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Arquivo de junho, 2018

terça-feira, 26 de junho de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 14:52

Nômades digitais: desempregados, sem-teto e felizes

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A revolução decorrente da onipresença das tecnologias digitais está progressivamente alterando elementos essenciais do mundo do trabalho e modificando as formas como moramos e como convivemos. Expressões dessas mudanças são os novos espaços urbanos delas decorrentes. Entre eles, surgem, com grande destaque, as experiências de coworking e de coliving.

 

Coworking, de forma resumida, traduz um novo ambiente de trabalho, a partir do qual pequenas empresas e profissionais autônomos se relacionam com seus clientes, seus fornecedores e estabelecem laços entre si. São espaços democráticos compartilhados que permitem o desenvolvimento dos mais variados projetos sem as burocracias e as hierarquias dos escritórios convencionais e sem padecer do isolamento do chamado home office.

 

Oferecer uma adequada infraestrutura similar aos escritórios convencionais, incluindo todas as formas de atendimento e salas para receber clientes, é somente o ponto de partida de empreendimentos como esses. Acresçam-se a isso, ambientes inspiradores, especialmente pensados para o trabalho autônomo, a possibilidade de novos relacionamentos e a garantia de oportunidade de diversão a todos.

 

Os coworkings crescem a olhos vistos. No Brasil, já são centenas; no mundo, milhares. A título de exemplo, a empresa WeWork, fundada há somente oito anos, já é a segunda maior usuária de espaços de escritórios em Londres, perdendo apenas para o Governo Britânico. O sucesso dos coworkings não decorre somente de criatividade, mas, fundamentalmente, do fato que migramos de um modelo de desenvolvimento econômico, social e ambiental que demandava profissionais especialistas para um novo cenário onde o principal predicado é a flexibilidade. Ser flexível, em geral, passa por ter uma formação universitária que permita ao profissional encarar qualquer desafio sem o temor de decifrá-lo e cumpri-lo. Ter flexibilidade também é ter a disponibilidade de migrar de uma cidade para outra, bem como a habilidade de executar as tarefas em ambientes semelhantes aos que os espaços de coworking oferecem.

 

Por sua vez, os espaços coliving representam o estado da arte do hábito humano de viver em comunidade, desde as eras mais longínquas. A convivência em tribos e clãs foi sendo, progressivamente, adaptada à vida urbana e ao aumento da densidade demográfica. Atualmente, nesta etapa da história, há uma tendência em se questionar se ainda vale a pena manter uma moradia particular, com altos gastos e pouca socialização. Surge a alternativa de derrubar paredes, enfrentando a crise da falta de espaços físicos, e questionar os ideais de individualização e a falta de racionalidade dos modelos vigentes.

 

O conceito de coliving, que estimula a integração, a sustentabilidade e o espírito de colaboração, remonta ao início da década de 1970 com a experiência dinamarquesa do Cohousing Saettedammen. Tratava-se de uma comunidade com 35 famílias, na Dinamarca, onde as moradias permaneciam privadas e os demais espaços de convivência e atividades, como refeições e limpeza de ambientes eram compartilhados, com o objetivo de estimular o relacionamento entre vizinhos. Em 1988, o arquiteto norte-americano Charles Durrett adotou a mesma perspectiva sustentável em seus empreendimentos. Ainda que em outro contexto, o coliving apresenta algum nível de semelhança com as tradicionais repúblicas de estudantes, resguardadas suas diferenças de tempos e propósitos.

 

A combinação do coworking com o coliving estimula que trabalho, relacionamentos e entretenimento sejam frutos de compartilhamentos sem barreiras ou fronteiras estanques. Lar, escritório e clube num pacote único somado ao fato que podemos migrar a cada mês, semestre ou ano de um ambiente para outro a milhares de quilômetros sem burocracia ou perda de tempo com novos ajustes. Considerando que a tendência nas atividades profissionais inclui não somente a diversidade de ocupações, mas também a multiplicidade de oportunidades de moradias em cidades distintas, denominou-se esta geração movida a coworkings e colivings de “nômades digitais”.

 

É ainda um pouco cedo, talvez ingênuo, para termos uma opinião definitiva sobre os desdobramentos dessas novas maneiras de viver. Por enquanto, sabemos apenas que esses nômades digitais aparentam estar felizes. Quem viver verá.

 

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Foto: Empresa WeWork, citada no texto, em Ipanema, Rio de Janeiro-RJ, Brasil. Ver link:

https://www.wework.com/pt-BR/buildings/ipanema–rio-de-janeiro

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sexta-feira, 15 de junho de 2018 Ensino Superior | 06:20

Mulheres na Ciência: Tributo a Hildegard von Bingen

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Em julho próximo, ocorrerá a 70ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Maceió, Alagoas. No dia 26/07, quinta-feira, das 15h30 às 18h, participo na Mesa-Redonda “Mulheres na Ciência”. Sendo o único palestrante do sexo masculino, escolhi, naturalmente, homenagear uma mulher cientista. Deparei-me com textos impressionantes descrevendo uma pensadora singular, precursora em vários aspectos e por certo uma pioneira na ciência. Portanto, este Tributo a Hildegard von Bingen, considerada a monja beneditina que no século XII uniu o céu e a terra, é uma modesta forma de homenagear a todas as cientistas que romperam barreiras e preconceitos ao longo de todos os tempos.

 

Hildegard, nascida em 1098 na Alemanha, viveu até os 81 anos de idade. Em 1584, foi canonizada pelo papa Gregório XIII, em ato administrativo e sem processo formal, tendo o papa Bento XVI, em 2012, reafirmado oficialmente sua santidade, ao mesmo tempo em que a proclamou Doutora da Igreja.

 

Ela provinha de família nobre da região de Alzey, no sul da Alemanha. Desde criança a futura abadessa demonstrava habilidades visionárias. Seus pais a entregaram aos oito anos a um mosteiro de monges de Disivodemberg, o qual mantinha uma ala para mulheres dirigida por Jutta von Spannheim, que se tornaria sua segunda mãe e instrutora. Embora tenha começado a ter visões aos três, somente aos quarenta ela convenceu o papa a lhe permitir escrevê-las. Foi assim que começou a registrar tanto as visões, como livros de medicina, remédios naturais, cosmogonia e teologia.

 

Hildegard von Bingen escreveu e foi ativa em muitas áreas e, em especial, suas considerações sobre o orgasmo feminino foram absolutamente peculiares e inéditas.  Ela tratava do tema sexo sem receio, tendo sido pioneira na descrição do orgasmo do ponto de vista de uma mulher, descrevendo que o prazer era experimentado a dois e que a mulher também o sentia. Considerando tratar-se de uma monja no século XII, há que se considerar o impressionante nível de atrevimento para a época. O ato sexual, para ela, era visto como algo inocente, sublime e ardente. Quanto ao pecado original de Eva, o único culpado era Satanás, invejoso da capacidade da mulher de gerar vida.

 

Em particular sobre ciência, Hildberg, entre os anos de 1151-1158, escreveu uma grande obra de medicina, Liber subtilitatum diversarum naturarum creaturarum, um livro das sutilezas das várias naturezas da criação. Após sua morte, esta obra foi dividida em duas partes: I. Physica ou Liber simplicis medicanae, um tratado de medicina naturalista, em nove capítulos, e II. Causae et curae ou Liber compositae medicanae, acerca da medicina composta. Nos textos as causas das enfermidades, seus remédios e o funcionamento interno do corpo humano e sua relação com o cosmos são abordados dentro de uma visão terapêutica de totalidade holística entre os quatro elementos formadores do universo: terra, água, ar e fogo.

 

Hildegard foi sempre fiel à sua visão integrada e holística dos fenômenos, na qual o natural e o sobrenatural, bem como o corpo e a alma, refletiam relações harmônicas entre o homem e a natureza. Ela conseguia conjugar esses elementos com a concepção de que boa parte das doenças seria consequência do pecado original, da separação entre o criador e a criatura. Neste sentido, a doença deixa de ser um assunto exclusivamente de ordem física, abrangendo também o espiritual, conectando os males que atingiam a alma e aqueles que afligem o corpo humano.

 

Em suma, nada mais atual, interessante e ilustrativo do que os pensamentos de Hildegard von Bingen. Por ocasião do evento na SBPC, tratarei de outros temas complementares associados a esta precursora da ciência moderna, em especial de sua incrível produção enquanto compositora, cujas contribuições à música são igualmente surpreendentes.

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Figura acima em Domínio Público:

http://www.naturwaren-gut-saunstorf.de/Nach-Hildegard-von-Bingen;;;132.html

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domingo, 3 de junho de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 17:16

Educação: quando tudo ainda é pouco

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Educação tem uma propriedade quase única no rol de produtos ou serviços em geral. Alimentos, por exemplo, quando ingeridos em excesso podem fazer mal. Automóveis, a partir de uma certa concentração, geram engarrafamento e poluição. Dinheiro, em qualquer moeda, aumenta seu valor à medida que falte aos demais, atendendo ao pressuposto da valorização pela exclusividade ou baixa disponibilidade.

 

Educação segue a lógica contrária. Quando alguém é educado, individualmente a pessoa ganha, mas a comunidade à qual ela pertence é mais favorecida ainda. Ao sermos educados, um não tira do outro quando aprende ou ensina. Por outro lado, é certo que todos são prejudicados pela ausência de educação ou pelo ensino de má qualidade.

 

Além disso, não há nenhum antídoto melhor contra a violência do que pessoas educadas. Polidez gera gentileza, bem como agressividade promove brutalidade. Da mesma forma, a falta de emprego decorre, na maioria dos casos, da falta de escolaridade, evidenciada pelo fato de que o desemprego mais crônico está associado a lacunas nas competências e habilidades demandadas.

 

Mesmo sendo uma nação privilegiada em recursos naturais, o Brasil não consegue promover um desenvolvimento sustentável. Cresce, mas alterna ciclos de euforias com frustrações. Provavelmente, a mais relevante causa da não sustentabilidade do desenvolvimento é a baixa produtividade em geral. Há evidências de que o aumento da educação média da população traz reflexos imediatos para a qualidade de vida, gerando oportunidades de empregos e de negócios, e, consequentemente, maior competitividade global dos produtos e dos serviços de uma região.

 

Na área educacional, tudo que tem sido feito, na prática, é ainda muito pouco. Ressalte-se que tivemos avanços, ainda que insuficientes, tais como o aumento da percentagem do PIB na educação pública de 2,9% para 5,6% em uma geração, redução de 35% para 7% de crianças de 4 a 14 anos fora de escola e o analfabetismo adulto decresceu de 25% para 8% nesse período. No ensino superior, programas como PROUNI e FIES têm viabilizado que milhões tenham acesso às universidades. Mesmo assim, em que pesem esses resultados, educacionalmente, estamos muito aquém de outros países com os quais teria algum significado compararmos.

 

Há que, urgentemente, estabelecermos novas estratégias com focos mais claros, cujos impactos resultantes sejam, ao longo do tempo, mais efetivos. Uma proposta, de caráter complementar e não excludente de outras, seria estabelecer um ponto de corte etário, baseado em uma política pública de atenção diferenciada aos mais jovens, e que, progressivamente, atinja a todos os educandos em um futuro adiante.

 

O Art. 81 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei nº 9.394/1996) estimula a organização de cursos ou instituições de ensino experimentais. Dentro desse espírito, seria possível estabelecer um abrangente programa experimental, articulado entre todos os sistemas educacionais, via a adoção de práticas amparadas em flexibilidades e prerrogativas especiais. A título de exemplo, no primeiro ano de sua implantação, seria conferida atenção diferenciada somente à primeira série do ensino fundamental. Como orientação aos gestores escolares, os melhores professores e infraestruturas disponíveis seriam garantidos para esta série e recursos adicionais extraordinários seriam, especialmente, dirigidos a essas turmas.

 

Entre outras diversas ações, em função de uma convocação cívica nacional, atividades complementares no contraturno seriam desenvolvidas por profissionais voluntários com nível superior. Estes seriam selecionados e ficariam responsáveis por ações definidas pelas direções locais das escolas, em consonância com orientações gerais do programa. Ilustrando, um dentista voluntário poderia abordar, complementarmente, elementos de saúde e biologia, um engenheiro contribuições adicionais na matemática, artistas abordariam temas nas áreas de cultura e artes etc.

 

No ano seguinte, manter-se-ia o foco nas turmas inicialmente selecionadas, já agora na segunda série, e seriam incorporadas, com a mesma qualidade, as novas turmas do primeiro ano. Ao final de menos de uma década, teríamos formado uma nova geração educacional, agora frequentando o ensino médio, incluindo o profissionalizante. Ao se completar uma década e meia, estaríamos colhendo os devidos frutos no nível superior.

 

O único real privilégio destas novas gerações, diferenciadamente educadas, será carregar nos ombros o compromisso de colaborar para um desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável.

 

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Foto: Própria, vista da Universidade de Salamanca

 

 

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