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Arquivo de janeiro, 2018

terça-feira, 30 de janeiro de 2018 Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 18:18

A Kodak e a revanche na mesma moeda

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KodakFoto

 

É comum ouvir dizer que a tecnologia matou a empresa Kodak. Citam que, ao final do século XX, ela dispunha de quase 200 mil funcionários e detinha em torno de 85% da então próspera indústria de papel para fotografia. O surgimento da fotografia digital, de fato, levou a empresa às portas da falência. Menos de duas décadas depois, a quase falecida surge das cinzas, tal qual fênix, ancorada agora no que existe de mais atual em tecnologia contemporânea, o blockchain.

 

A plataforma de direitos de imagens KODAKOne, baseada na tecnologia blockchain, permite criar registros digitais encriptografados, viabilizando processos de licenciamento de imagens em um nível sem precedentes. Desta forma, fotógrafos, enquanto autores, passam a participar de forma diferenciada da nova economia criativa. Pagamentos por licenciamentos, como reconhecimento por seus trabalhos, podem ser implementados de forma inédita, confiável e segura. Quando uma imagem não licenciada é detectada, o que é razoavelmente simples, a plataforma KODAKOne, de forma eficiente, cuida dos processos associados, garantindo recompensar adequadamente os legítimos autores.

 

Parte deste ousado projeto inclui a criação da própria criptomoeda, o KodakCoin. Assim, os fotógrafos, ao registrarem suas imagens e licenciá-las, poderão ser devidamente recompensados em KodakCoins. Fato é que, mesmo antes de sua aplicação em escala significativa, as ações da Kodak duplicaram em valor após o anúncio desta iniciativa.

 

Nas palavras de Jeff Clarke, presidente da Kodak: “Para muitos na indústria de tecnologia, blockchain e criptomoedas são expressões promissoras, ainda que distantes. Mas, para os fotógrafos que há muito se esforçaram para afirmar o controle de seu trabalho e como ele é usado, essas palavras-chave são o caminho para resolver o que parecia ser até então um problema sem solução. A Kodak sempre procurou democratizar a fotografia e tornar os licenciamentos justos para os artistas. Essas tecnologias darão à comunidade da fotografia uma maneira inovadora e fácil de resolver este problema”.

 

Este é mais um exemplo de que enfrentar os problemas decorrentes do uso intensivo de tecnologias inovadoras implica, na maior parte das vezes, em utilizar as próprias como parte da solução. No mundo educacional é o mesmo. Os educandos são em número sem precedentes e a tentativa de conhecê-los individualmente pode parecer uma ilusão. No entanto, as tecnologias digitais permitem dizer exatamente o contrário: “quanto maior o número de envolvidos, melhor para identificá-los individualmente”. Ferramentas como Learning Analytics (Analítica da Aprendizagem, em português) e Edugenômica são exemplos de como criar trilhas educacionais personalizadas com qualidade, precisão e racionalidade.

 

Estamos nos inserindo em uma sociedade onde a informação estará totalmente acessível, instantaneamente disponibilizada e basicamente gratuita. As transformações que vivenciamos são preliminares de algo muito mais radical e cada vez mais surpreendente. O que sabemos é que se trata de caminho sem retorno, onde a cada nova etapa novos horizontes se descortinam. Como nos mostrou a Kodak, é do próprio veneno que se produz o antídoto, o qual revigora e dá vida aos que aparentemente foram dele vítimas circunstanciais.

 

 

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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018 EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 09:00

Educação digital em 2018: do linear para o exponencial

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Comportamentos de variáveis ao longo do tempo podem ser descritos por modelos matemáticos.  Dois dos modelos mais utilizados são: o modelo linear, representado por funções do tipo y = ax + b, e o modelo exponencial, no qual se empregam funções do tipo y =  beax.

 

No início, podem ocorrer períodos em que os dois comportamentos se confundem e um desafio é tentar identificar quando eles se separam. Um exemplo atual interessante é o número de matrículas na modalidade Educação a Distância (EaD) no ensino superior brasileiro. Os dados mais recentes, ainda não oficiais, indicam que, provavelmente, neste ano o crescimento exponencial seja evidenciado.

 

O número de matrículas EaD vem crescendo de forma contínua e sustentável por mais de uma década, tendo atingido quase 1,5 milhão em 2016 (dados disponíveis do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira/ INEP/MEC), o que já representa uma participação de quase 20% do total de matrículas da educação superior. Interessante observar também que o número de matrículas em cursos de graduação presencial diminuiu nos últimos anos (decréscimo de 1,2% entre 2015 e 2016, enquanto na EaD o aumento de matrículas foi de 7,2%). Tais tendências, provavelmente, têm sido acentuadas mais recentemente.

 

Se neste ano o crescimento da EaD evidenciar ser mais bem descrito pela forma exponencial e se considerarmos que no ensino presencial a adoção da EaD no limite superior de 20% está, praticamente, universalizada, poderemos afirmar que, antes do final desta década, mais da metade das atividades didáticas serão ministradas via EaD.

 

Em 2017, foi inaugurado um novo marco regulatório para o ensino superior brasileiro, o qual tende a induzir mudanças mais profundas e abrangentes ao longo da próxima década. Destaque-se que a separação abrupta entre as duas modalidades, presencial e a distância, conforme previsto em lei, é algo peculiar do Brasil. No restante do mundo, a grande tendência é o modelo híbrido, o qual visa a combinar, com bastante liberdade e customizado caso a caso, as melhores ferramentas advindas tanto das experiências presenciais como não-presenciais. O que torna ainda mais complexo este processo é que, à luz de uma nova realidade baseada em educação híbrida, flexível e aberta, o próprio conceito atual de presencialidade, em poucos anos, se perderá por completo, quando sequer saberemos distinguir a presença da criptopresença.

 

Não completamos ainda sequer metade do caminho previsto no Plano Nacional de Educação (PNE) da década passada “garantir acesso ao ensino superior a 30% dos jovens entre 18 a 24 anos” –, tampouco o previsto nesta década “1/3 desses jovens na educação superior”. Portanto, a utilização das novas tecnologias e a adoção de metodologias educacionais inovadoras são certamente imprescindíveis e estratégicas para oportunizar que interessados de todas as classes sociais possam ter acesso à educação superior.  Além disso, como apontado pelo INEP, progressivamente, mais de 40% dos ingressantes no ensino superior estão em faixas etárias mais maduras (acima de 24 anos). Esta população demanda abordagens educacionais próprias capazes de permitir que, mesmo tardiamente, possa qualificar-se profissionalmente.

 

Distintamente da educação presencial, na educação digital a escala não compromete a qualidade, muito pelo contrário. Todos os especialistas internacionais têm segurança em afirmar que a racionalidade e a economicidade envolvidas na utilização das tecnologias digitais na educação permitem baixar custos e aumentar qualidade simultaneamente. Os estímulos para o acesso pleno ao conteúdo antes das aulas e a intensa utilização de portais eletrônicos e de plataformas educacionais, especificamente desenhadas para cada contexto, são possibilidades inovadoras e disponíveis. A ênfase na aprendizagem independente, centrada no aprender a aprender ao longo de toda vida, e o ensino baseado em metodologias ativas e em solução de problemas são novidades já incorporadas, ainda que preliminarmente. Enfim, metodologias que levem em conta as características personalizadas de cada educando, suas demandas específicas e os ambientes peculiares do mundo do trabalho contemporâneo são exemplos de iniciativas positivas em curso.

 

A título de reforço da abrangência do fenômeno acima, qualquer outra área de atividade humana pode ser considerada para estabelecermos possíveis analogias. Isso só é possível porque o motor comum dessas transformações é a presença das tecnologias digitais. Ou seja, a velocidade e o nível de radicalidade das mudanças estão associados à migração, ainda em curso, em direção a uma sociedade em que a informação se torna totalmente acessível, instantânea e basicamente gratuita.

 

Portanto, unicamente como referência do avanço do digital sobre o analógico, adota-se aqui um caso ilustrativo, a capitalização de mercado, a qual se refere a uma das medidas do tamanho de uma empresa. Trata-se do valor de mercado total das ações em circulação de uma empresa, também conhecido como limite de mercado.

 

Durante o século passado, as maiores empresas do mercado acionário estiveram associadas ao mundo analógico, seja à energia (basicamente petróleo), à indústria automobilística e ao setor bancário. Na virada do século, há apenas 17 anos, entre as cinco maiores aparecia, de forma inédita, uma empresa do mundo literalmente digital, a Microsoft.  Neste caso, dividindo a dianteira com duas de energia (Exxon e GE), um Banco (Citi) e uma empresa de varejo (Walmart).

 

O quadro atual, conforme descrito no Relatório 2017 da respeitável PricewaterhouseCoopers, lembra pouco aquele anterior. A empresa que atualmente é, pelo sexto ano seguido, a número 1 do ranking (Apple) sequer constava entre as cinco maiores no começo deste século. Além disso, a única que ainda sobrevive nesse restrito clube é a Microsoft. Desnecessário chamar a atenção para o fato de que atualmente todas, sem exceção, estão diretamente associadas ao mundo das tecnologias digitais. Por outro lado, empresas como a GE já não constam entre as 100 maiores.

 

Atualmente, empresas baseadas em tecnologias digitais predominam entre as maiores, acompanhadas, com certa distância, por aquelas do setor financeiro e, na sequência, companhias do setor de varejos. Os Estados Unidos, ao contrário do que possa parecer aos incautos, têm aumentado sua participação (hoje em 55%) entre as 100 maiores e é a sede das 10 principais empresas. É cada vez mais notável a presença crescente de empresas chinesas, como era de se esperar, e a Europa, que detinha 36% do mercado há 10 anos, agora detém somente 17%. A título de comparação, o Brasil em 2009 tinha 3 companhias listadas entre as 100 maiores, hoje resta somente uma.

 

As transformações na economia impactam, bem como são afetadas, pelos cenários educacionais vigentes. As tecnologias digitais invadem as escolas e impregnam o seu entorno, em especial no que diz respeito aos cidadãos e profissionais que nelas se formam. Elas transcendem os espaços de aprendizagem e também ocupam e definem as oportunidades de novos empregos e de negócios inovadores.

 

Assim as consequências educacionais são complexas, múltiplas e ilimitadas. Uma delas, a mais simples e direta, é que os modelos educacionais e as estratégias de ensino e aprendizagem fortemente influenciados pelos referenciais Fordistas/Tayloristas, dominantes no século XX, já não são mais suficientes. Ou seja, a escola tradicional, que desempenhou, com competência e pertinência, papel central em tempos recentes, está distante de atender plenamente às demandas do mundo contemporâneo.

 

Se no século passado a capacidade de memorizar conteúdo e a aprendizagem de técnicas e procedimentos eram o centro, atualmente o amadurecimento dos níveis de consciência do educando acerca de como ele aprende torna-se gradativamente mais relevante. Em termos mais simples, aprender a aprender passa a ser tão ou mais importante do que aquilo que foi aprendido.

 

Pessoas educadas são essenciais para a melhoria da qualidade de vida e para o aumento da competitividade e produtividade de um país. A formação de cidadãos aptos a desempenharem tarefas complexas é missão urgente e imprescindível. Explorar esta nova realidade, onde todos aprendem, aprendem o tempo todo e cada um aprende de forma personalizada, é, portanto, o maior de todos os desafios do mundo da educação.

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Figura: conforme linkado em “modelos matemáticos”.

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segunda-feira, 8 de janeiro de 2018 Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 09:42

2018: um ano e duas hipóteses

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Certas efemérides ganham algum sentido quando estimulam reflexões, conectando o passado recente com o futuro próximo, à luz do que enxergamos no presente. Garantia de acerto ninguém pode dar quando fazemos prognósticos, mas estes melhoram muito quando as percepções são mais acuradas. Ainda que as hipóteses sejam múltiplas, tão variadas como aqueles que as formulam, é tentador pensar em bifurcações simplificadoras. Portanto, o número dois aqui é representativo dos ramos principais e alguns elementos essenciais, sem pretender ser completo ou contemplar os infinitos galhos e variantes deles decorrentes.

 

Do ponto de vista da economia, temos especiais oportunidades para aumentar de forma significativa nosso padrão de produtividade, caminhando em direção a um desenvolvimento econômico que seja sustentável do ponto de vista social e ambiental. Vivemos um acelerado processo de globalização, onde as transações internacionais são, em parte, resultantes do parâmetro produtividade média dos trabalhadores de cada país. Indicadores de produtividade mantêm estreitos vínculos com a capacidade de inovação e a qualidade da educação da população, entre outras variáveis. O Brasil no comércio global responde por somente insuficientes 1,2% das transações, ou seja, menos da metade de nossa participação percentual de população no planeta, evidenciando nossas fragilidades competitivas ao lado do efetivo potencial de crescimento. No ano passado, houve alta de 18% nas exportações, indicando que podemos escalar posições no ranking global, especialmente se ampliarmos acordos com espaços como União Europeia e Índia.

 

Aumentar produtividade é, principalmente, melhorar o nível educacional. Os resultados do PISA (Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes), promovido pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), envolvendo jovens de 15 anos de mais de mais de 70 países, demonstram de forma inequívoca nosso passivo extremado. Classificado em 6 níveis, o nível 4 em matemática é o mínimo indicado para as carreiras tecnológicas, fortemente associadas à capacidade de inovar. No Brasil, somente 4% atingem o nível quatro, em comparação com 38% na Austrália, 43% no Canadá e 52% na Coréia.

 

Do ponto de vista social, temos elementos mais do que suficientes para nos convencermos de que o abismo social entre os mais ricos e os mais pobres inviabiliza o desenvolvimento sustentável. Temos, ao longo do tempo, obtido alguns sucessos em aumentar a escolaridade média, na erradicação da miséria e na redução dos índices de mortalidade infantil. Por outro lado, falhamos, e muito, em diminuir a violência, parte dela resultante das citadas disparidades sociais, e, principalmente, em ampliar a qualidade do ensino, com destaque negativo para o ensino médio. As discussões e as aprovações em curso da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) representam passos positivos em direção a, pelo menos, sairmos da simples constatação do desastre. Mesmo assim são, claramente, medidas insuficientes para encaminharmos o complexo tema da qualidade da educação.

 

Quanto à política, teremos as eleições nacionais. A questão passa a ser menos quem as vencerá e mais quão legitimados estarão o novo presidente e seus parlamentares parceiros para implementar aquilo que prometeram na campanha. A melhor perspectiva é um debate equilibrado e racional e, fruto deste, as consequentes escolhas conscientes pela maioria. Entre os temas principais, o papel e do tamanho do Estado. Seja um Estado eficiente e menos intervencionista ou, alternativamente, um Estado amplo, promotor central do desenvolvimento, ainda que em regimes de parcerias com os diversos atores da sociedade. A pior perspectiva seria um debate extremado e irracional, em que, por certo, eventuais vencedores terão opositores ferozes e enormes dificuldades em implementar as propostas que apresentaram nas eleições. As discussões terão sido suficientes unicamente para estimular a militância radicalizada e para convencer uma maioria eleitoral frágil. Porém, incapazes de agregar, pós-período eleitoral, uma predominância legitimada e substantiva que consiga levar adiante os temas mais relevantes para o país.

 

Longe de ter o peso dos temas acima, mas é também ano de Copa da Mundo. De um lado podemos ser surpreendidos por Suíça, Costa Rica e Sérvia, ficando a exemplo de 1966, fora das oitavas. Por outro, podemos, como temos o legítimo direito de esperar, uma belíssima final com Alemanha, na qual possamos nos redimir de vez de um passado nem tão distante. Assim como nos assuntos anteriores, não precisamos revidar os 7 a 1 de imediato, mas necessitamos urgentemente sentir que, ao menos, estamos na direção correta, tanto no tempo como no espaço.

 

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Imagem em Domínio Público: exquisite-pictures-of-paths-exquisite-fork-in-the-road-2-paths-hr-ringleader.jpg

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