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segunda-feira, 13 de novembro de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 17:17

Lançamento do livro: “A Arte da Educação”

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Latoncamento

 

 

No próximo dia 22/11, quarta-feira, às 18h, no Centro Cultural do Banco do Brasil/CCBB, no Rio de Janeiro-RJ, lançarei o livro “A Arte da Educação”. Ainda neste ano, teremos outros lançamentos: em Brasília-DF na Associação Brasileira de Mantenedores do Ensino Superior/ABMES (dia 05/12, terça-feira, pela manhã) e em Santa Maria-RS, na CESMA (dia 23/12, sábado, às 10h30). Em outras cidades, lançamentos somente em 2018.

 

A versão impressa estará disponível para aquisição online, diretamente da Editora Obliq (a ser anunciado em breve). Simultaneamente, a obra, no formato e-book, estará também disponível via o app “Ronaldo Mota Online”, desenvolvido em conjunto com Digital Pages (detalhes em breve).

 

A obra trata da relevância de se entender o ofício educar como arte. Um conjunto de artigos, alguns inéditos e outros já publicados na coluna Reitor Online do Portal iG, no blog da ABMES e na página do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras/CRUB, são apresentados em capítulos temáticos.

 

Arte diz respeito às variadas e complexas formas de expressão estética e de comunicação, utilizando inúmeras linguagens e, especialmente, contemplando inspiração e criatividade. Educação, por sua vez, está genericamente associada ao processo de ensinar e de aprender conhecimentos de forma sistemática e organizada.

 

Ensinar, de certa forma, envolve técnica e procedimentos; educar, no século XXI, tende a ser progressivamente uma arte, que inclui a técnica, mas a transcende, contemplando também criatividade, inovação, empreendedorismo, metacognição etc. Não se trata, portanto, de minimizar o ensino, como o conhecemos hoje, mas sim de evidenciar sua insuficiência no mundo contemporâneo.

 

Ensinar nos padrões tradicionais nos tempos passados recentes teve enorme sucesso porque se mostrou compatível e coerente com as demandas de então. A complexidade atual exige ir muito além, introduzindo novidades, a maior parte delas decorrentes de um cenário mediado pela emergência disruptiva das tecnologias digitais.

 

O educador está progressivamente se transformando em artista, o qual se expressa também como designer educacional trabalhando coletivamente. Os tempos de aprendizagem, anteriormente estanques, agora dispensam limites, podendo ocorrer a qualquer hora, em qualquer lugar e ao longo de todo o tempo, obrigando conjugar educação com a própria vida, de forma indissolúvel e indissociável.

 

Educação, dentro dessa abordagem, contribui com erodir a separação entre vida e arte. A arte da educação viabiliza entender melhor o educando, o educador e, consequentemente, a vida. Educação, arte e vida, conjuntamente, esclarecem complexidades e preparam a todos para desafios que somente assim se permitem serem decifrados e resolvidos. Educar em consonância com as exigências deste século é sim uma forma de arte. Conhecimentos específicos, domínio de técnicas e conhecimentos são relevantes, porém, não mais suficientes. Aprender a conhecer transcende aqueles ingredientes, demandando elementos que somente a arte pode nos inspirar.

 

Como autor, destaco os doze Depoimentos que apresentam a obra. Pedro Thompson, Presidente da Estácio, Fábio Coelho, CEO do Google/Brasil, Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação, Maria Helena Guimarães de Castro, secretária-executiva do MEC, Sérgio Rezende, ex-ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Vanderlan Bolzani, vice-presidente da SBPC, Edson Nunes, ex-presidente do CNE, Fredric Litto, presidente da ABED, Ana Estela Haddad, diretora de Relações Institucionais da ABTms, Arnaldo Niskier, membro da ABL, Robert Cowen, Instituto de Educação da Universidade de Londres, e Senador Pedro Chaves, ex-reitor da Uniderp. Não é falsa modéstia opinar que eles são mais interessantes do que a própria obra, dado que são profissionais muito especiais, cujas críticas me deixam particularmente lisonjeado e suas opiniões, mais do que tratarem da obra, são partes integrantes dela. Com muito orgulho do autor.

 

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quinta-feira, 2 de novembro de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 06:46

Bruxaria e Ciência

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galileu

 

Anteriormente ao período conhecido como Renascimento na Europa, particularmente antes das contribuições de pensadores como Copérnico (1473-1543), Galileu (1564-1642) e Newton (1643-1727), a percepção dos indivíduos acerca de alguns fenômenos cotidianos era muito diversa da atual. Alguém imaginar que habitávamos um mundo que não fosse basicamente plano beirava a insanidade ou acreditar que um astro como a Lua pudesse interferir à distância no fenômeno das marés era crer em bruxaria.

 

A pergunta difícil de responder é quais fatos ou concepções atualmente negamos, desprezamos ou chamados de feitiçarias e que, talvez, em tempos adiante, fruto de avanços científicos, venhamos a aceitar como corretos ou verídicos. Adotamos que os limites entre bruxaria e ciência só se tornam mais claros à luz do método científico, aprimorado a partir do nascimento da ciência moderna, construída, entre outros, pelos mesmos personagens acima citados.

 

Um interessante exemplo de espaço difuso entre a ciência e o misticismo é a alquimia, a qual foi responsável por consideráveis avanços da química na Idade Média, anterior ao Renascimento. O principal objetivo da alquimia, além de obter o elixir da imortalidade, era a transmutação de metais não preciosos em ouro.  Ainda que não tenham sido bem-sucedidos neste item, desenvolveram os principais processos de destilação, a técnica do banho-maria para aquecer lentamente soluções e criaram a porcelana, entre outras significativas contribuições.

 

Copérnico era cônego da Igreja e a ele foi encomendado que solucionasse o calendário Juliano em vigor. Este corrigia o ano solar de 365 dias adiantando um dia a cada quatro anos, o conhecido ano bissexto. Por ser excessiva esta correção, no século XVI havia uma defasagem acumulada de 10 dias, e o calendário oficial da Igreja estava trazendo reais prejuízos aos agricultores que nele se baseavam para seus plantios. Copérnico resolveu o dilema adotando o Sol como centro e a Terra girando em torno dele. Assim foi construído o calendário Gregoriano, adotado pela Igreja em 1582. Contraditoriamente, a Igreja permaneceu reafirmando o irracional geocentrismo, ainda que ciente da racionalidade do heliocentrismo.

 

As marés, antes do Renascimento, eram, em geral, associadas com animismos do tipo “respiração” do mundo. Galileu, tentando apoiar a tese heliocêntrica de Copérnico, procurou explicar, sem sucesso, as marés desenvolvendo uma comparação com a água em um vaso.  Haveria três maneiras para a água do vaso se mover: a inclinação do vaso, causas externas (ventos, por exemplo) e o movimento do próprio vaso, sujeito a acelerações e desacelerações.

 

Aquilo que Galileu não resolveu, Newton, que nasceu alguns meses após a sua morte, elucidou, baseado na teoria gravitacional de atração entre os corpos. As marés são basicamente consequências de três fenômenos principais: a atração Terra-Lua, a atração Terra-Sol e a rotação da Terra em torno de seu eixo. Assim, Terra e Lua (ou Sol) se atraem mutuamente, sendo que os ponto da Terra mais afastados da Lua (ou do Sol) são atraídos mais fracamente do que os pontos mais próximos. A gravidade faz com a forma quase arredondada da Terra se achate, gerando uma protuberância externa na face voltada à Lua (ou ao Sol). Quando Sol, Lua e Terra se alinham (luas novas e cheias) as marés altas ocorrem, e quando Sol, Terra e Lua formam um ângulo reto (luas crescente e minguante) os efeitos da gravidade são mais neutros.

 

Em suma, devemos ser cautelosos acerca de, eventualmente, estarmos classificando certos fenômenos como bruxarias simplesmente porque os limites atuais de nossos conhecimentos ainda não permitem elucidar por completo. O que restará em comum a ser preservado, em qualquer dos tempos, será o método, o método científico moderno, este sim o grande legado do Renascimento.

 

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Imagem em Domínio Público, em: https://i.pinimg.com/736x/e4/91/20/e49120bf2704b738f2a75515c556ddb5–the-tower-experiment.jpg

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sábado, 14 de outubro de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 19:02

Mensagem aos Professores

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teacher

 

Dentre todas as espécies, somos a única que possui a incrível habilidade de transmitir cultura e conhecimento de forma organizada e consciente aos nossos descendentes. Nas sociedades primitivas, os precursores dos professores eram os responsáveis por passar ensinamentos de uma geração para outra, onde os mais velhos ensinavam os mais jovens. Atividades como a arte da caça, a capacidade de sobrevivência, o trato com as plantações e com as ervas que curam, a segurança e a garantia do bem-estar da comunidade estavam sujeitas a ritos de passagens. Assim, os pioneiros do processo ensino e aprendizagem atestavam as técnicas e procedimentos adquiridos e validavam esses processos.

 

À medida que as sociedades humanas foram se tornando mais complexas, apareceu a figura do artesão, responsável pela produção de artefatos, utensílios e artesanatos, seja para a agricultura, o uso doméstico, a lida com os animais ou para a defesa. Esses ensinamentos, técnicas e procedimentos eram transmitidos pelo mestre aos seus aprendizes, os quais, após ritos de aprendizagens, se transformavam, com a idade, em artesãos, e assim por diante.

 

Milênios se passaram e atualmente o docente é figura consolidada, reconhecida e respeitada pela sociedade, ainda que entendamos, corretamente, que pudesse ser mais prestigiada. Contemporaneamente, vivemos grandes desafios, especialmente pela abrupta emergência das tecnologias digitais que a tudo modifica, transforma e reconceitualiza.

 

Acalmando os mais assustados, lembremos que no século XV, com o advento do livro moderno de Gutenberg, alguns equivocados sugeriram a possibilidade do fim da figura do professor. Afinal, quem iria procurar o mestre, que, por melhor que fosse, improvisa, tendo disponível o livro, supostamente sempre correto e sem erros, dado que feito com tempo, cuidado e esmero? Na prática, jamais houve conflito entre o docente e o livro; ao contrário, ambos foram as grandes alavancas que consolidaram as nascentes universidades europeias. Estas, por sua vez, propiciaram o amadurecimento do método científico, as tecnologias dele decorrentes e a Revolução Industrial que, por fim, moldaram as bases da sociedade atual.

 

Por vezes, alguns não entendem por que os educadores não gostam quando o termo “treinamento” é utilizado para o ofício que nós desenvolvemos. Não é birra e nem soberba; é que treinamento não é expressão ingênua, mas embute um conjunto de metodologias que é inapropriado para quem pretende de fato educar. Educação vai muito além da simples transmissão de conteúdos e jamais se reduz a um conjunto de receitas de procedimentos. Ainda que alguns possam ter se iludido nos séculos passados, porque os modelos de desenvolvimento assim o sugeriam, a verdade é que contemporaneamente esses processos de ensinamento, baseados em treinamentos, são falhos e inócuos.

 

Educar, mais do que nunca, é emancipar o educando para, fruto dos ensinamentos dos mestres, ser capaz de enfrentar desafios complexos. Emancipa-se quando o educando se torna competente para escrever e interpretar textos complexos ou quando se atinge o domínio do letramento matemático, indo muito além das operações simples da aritmética. É emancipatório o pleno domínio do método, especialmente do método científico, para, utilizando tal ferramenta, entender e interpretar o mundo à sua volta. Educar é promover a aprendizagem independente ao longo de toda a vida, entendendo que cada educando aprende de maneira única e personalizada e que todos aprendem, em qualquer lugar e o tempo todo.

 

Neste Dia do Professor temos sim o que celebrar, particularmente nossa singular responsabilidade em contribuir na educação das novas gerações. Não podemos tudo na sociedade atual e sequer temos controle de todos os processos envolvidos, mas temos a capacidade de emancipar, ensinando nossos educandos a aprender a aprender continuamente. Às novas gerações cabe continuar colaborando para um desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável.  Enfim, uma sociedade que seja mais harmônica, justa e respeitosa à rica diversidade, onde possamos celebrar sermos, felizmente, todos diferentes.

 

Professores, Parabéns.

Comemoremos, merecidamente, o Dia do Professor.

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Figura em Domínio Público mostrando Jesus Cristo pregando aos discípulos. Autor: Tissot (1886-1894). Link:

http://torahclub.ffoz.org/disciples/images/wm-brooklyn_museum-Jesus-Teaches-Tissot.jpg

 

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terça-feira, 10 de outubro de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 17:44

Economia comportamental e educação

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Richard H. Thaler, professor da escola de negócios da Universidade de Chicago, acaba de ganhar o Prêmio Nobel de Economia 2017 por suas contribuições em economia comportamental. Seus trabalhos ajudam a compreender como as pessoas tomam decisões sobre consumo, trabalho, investimentos e demais aspectos da vida, demonstrando que os traços humanos afetam sistematicamente nossas decisões

 

Ao minimizarem aspectos comportamentais, as teorias econômicas convencionais, em geral, assumem que somos totalmente racionais e que a objetividade é o guia dominante das decisões econômicas. Thaler foi um dos pioneiros na aplicação da psicologia ao comportamento econômico, esclarecendo como as pessoas tomam decisões financeiras, por vezes rejeitando a racionalidade.

 

O centro do raciocínio é que somos humanos, existe o indivíduo e ele precisa ser levado em conta. Na prática, mesmo sendo racionais, nossos comportamentos desviam de julgamentos puramente sistemáticos. Tais tendências estão associadas ao que chamamos genericamente de viés cognitivo e decorrem de motivações emocionais ou de influências sociais diversas. Além disso, há que se levar em conta os inevitáveis atalhos no processamento de informações ou as limitações inerentes às habilidades de nosso cérebro, incluindo distorções no armazenamento e recuperação de memórias.

 

Em educação fenômeno semelhante ao campo da economia comportamental está em curso. Ensino tradicional é centrado na transmissão de conteúdos e na assimilação de técnicas e de procedimentos. Gradativamente, novas habilidades, assentadas em aspectos socioemocionais e no incremento da capacidade de aprender a aprender, ocupam mais espaço. Portanto, na formação de profissionais contemporâneos há que se somar aos conhecimentos básicos os indispensáveis aspectos complementares cognitivos e metacognitivos.

 

Metacognição diz respeito àquilo que transcende a cognição simples, incluindo nossa percepção de como aprendemos, as habilidades de realizar conexões entre diversas áreas do saber, contribuindo para a solução de problemas complexos, a capacidade de comunicação, as habilidades no desenvolvimento de trabalhos em equipe e os outros aspectos socioemocionais. Compreender os vieses cognitivos ou metacognitivos torna-se especialmente relevante em um mundo com ênfase em economia comportamental e de informação plenamente disponível, de forma instantânea e gratuita.

 

No que diz respeito aos conhecimentos básicos, as três mais relevantes prioridades são: 1) letramento geral sofisticado, que vai muito além da alfabetização, contemplando a capacidade comprovada de escrever e interpretar textos mais complexos, e o letramento matemático, que transcende as operações matemáticas mais simples; 2) letramento digital, incluindo o domínio de plataformas e o preparo para compreensão, adoção e desenvolvimento de softwares e aplicativos; e 3) percepção de onde estamos, via a capacidade de entender aspectos históricos e geográficos, entendendo as diferentes culturas e comportamentos, desenvolvendo tolerância para especificidades, hábitos e costumes diversos.

 

As sete principais características complementares que se espera de um futuro profissional diferenciado são: 1) habilidade de aprender a aprender continuamente ao longo da vida, ampliando sua própria consciência acerca dos mecanismos segundo os quais ele aprende; 2) capacidade analítica para resolver problemas práticos, ou seja, embasado no conhecimento do método científico e na familiaridade com pensamentos críticos, desenvolva o domínio de raciocínios abstratos sofisticados; 3) efetividade em juntar diferentes áreas do saber e das artes, com especial disposição para a área de gestão de informações; 4) efetiva habilidade de comunicação, sabendo lidar com pessoas e a negociar com flexibilidade e competência em todos os contextos; 5) inteligência emocional desenvolvida, incluindo perseverança, empatia, autocontrole e capacidade de gestão emocional coletiva; 6) disposição plena para o cumprimento simultâneo de multitarefas, propiciando capacidade de análises apuradas e de tomada de decisões; e 7) competência em colaborar em equipe de forma produtiva, sendo respeitoso e cordial, entendendo as características individuais e as peculiaridades das circunstâncias, promovendo ambientes criativos e empreendedores, resultantes de processos coletivos e cooperativos.

 

 

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segunda-feira, 2 de outubro de 2017 Sem categoria | 00:00

ENADE e CPC são a mesma coisa? Não, não são

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Em qualquer área de atividade, indicadores de qualidade são essenciais para uma permanente melhoria dos serviços prestados, bem como para informar aos usuários que os utilizam. Por mais bem elaborados que eles sejam, os retratos que os indicadores fornecem sempre serão limitados e parciais, sendo tentativas de captar elementos complexos e nem sempre objetivos.

 

Na educação superior brasileira, há a Lei do Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior/SINAES, Lei no 10.861/2014, estabelecendo os marcos referenciais de qualidade. Tendo como referência os indicadores de qualidade, sob responsabilidade do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira/INEP, o processo regulatório é implementado por outros órgãos do Ministério da Educação/MEC.

 

O Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes/ENADE é previsto na Lei do SINAES para mensurar a qualidade dos formandos e ele é aplicado a cada três anos a uma das três grandes áreas  do conhecimento (Saúde, Gestão e Engenharia e Licenciaturas). Os resultados obtidos pretendem ser fotografias das linhas de chegada tentando mensurar, à luz das Diretrizes Curriculares de cada curso, os conhecimentos dos formandos. Além do conceito ENADE de cada curso, cada formando tem acesso à sua avaliação individual, via relatório individual de desempenho, onde ele pode se situar relativamente aos demais formandos de sua turma, bem como comparativamente aos demais formandos de sua carreira no país. Este documento, por lei, é de caráter privativo, mas pode e deve ser amplamente utilizado pelo futuro profissional em todos os contextos em que ele assim o desejar.

 

Sendo o ENADE uma fotografia na linha de chegada, se ele fosse o único indicador, poderíamos, ingenuamente, concluir que dois formandos com os mesmos resultados tenham tido desempenhos similares. A título de ilustração, se alguém na linha de chegada testemunhar a chegada simultânea de dois atletas, poderia perguntar se ambos saíram do mesmo ponto de partida. A resposta óbvia seria sim. Mas, no caso do ensino superior, a resposta é não. Cada um saiu de um ponto diverso, o qual hoje, grosso modo, pode ser medido razoavelmente pelo Exame Nacional de Desempenho do Ensino Médio/ENEM. Assim, dois atletas chegando juntos, se um saiu de um ponto mais distante, o seu desempenho é superior ao outro que correu menos. Por isso é previsto um outro indicador, o índice que representa o conhecimento agregado pelo curso superior ao aluno (IDD). Neste caso, se o ENADE representa mais adequadamente a qualidade do formando, o IDD diz respeito mais à qualidade do curso em si no seu papel de formar o aluno ao longo da graduação.

 

Com o tempo, restou evidente que seria aconselhável criar um novo indicador que combinasse esses dois insumos (ENADE e IDD) e incluísse outros igualmente relevantes, tais como a qualificação do corpo docente, incluindo titulação e regime de trabalho, e uma avaliação pelos formandos das condições oferecidas para o desenvolvimento do processo, incluindo organização pedagógica, infraestrutura etc.

 

Em 2008, com a participação da Secretaria de Ensino Superior/SESu, da qual eu era o secretário, foi desenvolvido no MEC o Conceito Preliminar de Curso (CPC), com a intenção de ajudar a estabelecer um conceito apropriado a cada curso de graduação, incluindo ENADE, IDD e os demais indicadores. Na mesma oportunidade, foi implantado o Índice Geral de Cursos (IGC), previsto para fornecer um conceito para a instituição como um todo, onde os CPCs resultantes das avaliações dos últimos três anos seriam agregados às avaliações dos programas de mestrado e doutorado.

 

Na semana passada, o INEP, que realiza avaliações qualificadas, liberou separadamente o ENADE  e o IDD e só liberará o CPC em novembro próximo. Assim, temos um hiato onde as especulações podem, eventualmente, levar a conclusões menos embasadas do que elas seriam se ambos, ENADE e CPC, fossem liberados juntos. Por exemplo, conclui-se, somente pelo ENADE, que as universidades federais foram bem melhores do que as instituições do setor privado. Na verdade, o que atesta o ENADE isoladamente é que os formandos das federais obtiveram, em média, notas superiores que os formandos do setor privado. No entanto, visto separadamente, está oculto que os estudantes ingressaram no ensino superior diferentemente, sendo de conhecimento geral que os ingressantes das federais, em média, entram mais bem preparados, fruto de processos seletivos mais concorridos. Quando observados à luz dos CPCs, de fato, as públicas evidenciam, em média, um melhor desempenho, ainda que essas distâncias sejam menores do que as observadas somente pelo ENADE e é visível que as distâncias estão diminuindo.

 

Sobre IGC, que retrata a qualidade da instituição, interessante observar, a partir dos dados disponíveis de 2015, que de 193 universidades somente 15, todas elas públicas, ostentam o conceito máximo 5, considerado de excelência. Entre as universidades com conceito 4, equivalente a muito bom, temos 18 universidades privadas, sendo que destas somente quatro são com fins lucrativos. A Universidade Estácio de Sá tem o orgulho de ser uma das quatro, especialmente porque fruto de um crescimento sistemático e sustentável.

 

Enfim, indicadores de qualidade são relevantes, mas há que se tomar extremo cuidado na leitura sobre o que se está efetivamente medindo. Atualmente, temos séries históricas de CPCs e IGCs que permitem aos órgãos do MEC dispor de importantes referências em suas tarefas de regulação e supervisão. Da mesma forma, a sua publicização, na sua forma mais completa, atende ao pressuposto de informar bem ao cidadão sobre elementos de qualidade dos serviços educacionais à disposição no país.

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Este artigo, em versão resumida, com o título “Ampla avaliação” foi publicado no Jornal O GLOBO em 25 de setembro de 2017.

Figura da Empresa Brasileira de Comunicação – EBC, disponível em:

http://agenciabrasil.ebc.com.br/sites/_agenciabrasil2013/files/unb2.jpg

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sábado, 23 de setembro de 2017 Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 10:58

Blockchain, o cartório do mundo

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blockchain-consensus

 

Blockchain é basicamente uma tecnologia de registro de transações digitais que faz uso dos nós de uma rede estrutura, via internet, espalhada pelo planeta. A ideia original foi apresentada em 2008 em artigo assinado por Satoshi Nakamoto, cuja real identidade é ainda controversa.

 

A rede pode ser criada com número ilimitado de participantes anônimos e com absoluta garantia de fidelidade, eficiência e transparência, elementos fundamentais para registros ou transferências de dados de qualquer natureza. Em suma, tudo o que pode ser transacionado ou certificado pode fazer uso de blockchain, sem exceção, desde certificações de contratos e de ativos a diplomas, passando por moedas virtuais.

 

O repertório das aplicações desta revolucionária tecnologia está ainda em sua primeira infância. Recentemente, tratei de exemplos potenciais em regulação no ensino superior brasileiro e novas iniciativas têm surgidos nesta área, entre elas da Sony Global Education.

 

Da mesma forma que o Uber desafiou os taxis e o AirbnB enfrentou os hotéis, blockchain tem o potencial de alterar as bases da economia global, modificando a governança de todos os registros, se constituindo em uma espécie de cartório do mundo. Esta tecnologia pode abalar os modelos de negócios no que diz respeito à desintermediação, desburocratização, diminuição de custos de processos e fidelidade, resultando em aumentos inéditos de fatores de produtividade e de eficiência institucional, em todos os setores.

 

A emergência de criptomoedas só foi viável por ser baseada em blockchain. Bitcoin é até aqui a moeda virtual mais conhecida e bem-sucedida, no entanto, outras já surgiram e muitas ainda estão por vir, cada uma com suas características atendendo a necessidades específicas e contextos peculiares. Um Bitcoin vale hoje aproximadamente R$ 11.560,00 ou US$ 3.700,00, tendo tido uma valorização superior a qualquer outro ativo nos últimos anos.

 

Cada fração de Bitcoin é programável como sendo equivalente a parte de uma propriedade ou correspondente a certa quantidade de algum ativo, sendo que o emissor pode definir, a seu critério, especificações de uso. Por exemplo, uma empresa pode realizar emissões especiais de Bitcoins que devam ser despendidos exclusivamente com salários, manutenção, consumo ou despesas na área de saúde. Caso as exigências não sejam confirmadas pela rede, dentro das especificidades originalmente previstas, os valores retornam ao emissor, dispensando centros de controle ou burocracias associadas e evitando práticas como corrupção e demais usos indevidos.

 

No mundo da internet das coisas, um produto (ou mesmo um serviço) só é vendido (ou prestado) se a parte requerente disponibilizou o pagamento, sendo que a parte vendedora (ou prestadora) só recebe uma vez conferido, de comum acordo nas duas pontas, o pleno atendimento das condições estabelecidas no contrato registrado, dispensando intermediários, bancos ou autoridades centrais.

 

Blockchain fornece a base matemática sofisticada, com algoritmos no estado da arte, para consolidar um banco de registros gerais espalhados por toda a internet, sem a necessidade de um controlador central, ao mesmo tempo que todos os usuários exercem este controle, na forma de nós da rede compartilhada, naquilo que lhe diz respeito. Os nós autorizados da rede devem concordar consensualmente para que novos registros sejam aceitos e, uma vez aceitos, ficam perenemente memorizados com todos os detalhes e com as respectivas responsabilidades asseguradas. Tentativas de fraudar o sistema podem ser rejeitadas por qualquer um desses nós, garantindo fidelidade absoluta aos arquivos registrados na forma de cadeias acumuladas, via blocos empilhados cronologicamente.

 

Por fim, os dados são confiáveis, completos, consistentes, datados e tornados amplamente disponíveis, fazendo com que este cartório, que estamos ainda aprendendo a conhecer e a utilizar, elimine a figura do intermediário, baixe custos e estabeleça níveis elevados e inéditos de confiança entre pessoas e instituições.

 

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Imagem disponibilizada em: http://www.deal.com.br/wp-content/uploads/2017/06/blockchain-consensus.jpg

 

 

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domingo, 17 de setembro de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 13:56

O que esperam os empregadores?

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empregadores

 

O mundo está mudando e os empregadores já não são os mesmos. Há uma grande tendência de que, progressivamente, o espaço de empregos tradicionais dê lugar ao surgimento de novas oportunidades profissionais, ancoradas em atividades e negócios inéditos. Neste cenário emergente, a figura do empregador clássico pode se alterar radicalmente ou, no limite, até desaparecer.

 

Mesmo assim, ao longo desta transição, os empregadores ainda são as pessoas responsáveis por dirigir empreendimentos, privados ou públicos, que continuarão decidindo sobre o futuro de parte dos profissionais desta geração. Portanto, bom sabermos mais sobre eles, o que pretendem quando contratam alguém e o que esperam dos profissionais contratados.

 

No passado recente, as expectativas dos empregadores acerca de um profissional a ser contratado eram menos complexas e mais previsíveis do que hoje. Atualmente, as próprias tarefas e missões estão se tornando quase impossíveis de serem antecipadas. Educar era mais simples, porém, as receitas anteriores não funcionam mais. Havia para cada uma das profissões uma relativa certeza acerca do conteúdo mínimo, bem como do conjunto associado de técnicas e procedimentos, que o formando deveria dominar.

 

Educar, contemporaneamente, continua a contemplar a formação profunda em um campo profissional específico, mas transcende em muito tal exigência, incluindo também desenvolver novas competências e habilidades socioemocionais que costumavam ser menos valorizadas.  São exemplos desses ingredientes o destemor por novos desafios, o estímulo à criatividade, a propensão à inovação e o desenvolvimento do espírito empreendedor, além de saber trabalhar em grupo, explorando empatia e compaixão

 

Permanecem existindo conteúdos imprescindíveis a qualquer profissional e que serão as bases iniciais de sua capacidade de resolver problemas. Entre eles, o letramento sofisticado, que permita entender e escrever textos complexos, o domínio consistente das operações matemáticas, associado à capacidade de desenvolver raciocínios abstratos, o hábito da adoção do método, em especial o uso da metodologia científica e sua aplicação a pensamentos complexos e a percepção adequada dos contextos geográfico e histórico, além do indispensável apreço pelas artes, pela cultura e pela ciência.

 

Ensinar nos padrões tradicionais nos tempos passados recentes teve enorme sucesso porque se mostrou compatível e coerente com as demandas inerentes aos modelos de desenvolvimento adotados até então. A complexidade atual exige ir muito além, introduzindo novidades, a maior parte delas decorrentes da emergência disruptiva das tecnologias digitais. Agir educacionalmente neste novo cenário demanda repensar a ciência da aprendizagem e propor e implementar modelos pedagógicos bastante distintos daqueles que, em geral, temos adotado. A memória se desvaloriza e a excessiva centralidade no conteúdo se fragiliza à medida que, gradativamente, o acesso à informação se faz ilimitado, instantâneo e gratuito.

 

A escola e seu principais atores foram até aqui menos afetados pelas tecnologias digitais do que o mundo externo a eles. Assim, em geral, os gestores educacionais e os professores, estranhamente, se mostram mais satisfeitos com o trabalho educacional que desenvolvem do que, de fato, se sentem os formandos e, especialmente, aqueles que os empregam. Este fenômeno por si evidencia um provável diálogo interrompido, até mesmo um divórcio, entre as realidades imaginadas nas escolas e aquelas vivenciadas pelos egressos em suas vidas profissionais.

 

As soluções educacionais em curso ainda são embrionárias, porém, algumas evidências sobressaem. O educando, mais do que nunca, é o centro e a aprendizagem, cada vez mais, personalizada. Todos aprendem o tempo todo e em qualquer lugar, sendo que cada um aprende à sua própria maneira. O domínio do conteúdo em si, ainda que relevante, torna-se relativamente menos importante do que ter aprendido a aprender. Assim, uma das mais refinadas artes educacionais é propiciar que cada educando aprofunde continuamente seu nível de consciência acerca de como ele aprende.

 

E como ficam os empregadores neste contexto? Tanto quanto os empregados, serão exigidos a rever conceitos, adotar novas estratégias e, por vezes, mudar radicalmente a essência de seus negócios.

 

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Figura em Domínio Público, tal como vista em: http://freesoftwaremagazine.com/articles/promoting_public_domain_creative_commons_cc0_initiative/c20080220_LOCPD_ww2_woman_operating_engine_lathe.jpg

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sábado, 2 de setembro de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 17:17

Educar é emancipar contra o “efeito manada”

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manada

 

Tenho procurado começar as aulas e palestras com exemplos simples da vida cotidiana. Um deles diz respeito à nossa provável primeira experiência logo após acordar. Ao nos depararmos no banheiro com um piso cerâmico e um tapetinho para os pés, evitamos o “frio” do piso cerâmico e sentimos conforto no abrigo “quente” do tapete. Este é o senso comum. Ocorre que, contrariamente à nossa percepção, tanto o piso como o tapete estão exatamente à mesma temperatura. Se alguém está em temperatura diversa deles é nosso corpo (em torno de 36o C).

 

Por que então a sensação térmica tão diversa? Há uma explicação, racional e simples. Os átomos e as moléculas que compõem os entes citados estão em constante agitação térmica e quanto maior forem os movimentos dessas partículas maior será a temperatura dos objetos. Processos de transferência de calor ocorrem entre corpos a diferentes temperaturas.  Quando em equilíbrio térmico, não há este processo. Piso ou tapete, ao entrarem em contato com o corpo mais quente, ambos dele recebem energia térmica, enquanto o corpo humano se esfria. As velocidades com que os processos de transferência de calor ocorrem nos dois casos são diferentes.  O piso cerâmico conduz energia rapidamente, resultando a sensação de frio. No caso do tapete, a perda de energia é relativamente lenta, promovendo a sensação de conforto.

 

Mesmo com conhecimento superficial dos conceitos envolvidos, a reflexão metódica e científica contribui para irmos além do senso comum, evitando o “efeito manada”, onde somos guiados pela percepção simplória, às vezes equivocada. O mesmo raciocínio vale para quando repetimos, acriticamente, o que os demais dizem ou pensam sobre assuntos gerais, ainda que sequer tenhamos refletido mais adequadamente sobre os temas específicos. Enfim, se logo cedo somos capazes de elucidar minimamente o enigma piso-tapete-corpo humano, somos estimulados a, seguindo a mesma estratégia, abordar qualquer outro assunto ao longo do restante do dia.

 

Biologicamente, nosso cérebro, ainda que composto de mais de uma centena de bilhões de neurônios e realizando mais de uma centena de trilhões de conexões sinápticas, não é capaz de processar todos os dados que nos chegam, via os diversos sensores.  Consequentemente, somos todos propensos a pegar atalhos, muitas vezes enganosos.

 

Há evidências de que a maioria tende a acreditar em pessoas que, segundo os critérios de quem analisa, estão bem vestidas ou com roupas similares de quem julga. Da mesma forma, há uma clara tendência de confirmação do que acreditamos à medida que convivemos, presencialmente ou virtualmente, com pessoas que pensam parecido. Ou seja, mesmo em temas polêmicos, priorizamos, ainda que inconscientemente, ouvir opiniões que confirmem nossas preconcepções e evitamos o convívio com aqueles que supomos, eventualmente, divergir.

 

Estarmos mais próximos daqueles com quem compartilhamos crenças ou opiniões parece natural e, para alguns mais ingênuos, até mesmo recomendável. No entanto, quando em dose exagerada ou excludente dos demais, podemos incorrer no risco de desprezar aqueles que, via suas sinceras críticas ou opiniões dissonantes, poderiam contribuir com as decisões que tomamos ou as convicções que formamos.

 

Entre as boas recomendações para lidarmos com elementos comportamentais de natureza tão complexa, incluem-se duas de primeira grandeza. Primeiro, acredite mais em seus próprios raciocínios, especialmente quando frutos da adoção de métodos científicos. Segundo, aprenda a ouvir a todos indistintamente, tanto aqueles que compartilham visões de mundo similares à suas como os demais que, por ventura, pensem de forma diametralmente oposta.

 

Educação tem tudo a ver com isso. Podemos, via a adoção de metodologias e abordagens, estimular tais atitudes ou, alternativamente, inibi-las. A partir do hábito de pensar cientificamente sobre as coisas do cotidiano e da prática de realizar balanços opinativos ancorados na diversidade, certamente construímos caminhos e pensamentos mais consistentes, sempre expostos às bem-vindas críticas. Assim, fruto dessas posturas, cultivamos o espírito crítico, libertário e solidário e a formação autônoma e independente de nossos próprios conceitos e opiniões.

 

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Imagem em Domínio Público, como visto em: 

https://pixabay.com/pt/foto-montagem-faces-%C3%A1lbum-de-fotos-1768409/

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domingo, 27 de agosto de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 11:33

Rede Brasileira de Criatividade: uma iniciativa estratégica

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Do ponto de vista econômico e social, o Brasil é um país que eventualmente avança e, em seguida, regride, sem dar mostras de um desenvolvimento duradouro e sustentável. Uma das explicações é que nossos profissionais e nossas indústrias apresentam produtividades médias relativamente baixas, o que é grave em um cenário de globalização crescente e de altíssima competitividade em termos de produtos e serviços.

 

Uma das causas da baixa produtividade é nossa escolaridade insuficiente.  No competitivo cenário internacional, são poucos os anos de estudo no Brasil e a qualidade do ensino é deficiente. Por outro lado, somos uma nação muito rica em recursos naturais e habitada por um povo que dá demonstrações incontestes de alta capacidade criativa e de fácil adaptação às inovações.  Sem estes ingredientes, sequer teríamos experimentado os avanços que efetivamente temos tido, não nutriríamos os níveis de esperança que ainda temos ou conviveríamos com as persistentes alegrias eventuais, as quais continuamos a desfrutar no dia a dia.

 

Considerando esses ingredientes, temos um expressivo potencial ainda pouco explorado no segmento econômico associado à indústria criativa. Este bilionário setor e que cresce ilimitadamente no planeta se caracteriza por entender a imaginação e a criatividade como as matérias primas principais para seus negócios. De acordo com a Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro), as indústrias criativas geram no Brasil uma riqueza de mais de R$ 150 bilhões (dados de 2015) e sua participação no PIB é crescente, representando hoje algo em torno de 3% da economia nacional. É uma clara demonstração de potencial, mas podemos ir muito além.

 

A economia criativa inclui áreas como moda, design, softwares, arquitetura, audiovisual, gastronomia, música, entre tantas outras, e contempla produtos e serviços vinculados à cultura e arte, à ciência e tecnologia. Isso engloba pesquisa e desenvolvimento e todos os demais setores nos quais a criação humana faz a diferença na geração do valor agregado.

 

As metodologias e abordagens educacionais podem, ou não, ter o estímulo à criatividade e ao empreendedorismo como centro. Da mesma forma que nos tornamos hábeis em inibir a criatividade e a desprezar iniciativas empreendedoras, podemos fazer o contrário. O cenário atual das tecnologias digitais representa uma oportunidade única para repensar nossos processos de aprendizagem. Dispomos atualmente de ferramentas educativas que propiciam que todos aprendam e aprendam o tempo todo, levando sempre em conta que cada educando aprende de maneira única e personalizada.

 

Dentre as inúmeras boas iniciativas em curso, merece especial destaque a recém-lançada “Rede Brasileira de Criatividade”. A Rede tem por propósito ampliar a rede de colaboração entre pessoas, transformando a criatividade em estratégia real, acessível e aplicada. Pretende-se colaborar para que todos possam encontrar soluções inovadoras nos seus cotidianos. O projeto, idealizado pelo educador Prof. Gabriel Rodrigues, está estruturado em três pilares: i) um Portal, “As Coisas Mais Criativas do Mundo”, ii) a estruturação de uma Academia de Criatividade, disponibilizando ferramentas para despertar nas pessoas o potencial criativo que todos temos, e iii) a promoção e o incentivo às pesquisas e publicações na área. O primeiro dos pilares já está ativo e operante, com surpreendente número de acessos, acessível via a página “As Coisas Mais Criativas do Mundo”.

 

No Portal da Rede estarão gratuitamente disponibilizados conteúdos, testes, desafios, ferramentas gerais e um banco de conhecimento com o intuito de incentivar o desenvolvimento da criatividade. A expectativa é contribuir para a geração de transformações que impactem em empregabilidade, estímulos à exploração de novos negócios, autonomia intelectual e realização pessoal. Pesquisadores das áreas criativas publicarão artigos e desenvolverão ações que estimulem e colaborem para que professores e agentes educacionais dos vários níveis de ensino incorporem as habilidades criativas como elementos centrais dos processos de aprendizagem.

 

Em suma, temos grandes desafios a enfrentar, especialmente no campo educacional, e dispomos de predicados positivos, entre eles potencial criativo e espírito empreendedor, que podem nos ajudar nessas missões. Precisamos cumprir as tarefas que restam ser realizadas ao mesmo tempo que exploramos aquilo que nos caracteriza e que pode, em tese, propiciar os elementos diferencias competitivos em escala global.

 

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Figura em Domínio Público. O influente pintor e teórico russo Wassily Kandinsky tem sua obra em domínio público desde 2015. Na foto, “Composição VII”, considerada pelo autor sua obra mais complexa. Ver em:

http://www.huffpostbrasil.com/2015/01/02/tudo-free-as-obras-que-viraram-dominio-publico-em-2015_a_21671065/

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quinta-feira, 17 de agosto de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 16:42

O conteúdo, um álibi perfeito

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Nas culturas primitivas, onde não havia ensinamentos formais ou escolas, todas as atividades poderiam ser vistas como processos de aprendizagem e de transmissão de cultura. À medida que as sociedades foram se tornando mais complexas, os conhecimentos a serem repassados de uma geração para outra se organizaram de forma sistemática em áreas do saber. Estas foram, progressivamente, ficando mais sofisticadas, exigindo da educação formal um nível diferenciado de institucionalização, envolvendo modelos de organização próprios com a presença de atores bem definidos.

 

As crianças e os jovens, como alunos, passaram, gradativamente, a ter acesso a uma educação que lhes permitia, via a escola e seus mestres, avançarem muito além da simples observação e da imitação genérica de adultos. No mundo ocidental, costuma-se adotar como paradigmas originais da instituição “escola” a Academia de Platão e o Liceu de Aristóteles, instituições inauguradas no século IV a.C. em Atenas na Grécia Antiga.

 

Ao longo dos tempos, a transmissão de conhecimento para públicos cada vez maiores, progressivamente, mostrou-se mais adequada ser desenvolvida sob a forma de áreas do saber. Assim, a preparação de alunos via abordagens cognitivas, baseadas em conteúdos, e as metodologias educacionais associadas desfrutaram de enorme sucesso, em especial pela capacidade do atendimento pleno da formação de profissionais para a Revolução Industrial, nos séculos XIX e XX. O essencial era o domínio de um determinado conteúdo, acoplado a um conjunto de técnicas e procedimentos razoavelmente bem definidos.

 

O mundo contemporâneo evidencia grandes contrastes com o passado recente, em especial pela onipresença das tecnologias digitais, as quais inundam todos os setores, mudando hábitos e comportamentos e contribuindo com a redefinição de culturas. Muito mais do que uma era de mudanças, vivenciamos uma mudança de era. Novos modelos de desenvolvimentos econômicos, sociais e ambientais estão sendo discutidos e implementados, demandando cidadãos com características bastante diversas do século anterior.

 

Dos profissionais do futuro, tanto quanto o domínio de conteúdos específicos, serão exigidos, cada vez mais, o destemor de enfrentar desafios inéditos, as habilidades socioemocionais acopladas, a competência para trabalhar em equipe e, principalmente, a capacidade de completar, com sucesso, missões complexas. Tudo isso à luz do acesso ilimitado, instantâneo e gratuito a todo o conhecimento disponível.

 

Do ponto de vista das metodologias educacionais, os maiores desafios contemporâneos estão associados à adequada incorporação das tecnologias digitais e a adoção de arquiteturas curriculares e percursos formativos que contemplem as habilidades com a mesma atenção que o conteúdo desfruta, garantindo uma educação compatível com a realidade atual na qual todos aprendem, aprendem o tempo todo e cada um à sua maneira.

 

Tais tarefas incluem o uso adequado de plataformas de aprendizagem e técnicas de analítica da aprendizagem, as quais, em conjunto com a edugenômica, permitem conhecer o educando de forma inédita. Assim, torna-se possível estabelecermos os marcos de uma educação flexível e personalizada, customizada à luz da realidade específica e apropriada para cada educando e seus propósitos.

 

Neste contexto, é preponderante o papel que a metacognição, que transcende a cognição, passa a ter. A ênfase na metacognição permite ir além do conteúdo e sua assimilação, evidenciando ser igualmente importante um conjunto de habilidades socioemocionais e a reflexão, por parte do estudante, sobre a sua própria aprendizagem.

 

As metodologias educacionais especialmente preocupadas com a metacognição não dispensam o conteúdo, nem o desprezam. Ele era, é e sempre será importante, sendo que quanto mais profundo melhor. Mas, por vezes, o conteúdo pode ser visto também como uma espécie de álibi perfeito. Ou seja, tão relevante quanto o que foi aprendido (o conteúdo) é garantir que o educando tenha ampliada sua consciência acerca de como ele aprende (a arte do aprender a aprender), preparando-o para uma educação permanente ao longo da vida.

 

 

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A figura é o do filme “Um álibi perfeito / Reasonable Doubt”, de Peter Howitt, Canadá-Alemanha, 2014. Ver mais em:

Um Álibi Perfeito / Reasonable Doubt

 

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