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Arquivo de setembro, 2017

sábado, 23 de setembro de 2017 Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 10:58

Blockchain, o cartório do mundo

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blockchain-consensus

 

Blockchain é basicamente uma tecnologia de registro de transações digitais que faz uso dos nós de uma rede estrutura, via internet, espalhada pelo planeta. A ideia original foi apresentada em 2008 em artigo assinado por Satoshi Nakamoto, cuja real identidade é ainda controversa.

 

A rede pode ser criada com número ilimitado de participantes anônimos e com absoluta garantia de fidelidade, eficiência e transparência, elementos fundamentais para registros ou transferências de dados de qualquer natureza. Em suma, tudo o que pode ser transacionado ou certificado pode fazer uso de blockchain, sem exceção, desde certificações de contratos e de ativos a diplomas, passando por moedas virtuais.

 

O repertório das aplicações desta revolucionária tecnologia está ainda em sua primeira infância. Recentemente, tratei de exemplos potenciais em regulação no ensino superior brasileiro e novas iniciativas têm surgidos nesta área, entre elas da Sony Global Education.

 

Da mesma forma que o Uber desafiou os taxis e o AirbnB enfrentou os hotéis, blockchain tem o potencial de alterar as bases da economia global, modificando a governança de todos os registros, se constituindo em uma espécie de cartório do mundo. Esta tecnologia pode abalar os modelos de negócios no que diz respeito à desintermediação, desburocratização, diminuição de custos de processos e fidelidade, resultando em aumentos inéditos de fatores de produtividade e de eficiência institucional, em todos os setores.

 

A emergência de criptomoedas só foi viável por ser baseada em blockchain. Bitcoin é até aqui a moeda virtual mais conhecida e bem-sucedida, no entanto, outras já surgiram e muitas ainda estão por vir, cada uma com suas características atendendo a necessidades específicas e contextos peculiares. Um Bitcoin vale hoje aproximadamente R$ 11.560,00 ou US$ 3.700,00, tendo tido uma valorização superior a qualquer outro ativo nos últimos anos.

 

Cada fração de Bitcoin é programável como sendo equivalente a parte de uma propriedade ou correspondente a certa quantidade de algum ativo, sendo que o emissor pode definir, a seu critério, especificações de uso. Por exemplo, uma empresa pode realizar emissões especiais de Bitcoins que devam ser despendidos exclusivamente com salários, manutenção, consumo ou despesas na área de saúde. Caso as exigências não sejam confirmadas pela rede, dentro das especificidades originalmente previstas, os valores retornam ao emissor, dispensando centros de controle ou burocracias associadas e evitando práticas como corrupção e demais usos indevidos.

 

No mundo da internet das coisas, um produto (ou mesmo um serviço) só é vendido (ou prestado) se a parte requerente disponibilizou o pagamento, sendo que a parte vendedora (ou prestadora) só recebe uma vez conferido, de comum acordo nas duas pontas, o pleno atendimento das condições estabelecidas no contrato registrado, dispensando intermediários, bancos ou autoridades centrais.

 

Blockchain fornece a base matemática sofisticada, com algoritmos no estado da arte, para consolidar um banco de registros gerais espalhados por toda a internet, sem a necessidade de um controlador central, ao mesmo tempo que todos os usuários exercem este controle, na forma de nós da rede compartilhada, naquilo que lhe diz respeito. Os nós autorizados da rede devem concordar consensualmente para que novos registros sejam aceitos e, uma vez aceitos, ficam perenemente memorizados com todos os detalhes e com as respectivas responsabilidades asseguradas. Tentativas de fraudar o sistema podem ser rejeitadas por qualquer um desses nós, garantindo fidelidade absoluta aos arquivos registrados na forma de cadeias acumuladas, via blocos empilhados cronologicamente.

 

Por fim, os dados são confiáveis, completos, consistentes, datados e tornados amplamente disponíveis, fazendo com que este cartório, que estamos ainda aprendendo a conhecer e a utilizar, elimine a figura do intermediário, baixe custos e estabeleça níveis elevados e inéditos de confiança entre pessoas e instituições.

 

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Imagem disponibilizada em: http://www.deal.com.br/wp-content/uploads/2017/06/blockchain-consensus.jpg

 

 

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domingo, 17 de setembro de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 13:56

O que esperam os empregadores?

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empregadores

 

O mundo está mudando e os empregadores já não são os mesmos. Há uma grande tendência de que, progressivamente, o espaço de empregos tradicionais dê lugar ao surgimento de novas oportunidades profissionais, ancoradas em atividades e negócios inéditos. Neste cenário emergente, a figura do empregador clássico pode se alterar radicalmente ou, no limite, até desaparecer.

 

Mesmo assim, ao longo desta transição, os empregadores ainda são as pessoas responsáveis por dirigir empreendimentos, privados ou públicos, que continuarão decidindo sobre o futuro de parte dos profissionais desta geração. Portanto, bom sabermos mais sobre eles, o que pretendem quando contratam alguém e o que esperam dos profissionais contratados.

 

No passado recente, as expectativas dos empregadores acerca de um profissional a ser contratado eram menos complexas e mais previsíveis do que hoje. Atualmente, as próprias tarefas e missões estão se tornando quase impossíveis de serem antecipadas. Educar era mais simples, porém, as receitas anteriores não funcionam mais. Havia para cada uma das profissões uma relativa certeza acerca do conteúdo mínimo, bem como do conjunto associado de técnicas e procedimentos, que o formando deveria dominar.

 

Educar, contemporaneamente, continua a contemplar a formação profunda em um campo profissional específico, mas transcende em muito tal exigência, incluindo também desenvolver novas competências e habilidades socioemocionais que costumavam ser menos valorizadas.  São exemplos desses ingredientes o destemor por novos desafios, o estímulo à criatividade, a propensão à inovação e o desenvolvimento do espírito empreendedor, além de saber trabalhar em grupo, explorando empatia e compaixão

 

Permanecem existindo conteúdos imprescindíveis a qualquer profissional e que serão as bases iniciais de sua capacidade de resolver problemas. Entre eles, o letramento sofisticado, que permita entender e escrever textos complexos, o domínio consistente das operações matemáticas, associado à capacidade de desenvolver raciocínios abstratos, o hábito da adoção do método, em especial o uso da metodologia científica e sua aplicação a pensamentos complexos e a percepção adequada dos contextos geográfico e histórico, além do indispensável apreço pelas artes, pela cultura e pela ciência.

 

Ensinar nos padrões tradicionais nos tempos passados recentes teve enorme sucesso porque se mostrou compatível e coerente com as demandas inerentes aos modelos de desenvolvimento adotados até então. A complexidade atual exige ir muito além, introduzindo novidades, a maior parte delas decorrentes da emergência disruptiva das tecnologias digitais. Agir educacionalmente neste novo cenário demanda repensar a ciência da aprendizagem e propor e implementar modelos pedagógicos bastante distintos daqueles que, em geral, temos adotado. A memória se desvaloriza e a excessiva centralidade no conteúdo se fragiliza à medida que, gradativamente, o acesso à informação se faz ilimitado, instantâneo e gratuito.

 

A escola e seu principais atores foram até aqui menos afetados pelas tecnologias digitais do que o mundo externo a eles. Assim, em geral, os gestores educacionais e os professores, estranhamente, se mostram mais satisfeitos com o trabalho educacional que desenvolvem do que, de fato, se sentem os formandos e, especialmente, aqueles que os empregam. Este fenômeno por si evidencia um provável diálogo interrompido, até mesmo um divórcio, entre as realidades imaginadas nas escolas e aquelas vivenciadas pelos egressos em suas vidas profissionais.

 

As soluções educacionais em curso ainda são embrionárias, porém, algumas evidências sobressaem. O educando, mais do que nunca, é o centro e a aprendizagem, cada vez mais, personalizada. Todos aprendem o tempo todo e em qualquer lugar, sendo que cada um aprende à sua própria maneira. O domínio do conteúdo em si, ainda que relevante, torna-se relativamente menos importante do que ter aprendido a aprender. Assim, uma das mais refinadas artes educacionais é propiciar que cada educando aprofunde continuamente seu nível de consciência acerca de como ele aprende.

 

E como ficam os empregadores neste contexto? Tanto quanto os empregados, serão exigidos a rever conceitos, adotar novas estratégias e, por vezes, mudar radicalmente a essência de seus negócios.

 

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Figura em Domínio Público, tal como vista em: http://freesoftwaremagazine.com/articles/promoting_public_domain_creative_commons_cc0_initiative/c20080220_LOCPD_ww2_woman_operating_engine_lathe.jpg

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sábado, 2 de setembro de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 17:17

Educar é emancipar contra o “efeito manada”

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manada

 

Tenho procurado começar as aulas e palestras com exemplos simples da vida cotidiana. Um deles diz respeito à nossa provável primeira experiência logo após acordar. Ao nos depararmos no banheiro com um piso cerâmico e um tapetinho para os pés, evitamos o “frio” do piso cerâmico e sentimos conforto no abrigo “quente” do tapete. Este é o senso comum. Ocorre que, contrariamente à nossa percepção, tanto o piso como o tapete estão exatamente à mesma temperatura. Se alguém está em temperatura diversa deles é nosso corpo (em torno de 36o C).

 

Por que então a sensação térmica tão diversa? Há uma explicação, racional e simples. Os átomos e as moléculas que compõem os entes citados estão em constante agitação térmica e quanto maior forem os movimentos dessas partículas maior será a temperatura dos objetos. Processos de transferência de calor ocorrem entre corpos a diferentes temperaturas.  Quando em equilíbrio térmico, não há este processo. Piso ou tapete, ao entrarem em contato com o corpo mais quente, ambos dele recebem energia térmica, enquanto o corpo humano se esfria. As velocidades com que os processos de transferência de calor ocorrem nos dois casos são diferentes.  O piso cerâmico conduz energia rapidamente, resultando a sensação de frio. No caso do tapete, a perda de energia é relativamente lenta, promovendo a sensação de conforto.

 

Mesmo com conhecimento superficial dos conceitos envolvidos, a reflexão metódica e científica contribui para irmos além do senso comum, evitando o “efeito manada”, onde somos guiados pela percepção simplória, às vezes equivocada. O mesmo raciocínio vale para quando repetimos, acriticamente, o que os demais dizem ou pensam sobre assuntos gerais, ainda que sequer tenhamos refletido mais adequadamente sobre os temas específicos. Enfim, se logo cedo somos capazes de elucidar minimamente o enigma piso-tapete-corpo humano, somos estimulados a, seguindo a mesma estratégia, abordar qualquer outro assunto ao longo do restante do dia.

 

Biologicamente, nosso cérebro, ainda que composto de mais de uma centena de bilhões de neurônios e realizando mais de uma centena de trilhões de conexões sinápticas, não é capaz de processar todos os dados que nos chegam, via os diversos sensores.  Consequentemente, somos todos propensos a pegar atalhos, muitas vezes enganosos.

 

Há evidências de que a maioria tende a acreditar em pessoas que, segundo os critérios de quem analisa, estão bem vestidas ou com roupas similares de quem julga. Da mesma forma, há uma clara tendência de confirmação do que acreditamos à medida que convivemos, presencialmente ou virtualmente, com pessoas que pensam parecido. Ou seja, mesmo em temas polêmicos, priorizamos, ainda que inconscientemente, ouvir opiniões que confirmem nossas preconcepções e evitamos o convívio com aqueles que supomos, eventualmente, divergir.

 

Estarmos mais próximos daqueles com quem compartilhamos crenças ou opiniões parece natural e, para alguns mais ingênuos, até mesmo recomendável. No entanto, quando em dose exagerada ou excludente dos demais, podemos incorrer no risco de desprezar aqueles que, via suas sinceras críticas ou opiniões dissonantes, poderiam contribuir com as decisões que tomamos ou as convicções que formamos.

 

Entre as boas recomendações para lidarmos com elementos comportamentais de natureza tão complexa, incluem-se duas de primeira grandeza. Primeiro, acredite mais em seus próprios raciocínios, especialmente quando frutos da adoção de métodos científicos. Segundo, aprenda a ouvir a todos indistintamente, tanto aqueles que compartilham visões de mundo similares à suas como os demais que, por ventura, pensem de forma diametralmente oposta.

 

Educação tem tudo a ver com isso. Podemos, via a adoção de metodologias e abordagens, estimular tais atitudes ou, alternativamente, inibi-las. A partir do hábito de pensar cientificamente sobre as coisas do cotidiano e da prática de realizar balanços opinativos ancorados na diversidade, certamente construímos caminhos e pensamentos mais consistentes, sempre expostos às bem-vindas críticas. Assim, fruto dessas posturas, cultivamos o espírito crítico, libertário e solidário e a formação autônoma e independente de nossos próprios conceitos e opiniões.

 

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Imagem em Domínio Público, como visto em: 

https://pixabay.com/pt/foto-montagem-faces-%C3%A1lbum-de-fotos-1768409/

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