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segunda-feira, 17 de julho de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 19:17

Educação superior para o mundo contemporâneo: o macro, o meso e o específico

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Nesta semana (dia 18/7), por ocasião da Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, na Mesa-redonda coordenada pela Presidente da SBPC, Helena Nader, serei um dos palestrantes. Segue abaixo um breve resumo da palestra a ser proferida às 15h no Auditório da UFMG.

 

O tema “Educação Superior” é certamente complexo e de tal natureza abrangente que seria ingenuidade imaginarmos sermos capazes de abordar todos os aspectos relevantes e, claramente, impossível cobri-los satisfatoriamente. Assim, opções de abordagens são inevitáveis e seguramente limitadoras, incluindo simplificações não desejáveis, mas inexoráveis.

 

Prefiro, pela exiguidade de tempo e espaço, simplificar a questão abordando-a sob três diferentes perspectivas, distintas entre si, ainda que complementares: a de macro escala, de mesoescala (intermediária) e de escala específica. Este tema não sugere neste momento as análises micro ou nano. Não porque não existam essas escalas, mas sim porque menos relevante à luz do propósito específico desta Mesa.

 

Aspecto macro

 

Do ponto de vista macro, educação superior trata de tema cujas abordagens ou soluções se entrelaçam globalmente, ainda que preservem características e peculiaridades regionais e locais. Um desafio geral, enfrentado por todos os países atualmente, é o papel da escola, incluindo neste tópico as missões das instituições de ensino superior.

 

A escola, pelo menos na vertente ocidental da história humana, nasce em Atenas, na Grécia Antiga, em torno de 400 a.C., em substituição aos sofistas, algo como professores particulares autônomos responsáveis pela formação da nova elite dirigente. Paradigmaticamente, o modelo de escola em vigor até hoje se assenta na Academia de Platão, sendo o Liceu da Aristóteles, na sequência, o cristalizador das práticas, das abordagens e das metodologias decorrentes.

 

A escola que nasce em Atenas se desenvolveu ao longo de séculos e milênios guardando a mesma essência de sua criação, porém, inicialmente de impacto limitado pelo baixo número de pessoas letradas e pela dificuldade de acesso aos textos (raros pergaminhos). Uma novidade positiva e transformadora somente ocorreria no século XV, quase dois milênios depois de Atenas, com a introdução do livro moderno, com Gutenberg. O reforço da acessibilidade ao conhecimento, fruto da abundância de textos escritos (Bíblia, Aristóteles, Platão e todos os demais pensadores anteriores) e do crescimento do número de letrados, deu o impulso que as nascentes universidades europeias precisavam para se cristalizarem como centros de divulgação e de produção do conhecimento. Isso incluía o conhecimento baseado no método científico, amadurecido pelas contribuições de Galileu e de Newton, nos séculos XVII e XVIII.

 

Os avanços decorrentes do método científico fizeram brotar tecnologias como a máquina a vapor, a qual, em conjunto com as leis de mecânica, da termodinâmica e do eletromagnetismo, entre outros avanços, alavancaram a Revolução Industrial que mudou a face do planeta, com a profundas marcas que permanecem até os dias atuais.

 

O ápice da dinâmica acima referida ocorreu ao longo dos séculos XIX e XX, especialmente este último, quando ficou evidente a demanda pela formação em grande escala de profissionais que fossem compatíveis com as demandas típicas dos modelos de desenvolvimento fordistas e tayloristas adotados. A escola do século XX, fruto de suas metodologias e concepções, se mostrou plena e totalmente capaz de dar conta dessa demanda. Nenhuma outra instituição foi tão bem-sucedida em suas missões como foi a escola no século passado, fazendo dela um ente quase sacro. Da mesma forma, o professor tornou-se alguém relevante e respeitado, ainda que com salários nem sempre satisfatórios.

 

A história tem seus percalços, inclusive para a escola. Similarmente às quebras de paradigmas promovidas pelo surgimento da escola em Atenas ou da invenção do livro moderno no Renascimento europeu, o século XXI trouxe junto o advento das tecnologias digitais maduras, as quais reconfiguram os hábitos, os costumes e a forma como vivemos e nos relacionamos, incluindo as maneiras diversas com que aprendemos e ensinamos. Ou seja, as concepções, as metodologias e as abordagens educacionais (observar que eram e são múltiplas) não deram conta ainda da radicalidade das mudanças, processo este ainda inconcluso e em pleno curso.

 

De forma extremamente reduzida e simplificada, o tratamento por média, adotado pelas escolas nos séculos anteriores, fizeram delas entes apropriados para atender as demandas e escalas de então. Os eventuais desvios e prejuízos decorrentes das metodologias eram minimizados pelo franco sucesso advindo do pleno cumprimento da missão proposta. A maioria dos educandos aprendia o suficiente em termos do conjunto de conhecimentos, bem como as técnicas e os procedimentos associados, necessários e adequados ao cumprimento médio das tarefas às quais seriam desafiados. Isso parecia suficiente e receita de sucesso quase eterno. Para surpresa de todos, especialmente dos educadores, o mundo contemporâneo parece hoje querer fechar aquelas portas o quanto antes, de forma abrupta e quase sem aviso prévio.

 

A realidade é que a escola, suas metodologias tradicionais e seus docentes não dão mais conta dos desafios contemporâneos. Temos naturais dificuldades em aceitar isso, muito em função do extremo respeito que devemos aos locais nos quais todos aprendemos até recentemente, bem como por causa de nossos justificáveis respeitos àqueles honrados e queridos mestres que nos ensinaram. Os elementos específicos educacionais associados serão tratados no terceiro aspecto a ser aqui abordado, após o segundo que vem a seguir.

 

Aspecto mesoescala

 

A questão anterior acerca do papel da escola no mundo contemporâneo é universal, quase sem grandes distinções em termos de desafios entre as diversas realidades, seja entre nações ou entre realidades regionais e locais. Por sua vez, não tem como abordar o papel da educação superior sem sua conexão com a realidade social e econômica de cada espaço no qual ela é praticada.

 

O “quem somos” e “onde estamos” interferem fortemente nos resultados e nas análises, mediados nessa mesoescala. O Brasil, entre as diversas características que lhes são próprias, há duas destacáveis: o grande contraste social e a aparente incapacidade para um desenvolvimento efetivamente sustentável e duradouro.

 

Sobre a primeira característica, somos, inegavelmente, um dos países de maiores contrastes sociais do planeta. Há países mais pobres, mas bem menos ricos em termos de recursos naturais e outras potencialidades. Há países menos pobres, mas, mesmo assim, sem desfrutarem da oportunidade, ainda que para poucos, do convívio com o que existe de mais avançado em termos de acesso a riquezas e tecnologias. Ou seja, compartilhamos, espacial e temporalmente, o convívio da quase miséria com o acesso ao que existe de mais avançado e sofisticado no mundo contemporâneo. Sabemos ofertar produtos e serviços de mais alta qualidade ou para muitos, porém, não sabemos fazer essas duas coisas ao mesmo tempo. Se de qualidade, sempre para poucos. Se para muitos, quase que inexoravelmente incorporando má qualidade.

 

A segunda característica é que vivenciamos vários ciclos ou fases de crescimentos econômicos e de melhorias de qualidade de vida, mas, ao que parece, paradoxalmente, temos enormes dificuldades em nos desenvolvermos econômica, social e ambiental de forma plenamente sustentável. Crescer sim, de forma sustentável não. Assim, os contrastes e a dificuldade de sustentabilidade de crescimento compartilham elementos comuns que nos impedem de desfrutarmos de avanços substantivos.

 

A raízes deste destino estão bem descritas pelo clássico “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, e têm várias consequências, sendo algumas delas muito especiais: baixa produtividade e quase ausência de competitividade global. Destaque-se o “salvo exceções”, as quais contribuem para evitar generalizações, mas, por serem poucas, servem também para comprovar a regra geral. Temos, de um lado, uma Casa Grande preguiçosa, acomodada e pouco estimulada a competir. Em que pesem os enormes recursos disponibilizados e os acessos ilimitados a todos os produtos e serviços, inclusive educacionais de máxima qualidade, os confortos, decorrentes do berço e assegurados por herança, instigam a acomodação e quase que impedem maiores ousadias e a tentação positiva de enfrentar desafios que incorporem inovações.

 

Por sua vez, a Senzala, que permanece apartada, ainda que com soluços esporádicos de inclusão social, tende a não dispor das ferramentas mais avançadas e dos instrumentos próprios que lhes permitam serem os polos principais do aumento de produtividade e do desenvolvimento econômico. Pecamos por uma baixa escolaridade, a qual até tem melhorado quando comparada com o passado, seja na educação básica como superior, porém, a ritmos não competitivos com que os demais países do planeta. E quando aumentamos o nível de escolaridade, em geral, o fazemos com má qualidade de ensino nos insuficientes anos estudados. O resultado é um conjunto enorme de trabalhadores cujas produtividades estão limitadas a priori por falta de formação escolar e a ausência de ferramentas que lhes permitam alterar essa realidade.

 

Aspecto específico

 

Se as dificuldades são gerais e o cenário parece pouco motivador, é do especifico e do peculiar que se pode tentar encontrar caminhos para as soluções. Assim, o quadro por mais desalentador que pareça, ele deve fornecer alguns ingredientes que permitam ter esperanças de mudanças à luz das novidades e das inovações, as quais sempre significam oportunidades.

 

Do ponto de vista educacional, entramos em uma nova era, onde pela primeira vez, em tese, poderemos, baseados nas tecnologias digitais, conjugar qualidade e quantidade. Ou seja, podemos pioneiramente explorar a possibilidade de ofertarmos qualidade para muitos. Por sinal, esta é a melhor definição de inovação em realidades como a brasileira. Qualidade para poucos ou má qualidade para muitos não é inovar; é repetir o passado.

 

Adentramos um novo cenário onde, pela primeira vez, será plenamente possível que todos aprendam (isso não era viável no século anterior), todos aprendem o tempo todo e em qualquer lugar (novidades do século XXI) e, especialmente, cada um aprende de maneira única e própria (nós sequer sabíamos disso antes).

 

Os maiores desafios contemporâneos educacionais estão associados a como incorporar o mundo das tecnologias digitais, incluindo o uso adequado de plataformas de aprendizagem e técnicas sofisticas de analítica da aprendizagem, as quais, em conjunto com a edugenômica, permitem conhecer o educando de forma inédita. Assim, torna-se possível estabelecermos os marcos de uma educação flexível (que combina sem preconceitos as ferramentas das modalidades presencial e a distância) e, fundamentalmente, personalizada, customizada à luz de cada realidade e apropriada para cada educando e seu contexto, em um mundo de educação permanente ao longo da vida.

 

Enquanto que no século XX o essencial era a transmissão de um determinado conteúdo, associado a um conjunto de técnicas e procedimentos, neste século há algo tão ou mais relevante que é desenvolver a consciência do educando acerca dos mecanismos de como se aprende. Ou seja, se a aprendizagem está associada à cognição, o aprender a aprender refere-se à metacognição, onde mais (ou tão) importante do que o que foi aprendido é o amadurecimento da percepção por parte do estudante acerca de como ele aprende.

 

Ainda que este último tópico possa ser o mais estimulante de todos, não teremos tempo e nem a pretensão de tratá-lo adequadamente, mas destaco que, entre as peculiaridades citadas anteriormente, geramos no Brasil um caldo cultural absolutamente afável à adoção de novas tecnologias. Se faltasse comprovação (não falta), basta observar que, mesmo tendo um dos piores e mais caros acessos à internet do planeta, somos um dos maiores usuários do mundo, seja em número ou seja em tempo médio diário de uso. Deve-se agregar a isso o fato que as tendências apontam para a predominância de recursos educacionais acessíveis via celular ou dispositivos semelhantes, áreas onde a população brasileira demonstra capacidades e apreços ímpares, bem como competências impressionantes nos usos das funcionalidades associadas.

 

Em suma, muito a aprofundar e peço desculpas pela ousadia de tratar de temas extremamente complexos em espaços de tempo e de escrita muito limitados, mas a discussão em si certamente contribui para o estímulo às investigações de soluções. São temas que ainda não foram tratados adequadamente, muito menos resolvidos, nem aqui e nem em lugar algum do mundo. Por isso mesmo, compartilhamos esta atmosfera de oportunidades inéditas que a todos motiva a continuarmos enfrentando esses desafios educacionais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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