Publicidade

Arquivo do Autor

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 06:47

O antigo, o novo e o profundo

Compartilhe: Twitter

Vivemos tempos intrigantes e eles impactam na educação ou dela resultam. O mundo contemporâneo superestima valores como exclusividade, novidade e originalidade, cada qual à sua maneira. Em geral, tais características têm marcas mais externas e individuais do que internalizadas e coletivas, sendo normalmente mais cosméticas e menos profundas. Porém, estamos na transição e nas mudanças todos os gatos parecem pardos, mesmo quando não são.

Exclusividade muitas vezes é vista como sendo possuir ou desfrutar de algo que os demais não podem ter. O futuro incorporará a este conceito elementos de criatividade, especialmente reconhecidos pelo eventual impacto positivo ao bem comum. Aquilo que é medido hoje pela exclusão, terá como principal indicador ser, ou não ser, compartilhável. Novidade está, por vezes, associada a fazer uso individual em detrimento dos demais, independente do valor em si. Na fase mais madura, é possível que, transcendendo o modismo simples, novidade significará, principalmente, se distinguir por ousar, ser diverso do antes e valorizada pelo pioneirismo ou nível de inovação. Originalidade costuma ser confundida com aquilo que distingue, inibindo os demais de usufruir. Tempos virão em que ser original, essencialmente, significará propiciar bens, serviços e experiências de qualidade para muitos.

As tecnologias digitais são as grandes geradoras dessas transformações, porém, elas, isoladamente, não têm as soluções para uma transição adequada. Educação tem, por certo, um papel central neste processo, ainda que não exclusivo. Pensar as novas metodologias compatíveis com os propósitos acima representa um grande e complexo desafio contemporâneo. O que se sabe é que, em princípio, as tecnologias digitais permitem transformar escassez em abundância.

Desenvolver metodologias de aprendizagem inovadoras para um mundo onde conhecimento, progressivamente, se transforma em commodity barata e de fácil acesso, significa ter respostas para um conjunto adicional de competências que o ensino tradicional não consegue mais dar conta. Muito além da cognição, mais associada à recepção de informação ou ao simples aprender, o desafio passa a ser o desenvolvimento de habilidades metacognitivas, ou seja, o incremento da consciência do educando acerca dos mecanismos segundo os quais ele aprende, ou seja, o aprender a aprender. Enquanto podemos considerar razoável mensurar cognição por horas ou créditos, cristalizados em notas de testes clássicos, a aprendizagem metacognitiva não está diretamente correlacionada ao tempo dispendido ou mesmo à informação acumulada no período, tornando a avaliação dos níveis metacognitivos muito mais sofisticada.

O ambiente educacional que estimula aprendizagens inovadoras implicará em inéditos processos educacionais. Entre eles, destaco, a título de ilustração, a aprendizagem que se inicia com um conjunto de cursos, majoritariamente disciplinares e basicamente online, mais associados com o que estamos acostumados em termos de transmissão de conhecimento. Na sequência, ou em paralelo, a complementação do processo via a participação ativa em um “campus físico”, ou espaços similares, visando a execução de projetos, em geral interdisciplinares e desenvolvidos em equipe. A completeza do pensamento crítico, a preparação ao processo de aprendizagem contínua ao longo da vida e as habilidades em solução de problemas se darão, principalmente, nesta segunda etapa.

Quando o novo se afastar do antigo e emergir o mais profundo, os conceitos atuais de exclusividade, originalidade e novidade estarão profundamente modificados. Mais do que desfrutar individualmente de um bem ou serviço, em geral valorizado pela exclusão dos demais, no futuro, serão especialmente reconhecidas a capacidade de criação e a disponibilização abundante de produtos e processos que contribuam e sejam compatíveis com o desenvolvimento econômico, social e ambiental harmônico e sustentável. Pode parecer ingênuo, mas não é. Se não soubermos onde queremos chegar, melhor nem ousar trilhar os novos caminhos.

Autor: Tags:

domingo, 27 de dezembro de 2015 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 14:21

O futuro que começou semana passada

Compartilhe: Twitter

As tecnologias digitais promovem uma revolução profunda, rápida e totalmente abrangente. Nenhum setor da sociedade deixará de ser atingido fortemente, alguns antes e outros depois. Educação é um desses setores relativamente tardios, mas, sendo a marca dos novos tempos a disponibilização plena, instantânea e gratuita de informação, as consequências nos processos de ensino e de aprendizagem serão de grande escala.

Para que possamos educar para o futuro, é preciso exercitar ao máximo as reflexões acerca de como ele pode eventualmente vir a ser. No campo da economia, as transformações que assistimos contemporaneamente são meras sombras do que está por acontecer. Sombras porque traduzem reflexos de algo verdadeiro, mas a real dimensão do novo objeto ainda precisamos conferir. A tensão crescente entre o advento do ilimitado conhecimento, fruto da abundante informação, versus a concepção de mercado, centrada na escassez da oferta que estimula a posse privada, expressa a grande contradição que o capitalismo haverá ainda de enfrentar.

Para citar um único exemplo, aquilo que se convencionou chamar de “internet das coisas” oculta uma nova realidade onde o conhecimento e a possibilidade de conexões presentes no objeto serão muito mais importantes e valorizados do que o objeto propriamente. Karl Marx, pensador do séc. XIX, talvez venha a ser mais lembrado no futuro pelo texto Fragments on Machines do que pelo seu clássico “O Capital”. No texto Fragmentos, Marx explora um cenário onde máquinas produzem e pessoas supervisionam, contexto no qual a força produtiva principal seria a informação. O conflito central não seria mais entre salário versus lucro, mas sim acerca do complexo controle do conhecimento “dentro” das máquinas e o interesse de que ele seja privado ou social.

Recentemente, Paul Mason na obra PostCapitalism trata da economia depois do capitalismo em uma sociedade imersa no mundo das tecnologias digitais, destacando as dificuldades das economias tradicionais, fundadas no mercado e na escassez de produtos e serviços, frente à inédita realidade de informação abundante e barata. Nesse novo contexto emerge uma economia baseada no compartilhamento e no conectivismo, o que estimula a formação de redes e ofende visões clássicas de individualismos e hierarquias. Da mesma forma, diferentemente da concepção marxista de proletariado, o novo agente motor de transformação social seria formado principalmente por pessoas educadas e conectadas.

As disputas atuais envolvendo Uber, Airbnb e similares podem ser somente prévias modestas de atritos significativos por vir, opondo monopólios, bancos e corporações, baseadas no privado e na escassez, versus a possibilidade crescente de acesso pleno a bens e serviços abundantes. Neste novo espaço, devem emergir formas sem precedentes de propriedades, de empregos, de empréstimos, de contratos legais coletivos e tácitos, viabilizando uma economia solidária de compartilhamento. Esta por sua vez baseada na formação de redes, dependente das múltiplas e ilimitadas conexões, e fruto de um universo de produção coletiva, estimulada por pares, os quais são simultaneamente produtores e usuários.

Por fim, produtos que hoje nem sequer assim se configuram podem passar a ter valores expressivos. Entre eles, a felicidade genuína. Passaremos talvez a valorizar mais experiências do que coisas, como bem descrito, por exemplo, pelos estudos de Thomas Gilovich da Universidade de Cornell. Se hoje, ilusoriamente, somos o que conseguimos adquirir em bens e títulos, é provável que no futuro, que começou semana passada, melhor possamos nos descrever como a soma total de nossas próprias experiências.

Um Feliz Ano Novo e um leve 2016 para todos!

Autor: Tags:

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 14:49

Temos uma crise, ou seja, há oportunidades educacionais

Compartilhe: Twitter

As instituições de ensino se caracterizam, sobretudo, por serem complexas e diversificadas, vivendo numa espécie de “crise permanente”, refletindo um mundo de desafios sempre presentes. E as oportunidades estão associadas a continuar expandindo o acesso à educação em todos os níveis, em escala e em qualidade, mesmo quando o cenário externo indica aumento de desemprego e diminuição de poder aquisitivo.

Albert Einstein, talvez o mais brilhante cientista do século passado, pouco antes de seu falecimento, em 1955, deixou o seguinte comentário “Crise é a benção que pode ocorrer com as pessoas e países porque traz progressos. A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite. É na crise que nascem invenções, descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise, supera a si mesmo sem ficar superado. Sem crise não há desafios, sem desafios a vida é uma rotina. Sem crise não há méritos. É na crise que aflora o melhor de cada um. Falar de crise é promovê-la. Acabemos com a única crise realmente ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para superá-la”.

É preciso perceber, e o quanto antes melhor, que na educação mudanças profundas estão em curso e é preciso identificá-las, entendê-las e usá-las estrategicamente. Por exemplo, no ensino superior, entre tantas outras novidades, o estudante ingressante não é mais somente aquele jovem que recentemente completou o ensino médio e quase precocemente se definiu por esta ou aquela futura profissão. O perfil contemporâneo, progressivamente, inclui um novo público mais adulto, com suas características específicas, demandando naturalmente novas metodologias de ensino, a incorporação competente das tecnologias digitais e outras abordagens de aprendizagem diferenciadas.

Há que se focar no educando, conhecê-lo profundamente e ter como maior motivação a formação de profissionais competentes e inovadores aptos a enfrentarem os desafios de um futuro basicamente incerto e quase imprevisível. Precisamos caminhar de forma acelerada em direção a uma educação híbrida e flexível, onde as boas características de ambas as modalidades, presencial e a distância, poderão ser contempladas simultaneamente e de forma, muitas vezes, complementar.

Enquanto no ensino tradicional priorizava-se o desempenho individual, nas abordagens educacionais contemporâneas o trabalho em grupo ocupa espaço preferencial, estimulando produzir em equipe. O espaço de aprendizagem tipicamente delimitado pela escola espalha-se pelo não espaço que contempla o ambiente doméstico, incluindo o do trabalho e o caminho de um para outro. De fato, estamos diante de um novo paradigma espaço-temporal, sem limites de qualquer natureza.

Na educação superior, o que esperar de um profissional formado é tudo menos o mesmo, se compararmos décadas atrás com os tempos atuais. Um grande complicador é que o que se espera atualmente, em termos de competências, inclui os requisitos de ontem, demandando novos atributos sem abrir mão dos anteriores. Um resumo de todas as mudanças está na diferenciação entre competência técnica e competências múltiplas, ou, em outras palavras, entre cognição e metacognição.

Houve um período que era quase suficiente o domínio de um conjunto razoavelmente delimitado de conhecimentos, associado a processos cognitivos e a um elenco restrito de técnicas e procedimentos básicos contidos nos currículos-padrão definidos para cada profissão.

O dilema atual é que o cenário acima simplesmente não funciona mais. Em complemento à competência técnica, existem múltiplas habilidades, associadas ao mundo da metacognição, a serem desenvolvidas e estimuladas. O aspecto comportamental é absolutamente crucial quando um profissional depara-se com um problema inédito, um tema inovador ou tecnologias recentes.
Enfim, crises existem para serem superadas e educação de qualidade e para muitos é, de longe, a melhor ferramenta contemporânea que dispomos.

Autor: Tags:

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015 Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 09:42

O que vem por aí? Não sabemos, mas eduquemos para o futuro

Compartilhe: Twitter

É bastante comum ouvirmos corretas reclamações dos menos jovens sobre a compulsiva e obsessiva ligação dos mais jovens com celular (geração “heads down” ou, em português, “cabeças baixas”). Ainda que pertinentes as observações, a tendência é que, ao invés dos mais jovens mudarem seus hábitos, talvez mais provável que os novos mais velhos se acostumem com os hábitos e parem de reclamar. É previsível também que o celular seja somente um prenuncio de algum novo dispositivo que ficará cada vez mais grudado ao corpo e, certamente, ativo o tempo todo.

As mudanças serão mais radicais do que possam parecer até aqui. Em todos os setores, sem exceção. Por exemplo, algo ainda embrionário e que será definitivo é a transformação nos ambientes de trabalho. O modelo de trabalho atual tem resistido, com mudanças relativamente cosméticas até aqui. A flexibilidade em termos de trabalhar onde quiser e quando quiser, sempre sendo os trabalhadores aferidos pelos resultados obtidos e jamais pelos processos adotados, será a marca dos novos tempos. Da mesma forma, as profissões serão aquelas que existem hoje reconfiguradas e modificadas profundamente, à luz das novas tecnologias digitais, acompanhadas pelo surgimento de atividades e carreiras que sequer imaginamos atualmente.

A reinvenção do mundo do trabalho em curso e que será acelerada nos próximos tempos será muito mais intensa e rápida do que foi com a revolução industrial nos séculos passados. A própria noção de profissão, como a conhecemos hoje, será redefinida, sendo que a imensa maioria usará seus atributos e conhecimentos em áreas muito diversas, mudando de campos de atividades ao longo de suas vidas profissionais. Se um dia, corretamente, alguém se preocupou com o destino dos fabricantes de velas quando do surgimento das lâmpadas, ou nos dias atuais quando vemos os taxistas enfrentando o Uber e equivalentes, a amplitude dos conflitos similares atingirá a todos, sem exceção, inundando indistintamente todos as áreas da sociedade.

Mesmo iniciativas que, contemporaneamente, parecem definitivas, como, a título de ilustração, Facebook ou a emergência dos shoppings em detrimento das lojas de ruas, podem ter seus dias contados. O primeiro, a exemplo do Orkut, pode ter esgotamento rápido, bastando que alternativas mais atraentes promovam relacionamentos diferenciados de socialização e desloquem a atenção dos usuários, os quais se movem, quando o fazem, com rapidez e em massa. Os shoppings, como eles estão concebidos, dificilmente enfrentarão os espaços eletrônicos interativos e participativos de compras.

A perenidade de dados em geral, e os pessoais em especial, é algo muito sensível, o que já foi percebido, com sucesso, por aplicativos assemelhados ao Snapchat ou por vídeos de duração limitada. Igualmente, rapidamente terá pouco sentido possuir objetos, incluindo automóveis, se houver facilidade de acesso em condições mais favoráveis e com investimento de tempo muito menor. Os tempos disponíveis serão direcionados para atividades mais produtivas, seja no trabalho ou de lazer. Os aplicativos de serviços serão tão comuns como de aquisição de objetos e as oportunidades, seja de negócios ou de empregos, terão nestes campos terrenos incrivelmente férteis.

E a educação como fica? Embora não claro, é certo que como está não será. As metodologias educacionais em curso refletem valores e demandas de um passado que se afasta muito rapidamente. As pedagogias inovadoras ainda não ocuparam seus espaços, mesmo porque ainda é nebuloso o cenário à frente e aqueles que estão em postos de decisão tendem, assustados pelas possibilidades de mudanças, a reforçar mais ainda os antigos pressupostos. Neste ponto, educadores, gestores educacionais, motoristas de taxi e nós todos em geral nos assemelhamos, demonstrando mais pontos em comum do que simplesmente compartilharmos o mesmo futuro que se aproxima.

Autor: Tags:

sábado, 28 de novembro de 2015 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 16:34

Anarquia, Estado e Educação

Compartilhe: Twitter

Embora anarquia, enquanto proposta ou teoria política, não atenda a uma definição única e imutável, a sua essência pode ser descrita como almejar uma sociedade na qual os indivíduos cooperem livremente entre si como iguais, sejam emancipados e, especialmente, não estejam sujeitos a qualquer forma de opressão. Assim, neste texto, anarquia não significa “sem Estado” e sim “cidadão emancipado” conjugado com “Estado não opressor”.

O anarquismo, assim entendido, se opõe a todas as formas de controle hierárquico excessivas, venham elas do Estado, de organizações ou de empresas, por serem danosas tanto ao indivíduo quanto à sociedade e, portanto, desnecessárias.

Em que pese a compreensão popular de anarquismo enquanto associado a movimentos contrários às ordens vigentes, o anarquismo tem uma tradição muito mais complexa e profundamente libertária, a qual não se reduz à simples oposição a governos. Os anarquistas se caracterizam principalmente pela contraposição à ideia ou conceito de que o poder e a dominação sejam elementos indispensáveis ou inevitáveis ao funcionamento da sociedade.

Anarquismo, assim visto, não se caracteriza por oposição à democracia, enquanto conceito, tampouco em contraposição às vertentes socialistas. Da mesma forma, não se reduz de forma simplista à negação pura e simples da noção de mercado ou de formas de capitalismo. Os focos prioritários e essenciais dos anarquistas estão nas liberdades e nas soberanias, individuais e coletivas, ancoradas na premissa de um Estado baseado na não-opressão, no estímulo à emancipação e no apoio às iniciativas cooperativadas e solidárias.

Não existe correspondência direta e simples entre metodologias educacionais e preferências políticas. Porém, indiretamente, há sim algum nível de correlação, embora, em geral, em nível complexo e, muitas vezes, difícil de entender. Podemos dizer que há pedagogias que priorizam processos emancipatórios e outras que não se preocupam com esses temas ou não os priorizam. Há abordagens centradas em estímulos à aprendizagem independente, preparando para educação permanente ao longo da vida, e outras que, diferentemente, geram e cristalizam as múltiplas dependências do educando, sejam elas dependências do professor, da escola ou de outros atores e ambientes educacionais.

Ao contrário da visão mais tradicional de “aprender”, as práticas educacionais emancipatórias são centradas no “aprender a aprender”. Para os educadores emancipadores, quanto aos processos avaliativos, mais relevante do que o “saber”, em oposição ao “não saber”, é considerar como estratégico o “saber resolver”. Ou seja, mais importante do que o quanto o aluno aprendeu é mensurar se, ao longo da aprendizagem, houve um amadurecimento acerca da consciência do educando quanto aos mecanismos de aprendizagem, entendendo melhor como ele aprende. Enfim, o crucial é se e o quanto o educando percebeu melhor como ele aprende.

A expectativa é que, de alguma forma, ao final do processo, profissionais formados via metodologias emancipatórias tenderiam a ser mais participativos, empreendedores, produtivos e menos dependentes de oportunidades geradas diretamente pelo poder público ou pelas demais estruturas hierárquicas institucionais da sociedade. No mundo da aprendizagem independente, mais do que futuros empregados, são formados, prioritariamente, profissionais e cidadãos que sabem aproveitar oportunidades, com reflexos positivos para eles e para a sociedade,

Portanto, formas de Estado e Educação se correlacionam, ainda que não diretamente, mas, é possível estabelecer algum nível de coerência entre os regimes e as respectivas pedagogias dominantes adotadas. Assim, é razoável supor que regimes políticos populistas ou autoritários tendam, quase que naturalmente, a estimularem metodologias educacionais mais tradicionais centradas em modelos de aprendizagem dependente. Se não o fazem de forma deliberada, o viabilizam por simples coerência e indução. Por sua vez, democracias mais participativas ou com ingredientes políticos mais simpáticos à emancipação do cidadão tendem à adoção de metodologias educacionais mais ativas, geradoras de desenvolvimentos sustentáveis, seja do ponto de vista econômico, social ou ambiental.

Autor: Tags:

terça-feira, 17 de novembro de 2015 Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 07:42

Diamante: transformando escassez em abundância

Compartilhe: Twitter

Na semana passada, a empresa “Diamond Foundry” anunciou ser capaz de crescer, de forma eficiente, diamantes reais e perfeitos (até nove quilates) em somente duas semanas de trabalho em laboratórios. Segundo Peter Diamandis, CEO da Singularity University, esta novidade pode ter forte impacto no futuro da disponibilização de avanços tecnológicos, cruzando, no caso de diamantes, a barreira da escassez em direção à abundância plena.
A credibilidade no anúncio acima depende do nível do ceticismo de cada um, mas, aos mais incrédulos, bom recuperarmos a lição do alumínio. Em certa ocasião, conta a história, um artesão teria procurado o imperador Tiberius, conhecido por ter sido durante seu reinado que Jesus foi crucificado na Palestina, para presenteá-lo com um prato feito de um material brilhante, duro e incrivelmente leve. O imperador ficou surpreso, admirado e também ciumento do poder do artesão. Prevaleceu o último sentimento e o artesão foi, por ordem de Tiberius, decapitado imediatamente. Consta que o surpreendente metal nada mais era do que o alumínio e, consequentemente, a decapitação atrasou o seu conhecimento por mil e oitocentos anos, dado que o alumínio somente reapareceu no começo do século XIX, quando se transformou rapidamente no mais valioso metal da época.
A escassez do alumínio vem do processo químico a ele associado. Curiosamente, depois do oxigênio e do silício, o alumínio é, de fato, um dos mais abundantes elementos na crosta terrestre. Mesmo assim, não podemos simplesmente “cavar” alumínio porque ele está fortemente misturado e ligado na forma de óxidos e silicatos, em um material argiloso marrom chamado bauxita. Historicamente, o alumínio puro era tão difícil separá-lo da bauxita que ele se tornou tão raro e valioso como o ouro e platina. Em 1886, com a descoberta da eletrólise, tudo muda e a eletricidade mostrou-se fundamental para “liberar” o alumínio da bauxita. Assim, de repente, após séculos de escassez, todos passaram a ter acesso ao metal leve, brilhante, prático e, especialmente, barato.
O diamante é uma das formas alotrópicas do elemento carbono, tal qual o grafite, o amorfo “papel carbono” ou os mais recentes buckyballs ou nanotubos. O diamante decorre da forma cristalina própria com estrutura cúbica estável em pressões acima de 60 kbar, seja por ação da natureza ou sintetizada industrialmente, onde cada átomo de carbono esta ligado a outros 4 átomos de carbono por meio de fortes ligações covalentes tipo sp3 em um arranjo tridimensional tetraédrico. O diamante é o mais duro material de ocorrência natural que se conhece, com uma dureza de 10 (valor máximo da escala de Mohs). Isto significa que não pode ser riscado por nenhum outro mineral ou substância, exceto o próprio diamante, funcionando como um importante e estratégico material abrasivo.
Da mesma forma que a eletrólise fez o alumínio migrar de raro para abundante, a Google propiciou o acesso à informação plena, instantânea e gratuita. Similarmente, os celulares fazem a comunicação ser abundante ou a energia solar um dia propiciará energia acessível e ilimitada. Em suma, de acordo com Peter Diamandis, tecnologia contemporânea é essencialmente um mecanismo liberador de recursos e, portanto, revolucionária e transformadora.
Diamantes respondem por um comércio mundial da ordem da 15 bilhões de dólares por ano, associado a um complexo sistema de mineração, às vezes, acompanhado de conflitos, violência e corrupção. O anúncio recente, baseado em novas tecnologias que reproduzem em laboratório as condições similares com que a natureza forma diamantes, deve representar uma ruptura fundamental neste processo de transformação de escassez em abundância.
A Estácio, empresa brasileira do campo educacional, está completando este ano 45 anos de existência e tem como símbolo adotado o diamante. Os anúncios recentes do mundo dos diamantes dão mais sentido ainda à missão específica da Estácio de transformar a escassez de educação de qualidade, ou seja, qualidade para poucos, em abundância, no caso, educação de qualidade para muitos.

Autor: Tags:

domingo, 8 de novembro de 2015 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 10:56

O ENEM e o mundo contemporâneo

Compartilhe: Twitter

O Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM, que nasceu com a finalidade de medir a qualidade do ensino médio, a partir do final da década passada passou a ser quase que exclusivamente um teste nacional de admissão ao ensino superior. O exame hoje abrange anualmente um público de quase oito milhões de candidatos, com perspectivas concentradas no interesse nas quase 250 mil vagas das universidades públicas federais e de milhões de outras oportunidades de ingresso no ensino superior privado.
Ao longo deste processo de transformação de finalidades, progressivamente, houve uma consequente cobrança maior por demonstração de profundidade no domínio de matérias como matemática, física, química, biologia, língua estrangeira, história, geografia e redação. A questão é que profundidade passou a ser entendida como sendo basicamente, ainda que não exclusivamente, capacidade de memória, habilidade de responder questões no tempo previsto e atestado formal de domínio de itens supostos essenciais a ingressantes em cursos superiores.
Se o mundo contemporâneo apresenta novidades substantivas, entre elas estão as consequências resultantes do ingresso acelerado em uma sociedade onde a informação está, cada vez mais, total e instantaneamente acessível, bem como gratuitamente disponibilizada. Assim, pode ser que simplesmente separar os candidatos entre os que sabem e os que não sabem seja menos relevante do que, principalmente, selecionar e induzir talentos associados aos que sabem resolver. Claro que saber resolver tem a ver com saber, mas vai além, significando fazer uso das informações disponíveis para apresentar soluções a problemas que se caracterizam por serem mais complexos e menos associados a simplesmente saber em oposição simples a não saber.
Neste novo cenário, a capacidade de interpretar textos, fazendo uso de dados disponibilizados, o uso do raciocínio crítico e da lógica, e especialmente um conjunto de atributos metacognitivos, que vão além dos processos cognitivos mais simples, passam a desempenhar um papel cada vez mais relevante e tais elementos deveriam estar expressos, cada vez mais, nos testes.
Por exemplo, uma questão curta e objetiva, ainda que bem formulada, se sua solução depende principalmente de memória e do domínio de técnicas e procedimentos padrão ela é substancialmente diversa de uma questão onde a ênfase está em apresentar no seu enunciado boa parte dos dados que serão importantes para a solução do problema proposto. A segunda estratégia, diferentemente da primeira, mensura foco, interpretação adequada de texto, capacidade de raciocínio e de adoção estratégias metacognitivas. Ou seja, estaríamos medindo, ainda que indiretamente, o nível de amadurecimento da consciência adquirida pelo educando acerca dos mecanismos de aprendizagem que o habilita na sua capacidade de aprender a aprender continuamente em um contexto de educação permanente ao longo da vida.
Em outras palavras, o ENEM, como ele é hoje, visa, principalmente, a selecionar e distinguir entre os que sabem e os que não sabem. Porém, tem grandes dificuldades em aferir aqueles que sabem resolver, em especial resolver à luz das informações amplamente disponíveis que caracterizam a sociedade contemporânea.
A relevância maior deste fato é que, ao não percebermos claramente aqueles que a partir das informações disponibilizadas sabem resolver bem como deixar de induzir as escolas a adotarem procedimentos que resultem dessa percepção, deixamos de captar e estimular os verdadeiros talentos que podem ajudar a liderar a melhoria de nossa produtividade e, consequentemente, a conduzir um desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável.

Autor: Tags:

terça-feira, 27 de outubro de 2015 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 15:51

Aprendizagem Baseada em Problemas no Ensino EaD de Engenharia

Compartilhe: Twitter

Altinho é uma prática desportiva e recreativa, bastante conhecida no Rio de Janeiro, fruto da adaptação dos fundamentos do futevôlei para a prática na forma de círculo. Os jogadores, mulheres e homens, passam a bola um para o outro sem deixar cair, usando somente um toque, mantendo-a sempre no alto. Não há, salvo engano, nenhuma correlação observada entre bons praticantes de altinho e profissionais do futebol, ainda que certamente controlar bem a bola seja indispensável na prática futebolística. Da mesma forma, o perfeito domínio da gramática não faz de imediato um bom escritor ou poeta, ainda que escrever corretamente seja necessário ao bom produtor de textos.
Grosso modo, a partir das ilustrações simplistas acima, poderíamos dizer que competências no ensino tradicional, em geral, estão associadas a saber algo em oposição ao não saber. A ênfase principal costumava ser o domínio de conteúdos, técnicas e procedimentos, na expectativa de que o somatório deles, por si só, completasse a formação desejada. De alguma forma, de fato, no cenário do século passado, dentro daquilo que se exigia, era sim possível, em tese, formar profissionais razoavelmente satisfatórios. Ou seja, em um passado recente, a partir de um conjunto delimitado e relativamente duradouro, era viável, em geral, formar profissionais aptos a enfrentarem os principais desafios de então, a maior parte deles bastante previsíveis.
Por sua vez, o mundo contemporâneo traz desafios muito mais complexos e difíceis de serem previstos, onde educar ficou muito mais difícil. Simbolicamente, é como se, em complemento àquele conjunto anterior de predicados, os quais continuam sendo necessários, uma série de novas exigências fosse acrescida. Entre elas, que não basta simplesmente saber, é preciso saber resolver e conviver. E é preciso uma metodologia que dê conta disso. Ou seja, a partir do que se sabe desenvolver a nova centralidade de encontrar soluções para complexos, muitas vezes inéditos, desafios. A partir do saber, saber resolver explorando de forma muito especial o trabalho em equipe.
Em particular no ensino de Engenharia, além da formação básica tradicional, passa a ganhar uma progressiva relevância, estimular, ao longo do percurso de formação, a ampliação da capacidade de análise e solução de problemas, por meio de projetos desenvolvidos em equipe. Na busca das soluções, aos estudantes, individualmente e preferencialmente em grupos, são evidenciados os naturais avanços e retrocessos do processo de solução, bem como a necessidade permanente de detalhamentos e revisões. Este rico processo envolve, além do professor orientador e dos alunos, os professores das disciplinas correlatas, a coordenação do curso, devendo estar inserido no Projeto Pedagógico do Curso, de forma a criar condições para o seu pleno desenvolvimento.
A aprendizagem baseada em problemas (por meio de projetos) é a denominação genérica que se dá a um conjunto de estratégias que remontam sua proposição ao começo do século passado, conhecida pela sua versão em inglês PBL (“Problem Based Learning”). Ao longo do século passado a adoção e o sucesso desta metodologia foram relativamente modestos.
No entanto a partir do século XXI, as tecnologias digitais avançadas têm permitido um reexame desta proposta do ponto de vista de novas possibilidades e funcionalidades. As transformações do mundo do trabalho, seja na forma de empregos ou oportunidades de negócios, igualmente, passaram a enfatizar muito mais a capacidade de resolver problemas e de convivência, em detrimento de características clássicas de memória acumulada e do domínio de técnicas e procedimentos específicos. Memória gradativamente perde centralidade porque reexaminada à luz das informações plenamente disponibilizadas do mundo digital e os outros predicados clássicos porque sujeitos a uma dinâmica de mudanças e prazos curtos de validade sem precedentes.
Portanto, o ensino de Engenharia, em especial de Engenharia de Produção, onde as características acima descritas são ainda mais evidentes, demanda ser repensada à luz de novidades como as plataformas educacionais inovadoras, que são interfaces de aprendizagem inteligentes, e as novas abordagens metodológicas, particularmente a proposta PBL. Em conjunto, elas permitem explorar o aparente contraditório entre ensino de massas e qualidade, ou seja, é tornado possível estabelecer para cada estudante um tratamento individual e personalizado. Esta abordagem, se bem desenhada, viabiliza, de forma pioneira, estabelecer a real possibilidade de conjugar escala, qualidade e contemporaneidade, via atendimento de massa e personalização. Em outras palavras, prover educação personalizada de qualidade para muitos.
O Engenheiro de Produção, entre outras funções, planeja, projeta e gerencia sistemas organizacionais que envolvem recursos humanos, materiais, tecnológicos, financeiros e ambientais. Este profissional alia conhecimentos técnicos e gerenciais para otimização do uso de recursos produtivos e diminuir os custos de produção de bens e serviços. É também seu papel garantir o desempenho econômico eficaz que seja ambientalmente sustentável e responsável. Desta forma, ele constitui ator fundamental em indústrias e empresas de quase todos os setores, tanto no gerenciamento de recursos humanos, financeiros e materiais como no objetivo geral de aumentar a produtividade e rentabilidade da empresa.
A formação do Engenheiro de Produção associa conhecimento de engenharia a técnicas de administração e fundamentos de economia e engenharia, preparando-o para adotar procedimentos e métodos que racionalizam o trabalho, aperfeiçoam técnicas de produção e ordenam as atividades financeiras, logísticas e comerciais de uma organização. Cabe a ele também, definir a melhor forma de integrar mão de obra, equipamentos e matéria-prima a fim de avançar na qualidade e aumentar a produtividade. Ao atuar como elo entre os setores técnicos e administrativos, seu campo de trabalho ultrapassa os limites da indústria, sendo seus conhecimentos progressivamente aplicáveis a praticamente todos os setores econômicos, sociais e ambientais contemporâneos.
A educação personalizada com atendimento docente individual ou em pequenos grupos, somada às tecnologias digitais, permite traçar para cada um dos educandos, seja na área de Engenharia de Produção como nas demais, os melhores percursos educacionais, customizados para cada objetivo, atores e circunstâncias. A educação a distância associada à educação personalizada representam uma real possibilidade de um novo período de ensino híbrido e flexível, assentado em uma abordagem metodológica onde a aprendizagem ocorre, principalmente, a partir da metodologia da problematização. Os temas são selecionados extraídos da realidade, ou de recortes da realidade, mediadas pela observação e análise do educando, ou da equipe de educandos, orientados por docentes, a quem chamamos neste caso de preceptores.
O preceptor é neste sentido um orientador educacional que coordena um conjunto específico de atividades, predominantemente presenciais, contribuindo ao longo do curso de graduação, especialmente coordenando soluções de problemas. Portanto, o preceptor atuará junto aos seus alunos, seja individualmente ou em pequenos grupos (com equipes em torno de cinco participantes), tanto no acolhimento inicial do Curso, contribuindo na superação de eventuais dificuldades, sejam elas de adaptação à metodologia ou decorrentes de carências de conteúdos prévios, como no incremento da capacidade de aprender a aprender, no estímulo à aprendizagem autônoma progressiva, na construção do conhecimento e na gestão de saberes e, especialmente, no desenvolvimento das competências e habilidades específicas do futuro profissional.
A preceptoria, de forma resumida, pode ser subdividida em três núcleos principais, a saber, iniciação, solidificação e emancipação. No primeiro, trata principalmente de adquirir competências básicas para a realização da vida acadêmica, além de desenvolver a ideia de pertencimento à instituição e ao curso específico, oportunizando o entendimento de co-responsabilidade pela aprendizagem e ressaltando a importância do trabalho colaborativo e em equipe.
No segundo núcleo, solidificação, a ênfase é no aprofundamento do ofício de ser aluno, via participação nos fóruns, atividades laboratoriais e de extensão, visitas coordenadas às empresas etc. No terceiro, emancipação, a concentração é no desenvolvimento de competências específicas exigidas no mundi do trabalho, dentro dos pilares: aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser, culminando com trabalhos de conclusão de cursos, defesa de projetos etc.
A matriz curricular que contempla as disciplinas mais tradicionais, maior parte delas à distância, combinada com as atividades de preceptoria, predominantemente presenciais, ao longo de todo o curso demandam sofisticadas integrações horizontais e verticais, mediadas por três eixos: (i) os temas básicos, (ii) profissionalizantes (ênfases em Gestão em Engenharia e Modelagem e Simulação) e (iii) eixos integradores específicos (mobilidade e logística, processos produtivos, projetos e finanças, gestão ambiental e agronegócio, entre outros).
Em resumo, indo além das habilidades da prática do altinho, há que se praticar um bom futebol. Mais do que o simples e essencial domínio das regras gramaticais e ortográficas, é preciso a capacidade de interpretar textos com profundidade e escrever com clareza e objetividade. Assim, profissionais Engenheiros, especialmente Engenheiros de Produção, formados dentro do que existe de mais avançado contemporaneamente, seja pelo uso de plataformas digitais avançadas ou de metodologias educacionais inovadoras, expressos no caso por educação personalizada e aprendizagem via solução de problemas ou baseada em projetos, estarão melhores preparados a desempenhar tarefas complexas e dispostos a enfrentar quaisquer desafios de forma criativa e inovadora.

Autor: Tags:

quarta-feira, 21 de outubro de 2015 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 13:30

EaD + PBL = EPP (Educação Personalizada via Preceptor)

Compartilhe: Twitter

Em um contexto em que a informação está gradativamente sendo tornada totalmente acessível, instantaneamente disponibilizada e gratuitamente ofertada, o processo ensino-aprendizagem é profundamente afetado e a incorporação de novas tecnologias e a introdução de metodologias inovadoras são as marcas educacionais deste novo tempo.
Fruto destas transformações em curso, a educação superior demanda ser reinventada, onde a maior novidade é que as plataformas educacionais inovadoras e as novas abordagens metodológicas permitem explorar o aparente contraditório entre ensino de massas e qualidade, ou seja, estabelecer para cada estudante um tratamento individual e personalizado.
Diferentemente dos modelos tradicionais onde é razoável supor que à medida que o número de educandos cresce a tendência é cair a qualidade do processo, fruto da maior distância entre educando e educador, as plataformas de aprendizagem e as metodologias ativas inovadoras poderão progressivamente prover os educadores com informações cada vez mais precisas sobre o desempenho de cada aluno e estabelecer elos de proximidade inéditos. Pela primeira vez temos a real possibilidade de conjugar escala e quantidade, bem como atendimento de massa e personalização. Em outras palavras, prover educação de qualidade para muitos.
A educação personalizada com atendimento docente individual ou em pequenos grupos, somada às tecnologias digitais, permite entender e atender, de forma inédita nesta escala, cada um dos educandos e assim formular os melhores percursos educacionais, customizados para cada objetivo, atores e circunstâncias. O mais interessante é que quanto maior o número de estudantes envolvidos, em tese, o nível de precisão pode aumentar ainda mais, gerando uma metodologia, mediada por um docente especialmente preparado para esta missão, que se adapta e se ajusta permanentemente.
Nesta realidade, Educação a Distância (EaD) é mais do que simples modalidade, representando a real possibilidade de, ao conjugarmos quantidade com qualidade, massa com personalização, anunciamos um novo período de educação híbrida e flexível, em um mundo globalizado e literalmente sem fronteiras.
Entre as metodologias educacionais ativas contemporâneas, a Aprendizagem Baseada em Problemas (ou PBL, do inglês “Problem Based Learning”) é a abordagem onde o ensino e a aprendizagem ocorrem, principalmente, a partir da metodologia da problematização, sendo os temas selecionados extraídos da realidade, ou de recortes da realidade, mediadas pela observação e análise do educando ou da equipe de educandos orientados por docentes, a quem chamamos neste caso de preceptores.
No contexto da modalidade EaD e dentro da abordagem PBL, podemos introduzir a figura do preceptor como sendo um orientador educacional que coordena um conjunto específico de atividades, predominantemente presenciais, contribuindo ao longo do curso de graduação, especialmente coordenando soluções de problemas. Portanto, o preceptor atuará junto aos seus alunos, seja individualmente ou em pequenos grupos (com equipes em torno de cinco participantes), tanto no acolhimento inicial, contribuindo na superação de eventuais dificuldades, sejam elas de adaptação à metodologia ou decorrentes de carências de conteúdos prévios, como no incremento da capacidade de aprender a aprender, no estímulo à aprendizagem autônoma progressiva, na construção do conhecimento e na gestão de saberes e, especialmente, no desenvolvimento das competências e habilidades específicas do futuro profissional.
Em resumo, profissionais formados dentro do que existe de mais avançado contemporaneamente, seja pelo uso de plataformas digitais avançadas ou de metodologias educacionais inovadoras, expresso via a equação EaD + PBL = EPP, estarão aptos a desempenhar tarefas complexas e dispostos a enfrentar os desafios, sejam eles quais forem, frutos das novas ou ainda desconhecidas demandas.

Autor: Tags:

sábado, 17 de outubro de 2015 aprendizagem, Inovação e Educação | 07:48

Praia enquanto espaço educacional

Compartilhe: Twitter

Educação é um processo contínuo e permanente, ao longo de toda a vida e de ocorrência em todos os espaços. Todos aprendem e aprendemos o tempo todo, ainda que cada qual aprenda de maneira única, inclusive na praia. Podemos aprender via projetos e eventos oficiais organizados ou via iniciativas individuais de caráter mais específico, mas não é especificamente desses aprendizados que me refiro neste texto. Aqui trato especificamente daquela educação que fica, que é perene, transcendendo o que é formalmente aprendido.

Em todos os sentidos a praia educa. Educa mais ainda quando a praia é essencialmente pública. Felizmente, temos e preservamos no Brasil as praias enquanto bem público, sendo assim um espaço de aprendizagem que se pretende de convívio harmônico e plural, incluindo nele uma forma de expressão de todos os contrastes, mas necessariamente de convívio dos contrários ou dos diferentes.

O Brasil apresenta uma extensa costa litorânea com 7.367 Km de praias, cujas paisagens e características naturais constituem parte do patrimônio nacional. A Carta Magna, por meio do artigo 20, que enumera os bens pertencentes à União, em conjunto com o Código Civil, através do artigo 99, classificam os bens públicos e caracterizam os bens de uso comum do povo como aqueles que, por determinação legal ou por sua própria natureza, podem ser utilizados por todos em igualdade de condições, sem necessidade de consentimento individualizado por parte da Administração. Assim sendo, nos mares e em suas praias de uso comum os usuários são necessariamente anônimos e os bens devem ser utilizados por todos os membros da coletividade e, consequentemente, ninguém tem direito ao seu uso exclusivo.

Complementarmente, a Lei 7.661/88 instituiu o “Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro – PNGC”, estabelecendo em definitivo que no Brasil as praias todas são bens públicos de uso comum do povo, sendo assegurado sempre livre e franco acesso a elas e ao mar, em qualquer direção e sentido, ressalvados os trechos considerados de interesse de segurança nacional ou incluídos em áreas protegidos por legislação específica. Evidente, portanto, a inconstitucionalidade e a ilegalidade de condomínios que, por exemplo, proíbem o acesso de turistas e banhistas às praias, configurando verdadeiro constrangimento ilegal e flagrante desrespeito às normas em vigor.

Por outro lado, o Brasil é reconhecidamente um país de contrastes, os quais se expressam em todas as suas dimensões e intensidades, inclusive em suas praias. Porém, o fato de termos garantido o caráter público destas, nos obrigou também à educação resultante do convívio. Ou seja, em uma sociedade que se aprimorou em separar a casa grande da senzala, restou a praia como maior território de lembrança da possibilidade do convívio, nem sempre totalmente pacífico, mas certamente um espaço de exercício de aumento da tolerância e uma memória preservada da possibilidade de coexistência quase harmônica entre pessoas que vivem universos bastante díspares.

Claro que há questões estruturais de natureza econômica e social que transcendem aqueles espaços, mas seria horrível imaginar que enquanto não os resolvermos melhor manter os opostos totalmente afastados. Seria absurdo. Restando, portanto, a possível educação positiva do convívio. Do pobre com o rico, do branco com o negro e todas suas matizes. Dos mais escolarizados com aqueles sem nenhuma vivência escolar. Dos silenciosos com os barulhentos. Claro que considero os conflitos e percebo que não são tão raros, mas sei também o quanto se educa quando se convive. Como na prática convivemos bastante, muita educação ocorre, sem que estejamos mensurando ou percebendo.

Se temos o legítimo direito de imaginar um país que um dia saiba diminuir suas diferenças de oportunidades e de acesso a bens e serviços, claramente, mesmo com todos os seus defeitos, os espaços de praia nos permitem um vislumbre daquilo que poderemos ser um dia. Enquanto este tempo de maior harmonia não chega, os brasileiros praticam suas aulas intuitivas de compartilhamento de condições, comportamentos, hábitos e costumes tão diferentes que contribuem para formar parte desta nossa contraditória e rica cultura nacional.

Autor: Tags:

  1. Primeira
  2. 6
  3. 7
  4. 8
  5. 9
  6. 10
  7. Última