e aplicada. Pretende-se colaborar para que todos possam encontrar soluções inovadoras nos seus cotidianos. O projeto, idealizado pelo educador Prof. Gabriel Rodrigues, está estruturado em três pilares: i) um Portal, “As Coisas Mais Criativas do Mundo”, ii) a estruturação de uma Academia de Criatividade, disponibilizando ferramentas para despertar nas pessoas o potencial criativo que todos temos, e iii) a promoção e o incentivo às pesquisas e publicações na área. O primeiro dos pilares já está ativo e operante, com surpreendente número de acessos, acessível via a página “As Coisas Mais Criativas do Mundo”.

 

No Portal da Rede estarão gratuitamente disponibilizados conteúdos, testes, desafios, ferramentas gerais e um banco de conhecimento com o intuito de incentivar o desenvolvimento da criatividade. A expectativa é contribuir para a geração de transformações que impactem em empregabilidade, estímulos à exploração de novos negócios, autonomia intelectual e realização pessoal. Pesquisadores das áreas criativas publicarão artigos e desenvolverão ações que estimulem e colaborem para que professores e agentes educacionais dos vários níveis de ensino incorporem as habilidades criativas como elementos centrais dos processos de aprendizagem.

 

Em suma, temos grandes desafios a enfrentar, especialmente no campo educacional, e dispomos de predicados positivos, entre eles potencial criativo e espírito empreendedor, que podem nos ajudar nessas missões. Precisamos cumprir as tarefas que restam ser realizadas ao mesmo tempo que exploramos aquilo que nos caracteriza e que pode, em tese, propiciar os elementos diferencias competitivos em escala global.

 

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Figura em Domínio Público. O influente pintor e teórico russo Wassily Kandinsky tem sua obra em domínio público desde 2015. Na foto, “Composição VII”, considerada pelo autor sua obra mais complexa. Ver em:

http://www.huffpostbrasil.com/2015/01/02/tudo-free-as-obras-que-viraram-dominio-publico-em-2015_a_21671065/

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quinta-feira, 17 de agosto de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 16:42

O conteúdo, um álibi perfeito

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Nas culturas primitivas, onde não havia ensinamentos formais ou escolas, todas as atividades poderiam ser vistas como processos de aprendizagem e de transmissão de cultura. À medida que as sociedades foram se tornando mais complexas, os conhecimentos a serem repassados de uma geração para outra se organizaram de forma sistemática em áreas do saber. Estas foram, progressivamente, ficando mais sofisticadas, exigindo da educação formal um nível diferenciado de institucionalização, envolvendo modelos de organização próprios com a presença de atores bem definidos.

 

As crianças e os jovens, como alunos, passaram, gradativamente, a ter acesso a uma educação que lhes permitia, via a escola e seus mestres, avançarem muito além da simples observação e da imitação genérica de adultos. No mundo ocidental, costuma-se adotar como paradigmas originais da instituição “escola” a Academia de Platão e o Liceu de Aristóteles, instituições inauguradas no século IV a.C. em Atenas na Grécia Antiga.

 

Ao longo dos tempos, a transmissão de conhecimento para públicos cada vez maiores, progressivamente, mostrou-se mais adequada ser desenvolvida sob a forma de áreas do saber. Assim, a preparação de alunos via abordagens cognitivas, baseadas em conteúdos, e as metodologias educacionais associadas desfrutaram de enorme sucesso, em especial pela capacidade do atendimento pleno da formação de profissionais para a Revolução Industrial, nos séculos XIX e XX. O essencial era o domínio de um determinado conteúdo, acoplado a um conjunto de técnicas e procedimentos razoavelmente bem definidos.

 

O mundo contemporâneo evidencia grandes contrastes com o passado recente, em especial pela onipresença das tecnologias digitais, as quais inundam todos os setores, mudando hábitos e comportamentos e contribuindo com a redefinição de culturas. Muito mais do que uma era de mudanças, vivenciamos uma mudança de era. Novos modelos de desenvolvimentos econômicos, sociais e ambientais estão sendo discutidos e implementados, demandando cidadãos com características bastante diversas do século anterior.

 

Dos profissionais do futuro, tanto quanto o domínio de conteúdos específicos, serão exigidos, cada vez mais, o destemor de enfrentar desafios inéditos, as habilidades socioemocionais acopladas, a competência para trabalhar em equipe e, principalmente, a capacidade de completar, com sucesso, missões complexas. Tudo isso à luz do acesso ilimitado, instantâneo e gratuito a todo o conhecimento disponível.

 

Do ponto de vista das metodologias educacionais, os maiores desafios contemporâneos estão associados à adequada incorporação das tecnologias digitais e a adoção de arquiteturas curriculares e percursos formativos que contemplem as habilidades com a mesma atenção que o conteúdo desfruta, garantindo uma educação compatível com a realidade atual na qual todos aprendem, aprendem o tempo todo e cada um à sua maneira.

 

Tais tarefas incluem o uso adequado de plataformas de aprendizagem e técnicas de analítica da aprendizagem, as quais, em conjunto com a edugenômica, permitem conhecer o educando de forma inédita. Assim, torna-se possível estabelecermos os marcos de uma educação flexível e personalizada, customizada à luz da realidade específica e apropriada para cada educando e seus propósitos.

 

Neste contexto, é preponderante o papel que a metacognição, que transcende a cognição, passa a ter. A ênfase na metacognição permite ir além do conteúdo e sua assimilação, evidenciando ser igualmente importante um conjunto de habilidades socioemocionais e a reflexão, por parte do estudante, sobre a sua própria aprendizagem.

 

As metodologias educacionais especialmente preocupadas com a metacognição não dispensam o conteúdo, nem o desprezam. Ele era, é e sempre será importante, sendo que quanto mais profundo melhor. Mas, por vezes, o conteúdo pode ser visto também como uma espécie de álibi perfeito. Ou seja, tão relevante quanto o que foi aprendido (o conteúdo) é garantir que o educando tenha ampliada sua consciência acerca de como ele aprende (a arte do aprender a aprender), preparando-o para uma educação permanente ao longo da vida.

 

 

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A figura é o do filme “Um álibi perfeito / Reasonable Doubt”, de Peter Howitt, Canadá-Alemanha, 2014. Ver mais em:

Um Álibi Perfeito / Reasonable Doubt

 

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sexta-feira, 11 de agosto de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 07:50

Flexibilizar as diretrizes curriculares: estímulo às práticas inovadoras

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A Lei 9.394/1996 (Lei de Diretrizes e Bases/LDB), entre outras contribuições, desfez a vinculação presumida entre diploma de nível superior e exercício profissional. A LDB define que os diplomas se constituem em prova da formação recebida por seus titulares. Cabe às corporações regular os exercícios dos profissionais após formados.

 

A exigência de currículos mínimos nos cursos superiores até meados da década de 1990 havia sido fortemente influenciada pelas ordens profissionais, com indesejáveis detalhamentos de disciplinas e cargas horárias e inibindo a inovação dos projetos pedagógicos dos cursos. A LDB apontou no sentido de assegurar maior flexibilidade na organização de cursos e carreiras, coerente com as tendências contemporâneas de considerar a formação no nível de graduação como etapa inicial da formação continuada.

 

Dentro do mesmo espírito, a Lei 9.131/1995, a qual criou o Conselho Nacional de Educação (CNE), conferiu, entre as atribuições de sua Câmara de Educação Superior (CNE/CES), deliberar sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para os cursos de graduação. As DCN representaram um avanço em relação à concepção baseada em currículos mínimos. Elas deveriam contribuir para a inovação e a qualidade do projeto pedagógico do ensino de graduação, oferecendo uma sólida formação básica, preparando o futuro graduado para enfrentar os desafios das rápidas transformações da sociedade, do mercado de trabalho e das condições de exercício profissional.

 

As DCN, progressivamente, explicitariam as competências e as habilidades a serem desenvolvidas em cada curso, as respectivas cargas horárias mínimas e contemplariam orientações para os estágios e demais atividades que integrem o saber acadêmico à prática profissional, incentivando o reconhecimento de saberes adquiridos dentro e fora do ambiente escolar.

 

Com o tempo, porém, aquilo que havia sido um progresso, gradativamente, se cristalizou como um novo obstáculo aos avanços necessários para dar conta das demandas acerca da formação de um profissional contemporâneo. Atualmente, mediados pelas tecnologias digitais que invadem todos os espaços e setores sociais, temos o desafio de inovarmos as práticas educacionais conjugando quantidade com qualidade. Para tanto, há que se ofertar boa educação para todos, acessível o tempo todo e em todos os lugares e, principalmente, personalizada, customizada a partir das características e circunstâncias de cada educando.

 

Neste novo contexto, as DCN representam camisas de força inibidoras de novas experiências pedagógicas. Recentemente, ouvi do Prof. Edson Nunes, ex-presidente do CNE e grande educador, a afirmação de que uma desejável primeira medida de uma eventual reforma do ensino superior seria declarar extintas todas as DCN.

 

A LDB prevê estimular novas práticas educacionais, em caráter experimental, sem prejuízo aos espaços de controle regulatório exercido pelos órgãos de estado responsáveis. O art. 81 da LDB estabelece que é permitida a organização de cursos em caráter experimental, desafiando os educadores a explorarem inovações.

 

Fazendo uso desse dispositivo da LDB, seria altamente positivo um eventual desafio, partindo do Ministério da Educação (MEC), estimulando, por um período delimitado, que as instituições com cursos já reconhecidos e bem avaliados apresentassem propostas experimentais. Salvo engano, uma Portaria simples do MEC, em consonância com o CNE, abriria as portas para bem-vindos projetos acadêmicos inovadores.

 

A título unicamente de exemplo, seriam viáveis propostas de cursos híbridos e flexíveis que, entre outras novidades, fossem além do limite de 20% de educação a distância em cursos presenciais. Ou seja, seriam autorizados, de forma ágil, experimentos acadêmicos inovadores, desde que com justificativas convincentes de melhoria da qualidade de aprendizagem. Comissões de educadores, sob coordenação da CNE/CES ou de quem mais o MEC designar, fariam os acompanhamentos e análises dos resultados.

 

Findos os prazos previstos de experimentação e de avaliação das iniciativas, seria possível examinar se há ou não argumentos para alterar as DCN e demais regras em vigor. O relevante neste processo proposto é que terão sido as inovações acadêmicas e suas práticas educacionais induzidas, examinadas a partir de evidências de atingimento de resultados, que inspirarão as futuras orientações.

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Figura em Domínio Público, acessível em:  

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sábado, 5 de agosto de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 08:21

Blockchain: o que é e para que serve

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Blockchain é uma ideia original e genial apresentada em 2008 no artigo “Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System”, publicado em nome de Satoshi Nakamoto, cuja real identidade é ainda controversa. O conceito é simples e claro: toda informação digitalizada pode ser amplamente distribuída em toda a rede internet e validada de forma descentralizada, confiável, fiel e eficiente, dispensando intermediários. Sua aplicação mais relevante e conhecida é a moeda digital Bitcoin. A partir do seu grande sucesso, novas aplicações têm sido sugeridas.

 

Contratos, transações e registros ocorrem o tempo todo na internet. Ao adotar a tecnologia blockchain, os registros são formatados, validados e acumulados em blocos, retratando tudo o que já foi realizado, adicionados linear e cronologicamente. Todos os nós associados a um específico processo, ou seja, todos os computadores autorizados e conectados, têm a tarefa de disponibilizar e validar as transações e ao fazê-lo obtêm uma cópia da blockchain registrada. A posse do registro permite acesso à informação completa sobre os endereços e dados diretamente do bloco original até o bloco recentemente finalizado, constituindo-se na prova acerca das transações ocorridas na rede relativas àquele processo. Como ilustração de autenticações digitais em áreas diversas da financeira, o Massachusetts Institute of Technology, MIT, é o pioneiro no uso de blockchain na emissão de diplomas e o Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio, ITS, o primeiro a emitir certificados no Brasil.

 

Se uma eventual correção de transação existente for necessária, os nós envolvidos devem majoritariamente executar alguns algoritmos para avaliar e verificar o histórico, gerando um novo consenso e assim, se for o caso, um novo bloco é adicionado à cadeia de transações. Eventualmente, uma parte dos nós não reconhece a adição e a entrada é negada e nada é adicionado à cadeia. O fato dos nós autorizados verificarem diretamente as transações elimina a necessidade de câmaras de compensação e outros agentes intermediários, reduzindo custos, eliminando burocracias e burocratas, aumentando a velocidade e ampliando a fidelidade dos dados registrados. Assim, as assinaturas digitais evitam que estranhos ou mal-intencionados possam causar danos à fidelidade dos dados e à integridade criptográfica, associados ao exame dos múltiplos nós da arquitetura blockchain.

 

A título de exemplo de área potencial de aplicação da tecnologia, cito a regulação do ensino superior brasileiro, em especial do setor privado na sua relação com o governo federal. A regulação tem como centro a Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior, SERES, do Ministério da Educação (MEC), tendo como referencial básico o processo avaliativo a cargo do Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais, INEP, do mesmo ministério. A regulação, portanto, envolve, além dos dois atores citados, milhares de instituições de ensino superior, incluindo seus docentes, estudantes e colaboradores, contemplando no processo as relações com os demais interessados (Secretaria da Educação Superior/MEC, Conselho Nacional de Educação, associações profissionais, pais dos alunos, concorrentes no setor, empresas etc.).

 

A execução desse processo tem se mostrado demasiadamente complexa, dado que os protocolos e os agentes envolvidos demandam burocracias enormes e níveis de confiabilidade que sugerem, mesmo quando bem feitos, questionamentos. Além de ser um sistema oneroso que impacta no estado, demandando forte burocracia, e, em última instância, custeado em parte pelos estudantes do ensino superior, dado que naturalmente os custos são repassados às mensalidades.

 

O Censo da Educação Superior, parte integrante do processo avaliativo e regulatório, poderia ser extraído online com total fidelidade, contendo os registros do corpo docente bem como os acompanhamentos diários dos dados de cada disciplina e turma, tornados públicos naquilo que for pertinente, gerando validações contínuas e confiáveis. Os registros acadêmicos, individuais de cada estudante e os coletivos de toda a instituição, assim como as instalações, laboratórios, bibliotecas etc. constituiriam dados registráveis, validados e verificáveis instantaneamente.  Como ocorre com o Bitcoin, só seria tornado público aquilo que foi acordado entre as partes, com diversos níveis de privacidade a serem respeitados.

 

Assim, a regulação do ensino superior brasileiro, especialmente do setor privado, poderia ser efetivada em níveis de transparência e eficiência sem precedentes e a um custo infinitamente menor. As ações adicionais de outras naturezas (supervisões, visitas in loco etc.) estariam reservadas para casos excepcionais, frutos de indicação de necessidades apontadas pelo sistema implementado.

 

É possível, portanto, a partir da adoção de adequadas tecnologias inovadoras, melhorar efetivamente a oferta de vários produtos e serviços regulados pelo estado. Da mesma forma, a fidelidade e a completeza dos dados disponíveis permitem a elaboração e a implementação de políticas públicas de alta qualidade em muitos setores no mundo contemporâneo.

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Figura em Domínio Público, disponível em: https://images.pexels.com/photos/356358/pexels-photo-356358.jpeg?h=350&auto=compress&cs=tinysrgb

 

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sexta-feira, 28 de julho de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 18:21

Pobres meninos ricos

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Há vários estudos demonstrando como a miséria e a pobreza dificultam a aprendizagem. Uma outra variável menos estudada é o quanto as discrepantes desigualdades sociais afetam a todos, inclusive os mais ricos. Ou seja, mesmo aqueles que têm acesso a tudo, pelo convívio em sociedades excludentes, também são negativamente atingidos, em especial na educação.

 

O Pisa – Programa Internacional de Avaliação de Alunos – é uma avaliação internacional que mede desde 2000, a cada três anos, o nível educacional de jovens de 15 anos por meio de provas de Leitura, Matemática, Ciências e, mais recentemente (desde 2012), Conhecimentos em Finanças. O exame é realizado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), entidade formada por governos de 30 países que têm como princípios a democracia e a economia de mercado. Países não membros da OCDE, como é o caso do Brasil, também podem participar do Pisa enquanto convidados. Atualmente, 70 países participam do Pisa, cujo objetivo principal é produzir indicadores que contribuam para a discussão da qualidade da educação básica e que possam subsidiar políticas nacionais de melhoria da educação.

 

Na última edição do Pisa (2015), pela primeira vez o Brasil participou da prova específica de conhecimentos financeiros, sendo um dos 15 países onde o teste foi aplicado. Nossos resultados não foram bons, a exemplo das demais matérias, mas desta vez neste quesito ficamos em último (média de 393 pontos, atrás de países da região como Peru, com 403, e Chile, com 432 pontos). Um detalhe interessante mereceu a atenção e análise de estudiosos: mesmo nossos alunos mais ricos tiveram baixíssimo rendimento. Em outras palavras, temos um problema educacional grave, em todas as áreas, acrescido do fato que mesmo aqueles com acesso a bens e serviços de mais qualidade evidenciam grandes chances de resultarem pouco competitivos em uma economia de escala global.

 

No teste de conhecimentos financeiros, se considerarmos somente os alunos brasileiros mais pobres o resultado é uma média de 364 pontos (penúltimo lugar, à frente do Peru), enquanto os mais ricos ficaram em último lugar com 441 pontos. Portanto, uma diferença de 77 pontos entre eles, enquanto nos demais países a média das diferenças entre os 25% mais ricos e os 25% mais pobres é de quase a metade, 40 pontos. Em resumo, fomos mal em ambos os extremos, sejam os mais ricos ou os mais pobres, e a desigualdade de notas entre eles é bem maior do que o observado em média nos demais países.

 

Se os resultados educacionais fossem lineares com as respectivas rendas per capita de cada país, os alunos brasileiros deveriam, em tese, ter obtido aproximadamente 40 pontos a mais do que tiveram, evidenciando que a nossa realidade econômica é agravada pelas disparidades sociais específicas. Ou seja, os enormes contrastes sociais projetam uma elite não competitiva convivendo com as classes populares também despreparadas. Em outras palavras, o Brasil pode, eventualmente, ter ciclos de crescimento, como os tem tido; porém, sem enfrentar seus dilemas sociais e educacionais, conviverá eternamente com fortes dificuldades em atingir um desenvolvimento econômico, social e ambiental que seja efetivamente sustentável.

 

Como apontado em artigo anterior, as raízes deste destino de provável baixa produtividade e consequente dificuldade de competitividade global estão bem descritas desde a clássica obra “Casa-grande & senzala” de Gilberto Freyre, publicada em 1933. De um lado, uma “casa-grande”, basicamente acomodada e pouco estimulada a competir. De outro, a “senzala” que permanece apartada, ainda que com soluços esporádicos de inclusão social, e que não dispõe das ferramentas e dos instrumentos próprios que lhe permita ser o polo principal do aumento de produtividade e a promoção do desenvolvimento econômico.

 

Um desenvolvimento sustentável não pode depender exclusivamente de educação, mas sem ela não haverá sustentabilidade alguma. No mundo da educação, temos uma singular oportunidade, a partir de nosso caldo cultural particularmente afável às tecnologias digitais e com demonstrações evidentes de competência no seu uso, de conjugarmos quantidade com qualidade. Qualidade para poucos ou má qualidade para muitos não é inovar, é repetir o passado que não está dando certo. A melhor definição contemporânea de inovação, inclusive em educação, é a geração de produtos e serviços novos que viabilizem ofertamos qualidade para muitos.

 

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Contatos: ronamota@gmail.com

Figura em Domínio Público, via:

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domingo, 23 de julho de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 09:23

De volta ao planeta dos bonobos

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bonobo

 

Os bonobos até há menos de um século eram, erroneamente, assumidos como formando uma subespécie dos bastante conhecidos chimpanzés. Mais recentemente, eles deixaram de ser confundidos, passando a ser reconhecidos como espécie própria. Na verdade, ambas as espécies, o bonono (Pan paniscus) e o chimpanzé comum (Pan troglodytes), formam o gênero Pan. Um dos motivos da demora na identificação da espécie dos bonobos foi que os contatos com eles eram raros, dado estarem todos concentrados em uma pequena região da República Democrática do Congo, na África Central.

 

Os cientistas acreditam que o ancestral humano moderno tenha se separado dos chimpanzés e dos bonobos em torno de 8 milhões de anos atrás, sendo que estas duas espécies, por sua vez, se separaram entre si há aproximadamente 2 milhões de anos. Estudos recentes mostram que os bonobos, e não os chimpanzés, representam melhor o último ancestral comum com os humanos, fazendo dos bonobos nossos primos irmãos mais próximos. Seja pelo nível de compartilhamento de DNA (98,7%) ou pelas características mais assemelhadas em níveis de percepção, comportamentos gerais e habilidades. De acordo com Bernard Wood, pesquisador do Centro para Estudos Avançados de Paleobiologia Humana da George Washington University, a estrutura muscular dos bonobos alterou-se menos ao longo do tempo, tornando-os os seres vivos mais próximos do que seriam nossos ancestrais.

 

Do ponto de vista comportamental, os bonobos, diferentemente dos chimpanzés, podem partilhar alegremente seu alimento com um estranho e até mesmo desistir, altruisticamente, de sua própria refeição, como registrado pelos pesquisadores Jingzhi Tan e Brian Hare. Eles afirmam que suas descobertas podem ajudar a entender a origem do altruísmo nos humanos. Os cientistas compararam tais comportamentos a certos atos humanos de bondade, como por exemplo doar dinheiro anonimamente. De acordo com esses pesquisadores, o mais provável é que o ancestral comum das três espécies, seres humanos, bonobos e chimpanzés, já tivesse essa característica. Portanto, esta descoberta difere da hipótese anteriormente assumida de que os humanos só teriam desenvolvido o altruísmo depois da separação com o gênero Pan.

 

Os bonobos se distinguem pela postura mais ereta do que os chimpanzés, constituem uma sociedade mais igualitária e matriarcal e apresentam uma atividade sexual própria, não existindo relação direta entre sexo e reprodução. Por sinal, o sexo tem um peso grande nas suas relações, em geral como elemento reconciliador, estando presente ao longo de toda a vida adulta da espécie. Empatia e altruísmo são características que os bonobos têm particularmente desenvolvidas, ou seja, a capacidade de compreender o sentimento ou a reação de outro indivíduo, imaginando-se nas mesmas circunstâncias, e fazer algo em função disso.

 

O que nós humanos temos a, humildemente, aprender com as demais espécies? Por exemplo, os bonobos podem ser interessantes inspirações para características essenciais nos dias atuais: a empatia e o altruísmo. Temos, naturalmente, um grande potencial empático e altruísta, mas que, fruto do convívio em sociedades de grande escala, demanda permanentes reconexões, via educação, com algo que podemos ter inibido ao longo do tempo. Educar, contemporaneamente, tem múltiplos objetivos, entre eles aumentar nossa empatia e ampliar nossa capacidade de sermos solidários. Ou seja, desenvolver a compaixão, tentando compreender sentimentos e emoções dos demais, experimentando de forma objetiva e racional o que sentem outros indivíduos, e, em função disso, agir.

 

Ao promovermos, pela educação, a empatia e a solidariedade, queremos motivar que as pessoas se entendam e se tornem mais inteligentes, contribuindo com um mundo melhor. Ser empático e altruísta significa estabelecer afinidades por se identificar com os demais, saber escutar, compreender os seus problemas e emoções e, desta forma, ser um melhor profissional, seja em que campo de atividade for. Educar, cada vez mais, inclui na formação do educando, em complemento ao conjunto de técnicas e procedimentos tradicionais, novas habilidades e competências. Entre elas, trabalhar coletiva e solidariamente para resolver problemas e completar, com sucesso, as missões que lhe são conferidas.

 

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 Figura em Domínio Público, acessível em:

 https://cdn.psychologytoday.com/sites/default/files/styles/image-article_inline_full/public/field_blog_entry_teaser_image/Pan_paniscus06_0.jpg?itok=XYl7hQPD

 

 

 

 

 

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segunda-feira, 17 de julho de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 19:17

Educação superior para o mundo contemporâneo: o macro, o meso e o específico

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sbpc2

 

Nesta semana (dia 18/7), por ocasião da Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, na Mesa-redonda coordenada pela Presidente da SBPC, Helena Nader, serei um dos palestrantes. Segue abaixo um breve resumo da palestra a ser proferida às 15h no Auditório da UFMG.

 

O tema “Educação Superior” é certamente complexo e de tal natureza abrangente que seria ingenuidade imaginarmos sermos capazes de abordar todos os aspectos relevantes e, claramente, impossível cobri-los satisfatoriamente. Assim, opções de abordagens são inevitáveis e seguramente limitadoras, incluindo simplificações não desejáveis, mas inexoráveis.

 

Prefiro, pela exiguidade de tempo e espaço, simplificar a questão abordando-a sob três diferentes perspectivas, distintas entre si, ainda que complementares: a de macro escala, de mesoescala (intermediária) e de escala específica. Este tema não sugere neste momento as análises micro ou nano. Não porque não existam essas escalas, mas sim porque menos relevante à luz do propósito específico desta Mesa.

 

Aspecto macro

 

Do ponto de vista macro, educação superior trata de tema cujas abordagens ou soluções se entrelaçam globalmente, ainda que preservem características e peculiaridades regionais e locais. Um desafio geral, enfrentado por todos os países atualmente, é o papel da escola, incluindo neste tópico as missões das instituições de ensino superior.

 

A escola, pelo menos na vertente ocidental da história humana, nasce em Atenas, na Grécia Antiga, em torno de 400 a.C., em substituição aos sofistas, algo como professores particulares autônomos responsáveis pela formação da nova elite dirigente. Paradigmaticamente, o modelo de escola em vigor até hoje se assenta na Academia de Platão, sendo o Liceu da Aristóteles, na sequência, o cristalizador das práticas, das abordagens e das metodologias decorrentes.

 

A escola que nasce em Atenas se desenvolveu ao longo de séculos e milênios guardando a mesma essência de sua criação, porém, inicialmente de impacto limitado pelo baixo número de pessoas letradas e pela dificuldade de acesso aos textos (raros pergaminhos). Uma novidade positiva e transformadora somente ocorreria no século XV, quase dois milênios depois de Atenas, com a introdução do livro moderno, com Gutenberg. O reforço da acessibilidade ao conhecimento, fruto da abundância de textos escritos (Bíblia, Aristóteles, Platão e todos os demais pensadores anteriores) e do crescimento do número de letrados, deu o impulso que as nascentes universidades europeias precisavam para se cristalizarem como centros de divulgação e de produção do conhecimento. Isso incluía o conhecimento baseado no método científico, amadurecido pelas contribuições de Galileu e de Newton, nos séculos XVII e XVIII.

 

Os avanços decorrentes do método científico fizeram brotar tecnologias como a máquina a vapor, a qual, em conjunto com as leis de mecânica, da termodinâmica e do eletromagnetismo, entre outros avanços, alavancaram a Revolução Industrial que mudou a face do planeta, com a profundas marcas que permanecem até os dias atuais.

 

O ápice da dinâmica acima referida ocorreu ao longo dos séculos XIX e XX, especialmente este último, quando ficou evidente a demanda pela formação em grande escala de profissionais que fossem compatíveis com as demandas típicas dos modelos de desenvolvimento fordistas e tayloristas adotados. A escola do século XX, fruto de suas metodologias e concepções, se mostrou plena e totalmente capaz de dar conta dessa demanda. Nenhuma outra instituição foi tão bem-sucedida em suas missões como foi a escola no século passado, fazendo dela um ente quase sacro. Da mesma forma, o professor tornou-se alguém relevante e respeitado, ainda que com salários nem sempre satisfatórios.

 

A história tem seus percalços, inclusive para a escola. Similarmente às quebras de paradigmas promovidas pelo surgimento da escola em Atenas ou da invenção do livro moderno no Renascimento europeu, o século XXI trouxe junto o advento das tecnologias digitais maduras, as quais reconfiguram os hábitos, os costumes e a forma como vivemos e nos relacionamos, incluindo as maneiras diversas com que aprendemos e ensinamos. Ou seja, as concepções, as metodologias e as abordagens educacionais (observar que eram e são múltiplas) não deram conta ainda da radicalidade das mudanças, processo este ainda inconcluso e em pleno curso.

 

De forma extremamente reduzida e simplificada, o tratamento por média, adotado pelas escolas nos séculos anteriores, fizeram delas entes apropriados para atender as demandas e escalas de então. Os eventuais desvios e prejuízos decorrentes das metodologias eram minimizados pelo franco sucesso advindo do pleno cumprimento da missão proposta. A maioria dos educandos aprendia o suficiente em termos do conjunto de conhecimentos, bem como as técnicas e os procedimentos associados, necessários e adequados ao cumprimento médio das tarefas às quais seriam desafiados. Isso parecia suficiente e receita de sucesso quase eterno. Para surpresa de todos, especialmente dos educadores, o mundo contemporâneo parece hoje querer fechar aquelas portas o quanto antes, de forma abrupta e quase sem aviso prévio.

 

A realidade é que a escola, suas metodologias tradicionais e seus docentes não dão mais conta dos desafios contemporâneos. Temos naturais dificuldades em aceitar isso, muito em função do extremo respeito que devemos aos locais nos quais todos aprendemos até recentemente, bem como por causa de nossos justificáveis respeitos àqueles honrados e queridos mestres que nos ensinaram. Os elementos específicos educacionais associados serão tratados no terceiro aspecto a ser aqui abordado, após o segundo que vem a seguir.

 

Aspecto mesoescala

 

A questão anterior acerca do papel da escola no mundo contemporâneo é universal, quase sem grandes distinções em termos de desafios entre as diversas realidades, seja entre nações ou entre realidades regionais e locais. Por sua vez, não tem como abordar o papel da educação superior sem sua conexão com a realidade social e econômica de cada espaço no qual ela é praticada.

 

O “quem somos” e “onde estamos” interferem fortemente nos resultados e nas análises, mediados nessa mesoescala. O Brasil, entre as diversas características que lhes são próprias, há duas destacáveis: o grande contraste social e a aparente incapacidade para um desenvolvimento efetivamente sustentável e duradouro.

 

Sobre a primeira característica, somos, inegavelmente, um dos países de maiores contrastes sociais do planeta. Há países mais pobres, mas bem menos ricos em termos de recursos naturais e outras potencialidades. Há países menos pobres, mas, mesmo assim, sem desfrutarem da oportunidade, ainda que para poucos, do convívio com o que existe de mais avançado em termos de acesso a riquezas e tecnologias. Ou seja, compartilhamos, espacial e temporalmente, o convívio da quase miséria com o acesso ao que existe de mais avançado e sofisticado no mundo contemporâneo. Sabemos ofertar produtos e serviços de mais alta qualidade ou para muitos, porém, não sabemos fazer essas duas coisas ao mesmo tempo. Se de qualidade, sempre para poucos. Se para muitos, quase que inexoravelmente incorporando má qualidade.

 

A segunda característica é que vivenciamos vários ciclos ou fases de crescimentos econômicos e de melhorias de qualidade de vida, mas, ao que parece, paradoxalmente, temos enormes dificuldades em nos desenvolvermos econômica, social e ambiental de forma plenamente sustentável. Crescer sim, de forma sustentável não. Assim, os contrastes e a dificuldade de sustentabilidade de crescimento compartilham elementos comuns que nos impedem de desfrutarmos de avanços substantivos.

 

A raízes deste destino estão bem descritas pelo clássico “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, e têm várias consequências, sendo algumas delas muito especiais: baixa produtividade e quase ausência de competitividade global. Destaque-se o “salvo exceções”, as quais contribuem para evitar generalizações, mas, por serem poucas, servem também para comprovar a regra geral. Temos, de um lado, uma Casa Grande preguiçosa, acomodada e pouco estimulada a competir. Em que pesem os enormes recursos disponibilizados e os acessos ilimitados a todos os produtos e serviços, inclusive educacionais de máxima qualidade, os confortos, decorrentes do berço e assegurados por herança, instigam a acomodação e quase que impedem maiores ousadias e a tentação positiva de enfrentar desafios que incorporem inovações.

 

Por sua vez, a Senzala, que permanece apartada, ainda que com soluços esporádicos de inclusão social, tende a não dispor das ferramentas mais avançadas e dos instrumentos próprios que lhes permitam serem os polos principais do aumento de produtividade e do desenvolvimento econômico. Pecamos por uma baixa escolaridade, a qual até tem melhorado quando comparada com o passado, seja na educação básica como superior, porém, a ritmos não competitivos com que os demais países do planeta. E quando aumentamos o nível de escolaridade, em geral, o fazemos com má qualidade de ensino nos insuficientes anos estudados. O resultado é um conjunto enorme de trabalhadores cujas produtividades estão limitadas a priori por falta de formação escolar e a ausência de ferramentas que lhes permitam alterar essa realidade.

 

Aspecto específico

 

Se as dificuldades são gerais e o cenário parece pouco motivador, é do especifico e do peculiar que se pode tentar encontrar caminhos para as soluções. Assim, o quadro por mais desalentador que pareça, ele deve fornecer alguns ingredientes que permitam ter esperanças de mudanças à luz das novidades e das inovações, as quais sempre significam oportunidades.

 

Do ponto de vista educacional, entramos em uma nova era, onde pela primeira vez, em tese, poderemos, baseados nas tecnologias digitais, conjugar qualidade e quantidade. Ou seja, podemos pioneiramente explorar a possibilidade de ofertarmos qualidade para muitos. Por sinal, esta é a melhor definição de inovação em realidades como a brasileira. Qualidade para poucos ou má qualidade para muitos não é inovar; é repetir o passado.

 

Adentramos um novo cenário onde, pela primeira vez, será plenamente possível que todos aprendam (isso não era viável no século anterior), todos aprendem o tempo todo e em qualquer lugar (novidades do século XXI) e, especialmente, cada um aprende de maneira única e própria (nós sequer sabíamos disso antes).

 

Os maiores desafios contemporâneos educacionais estão associados a como incorporar o mundo das tecnologias digitais, incluindo o uso adequado de plataformas de aprendizagem e técnicas sofisticas de analítica da aprendizagem, as quais, em conjunto com a edugenômica, permitem conhecer o educando de forma inédita. Assim, torna-se possível estabelecermos os marcos de uma educação flexível (que combina sem preconceitos as ferramentas das modalidades presencial e a distância) e, fundamentalmente, personalizada, customizada à luz de cada realidade e apropriada para cada educando e seu contexto, em um mundo de educação permanente ao longo da vida.

 

Enquanto que no século XX o essencial era a transmissão de um determinado conteúdo, associado a um conjunto de técnicas e procedimentos, neste século há algo tão ou mais relevante que é desenvolver a consciência do educando acerca dos mecanismos de como se aprende. Ou seja, se a aprendizagem está associada à cognição, o aprender a aprender refere-se à metacognição, onde mais (ou tão) importante do que o que foi aprendido é o amadurecimento da percepção por parte do estudante acerca de como ele aprende.

 

Ainda que este último tópico possa ser o mais estimulante de todos, não teremos tempo e nem a pretensão de tratá-lo adequadamente, mas destaco que, entre as peculiaridades citadas anteriormente, geramos no Brasil um caldo cultural absolutamente afável à adoção de novas tecnologias. Se faltasse comprovação (não falta), basta observar que, mesmo tendo um dos piores e mais caros acessos à internet do planeta, somos um dos maiores usuários do mundo, seja em número ou seja em tempo médio diário de uso. Deve-se agregar a isso o fato que as tendências apontam para a predominância de recursos educacionais acessíveis via celular ou dispositivos semelhantes, áreas onde a população brasileira demonstra capacidades e apreços ímpares, bem como competências impressionantes nos usos das funcionalidades associadas.

 

Em suma, muito a aprofundar e peço desculpas pela ousadia de tratar de temas extremamente complexos em espaços de tempo e de escrita muito limitados, mas a discussão em si certamente contribui para o estímulo às investigações de soluções. São temas que ainda não foram tratados adequadamente, muito menos resolvidos, nem aqui e nem em lugar algum do mundo. Por isso mesmo, compartilhamos esta atmosfera de oportunidades inéditas que a todos motiva a continuarmos enfrentando esses desafios educacionais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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terça-feira, 11 de julho de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 11:55

Medicina sem EaD pode?

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Muitas vezes me perguntam, com certa ironia, se seria possível um curso de graduação de Medicina na modalidade educação a distância (EaD). Todas as vezes, sem titubear, respondo: “Tanto em Medicina como em um conjunto de outras carreiras, a formação exclusivamente a distância não seria adequada; porém, acho que seria igualmente inadmissível um curso contemporâneo de Medicina sem as ferramentas da educação interativa baseadas nas tecnologias digitais”.

 

Na verdade, as terminologias que separam abruptamente as modalidades presencial e a distância são anacrônicas e favorecem pouco o inexorável futuro de uma educação flexível, híbrida e personalizada. Essas denominações foram consolidadas na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira de 1996. Seria injusto exigir dos educadores e legisladores de então que tivessem a premonição do que seria este mundo atual em termos de absoluta preponderância das tecnologias digitais.

 

A adequada formação de um médico, bem como dos demais profissionais na área da saúde, demanda que eles dominem a utilização de plataformas digitais e de tecnologias móveis e que tenham familiaridade com realidade virtual imersiva, impressoras tridimensionais e com técnicas de modelagem e simulação. Aquilo que era uma opção na formação do profissional do passado passa hoje a ser experiência obrigatória para qualquer formando na área. A simples dificuldade em operar sistemas digitais mais sofisticados pode, na prática, inviabilizar que um médico usufrua das facilidades que a Telemedicina e outros tantos recursos inovadores propiciam.

 

Recentemente, a McKinsey&Company apresentou um Relatório sobre tendências e perspectivas internacionais acerca da dinâmica das organizações responsáveis por saúde em direção ao mundo completamente digitalizado. O Relatório aponta que há mais de 20 anos os detalhes de gestão das instituições de saúde já estão completamente digitalizados, mas, segundo o Relatório, esta onda é cosmética comparada com as novidades em curso e aquelas que ainda estão por vir.

 

O estado do Rio Grande Sul acaba de adotar, com aval da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, a Oftalmologia a distância. Trata-se de inovador projeto de Telemedicina que prevê, conforme reportagem do jornal Folha de São Paulo, reduzir em 40% a fila de espera pelos procedimentos. Os pacientes das unidades básicas de saúde serão encaminhados a 8 consultórios espalhados pelo estado, onde serão atendidos por técnicos de enfermagem. Estes conduzirão a parte física e presencial do exame oftalmológico (pressão ocular etc.), supervisionados por oftalmologistas em tempo real a distância, os quais são abastecidos por imagens teletransmitidas via uma plataforma de telessaúde.

 

Ainda que de forte impacto a cada um dos milhares que aguardam nas filas de atendimentos oftalmológicos, o caso em pauta é somente um pequeno exemplo dos recursos que gradativamente estarão sendo disponibilizados aos profissionais de saúde para enfrentar os gigantescos desafios em que estão envolvidos.

 

Há inúmeros outros casos ilustrativos na área. Este ano completa dez anos o Programa Telessaúde Brasil Redes do Ministério da Saúde, reconhecido pela Organização Panamericana da Saúde como exemplo aos demais países, o qual oferece laudos diagnósticos de eletrocardiogramas, retinografias na detecção de retinopatias diabéticas, entre outros serviços, além da segunda opinião aplicada à atenção primária à saúde.

 

Progressivamente, faremos uso cada vez mais intenso de “big data” agregando informações variadas sobre saúde, incluindo determinantes genéticos de doenças, controles de expressão gênica e as interações de indivíduos com ecossistemas. O mundo da internet das coisas, dispositivos baseados em nanotecnologia e inteligência artificial, entre outras novidades, por certo, darão novo significado para Medicina, área onde as novidades devem emergir com velocidades aceleradas nos próximos tempos.

 

Atualmente é imprescindível uma educação superior na área de saúde que incorpore no processo de formação básica desses profissionais as competências e habilidades no uso de múltiplas ferramentas digitais. A Telemedicina, por exemplo, deverá fazer parte obrigatória dos currículos, bem como técnicas para propedêutica médica a distância e o uso de ambulatórios didáticos virtuais.

 

Por fim, o uso apropriado de tecnologias e metodologias educativas interativas deverá propiciar a formação de redes de educação colaborativas integradas, via a articulação de desenvolvedores de conhecimento e o compartilhamento de infraestruturas laboratoriais de ensino, tanto em nível nacional como internacional.

 

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  • Contatos via: ronamota@gmail.com
  • Figura em Domínio Público, em: 

https://thumbs.dreamstime.com/x/doctor-telemedicine-concept-pressing-button-90972024.jpg

  • Registro agradecimentos, pelas contribuições, à Dra. Ana Estela Haddad e ao Prof. Chao L. Wen, ambos da USP.
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