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sábado, 21 de abril de 2018 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 11:28

Habilidades, Competências e Cafuringa

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cafu

 

Ter habilidade não é, em si, garantia de competência. Por outro lado, ser competente demanda ter domínio mínimo das habilidades associadas. Ainda que “habilidade” e “competência” sejam coisas distintas, a área de superposição entre as respectivas definições é enorme, ao ponto que nem sempre uma separação inequívoca é possível. Fruto de tal complexidade, inevitáveis confusões afloram, por vezes juntando, indevidamente, o que deveria ser distinto e, em outras, separando o que seria, talvez, indissociável.

 

Uma maneira tradicional e informal de classificá-las é assumir que habilidades compõem uma das três partes das competências. As outras duas seriam os conhecimentos e as atitudes. Neste sentido, habilidades são capacidades adquiridas para desempenhar determinado papel ou função específicos. Competências, de caráter mais amplo, demandam agregar a essas habilidades um conjunto de conhecimentos e de atitudes para que uma determinada missão seja realizada.

 

Em geral, não me agradam as metáforas futebolísticas, mas devo admitir que, às vezes, elas podem ser úteis para clarear conceitos. No caso, tomo a liberdade de recuperar a história de um jogador de futebol das décadas de 1960 e 1970, o famoso Cafuringa, ou simplesmente “Cafu”. Jogando pelo Fluminense, foi campeão brasileiro em 1970, tendo conquistado também os estaduais de 1969, 1971, 1973 e 1975. Tratava-se de excepcional ponta direita e apontado por todos como um dos maiores dribladores da história do futebol brasileiro. Parte fato e parte lenda, certo é que ele jamais transformou a inquestionável habilidade do drible em competência, no mesmo nível, quanto à estratégia do jogo, os gols.

 

Nos 336 jogos no Fluminense, Cafuringa só marcou 26 gols, resultando em uma média de um gol a cada treze jogos. Para um dos craques atacantes da equipe é considerado muito pouco. Sem prejuízo, espero, à merecida memória positiva de Cafu, certo que ele detinha excepcional habilidade para o drible em parâmetros muito superiores à sua competência enquanto artilheiro.

 

No campo da educação, uma boa ilustração é o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), o qual pretende avaliar competências e habilidades, como forma de mensurar o desempenho acadêmico dos alunos.  Para tanto, dispõe de uma Matriz de Referência, contendo os descritores das competências previstas e das respectivas habilidades a elas associadas. A cada competência é listado um conjunto de habilidades. No total, são explicitadas cerca de 24 competências e 120 habilidades, nas 4 grandes áreas que compõem o exame: linguagens e códigos; ciências humanas; ciências da natureza; e matemática.

 

A título de exemplo, na área específica de Ciências Humanas há estabelecidas para o ENEM 6 competências e 30 habilidades. As competências, que na analogia proposta seriam os gols, são listadas como: “compreender os elementos culturais que constituem as identidades”; “compreender as transformações dos espaços geográficos como produtos das relações socioeconômicas e culturais do poder”; “compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais”; “entender as transformações técnicas e tecnológicas e seu impacto nos processos de produção, no desenvolvimento do conhecimento e na vida social”; “utilizar os conhecimentos históricos para compreender e valorizar os fundamentos da cidadania e da democracia, favorecendo uma atuação consciente do indivíduo na sociedade”; e “compreender a sociedade e a natureza, reconhecendo suas interações no espaço em diferentes contextos históricos e geográficos”.

 

Vejamos agora exemplos das 30 habilidades associadas. Elas são os dribles na comparação adotada. São 5 habilidades para cada competência, sendo que aqui listamos somente uma delas para cada competência. Na ordem: “interpretar historicamente e/ou geograficamente fontes documentais acerca de aspectos da cultura”; “interpretar diferentes representações gráficas e cartográficas dos espaços geográficos”; “identificar registros de práticas de grupos sociais no tempo e no espaço”; “identificar registros sobre o papel das técnicas e tecnologias na organização do trabalho e/ou da vida social”; “identificar o papel dos meios de comunicação na construção da vida social”; e “identificar em fontes diversas o processo de ocupação dos meios físicos e as relações da vida humana com a paisagem”.

 

Cafuringa, já falecido e reconhecido em vida como “nosso Garrincha sem grife”, merece todo nosso respeito, incluindo por contribuir na tentativa de esclarecer matéria tão difícil. Futebolisticamente, em que pese excelente domínio na habilidade do drible, restam poucas dúvidas que lhe faltaram outros elementos que o permitissem ser lembrado, no mesmo nível, quanto à competência estratégica de marcar gols.

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Fonte da imagem: https://www.uol/esporte/especiais/a-historia-de-cafuringa.htm

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