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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 08:41

Edugenômica: a importância dos gêmeos

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Em artigo anterior acerca de genômica educacional, o destaque foi explorar análises entre desempenho escolar e DNA. O foco foi destacar a constatação de que cada educando aprende de maneira única, demandando que ofertemos percursos educacionais múltiplos, tal que cada um possa encontrar os caminhos que melhor possa se adaptar. Genômica educacional, juntamente com as abordagens baseadas na analítica da aprendizagem e o uso dos demais dados de diversos fatores ambientais e sócio-demográficos, viabilizam ingressarmos em um novo cenário de educação permanente ao longo da vida, onde todos aprendem, aprendem o tempo todo e, especialmente, onde cada um deve poder explorar ao máximo suas características e talentos próprios.

 

Precedendo os estudos mais recentes, o debate foi em que medida as diferenças individuais nos desempenhos educacionais eram derivadas de natureza socioambiental geral ou de fatores genéticos. No meio acadêmico, uma aceitável abordagem sobre o tema tem sido desenvolver estudos sistemáticos envolvendo grande número de gêmeos, no qual se comparam gêmeos idênticos com gêmeos fraternos. É assumido que, se os gêmeos são idênticos, eles compartilham 100% de seus genes, e, se os gêmeos são não idênticos, eles têm em comum, em média, apenas metade dos genes. Assim, o pressuposto é que as diferenças nas pontuações dos exames entre os dois conjuntos de gêmeos são basicamente devidas à genética, e não fruto da educação recebida ou do ambiente em que vivem.

 

O principal e mais completo estudo mundial de acompanhamento do desenvolvimento educacional de gêmeos é conhecido como TEDs (em inglês “The Twins Early Development Study”). Este estudo, em curso desde 1994 e envolvendo mais de 15.000 famílias, é baseado no King’s College London, contando com a participação de outras 25 grandes universidades. Os resultados até aqui apontam que essas diferenças têm uma componente genética (hereditariedade) mais relevante do que outras componentes decorrentes de interações com o ambiente. Em uma amostra de 7.500 pares de gêmeos britânicos, analisados nas idades de 7, 9 e 12 anos em letramento e matemática, a média de hereditariedade foi de 68%. Significa que dois terços das diferenças (variâncias) nos desempenhos nos testes escolares dessas crianças podem ser associadas às diferenças genéticas.

 

Tais resultados se mostram inalterados ao final da educação básica, como atestam os resultados no exame denominado Certificado Geral de Educação Secundária (GCSE, em inglês “General Certificate of Secondary Education”), aplicado na Inglaterra e País de Gales. Um estudo envolvendo 11 mil gêmeos idênticos e não idênticos de 16 anos, sugeriu que os genes de cada aluno representavam uma diferença de 58% em seus resultados nas disciplinas básicas de inglês, matemática e ciências, enquanto os fatores ambientais, tais como a escola, bairro e família, têm um impacto de 29%.

 

Fundamental reforçar que esses resultados não minimizam o papel da escola, dado que, mesmo que a hereditariedade tivesse uma predominância de 100% (que não é o caso), a escola continuaria sendo muito importante. Além disso, e tão relevante quanto, ao conhecer as diferenças e respeitá-las, podemos e devemos desenvolver currículos, abordagens e metodologias que sejam desenhadas especificamente levando em conta cada indivíduo e cada circunstância educacional.

 

Da mesma forma, os estudos até aqui desenvolvidos não devem representar nenhum estímulo para, a partir das desigualdades genéticas, priorizar a educação de supostos melhores e, consequentemente, descuidar dos demais. Ao contrário, ao maximizarmos a oferta de trilhas educacionais, respeitando as peculiaridades de cada educando, podemos permitir que todos, sem exceção, possam atingir um patamar mínimo de aprendizagem. Fundamental garantir que, à luz do máximo de informações sobre todos, ninguém seja excluído e possam os educandos, sem distinção, explorar cada qual seus talentos próprios, viabilizando cumprirem suas legítimas expectativas.

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Figura em Domínio Público, como visto em: http://www.publicdomainpictures.net/pictures/180000/velka/twins-1466328085i47.jpg

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terça-feira, 3 de janeiro de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 16:27

Educational genomics: academic achievements and DNA

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Educational genomics is expanding quickly in the last few years because of the advances in genetics and digital technologies, allowing the use of detailed information about the human genome and, consequently, to identify its contribution to particular traits that are related to educational processes.

 

Learning analytics is an educational approach based on systematic analysis of data associated to the student’s behaviour using models, algorithms, simulations and statistical patterns (http://reitoronline.ig.com.br/index.php/2016/09/26/analitica-da-aprendizagem-e-parte-da-solucao/). Educational genomics, together with learning analytics, are keys for a personalized education, avoiding penalizing learners who do not fit traditional methodologies applied to average students.

 

The theme Genetics and human behaviour has been always filled with fascination and suspicion. Increasingly, in Medicine (Farmacogenomics), and in Psychology or Education, we are learning that we can improve the quality of life for all by knowing better and respecting individuals’ particularities, including genetics. The fears about eugenic feelings and inappropriate readings of the recent scientific advances will always be present and the better way to avoid them is to know more about the subject itself. This is the best strategy which keeps us alert to the distinction between the good use of the new knowledge and its improper uses and incorrect interpretations.

 

Throughout the year of 2016, publications in prestigious journals of the Nature group presented surprising results about the influence of genetics on different educational characteristics. Last May, in the largest genomic association study of behavioural traits, researchers identified 74 regions of the genome associated with years of school completion (http://www.nature.com/nature/journal/v533/n7604/full/nature17671.html).

 

Based on the results mentioned above, another group of authors raised the possibility of predicting part of 7, 11 and 17-year-old students’ achievement from the analysis of their respective DNAs (http://www.nature.com/mp/journal/vaop/ncurrent/full/mp2016107a.html). They calculated the polygenic scores associated with years of schooling and compared them with the results of national exams in Math and English using    a sample of students from England, Wales and Northern Ireland.  Surprisingly, such genetic scores explained 9% of variability in educational achievement of 16-year-old students.

 

In addition, the researchers demonstrated that predictive power over school performance is most evident at the extremes of the distribution of genetic scores. Learners with higher polygenic scores obtained concepts between A and B and those with lower scores the concepts were between B and C (https://www.rt.com/news/352123-dna-test-school-study/). Thus, such an approach may be even more relevant for students with less satisfactory academic performance, since it allows for early intervention through appropriate actions and educational policies.

 

It is important to emphasize that the results described above reflect the responses to a specific educational system and to a particular set of tests. In addition, they do not mean that a student’s overall academic performance is determined solely by genetics. However, polygenic scores, according to the authors, can provide in advance relevant information about the greater or lesser genetic predisposition of the child/adolescent to achieve low (or high) performance in such standardized tests. Thus, through personalized approaches, depending on specific circumstances, it is possible to change, in a timely manner, the efficiency of the learning process.

 

One important educational novelty of the contemporary world is that every learner learns in a unique way, demanding that we offer multiple educational paths so that each one can can find the approach that best fit   him/herself. Educational genomics, together with learning analytics and general environmental and socio-demographic factors, make it possible to inaugurate a new scenario of lifelong education where everyone learns, learns all the time, and, especially, where each one will be able to fully exploit his own characteristics and talents.

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Figure in Public Domain, as seen in: https://www.google.com/searchq=public+domain+dna+education&rlz=1C5CHFA_enBR692BR692&espv=2&biw=1272&bih=596&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwjeh9fs2KbRAhXCIpAKHdN0AdoQ_AUIBigB#imgrc=B1tsiFDAITkbKM%3A

 

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domingo, 1 de janeiro de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 08:47

Genômica educacional: desempenho escolar e DNA

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A área da genômica educacional tem se expandindo rapidamente nos últimos anos devido aos avanços em genética e tecnologias digitais, permitindo o uso de informações detalhadas sobre o genoma humano e, desta forma, identificar sua parcela de contribuição para características particulares relacionadas aos processos educacionais.

 

Analítica da aprendizagem (em inglês, learning analytics) diz respeito à abordagem educacional baseada na coleta e análise sistemática de dados sobre o comportamento dos educandos com o suporte de modelos, simulações, algoritmos e padrões estatísticos (http://reitoronline.ig.com.br/index.php/2016/09/26/analitica-da-aprendizagem-e-parte-da-solucao/). Genômica educacional, juntamente com analítica da aprendizagem, podem ser as chaves para uma educação personalizada, colaborando no desenho de estratégias educacionais e currículos customizados, evitando penalizar os educandos que não se encaixam nos modelos educacionais mais tradicionais voltados ao atendimento da média.

 

O tema ‘genética e comportamento humano’ sempre foi recheado de fascinações e suspeitas. Cada vez mais, seja na medicina (farmacogenômica), psicologia ou educação, estamos aprendendo que podemos melhorar a qualidade de vida de todos, conhecendo e respeitando as particularidades, inclusive genéticas, de cada um. Receios de sentimentos de eugenia e de más leituras dos avanços científicos sempre estarão presentes e a melhor forma de evitá-los é conhecendo mais sobre o assunto. Esta é a melhor estratégia para estarmos sempre alertas para distinguirmos a boa utilização do novo conhecimento dos eventuais usos inadequados e incorretas interpretações.

 

Ao longo de 2016, publicações em prestigiosas revistas do grupo Nature apresentaram resultados surpreendentes acerca da influência da genética sobre diferentes características educacionais. Em maio passado, no maior estudo de associação genômica de uma característica comportamental, pesquisadores identificaram 74 regiões do genoma associadas a anos de escolaridade completados (http://www.nature.com/nature/journal/v533/n7604/full/nature17671.html).

 

Em estudo subsequente, publicado em julho de 2016, baseado nos resultados acima citados, outro grupo de autores exploraram a possibilidade de predizer uma parcela do desempenho escolar de alunos aos 7, 11 e 16 anos a partir da análise de seus respectivos DNAs (http://www.nature.com/mp/journal/vaop/ncurrent/full/mp2016107a.html).

 

Eles calcularam os escores poligênicos associados a anos de escolaridade e compararam com os resultados nos exames oficiais em matemática e inglês em uma amostra de alunos da Inglaterra, País de Gales e Irlanda do Norte. No resultado mais surpreendente deste estudo, tais escores genéticos explicaram 9% da variabilidade no rendimento escolar aos 16 anos.

 

Adicionalmente, os pesquisadores demonstraram que o poder preditivo quanto ao desempenho escolar é mais evidente nos extremos da distribuição dos escores genéticos. Educandos com maiores escores poligênicos obtiveram predominantemente conceitos entre A e B e os com menores entre B e C (https://www.rt.com/news/352123-dna-test-school-study/). Assim, tal abordagem pode ser ainda mais relevante para educandos com rendimentos acadêmicos menos satisfatórios, visto que permite intervenções precoces, por meio de ações e políticas educacionais apropriadas.

 

Importante destacar que os resultados acima apresentados refletem as reações frente a um sistema educacional específico e respostas a um conjunto particular de testes. Além disso, eles não significam que o desempenho acadêmico total de um aluno é determinado exclusivamente pela genética. No entanto, escores poligênicos, segundo os autores, podem prover com antecedência informações relevantes acerca da maior ou menor predisposição genética de a criança/adolescente vir a apresentar baixo (ou alto) desempenho em tais testes padronizados. Desta forma, viabilizando abordagens personalizadas, em função das circunstâncias específicas, é possível alterar, em tempo hábil, a eficiência do processo de aprendizagem.

 

Uma importante constatação educacional do mundo contemporâneo é que cada educando aprende de maneira única, demandando que ofertemos percursos educacionais múltiplos onde cada um possa encontrar os caminhos que melhor possa se adaptar. Genômica educacional, juntamente com a abordagem baseada na analítica da aprendizagem e o uso dos demais dados de diversos fatores ambientais e sócio-demográficos, viabilizam ingressarmos em um novo cenário de educação permanente ao longo da vida, onde todos aprendem, aprendem o tempo todo e, especialmente, onde cada um deve poder explorar ao máximo suas características e talentos próprios.

 

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Figua em Domínio Público: http://www.publicdomainpictures.net/pictures/40000/velka/stick-figure-family.jpg

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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 15:45

A educação de 2017 já começou em 2016

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Somos todos capazes de prever o futuro, mesmo porque assim o fazemos espontaneamente todos os dias. Seja quando planejamos nosso cotidiano, seja quando tentamos programar os próximos passos de nossas vidas. No entanto, rigorosamente, ninguém sabe o futuro. Mesmo assim, todos fazemos, quase que automaticamente, diagnósticos, projeções e previsões.

 

Particularmente sobre educação, não há sobre o futuro que nos aguarda uma síntese única e nem é possível um resumo consensual. Porém, os acadêmicos da Open University, no Reino Unido, propuseram uma interessante lista de novos termos educacionais, bem como inéditas teorias e práticas, que muito em breve farão parte de nosso cotidiano (detalhes sobre o tema estão acessíveis em: http://proxima.iet.open.ac.uk/public/innovating_pedagogy_2016.pdf). Destaco a seguir uma dezena delas, já em curso em 2016, mas que tendem a estar cada vez mais presentes em 2017:

 

  1. Aprendizagem via mídia social. Aprendemos o tempo todo e em todos os lugares. Fora da escola, ainda que o ensino seja menos formal, a aprendizagem, em alguns aspectos, pode ser melhor e mais rápida. Todos estão familiarizados com exemplos como Facebook ou Twitter, locais naturais de compartilhamento de fatos, ideias e opiniões, ainda que haja o risco inerente de informações imprecisas, incompletas ou parciais. Há experiências em curso, inclusive no Brasil, utilizando, com sucesso, os espaços do Facebook como ambiente central de aprendizagem, inclusive para turmas regulares. O mestre neste caso explora, de forma pioneira, seu papel de facilitador no estímulo ao engajamento, promovendo e organizando as discussões e fazendo a curadoria dos temas e das referências mais adequadas;

 

  1. Falha produtiva. Trata-se de um método de aprendizagem no qual aos educandos são apresentados problemas complexos para serem resolvidos, mesmo cientes de que provavelmente eles não dispõem ainda de todas as ferramentas. Antes de receberem qualquer instrução, eles exploram, de forma independente, as várias oportunidades de solução e falham, atestando que podemos aprender mesmo quando trilhamos caminhos supostamente errados. Os professores, vencidas as etapas preliminares, apresentam os conceitos mais relevantes e exploram os métodos de solução existentes;

 

  1. Aprender ensinando. Da mesma forma que os aprendizes aprendem com seus mestres, podem eles assumir o desafio de explicarem uns aos outros o que eles conseguiram aprender até então, ainda que nesta etapa embrionária a aprendizagem seja limitada e parcial. Tais tentativas colaboram na consolidação de conceitos e evidenciam as eventuais deficiências. O método é de relativamente fácil execução, podendo no limite envolver toda a turma, ou mesmo pessoas externas à turma. As tecnologias digitais são ferramentas essenciais na implementação deste método e a área da saúde é onde os resultados, até aqui, aparentam ser mais evidentes;

 

  1. Design thinking. Esta abordagem procura resolver problemas usando processos usualmente adotados por designers. Significa incluir nos processos etapas como experimentação, criação e modelagem, estimulando que as práticas gerem protótipos progressivos que viabilizem um processo contínuo de redesigning. Ou seja, envolvendo exercícios mentais e sociais, os usuários das soluções propostas contribuem de forma decisiva nas camadas de reanálises e de novas implementações;

 

  1. Aprendizagem com o coletivo. Contar com um número grande de opiniões e contribuições significa, cada vez mais, agregar valor. O estímulo à participação de amadores interessados ou de especialistas com vínculos eventuais com o projeto pode ser de extrema valia na procura das melhores soluções. Além disso, esporadicamente útil para arrecadar fundos ou obter elementos os mais diversos que gerem ou viabilizem soluções. Os campos de aplicação variam de identificação e estudos de pássaros à contagem coletiva de estrelas e galáxias. Projetos bem desenhados podem obter escala devida, portanto sucesso, via o envolvimento de comunidades inicialmente externas ao trabalho e que vão gradativamente sendo incorporadas;

 

  1. Aprendizagem com videogames. Aprender pode ser divertido, interativo e estimulante, especialmente contando com ferramentas e ambientes nos quais os aprendizes se sentem totalmente confortáveis. Os jogos podem ser utilizados tanto na formação inicial como na continuada. Uma empresa que pretenda adotar novas práticas e estratégias pode e deve desenvolver instrumentos próprios e específicos. Quem o faz hoje obtém taxas de sucesso muito acima do esperado, em geral. Ao contrário de reforçar o isolamento, é plenamente possível, ao longo do processo, adaptar os jogos ao espírito de trabalho em equipe;

 

  1. Analítica da aprendizagem. Mais conhecida como learning analytics, permite conhecer bem o educando, colhendo dados de seu comportamento e, a partir desta caracterização, desenhar as melhores trilhas educacionais personalizadas. É possível identificar educandos em faixas de risco de desistência em tempo hábil para corrigir rumos e abordagens. Destaque-se que cada vez mais o próprio educando participa ativamente da análise, dado que um dos objetivos principais da educação permanente ao longo da vida é que o estudante conheça cada vez mais como ele aprende, aumentando sua compreensão acerca dos mecanismos de aprendizagem que lhes são mais eficientes e eficazes;

 

  1. Aprendizagem do futuro. Aprendizes de hoje, mas com olhos voltados para o futuro. Ou seja, há que se adquirir habilidades e disposições que viabilizem realizar desvios de rumos com flexibilidades inerentes às exigências dos novos tempos. Ao contrário de antigamente, é bastante provável que os profissionais do futuro tenham, ao longo da carreira, atividades e empregos bastante díspares. Uma boa educação para o futuro os prepara para quaisquer desafios em diferentes contextos. Ademais, o estímulo à aprendizagem independente com foco no amanhã também favorece ao educando no sentido de planejar suas perspectivas profissionais de maneira ampla e sem medo excessivo de futuros incertos. Gostemos ou não, a ocorrência de imprevistos deverá ser a marca dos novos tempos;

 

  1. Translinguagem. Cada vez mais nossos alunos estão aprendendo em idiomas que não são sua primeira língua. A habilidade de fazê-lo sem prejuízo, e sim com ganhos, é central em um mundo progressivamente globalizado. A translinguagem tende a aumentar o nível de profundidade do conhecimento adquirido, seja por ampliar as fontes de acesso, seja por exigir uma ginástica mental que é útil no desenvolvimento de interpretação de textos complexos e no estímulo a pensamentos originais;

 

  1. Blockchain para aprendizagem. Blockchain é termo usualmente utilizado para designar o registro público de todas as transações realizadas na moeda bitcoin. São formadas em blocos completos, os quais são adicionados cronologicamente aos já existentes e assim crescem indefinidamente. Esta técnica pode ser adotada em educação ao disponibilizarmos os dados dos trabalhos em curso feito pelos estudantes, bem como seus desempenhos, para espaços mais plurais, tornando os disponíveis a um público interessado bem maior. Ainda que acessível amplamente a vários usuários, estes não podem modificá-los. Educandos e pessoas em geral podem angariar créditos por suas atividades intelectuais ao mesmo tempo que podem conferir credibilidade aos trabalhos dos demais. Tudo se passa como se credibilidade e reputação educacional fossem espécies de moedas, podendo ser intercambiadas, bem como questionadas em um processo de construção coletiva e colaborativa.

 

Educação precisa levar em conta o futuro, expresso nas tendências acima e em tantas outras, e incluir esta preocupação explicitamente em seus processos. É consenso que quanto mais conhecemos sobre o que houve antes, bem como melhor entendemos o que está acontecendo agora, mais aptos estamos para tomarmos decisões sobre o que vem pela frente. E vem muito mais surpresas educacionais neste futuro tão próximo que parece ter começado no mês passado.

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Sobre a figura: Reprodução da obra de MASACCIO, 1401 – 1428(?): A expulsão do Paraíso. Fresco in the Brancacci Chapel, S. Maria del Carmine, Florence.

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terça-feira, 29 de novembro de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 17:52

Educação e o futuro da alimentação

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Educação deve colaborar na preparação de todos para o pleno exercício da cidadania e, especialmente, formar os jovens para uma vida profissional que contribua com o desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável. Estas missões envolvem aspectos muito complexos, especialmente em uma sociedade em permanente e profundas transformações.

 

No início do século passado, as ocupações rurais eram responsáveis por algo da ordem de 90% dos empregos e hoje respondem por menos de 5%. Mesmo assim, a cadeia que envolve produção, armazenagem, transformação, transporte e consumo de alimentos tem crescido sistematicamente e é um dos setores econômicos que permanecerão crescendo nos cenários futuros. O ciclo completo, desde a produção ao consumo, responde por, no mínimo, 6% do PIB global e representa, para um cidadão de classe média, em torno de 15% das despesas diárias.

 

Peter Diamandis, visionário e fundador da Singulary University, tem apresentado interessantes discussões acerca do tema alimentos no futuro. Segundo Diamandis, atualmente, para alimentar os mais de 7 bilhões de habitantes do planeta, cuidamos de mais de 60 bilhões de animais, os quais ocupam mais de um terço do território, consomem 8% da água disponível e são responsáveis por 18% dos gases do efeito estufa. A empresa Modern Meadow  já produz em laboratórios carnes bovinas, de suínos e de frangos, bem como couros, via sofisticadas engenharias de alimentos e impressoras 3D. Tais inovações podem contribuir com a diminuição de danos ambientais, sendo que com essas tecnologias usaremos 99% menos solo, 96% menos água, 45% menos energia e poderemos reduzir os efeitos nocivos de gases na ordem de 96%. Não é claro onde estas inovações nos conduzirão, mas melhor entendê-las bem até mesmo para evitarmos exageros.

 

Os alimentos em seu prato, por incrível que pareça, percorreram algumas centenas, às vezes milhares, de quilômetros a partir de onde foram produzidos, fazendo com que mais da metade do custo final de varejo decorra do transporte, armazenagem e demais cuidados decorrentes. Portanto, soluções que viabilizem aproximar os centros produtores e consumidores podem significar grandes ganhos, em custos e em qualidade. A solução passa também por fazendas verticais, onde cada andar ou setor seja dedicado a um tipo diferente de alimento, todos controlados por inteligência artificial regulando as necessidades de luz, água e demais nutrientes. Ambientes monitorados e limpos podem dispensar pesticidas e herbicidas, além de estarem imunes às intempéries climáticas e produzindo com muito maior eficiência. Tal conceito já contou com investimentos de mais de 1 bilhão de dólares em 2015 e há projetos em curso com previsão de investimentos de mais de 6 bilhões de dólares para os próximos anos. É possível explorar a permacultura nas fazendas verticais, ou seja, um sistema de justaposição de plantas complementares para a criação de ambientes humanos sustentáveis e produtivos em equilíbrio e harmonia com a natureza.

 

Hoje, como regra geral, todos comemos de tudo, a partir do que está disponível e daquilo que nos apetece. Um novo ingrediente estará cada vez mais presente: o que efetivamente necessitamos, individualmente e a cada momento. É a chamada alimentação personalizada e customizada. Biosensores, a partir da genética específica e das peculiaridades de cada um, aconselharão os ingredientes mais indicados e os melhores horários de ingestão dos mesmos. Obviamente, espera-se, resguardando os legítimos prazeres de podermos preparar e degustar o que mais gostamos e na hora que melhor nos agrada.

 

Por fim, do ponto de vista entrega de alimentos em sua porta, além das incríveis facilidades já existentes (quase todos os supermercados e restaurantes já têm disponível via Internet esta opção, incluindo até drones de entrega), acredito que teremos em breve algo ainda mais revolucionário. Cada família ao fazer sua alimentação doméstica, em caso de excedentes (pequenas porções), poderá colocar, via aplicativos de compartilhamento, à disposição de seus vizinhos pratos saudáveis e diversificados a custos muito acessíveis.

 

A escola contemporânea, neste novo cenário, terá de lidar com temas que vão desde alimentação saudável e obesidade às discussões envolvendo a adoção de tecnologias inovadoras, sustentabilidade, economia doméstica hábitos e costumes que marcarão os próximos tempos.

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Imagem em Domínio Público em: https://www.flickr.com/photos/35305690@N08/3267268594/in/photolist-5YHB89-5U5Gvb-7wgxXT-azoWEU-btgEjK-rn4JKE-nMoYGQ-aSayXe-bEiSZd-nnuPr3-bpMhTp-oPUNTc-8nhknd-pVgj94-bFoovP-pnQacj-oSPJ6T-paT77v-b8W28P-9CgmxS-dTubbo-ddox3R-adCfJx-qzk1p5-dNnH4w-25By2q-bjRct8-asDyJi-nEKmHT-nQxAM2-aYV9B4-j2AerC-eSid5k-oY6s9v-rANFPf-iqUagY-aqFD8a-aQgR5V-kLMhqy-bBWxT8-cT3bYo-aFzMkP-pWvRcX-aeemh4-psszWM-rubNd8-wfP28D-akZMoX-9uEDN4-6XPXqJ

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quarta-feira, 23 de novembro de 2016 Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 09:46

A doença da Internet

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O vício da Internet pode ser descrito como uma desordem patológica associada ao uso compulsivo e descontrolado das interfaces mediadas pelas tecnologias digitais. Ainda que não envolva a ingestão explícita de uma droga intoxicante, as reações dos usuários são muito similares e próximas também das compulsões patológicas por jogos de azar. Alguns dependentes do uso abusivo da Internet desenvolvem vínculos com os novos ambientes a ponto de transferirem integralmente seus espaços de convívio social às comunidades virtuais, substituindo quase que completamente seus conjuntos de relacionamentos anteriores. Os sinais que evidenciam a síndrome se caracterizam por preocupações cada vez mais centradas na realidade virtual mediada, transformando em meros intervalos os eventuais intervalos entre uma sessão na Internet e a próxima. Assim, da mesma forma que a satisfação e a perspectiva de felicidade se condicionam ao acesso, a diminuição de uso da rede se transforma em possibilidade de irritabilidade, ansiedade, depressão ou mesmo pânico.

 

O quadro geral acima deveria ser assustador. Não o é simplesmente porque a maioria, de alguma forma, se identifica com ele. Como, por suposto, todos nos achamos normais, o contexto ajuda a considerar natural algo que, definitivamente, não deveria ser. Em outras palavras, o primeiro passo em direção a uma possível solução ou controle racional dos impactos é, a exemplo de outras síndromes, a constatação realista do evidente problema e seus desafios em todas as suas dimensões.

 

Estamos no limiar do ingresso definitivo em uma sociedade onde a informação estará totalmente acessível, instantaneamente disponibilizada e gratuita. Isso terá como resultado radicais transformações em todas as esferas de nossa vida cotidiana, incluindo trabalho, educação e na forma geral como nos relacionamos. Registre-se que temos uma possibilidade ímpar de, pela primeira vez, podermos conjugar qualidade com quantidade, provendo a uma imensa maioria inédito acesso a produtos, serviços e oportunidades gerais. Exatamente pelo potencial de uma inclusão social e o risco de uma exclusão, ambos sem precedentes, é que as ações em curso hoje são tão determinantes. Estamos no apogeu da dinâmica dos processos de transformação, exatamente onde a ação ou a inação deixarão marcas profundas nos cenários seguintes.

 

Da mesma forma que o surgimento de nossa espécie teve no uso sofisticado da mão uma particularidade, moldando nosso desenvolvimento e postura, as chamadas doenças digitais posturais marcam esta nova transição, especialmente dores nas costas e no pescoço e alterações na curvatura anormal para a frente na região do tórax. Considerando que muito brevemente os celulares estarão integrados de forma permanente e definitiva ao corpo, os riscos e as consequências serão agravados.

 

Há quem aponte que atualmente, pelo menos, 10% dos brasileiros poderiam, à luz dos critérios acima descritos, ser classificados como vítimas da dependência digital. Esse percentual deve ampliar exponencialmente, atestado também pelo surgimento rápido de várias clínicas especializadas em reabilitação digital. Por enquanto, os tratamentos se baseiam em terapia, intervenção familiar e remédios, se necessário. Em geral, adotam tratamentos baseados em (des)exposição gradual às mídias digitais, buscando recuperar o autocontrole no uso.

 

Enquanto humanidade, temos, a partir do uso consciente e racional das tecnologias digitais, possibilidades ilimitadas de desenvolvimentos econômico, social e ambiental sustentáveis. Igualmente, tais recursos permitem atingir, pela escala impressionante que viabiliza, sociedades mais justas e igualitárias em termos de oportunidades. No entanto, há que se debater de forma lúcida e transparente o quadro atual e os cenários que se avizinham. Especialmente em um país como o Brasil onde, por um conjunto de circunstâncias específicas, resultamos em um povo com forte apreço por novidades tecnológicas e com competência singular no uso positivo dos espaços virtuais.

 

Imagem em Domínio Público em: http://image.99.com/jz/2009/06/26/11.jpg

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domingo, 13 de novembro de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 11:22

Reforma do Ensino Médio e Educação Contemporânea (com links para vídeos)

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A convite do Congresso Nacional, participei da Audiência Pública promovida pela Comissão Mista que acolhe a Medida Provisória (MP) de iniciativa do Executivo Federal modificando o ensino médio. Como educador, reafirmo minha tendência de valorizar as etapas de esclarecimentos e convencimentos, imprescindíveis ao sucesso educacional. Tais procedimentos conflitam com a figura de MP. Mesmo assim, há que se ressaltar que, no caso, os elementos formais de MP, urgência e emergencial, são atendidos. As manifestações podem ser assistidas no link: https://www.youtube.com/watch?v=L3IaLYSFS0I&feature=youtu.be.

 

O indicador de qualidade mais adotado, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, IDEB, evidencia que, entre os níveis da educação básica, o ensino médio é aquele que está em pior situação. A realidade atual de treze disciplinas obrigatórias em si contribui para limitar ou mesmo impedir que melhores e mais adequadas estratégias no processo ensino-aprendizagem sejam debatidas ou implementadas. Os argumentos para manter como obrigatórios tanto o ensino de artes como o de educação física são plausíveis e respeitáveis. Tanto quanto para filosofia, sociologia, história e geografia. Da mesma forma, como físico, teria pouca dificuldade em apontar os prejuízos e deficiências de um formando do ensino médio que não tivesse tido acesso a um mínimo de física e uma introdução ao raciocínio embasado no método científico. A mesma lógica vale para biologia e química. Enfim, tal caminho argumentativo, definitivamente, não funciona e melhor tratarmos mais de conteúdos e interdisciplinaridades e menos de disciplinas isoladas.

 

Além disso, Anísio Teixeira apontava, desde a década de 1950, que a educação secundária era excessivamente propedêutica. Priorizava a visão de etapa preparatória a estudos mais aprofundados de nível superior, subestimando o relevante papel de preparação técnica profissional dos jovens para o mundo do trabalho. Nos países mais competitivos e bem-sucedidos, a maioria dos jovens que fazem o ensino médio regular o fazem juntamente com educação profissional. No Brasil, somente 11% adotam tal estratégia. Como está estruturado hoje, a concepção subjacente é de que o ensino médio quase exclusivamente prepara ao ensino superior. Porém, contraditoriamente, menos de um quinto dos jovens vão para as faculdades e menos de 12% da população adulta têm diploma universitário.

 

O processo ensino-aprendizagem no ensino médio depende de muitos fatores, mas cabe especial destaque às condições de trabalho dos professores que atuam neste nível educacional. Em geral, eles são mal remunerados (http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2016/11/1832095-professor-recebe-ate-39-menos-que-profissional-com-igual-escolaridade.shtml) e os cursos de formação, quando ofertados, não conseguem capacitá-los adequadamente à adoção de metodologias inovadoras e contemporâneas, especialmente quanto ao uso de novas tecnologias no ambiente educacional.

 

Má qualidade do ensino médio tem também como consequência um parque universitário extremamente limitado na sua capacidade de gerar ciência e inovação que sejam mundialmente competitivas. Seremos reduzidos, cada vez mais, a meros consumidores de tecnologias desenhadas no exterior e adquiridas via commodities com preços aviltantes, num ambiente de baixa produtividade e de altas taxas de desemprego.

 

Adicionalmente, a convite da Frente Parlamentar pela Educação, apresentei a Palestra “Tecnologias e Metodologias Inovadoras da Educação Contemporânea”, cuja reprodução pode ser assistida no link: https://www.youtube.com/watch?v=Mn7TrSEmVS4&feature=youtu.be. Na Palestra, abordei o tema das tecnologias digitais que permitem explorar um novo cenário educacional onde todos aprendem (não sabíamos disso, pensávamos que somente alguns aprendiam), onde todos aprendem o tempo todo (antigamente a aprendizagem estava circunscrita ao ambiente escolar, delimitando espaços e tempos que hoje extrapolam os muros e os tempos da escola) e, por fim, o mais relevante, descobrimos que cada educando aprende de maneira única e personalizada (uma espécie de DNA educacional que caracteriza cada um de nós). Apoiados pela analítica da aprendizagem e por plataformas de aprendizagem, os educadores poderão conhecer muito mais sobre seus educandos, bem como estes sobre si mesmos, propiciando desenvolver trilhas educacionais personalizadas que atendam às características, circunstâncias e peculiaridades de cada aluno individualmente.

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sábado, 5 de novembro de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 09:21

Contribuições à Reforma do Ensino Médio

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congresso

 

Estou convidado, como expositor, para a Audiência Pública no Congresso Nacional no dia 08 de novembro próximo, às 14h30, no âmbito da Comissão Parlamentar Mista da Medida Provisória n° 746/2016, que trata da Reforma do Ensino Médio.

 

Como reitor, meu dia-a-dia é naturalmente ligado à educação superior, porém, como cidadão, minhas preocupações com todos os níveis de ensino têm a mesma ênfase. Mesmo que pensasse exclusivamente no ensino superior, este não crescerá jamais em qualidade, bem como em quantidade, antes que a educação básica apresente efetivos avanços. O que temos observado, particularmente no ensino médio, é o oposto, variando de estagnação ao longo dos anos à piora gradativa. Seja em qualidade do ensino ministrado, em número de formandos, clareza de propósitos e, especialmente, em perspectivas futuras.

 

O indicador de qualidade mais adotado, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, IDEB, evidencia que entre os níveis da educação básica, o ensino médio é aquele que está em pior situação (elo mais frágil, portanto), tendo se mantido estagnado ou mesmo tendo piorado, estando hoje este indicador em torno de 3,7 frente a uma distante e modesta meta de 4,3.

 

Como educador, entendo que nesta área o processo é tão relevante quanto os propósitos finalísticos. Em educação e nos temas correlatos, o exercício do convencimento pelo esclarecimento sempre será uma marca desejável e a mais efetiva. Assim não tenho como deixar de registrar, preliminarmente, que o instituto da Medida Provisória (MP) pode sim soar estranho e indevido a muitos. Na legislação brasileira, o recurso de MP é previsto para acolher situações de emergência que não possam se submeter aos prazos normais. Por um lado, temos parcialmente atendido um dos requisitos: a calamidade amplamente registrada neste nível de ensino não pode esperar muito mais. Por outro, lembremos que já há um Projeto de Lei (PL) similar tramitando, ainda que sem sucesso, desde 2013. Todos aguardam que a edição desta MP seja um instrumento a mais que contribua para um possível acordo entre Executivo e Legislativo que finde por optar por algum mecanismo que permita ao Congresso apreciar adequadamente a matéria, ainda que em regime de urgência urgentíssima, tal como a gravidade do tema sugere.

 

A primeira e talvez mais relevante contribuição é a necessidade de entendermos que a Reforma para ser bem-sucedida demanda ser fruto da contribuição de muitos atores, sendo que em cada etapa há uma prioridade. Quanto ao Congresso Nacional, entendo ser o mais importante explorar a máxima flexibilidade, desfazendo nós, desobstruindo regras cujas rigidez e burocracias associadas findam por emperrar propostas mais criativas e contemporâneas sobre múltiplas abordagens educacionais inovadoras.

 

A título de exemplo de dificuldades atualmente existentes, a realidade de treze disciplinas obrigatórias em si contribui para limitar ou mesmo impedir que melhores e mais adequadas estratégias no processo ensino-aprendizagem sejam debatidas ou implementadas. Os argumentos para manter como obrigatório o ensino de artes e de educação física são plausíveis e respeitáveis. Tanto quanto para filosofia, sociologia, história e geografia.

 

Da mesma forma, como físico, teria pouca dificuldade em apontar os prejuízos e deficiências de um formando do ensino médio que não tivesse tido acesso a um mínimo de física e uma introdução ao raciocínio embasado no método científico. A mesma lógica vale para biologia e química. Ou seja, seguindo esta linha, mesmo parecendo sensato, ao final, chegamos a um indesejável e previsível engessamento. Ainda que embasado em argumentos parcialmente corretos e bem-intencionados, o resultado final se aproxima de onde estamos, paralisados, e distantes de estarmos cumprindo o que está previsto. Claro, há outras causas e motivos igualmente relevantes, mas, especificamente, se refletíssemos sobre esses conteúdos com menos amarras seria bem melhor. Se pudermos tratar mais de conteúdos e menos de disciplinas mais adequado ainda. Resumindo, o relevante é garantir que os conteúdos, apresentados de forma isolada ou transversal, sejam ministrados e compreendidos de forma satisfatória, garantindo uma aprendizagem melhor do que temos atualmente.

 

Vivemos um período de informação plenamente acessível, instantaneamente distribuída e, praticamente, gratuita. Assim, neste cenário, tão ou mais importante do que o que é aprendido (informação ou ensino), é que o educando tenha amadurecido sua capacidade de aprender (aprender a aprender), dominando progressivamente a compreensão acerca dos mecanismos segundo os quais ele aprende, em compatibilidade com o mundo educacional de aprendizagem permanente e ao longo de toda a vida.

 

Corroborando esta linha, Einstein afirmou no século passado “Educação não se resume à aprendizagem de fatos, mas inclui, especialmente, a capacitação da mente para pensar”. Confúcio, por sua vez, de forma precursora, há 2.500 anos, teria dito: “Aprender sem pensar é perda de tempo”. Em suma, mais do que uma simples discussão sobre disciplinas que deixam ou não de ser obrigatórias, há que se tentar explorar quais são os espaços que levam o professor a desenvolver, em cada educando, o universo da curiosidade e reflexão que existe em cada educando. Mais relevante do que foi aprendido é o progressivo amadurecimento da consciência acerca de como se aprende. A obsessão pelo conteúdo fragmentado inibe, quando não impede totalmente, explorar caminhos que estimulem a criação de ambientes que articulem os vários conteúdos, tornando a aprendizagem mais interessante e animadora para os alunos e os professores envolvidos.

 

Com as tecnologias digitais, temos a oportunidade de explorar um novo cenário educacional onde todos aprendem (não sabíamos disso, pensávamos que somente alguns aprendiam), onde todos aprendem o tempo todo (antigamente a aprendizagem estava circunscrita ao ambiente escolar, delimitando espaços e tempos que hoje extrapolam em muito os muros e os tempos da escola) e, por fim, o mais relevante, descobrimos que cada educando aprende de maneira única e personalizada (uma espécie de DNA educacional que caracteriza cada um de nós). Apoiados pela analítica da aprendizagem, os educadores poderão conhecer muito mais sobre seus educandos, bem como estes sobre si mesmos, propiciando desenvolver trilhas educacionais personalizadas que atendam às características, circunstâncias e peculiaridades de cada aluno individualmente. Nada disso é simples. Ao contrário, tudo é bastante complexo, mas absolutamente factível e já em curso (ainda que em escala reduzida e, infelizmente, ainda bastante seletivo).

 

Trata-se de priorizarmos estas abordagens e buscarmos mecanismos que permitam que elas se apliquem na devida escala, conjugando qualidade e quantidade de forma inédita neste país. Há que se romper o paradigma de que, apesar de sabermos fazer coisas boas e para muitos, não sabemos fazer essas duas coisas ao mesmo tempo. Quando boas, em geral, para poucos; quando para muitos, inexoravelmente com baixa qualidade. Temos sim a oportunidade, a partir da educação, de provermos qualidade para muitos, garantindo um mundo de oportunidades mais iguais para todos.

 

De acordo com a proposta em discussão, durante todo o primeiro ano e metade do segundo, os alunos serão expostos aos conteúdos da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a qual, por sua vez, ainda não foi definida. No ano e meio seguinte, eles seguirão as trilhas formativas, com ênfase nas áreas de linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica profissional. Neste caso, cada sistema de ensino, em consonância com o que ficar orientado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), em conjunto com cada escola, deverá configurar os múltiplos percursos educacionais oferecidos aos alunos. O adequado uso de novas tecnologias acoplado à adoção de metodologias inovadoras pode sim cumprir este papel. Programas como o Plano Nacional do Livro Didático (PNLD), reformulados à luz das possibilidades da era digital, bem como banco de objetos de aprendizagem e outros recursos educacionais abertos, podem contribuir muito na articulação de diferentes campos do saber, sem prejuízo das características e especificidades de cada um deles. O desafio é grande, mas nada há de mais relevante a ser feito na educação contemporânea.

 

Há uma grande e compreensível reação a pensarmos menos em disciplinas e estimularmos que as escolas se estruturem também a partir das ênfases de conteúdos gerais e transversais. Aparentemente, outros países foram bastante bem ao realizarem mudanças e outros estão acelerados migrando nesta direção. Copiar as experiências dos demais de forma acrítica é tão pouco inteligente como desprezar as iniciativas que evidenciam algum nível de sucesso. Igualmente, não devemos menosprezar aquelas possíveis soluções educacionais que estão em curso em outros países e que demandam acompanhamento muito próximo.

 

A título de ilustração, no começo de 2006, fui pessoalmente convidado pela então ministra da Educação do Reino Unido, Ruth Kelly (Governo Tony Blair, onde Kelly, com 36 anos, foi a mais jovem membro de um Gabinete de Governo), para acompanhar algumas mudanças específicas na área de ensino de ciências neste nível educacional na Inglaterra e País de Gales (Escócia e Irlanda do Norte não adotaram a mesma estratégia). A crise educacional naquele momento decorria dos maus resultados britânicos no Pisa (Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes), um exame internacional aplicado aos alunos de 15 anos em países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e alguns convidados (incluindo o Brasil). No primeiro Pisa, em 2000, Inglaterra havia se saído razoavelmente bem: 4° lugar em ciências, 7° em idioma e 8° em matemática. Posteriormente, Inglaterra caiu muito, resultando aparecer em 2009 nas posições 16°, 25° e 27°, respectivamente. Crise instalada, uma das soluções apontadas foi considerar que mais relevante do que “obrigar” os alunos a fazerem física, química e biologia seria promover uma mudança que permitisse que cada um pudesse escolher se quer fazer somente uma delas, duas ou as três. No início, houve uma preponderância na escolha de uma disciplina, biologia. A melhor iniciativa foi incluir nos conteúdos de biologia os elementos mais fundamentais e imprescindíveis de física e química. Por exemplo, o estudo da dinâmica da seiva no interior da planta tornou-se motivação para estudo de mecânica, a folha da planta um laboratório de eventos químicos moleculares etc.

 

Ao final, mais do que medir se os alunos sabiam mais ou menos, parece ser inegável que os concluintes, em média, gostavam muito mais de ciências do que antes. Fato é que no último PISA, o Reino Unido recuperou muitas posições, ficando agora em 6° lugar (lembrando que os 4 primeiros lugares são países asiáticos, a saber, Coréia do Sul, Japão, Singapura e Hong Kong), 2° lugar na Europa (atrás somente da Finlândia, sendo que antes ele havia sido superado por vários países como Noruega, Islândia e Polônia). Claramente não foi somente esta medida singular que resultou no sucesso, nem sequer o caminho desta medida foi linear, mas sim repleto de idas e vindas, o importante é que um conjunto de medidas adequadas e relevantes efetivamente fez, ao final, a diferença. Esse exemplo nos motiva a crer que políticas públicas consistentes promovem e geram resultados efetivos.

 

Em particular sobre a ênfase em formação técnica profissional, Anísio Teixeira apontava, desde a década de 1950, que a educação secundária já era excessivamente propedêutica. Ou seja, priorizava a visão de etapa preparatória a estudos mais aprofundados de nível superior, subestimando o outro papel, de caráter mais terminal, de preparação dos jovens para o mundo do trabalho. Este quadro foi, mais recentemente, agravado pelo Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), fortalecido em seu papel de ingresso no ensino superior, transformando-se na principal referência do que deva ser ensinado neste nível.

 

Destaco, portanto, que um dos aspectos positivos desta proposta é a inclusão explícita da educação profissional dentre os itinerários formativos. Nos países mais competitivos e bem-sucedidos, a maioria dos jovens que fazem o ensino médio regular juntamente com educação profissional. No Brasil, infelizmente, esse número é em torno de somente 11%. Como está estruturado hoje, a concepção subjacente é de que que o ensino médio prioritariamente prepara ao ensino superior, porém, menos de um quinto dos jovens vão para as faculdades e menos de 12% da população adulta têm diploma universitário. Há que se propor itinerários formativos compatíveis e animadores a todos e haveremos de achar nossos próprios caminhos no Brasil.

 

O processo ensino-aprendizagem no ensino médio depende de muitos fatores, mas cabe especial destaque as condições de trabalho dos professores que atuam neste nível educacional. Em geral, eles são mal remunerados (seja comparando com outras profissões ou comparando com docentes do ensino superior), tornando a profissão pouco atraente. Além disso, os cursos de formação, quando ofertados, geralmente, não conseguem capacitá-los adequadamente à adoção de metodologias inovadoras e contemporâneas, especialmente quanto ao uso de novas tecnologias no ambiente educacional.

 

O Congresso Nacional, naquilo que lhe compete, está corretamente fazendo sua parte e as Audiências Públicas são partes positivas deste processo. Mas, certamente não há milagres que possam ser feitos aqui, muito menos isoladamente e apartado dos que estão mais diretamente envolvidos no processo educacional. Os demais caminhos são igualmente desafiadores e importantes. Cabe ao Congresso Nacional, creio eu, a título de sugestão, neste momento, principalmente, retirar obstáculos, não criar novos vínculos (carga horária mínima etc.) e definir os elementos macros de um processo cuja qualidade será definida especialmente pelas etapas posteriores. Os melhores trajetos entendo que serão aqueles que apostarem na ampla participação, no esclarecimento e no convencimento, particularmente da comunidade escolar, envolvendo alunos e docentes. Se soubermos temperar esses bons propósitos com a urgência que o tema demanda estaremos contribuindo muito, dado que qualquer demora no tratamento do tema terá como pena agravarmos ainda mais nosso atraso.

 

Registro, por fim, que estamos vivenciando crises acopladas que demandam soluções harmônicas e interdependentes. A tarefa de olhar de forma fragmentada sempre parecerá e será capenga. Por exemplo, a crise econômica decorre, principalmente, da perda gradativa de competitividade. Nossos produtos e serviços têm qualidade limitada por depender de trabalhadores e empresários, em geral, com insuficiente escolaridade e de reduzido estímulo à inovação e capacidade empreendedora.

 

Sem um ensino médio vigoroso, especialmente capaz de preparar profissionais técnicos competentes não haveremos de alterar este quadro. Má qualidade do ensino médio tem também como consequência um parque universitário extremamente limitado na sua capacidade de gerar ciência e inovação que sejam mundialmente competitivas. Seremos reduzidos, cada vez mais, a meros consumidores de tecnologias de ponta desenhadas no exterior e pagas, via commodities com preços aviltantes, num ambiente de altas taxas de desemprego. Em suma, educação, definitivamente, é a mais estratégica área que viabiliza, ou impede, o país de almejar um possível desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável.

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segunda-feira, 24 de outubro de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 16:56

ENEM: réguas do passado e do futuro

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O Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM foi introduzido há dezoito anos com o intuito inicial de medir a qualidade do ensino médio. A partir da década passada, aos poucos, transformou-se, quase que exclusivamente, em teste nacional de admissão ao ensino superior. Não há nenhum conflito essencial impedindo que ele possa cumprir bem os dois papeis. As questões mais relevantes são: primeiro, saber o que se está medindo e, segundo, se a régua utilizada para mensurar, que finda induzindo o que as escolas devem fazer ou priorizar, tem compatibilidade com o presente e o futuro ou com o passado.

 

O exame atualmente abrange um público de quase oito milhões de candidatos, com interesses concentrados nas mais de 250 mil vagas das universidades públicas e nas milhões de outras oportunidades de ingresso no ensino superior privado. Na ausência de uma base nacional comum curricular para o ensino médio, o conteúdo do ENEM, um instrumento de acesso ao ensino superior, findou sendo a referência quase única do que é, ou deveria ser, ensinado nesse nível educacional.

 

Vivemos um mundo em transformação rápida e profunda, marcado pelo acesso ilimitado, instantâneo e gratuito à informação. A consequência educacional é que, diferentemente do passado, onde boa parte da formação de um profissional estava centrada em dotá-lo de um conjunto delimitado de conteúdos, técnicas e procedimentos, hoje, igualmente relevante é educar tendo em vista aumentar a sua capacidade de, a partir dos dados plenamente disponibilizados, resolver problemas e enfrentar desafios, além de aprender a aprender de forma contínua.

 

O ENEM começou em 1998 como exame de um dia só com poucas (63) questões de múltipla escolha, em geral multidisciplinares, e uma redação dissertativa. Essas questões exigiam menos memória sobre os conteúdos específicos envolvidos e demandavam mais raciocínio, dado que muitas vezes os próprios enunciados, à luz de uma boa capacidade de interpretação de texto, embutiam parte das respostas. De forma progressiva, e mais enfaticamente a partir de 2009, adotou-se uma cobrança maior por memória e por profundidade no domínio de matérias específicas como matemática, física, química, biologia, língua estrangeira, história, geografia e redação. Atualmente, são mais questões (180) e a redação, desenvolvidas na forma de um vestibular tradicional de dois dias.

 

O ENEM tem funcionando como atestado formal de proficiência em itens disciplinares supostos essenciais a ingressantes em cursos superiores. Adicionalmente ao fato de que nem todos que concluem o ensino médio pretendem cursar ensino superior, o drama é que tais elementos estão tipicamente associados à formação profissional do século passado. No passado recente, um conjunto razoavelmente delimitado de conteúdos, técnicas e procedimentos caracterizavam, de forma quase suficiente, um formando do ensino superior preparado para atender as demandas da época. Isso mudou, está mudando e mudará ainda muito mais. Precisamos de réguas capazes de medir, além dos conhecimentos específicos, o nível de amadurecimento da consciência do educando acerca dos mecanismos segundo os quais ele aprende, bem como o preparo para lidar com informações plenamente disponíveis e a capacidade de não temer enfrentar desafios, demonstrando estar preparado para uma realidade de educação permanente ao longo da vida.

 

Um ENEM que seja compatível com o mundo contemporâneo e projete o futuro deverá conter questões e desafios onde as respectivas soluções dependam de elementos que possam ir além, ainda que incluam, o domínio de conteúdos específicos. Em outras palavras, necessitamos de réguas capazes de também identificar e mensurar a capacidade do uso da lógica e do raciocínio crítico, a habilidade em interpretar e analisar textos fazendo uso dos dados disponibilizados, e o nível de desenvolvimento de outros atributos que transcendem o domínio simples de conteúdos específicos.

 

(Figura: Domínio público, em http://www.create.ac.uk/blog/2014/09/25/valuing-the-public-domain-a-workshop-for-uk-creative-firms/)

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terça-feira, 18 de outubro de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 08:17

Os 300 de Esparta e modelos de gestão

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esparta

Lendas e mitos nos ajudam a entender o presente e lançam luz sobre o futuro. Por vezes, símbolos simples são capazes de descrever coisas ou materializar ideias mais e melhor do que longos discursos.

 

As cidades-estados da Grécia Antiga, entre elas Esparta e Atenas, viviam permanentemente aterrorizadas por uma possível invasão dos persas. Em 480 a.C., ocorreu a guerra entre a aliança liderada pelo rei de Esparta, Leônidas I, e os persas. Na Batalha de Termópilas, os persas haviam deslocado um enorme exército, centenas de milhares de homens, para, finalmente, conquistar toda a Grécia. Com um número desproporcionalmente menor de soldados, cabia aos gregos, mais uma vez, resistirem aos invasores. Rei Leônidas, num certo momento, liberou seu exército e enfrentou os persas com apenas 300 espartanos, além de alguns téspios e tebanos. Ainda que derrotados nessa batalha específica, ao final, os gregos saíram vitoriosos, sendo que a lenda dos 300 guerreiros de Esparta teria sido a principal inspiração de patriotismo, de coragem e, principalmente, de eficiência.

 

Além da capacidade de se defender ou de atingir os inimigos, o que marcou aqueles guerreiros foi, especialmente, ajudarem-se uns aos outros. A solidariedade invulgar dos guerreiros de Esparta fez com que eles resistissem e, mesmo derrotados, se transformassem em lenda, dado que o atraso no avanço das tropas persas permitiu que os gregos se organizassem para os momentos seguintes. Assim, a passagem do herói individual a cidadão foi reforçada pela mudança da tática militar nas batalhas. O herói que demonstrava sua superioridade individual foi substituído pela tática da falange de vários homens, os quais não mais deviam se preocupar com o valor individual, mas substituí-lo pela submissão ao espírito de comunidade.

 

Várias iniciativas interessantes têm adotado como fonte de inspiração esses guerreiros. Recentemente, um professor de matemática da UnB, Ricardo Fragelli (ver: https://www.youtube.com/watch?v=gay6TYwVwf4), liderou o Projeto 300, o qual consiste em uma metodologia inovadora de ensino, que busca a partir da aprendizagem ativa e colaborativa melhorar o desempenho dos estudantes em matemática. Inspirados pelos 300 de Esparta, os estudantes que se saem bem na primeira avaliação do semestre ajudam os demais que tiveram notas mais baixas, preparando-os para segunda avaliação. E ganham pontos por isso, valorizando a solidariedade coletiva tanto quanto as boas notas individuais.

 

Os campos de aplicação dos mitos e lendas são ilimitados. Eles se aplicam também em modelos de gestão, os quais dizem respeito ao conjunto de normas e princípios que orientam os gestores na escolha das melhores alternativas para levar a empresa a cumprir sua missão com máxima eficiência e eficácia. O cumprimento dessa tarefa dependerá fortemente da cultura organizacional, ou seja, do conjunto de valores, crenças e princípios compartilhados pelas pessoas que fazem a organização. Fazer gestão, portanto, é fazer escolhas, incluindo selecionar como os indivíduos são motivados para perseguir seus objetivos.

 

O mais influente modelo contemporâneo de gestão é baseado em cumprimento de metas. Estas devem estar acopladas a um conjunto de objetivos inter-relacionados. Para serem consideradas boas metas, em princípio, elas devem ser mensuráveis e acordadas entre os diretores, os gestores responsáveis e os demais colaboradores subordinados. No campo educacional, é extremamente complexo mensurar o seu objetivo principal associado ao processo de emancipação do educando, para o que não há métrica definida. Para complicar ainda mais, as trajetórias de aprendizagem são únicas, sendo que cada um aprende de maneira cada vez mais personalizada.

 

Um equívoco bastante comum para quem não prestar a devida atenção no exemplo dos 300 guerreiros de Esparta é gerar metas individuais isoladas e não correlacionadas coletivamente, tal que deixe de ser especialmente premiada a solidariedade entre todos. Metas que não privilegiam objetivos coletivos e elementos de solidariedade ativa findam por estimular o egoísmo e correm o risco de gerar eventuais resultados parciais satisfatórios ao lado de missões finais gerais fracassadas. Como se vê, mitos convivem conosco no dia-a-dia e podemos e devemos utilizá-los para aprender ao longo de toda a vida.

 

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