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Arquivo de julho, 2017

domingo, 23 de julho de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 09:23

De volta ao planeta dos bonobos

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bonobo

 

Os bonobos até há menos de um século eram, erroneamente, assumidos como formando uma subespécie dos bastante conhecidos chimpanzés. Mais recentemente, eles deixaram de ser confundidos, passando a ser reconhecidos como espécie própria. Na verdade, ambas as espécies, o bonono (Pan paniscus) e o chimpanzé comum (Pan troglodytes), formam o gênero Pan. Um dos motivos da demora na identificação da espécie dos bonobos foi que os contatos com eles eram raros, dado estarem todos concentrados em uma pequena região da República Democrática do Congo, na África Central.

 

Os cientistas acreditam que o ancestral humano moderno tenha se separado dos chimpanzés e dos bonobos em torno de 8 milhões de anos atrás, sendo que estas duas espécies, por sua vez, se separaram entre si há aproximadamente 2 milhões de anos. Estudos recentes mostram que os bonobos, e não os chimpanzés, representam melhor o último ancestral comum com os humanos, fazendo dos bonobos nossos primos irmãos mais próximos. Seja pelo nível de compartilhamento de DNA (98,7%) ou pelas características mais assemelhadas em níveis de percepção, comportamentos gerais e habilidades. De acordo com Bernard Wood, pesquisador do Centro para Estudos Avançados de Paleobiologia Humana da George Washington University, a estrutura muscular dos bonobos alterou-se menos ao longo do tempo, tornando-os os seres vivos mais próximos do que seriam nossos ancestrais.

 

Do ponto de vista comportamental, os bonobos, diferentemente dos chimpanzés, podem partilhar alegremente seu alimento com um estranho e até mesmo desistir, altruisticamente, de sua própria refeição, como registrado pelos pesquisadores Jingzhi Tan e Brian Hare. Eles afirmam que suas descobertas podem ajudar a entender a origem do altruísmo nos humanos. Os cientistas compararam tais comportamentos a certos atos humanos de bondade, como por exemplo doar dinheiro anonimamente. De acordo com esses pesquisadores, o mais provável é que o ancestral comum das três espécies, seres humanos, bonobos e chimpanzés, já tivesse essa característica. Portanto, esta descoberta difere da hipótese anteriormente assumida de que os humanos só teriam desenvolvido o altruísmo depois da separação com o gênero Pan.

 

Os bonobos se distinguem pela postura mais ereta do que os chimpanzés, constituem uma sociedade mais igualitária e matriarcal e apresentam uma atividade sexual própria, não existindo relação direta entre sexo e reprodução. Por sinal, o sexo tem um peso grande nas suas relações, em geral como elemento reconciliador, estando presente ao longo de toda a vida adulta da espécie. Empatia e altruísmo são características que os bonobos têm particularmente desenvolvidas, ou seja, a capacidade de compreender o sentimento ou a reação de outro indivíduo, imaginando-se nas mesmas circunstâncias, e fazer algo em função disso.

 

O que nós humanos temos a, humildemente, aprender com as demais espécies? Por exemplo, os bonobos podem ser interessantes inspirações para características essenciais nos dias atuais: a empatia e o altruísmo. Temos, naturalmente, um grande potencial empático e altruísta, mas que, fruto do convívio em sociedades de grande escala, demanda permanentes reconexões, via educação, com algo que podemos ter inibido ao longo do tempo. Educar, contemporaneamente, tem múltiplos objetivos, entre eles aumentar nossa empatia e ampliar nossa capacidade de sermos solidários. Ou seja, desenvolver a compaixão, tentando compreender sentimentos e emoções dos demais, experimentando de forma objetiva e racional o que sentem outros indivíduos, e, em função disso, agir.

 

Ao promovermos, pela educação, a empatia e a solidariedade, queremos motivar que as pessoas se entendam e se tornem mais inteligentes, contribuindo com um mundo melhor. Ser empático e altruísta significa estabelecer afinidades por se identificar com os demais, saber escutar, compreender os seus problemas e emoções e, desta forma, ser um melhor profissional, seja em que campo de atividade for. Educar, cada vez mais, inclui na formação do educando, em complemento ao conjunto de técnicas e procedimentos tradicionais, novas habilidades e competências. Entre elas, trabalhar coletiva e solidariamente para resolver problemas e completar, com sucesso, as missões que lhe são conferidas.

 

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 Figura em Domínio Público, acessível em:

 https://cdn.psychologytoday.com/sites/default/files/styles/image-article_inline_full/public/field_blog_entry_teaser_image/Pan_paniscus06_0.jpg?itok=XYl7hQPD

 

 

 

 

 

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segunda-feira, 17 de julho de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 19:17

Educação superior para o mundo contemporâneo: o macro, o meso e o específico

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sbpc2

 

Nesta semana (dia 18/7), por ocasião da Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, na Mesa-redonda coordenada pela Presidente da SBPC, Helena Nader, serei um dos palestrantes. Segue abaixo um breve resumo da palestra a ser proferida às 15h no Auditório da UFMG.

 

O tema “Educação Superior” é certamente complexo e de tal natureza abrangente que seria ingenuidade imaginarmos sermos capazes de abordar todos os aspectos relevantes e, claramente, impossível cobri-los satisfatoriamente. Assim, opções de abordagens são inevitáveis e seguramente limitadoras, incluindo simplificações não desejáveis, mas inexoráveis.

 

Prefiro, pela exiguidade de tempo e espaço, simplificar a questão abordando-a sob três diferentes perspectivas, distintas entre si, ainda que complementares: a de macro escala, de mesoescala (intermediária) e de escala específica. Este tema não sugere neste momento as análises micro ou nano. Não porque não existam essas escalas, mas sim porque menos relevante à luz do propósito específico desta Mesa.

 

Aspecto macro

 

Do ponto de vista macro, educação superior trata de tema cujas abordagens ou soluções se entrelaçam globalmente, ainda que preservem características e peculiaridades regionais e locais. Um desafio geral, enfrentado por todos os países atualmente, é o papel da escola, incluindo neste tópico as missões das instituições de ensino superior.

 

A escola, pelo menos na vertente ocidental da história humana, nasce em Atenas, na Grécia Antiga, em torno de 400 a.C., em substituição aos sofistas, algo como professores particulares autônomos responsáveis pela formação da nova elite dirigente. Paradigmaticamente, o modelo de escola em vigor até hoje se assenta na Academia de Platão, sendo o Liceu da Aristóteles, na sequência, o cristalizador das práticas, das abordagens e das metodologias decorrentes.

 

A escola que nasce em Atenas se desenvolveu ao longo de séculos e milênios guardando a mesma essência de sua criação, porém, inicialmente de impacto limitado pelo baixo número de pessoas letradas e pela dificuldade de acesso aos textos (raros pergaminhos). Uma novidade positiva e transformadora somente ocorreria no século XV, quase dois milênios depois de Atenas, com a introdução do livro moderno, com Gutenberg. O reforço da acessibilidade ao conhecimento, fruto da abundância de textos escritos (Bíblia, Aristóteles, Platão e todos os demais pensadores anteriores) e do crescimento do número de letrados, deu o impulso que as nascentes universidades europeias precisavam para se cristalizarem como centros de divulgação e de produção do conhecimento. Isso incluía o conhecimento baseado no método científico, amadurecido pelas contribuições de Galileu e de Newton, nos séculos XVII e XVIII.

 

Os avanços decorrentes do método científico fizeram brotar tecnologias como a máquina a vapor, a qual, em conjunto com as leis de mecânica, da termodinâmica e do eletromagnetismo, entre outros avanços, alavancaram a Revolução Industrial que mudou a face do planeta, com a profundas marcas que permanecem até os dias atuais.

 

O ápice da dinâmica acima referida ocorreu ao longo dos séculos XIX e XX, especialmente este último, quando ficou evidente a demanda pela formação em grande escala de profissionais que fossem compatíveis com as demandas típicas dos modelos de desenvolvimento fordistas e tayloristas adotados. A escola do século XX, fruto de suas metodologias e concepções, se mostrou plena e totalmente capaz de dar conta dessa demanda. Nenhuma outra instituição foi tão bem-sucedida em suas missões como foi a escola no século passado, fazendo dela um ente quase sacro. Da mesma forma, o professor tornou-se alguém relevante e respeitado, ainda que com salários nem sempre satisfatórios.

 

A história tem seus percalços, inclusive para a escola. Similarmente às quebras de paradigmas promovidas pelo surgimento da escola em Atenas ou da invenção do livro moderno no Renascimento europeu, o século XXI trouxe junto o advento das tecnologias digitais maduras, as quais reconfiguram os hábitos, os costumes e a forma como vivemos e nos relacionamos, incluindo as maneiras diversas com que aprendemos e ensinamos. Ou seja, as concepções, as metodologias e as abordagens educacionais (observar que eram e são múltiplas) não deram conta ainda da radicalidade das mudanças, processo este ainda inconcluso e em pleno curso.

 

De forma extremamente reduzida e simplificada, o tratamento por média, adotado pelas escolas nos séculos anteriores, fizeram delas entes apropriados para atender as demandas e escalas de então. Os eventuais desvios e prejuízos decorrentes das metodologias eram minimizados pelo franco sucesso advindo do pleno cumprimento da missão proposta. A maioria dos educandos aprendia o suficiente em termos do conjunto de conhecimentos, bem como as técnicas e os procedimentos associados, necessários e adequados ao cumprimento médio das tarefas às quais seriam desafiados. Isso parecia suficiente e receita de sucesso quase eterno. Para surpresa de todos, especialmente dos educadores, o mundo contemporâneo parece hoje querer fechar aquelas portas o quanto antes, de forma abrupta e quase sem aviso prévio.

 

A realidade é que a escola, suas metodologias tradicionais e seus docentes não dão mais conta dos desafios contemporâneos. Temos naturais dificuldades em aceitar isso, muito em função do extremo respeito que devemos aos locais nos quais todos aprendemos até recentemente, bem como por causa de nossos justificáveis respeitos àqueles honrados e queridos mestres que nos ensinaram. Os elementos específicos educacionais associados serão tratados no terceiro aspecto a ser aqui abordado, após o segundo que vem a seguir.

 

Aspecto mesoescala

 

A questão anterior acerca do papel da escola no mundo contemporâneo é universal, quase sem grandes distinções em termos de desafios entre as diversas realidades, seja entre nações ou entre realidades regionais e locais. Por sua vez, não tem como abordar o papel da educação superior sem sua conexão com a realidade social e econômica de cada espaço no qual ela é praticada.

 

O “quem somos” e “onde estamos” interferem fortemente nos resultados e nas análises, mediados nessa mesoescala. O Brasil, entre as diversas características que lhes são próprias, há duas destacáveis: o grande contraste social e a aparente incapacidade para um desenvolvimento efetivamente sustentável e duradouro.

 

Sobre a primeira característica, somos, inegavelmente, um dos países de maiores contrastes sociais do planeta. Há países mais pobres, mas bem menos ricos em termos de recursos naturais e outras potencialidades. Há países menos pobres, mas, mesmo assim, sem desfrutarem da oportunidade, ainda que para poucos, do convívio com o que existe de mais avançado em termos de acesso a riquezas e tecnologias. Ou seja, compartilhamos, espacial e temporalmente, o convívio da quase miséria com o acesso ao que existe de mais avançado e sofisticado no mundo contemporâneo. Sabemos ofertar produtos e serviços de mais alta qualidade ou para muitos, porém, não sabemos fazer essas duas coisas ao mesmo tempo. Se de qualidade, sempre para poucos. Se para muitos, quase que inexoravelmente incorporando má qualidade.

 

A segunda característica é que vivenciamos vários ciclos ou fases de crescimentos econômicos e de melhorias de qualidade de vida, mas, ao que parece, paradoxalmente, temos enormes dificuldades em nos desenvolvermos econômica, social e ambiental de forma plenamente sustentável. Crescer sim, de forma sustentável não. Assim, os contrastes e a dificuldade de sustentabilidade de crescimento compartilham elementos comuns que nos impedem de desfrutarmos de avanços substantivos.

 

A raízes deste destino estão bem descritas pelo clássico “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, e têm várias consequências, sendo algumas delas muito especiais: baixa produtividade e quase ausência de competitividade global. Destaque-se o “salvo exceções”, as quais contribuem para evitar generalizações, mas, por serem poucas, servem também para comprovar a regra geral. Temos, de um lado, uma Casa Grande preguiçosa, acomodada e pouco estimulada a competir. Em que pesem os enormes recursos disponibilizados e os acessos ilimitados a todos os produtos e serviços, inclusive educacionais de máxima qualidade, os confortos, decorrentes do berço e assegurados por herança, instigam a acomodação e quase que impedem maiores ousadias e a tentação positiva de enfrentar desafios que incorporem inovações.

 

Por sua vez, a Senzala, que permanece apartada, ainda que com soluços esporádicos de inclusão social, tende a não dispor das ferramentas mais avançadas e dos instrumentos próprios que lhes permitam serem os polos principais do aumento de produtividade e do desenvolvimento econômico. Pecamos por uma baixa escolaridade, a qual até tem melhorado quando comparada com o passado, seja na educação básica como superior, porém, a ritmos não competitivos com que os demais países do planeta. E quando aumentamos o nível de escolaridade, em geral, o fazemos com má qualidade de ensino nos insuficientes anos estudados. O resultado é um conjunto enorme de trabalhadores cujas produtividades estão limitadas a priori por falta de formação escolar e a ausência de ferramentas que lhes permitam alterar essa realidade.

 

Aspecto específico

 

Se as dificuldades são gerais e o cenário parece pouco motivador, é do especifico e do peculiar que se pode tentar encontrar caminhos para as soluções. Assim, o quadro por mais desalentador que pareça, ele deve fornecer alguns ingredientes que permitam ter esperanças de mudanças à luz das novidades e das inovações, as quais sempre significam oportunidades.

 

Do ponto de vista educacional, entramos em uma nova era, onde pela primeira vez, em tese, poderemos, baseados nas tecnologias digitais, conjugar qualidade e quantidade. Ou seja, podemos pioneiramente explorar a possibilidade de ofertarmos qualidade para muitos. Por sinal, esta é a melhor definição de inovação em realidades como a brasileira. Qualidade para poucos ou má qualidade para muitos não é inovar; é repetir o passado.

 

Adentramos um novo cenário onde, pela primeira vez, será plenamente possível que todos aprendam (isso não era viável no século anterior), todos aprendem o tempo todo e em qualquer lugar (novidades do século XXI) e, especialmente, cada um aprende de maneira única e própria (nós sequer sabíamos disso antes).

 

Os maiores desafios contemporâneos educacionais estão associados a como incorporar o mundo das tecnologias digitais, incluindo o uso adequado de plataformas de aprendizagem e técnicas sofisticas de analítica da aprendizagem, as quais, em conjunto com a edugenômica, permitem conhecer o educando de forma inédita. Assim, torna-se possível estabelecermos os marcos de uma educação flexível (que combina sem preconceitos as ferramentas das modalidades presencial e a distância) e, fundamentalmente, personalizada, customizada à luz de cada realidade e apropriada para cada educando e seu contexto, em um mundo de educação permanente ao longo da vida.

 

Enquanto que no século XX o essencial era a transmissão de um determinado conteúdo, associado a um conjunto de técnicas e procedimentos, neste século há algo tão ou mais relevante que é desenvolver a consciência do educando acerca dos mecanismos de como se aprende. Ou seja, se a aprendizagem está associada à cognição, o aprender a aprender refere-se à metacognição, onde mais (ou tão) importante do que o que foi aprendido é o amadurecimento da percepção por parte do estudante acerca de como ele aprende.

 

Ainda que este último tópico possa ser o mais estimulante de todos, não teremos tempo e nem a pretensão de tratá-lo adequadamente, mas destaco que, entre as peculiaridades citadas anteriormente, geramos no Brasil um caldo cultural absolutamente afável à adoção de novas tecnologias. Se faltasse comprovação (não falta), basta observar que, mesmo tendo um dos piores e mais caros acessos à internet do planeta, somos um dos maiores usuários do mundo, seja em número ou seja em tempo médio diário de uso. Deve-se agregar a isso o fato que as tendências apontam para a predominância de recursos educacionais acessíveis via celular ou dispositivos semelhantes, áreas onde a população brasileira demonstra capacidades e apreços ímpares, bem como competências impressionantes nos usos das funcionalidades associadas.

 

Em suma, muito a aprofundar e peço desculpas pela ousadia de tratar de temas extremamente complexos em espaços de tempo e de escrita muito limitados, mas a discussão em si certamente contribui para o estímulo às investigações de soluções. São temas que ainda não foram tratados adequadamente, muito menos resolvidos, nem aqui e nem em lugar algum do mundo. Por isso mesmo, compartilhamos esta atmosfera de oportunidades inéditas que a todos motiva a continuarmos enfrentando esses desafios educacionais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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terça-feira, 11 de julho de 2017 aprendizagem, EaD, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 11:55

Medicina sem EaD pode?

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telemedicina

 

Muitas vezes me perguntam, com certa ironia, se seria possível um curso de graduação de Medicina na modalidade educação a distância (EaD). Todas as vezes, sem titubear, respondo: “Tanto em Medicina como em um conjunto de outras carreiras, a formação exclusivamente a distância não seria adequada; porém, acho que seria igualmente inadmissível um curso contemporâneo de Medicina sem as ferramentas da educação interativa baseadas nas tecnologias digitais”.

 

Na verdade, as terminologias que separam abruptamente as modalidades presencial e a distância são anacrônicas e favorecem pouco o inexorável futuro de uma educação flexível, híbrida e personalizada. Essas denominações foram consolidadas na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira de 1996. Seria injusto exigir dos educadores e legisladores de então que tivessem a premonição do que seria este mundo atual em termos de absoluta preponderância das tecnologias digitais.

 

A adequada formação de um médico, bem como dos demais profissionais na área da saúde, demanda que eles dominem a utilização de plataformas digitais e de tecnologias móveis e que tenham familiaridade com realidade virtual imersiva, impressoras tridimensionais e com técnicas de modelagem e simulação. Aquilo que era uma opção na formação do profissional do passado passa hoje a ser experiência obrigatória para qualquer formando na área. A simples dificuldade em operar sistemas digitais mais sofisticados pode, na prática, inviabilizar que um médico usufrua das facilidades que a Telemedicina e outros tantos recursos inovadores propiciam.

 

Recentemente, a McKinsey&Company apresentou um Relatório sobre tendências e perspectivas internacionais acerca da dinâmica das organizações responsáveis por saúde em direção ao mundo completamente digitalizado. O Relatório aponta que há mais de 20 anos os detalhes de gestão das instituições de saúde já estão completamente digitalizados, mas, segundo o Relatório, esta onda é cosmética comparada com as novidades em curso e aquelas que ainda estão por vir.

 

O estado do Rio Grande Sul acaba de adotar, com aval da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, a Oftalmologia a distância. Trata-se de inovador projeto de Telemedicina que prevê, conforme reportagem do jornal Folha de São Paulo, reduzir em 40% a fila de espera pelos procedimentos. Os pacientes das unidades básicas de saúde serão encaminhados a 8 consultórios espalhados pelo estado, onde serão atendidos por técnicos de enfermagem. Estes conduzirão a parte física e presencial do exame oftalmológico (pressão ocular etc.), supervisionados por oftalmologistas em tempo real a distância, os quais são abastecidos por imagens teletransmitidas via uma plataforma de telessaúde.

 

Ainda que de forte impacto a cada um dos milhares que aguardam nas filas de atendimentos oftalmológicos, o caso em pauta é somente um pequeno exemplo dos recursos que gradativamente estarão sendo disponibilizados aos profissionais de saúde para enfrentar os gigantescos desafios em que estão envolvidos.

 

Há inúmeros outros casos ilustrativos na área. Este ano completa dez anos o Programa Telessaúde Brasil Redes do Ministério da Saúde, reconhecido pela Organização Panamericana da Saúde como exemplo aos demais países, o qual oferece laudos diagnósticos de eletrocardiogramas, retinografias na detecção de retinopatias diabéticas, entre outros serviços, além da segunda opinião aplicada à atenção primária à saúde.

 

Progressivamente, faremos uso cada vez mais intenso de “big data” agregando informações variadas sobre saúde, incluindo determinantes genéticos de doenças, controles de expressão gênica e as interações de indivíduos com ecossistemas. O mundo da internet das coisas, dispositivos baseados em nanotecnologia e inteligência artificial, entre outras novidades, por certo, darão novo significado para Medicina, área onde as novidades devem emergir com velocidades aceleradas nos próximos tempos.

 

Atualmente é imprescindível uma educação superior na área de saúde que incorpore no processo de formação básica desses profissionais as competências e habilidades no uso de múltiplas ferramentas digitais. A Telemedicina, por exemplo, deverá fazer parte obrigatória dos currículos, bem como técnicas para propedêutica médica a distância e o uso de ambulatórios didáticos virtuais.

 

Por fim, o uso apropriado de tecnologias e metodologias educativas interativas deverá propiciar a formação de redes de educação colaborativas integradas, via a articulação de desenvolvedores de conhecimento e o compartilhamento de infraestruturas laboratoriais de ensino, tanto em nível nacional como internacional.

 

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  • Contatos via: ronamota@gmail.com
  • Figura em Domínio Público, em: 

https://thumbs.dreamstime.com/x/doctor-telemedicine-concept-pressing-button-90972024.jpg

  • Registro agradecimentos, pelas contribuições, à Dra. Ana Estela Haddad e ao Prof. Chao L. Wen, ambos da USP.
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quinta-feira, 6 de julho de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 20:14

Metacognição em três atos

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Cognição diz respeito aos processos associados à aquisição de conhecimentos. Metacognição se refere àquilo que transcende a cognição, onde tão importante quanto o que foi aprendido é a reflexão, por parte do educando, sobre a própria aprendizagem. Ou seja, a prática consciente do aprender a aprender, despertando a percepção do aprendiz acerca de como se aprende.

 

O século XX representou o apogeu das metodologias centradas nos processos cognitivos, dada a enorme compatibilidade com o atendimento das demandas. Por sua vez, a metacognição estabelece com o mundo contemporâneo pertinência diferenciada, mostrando-se indispensável para pensar os dilemas educacionais atuais.

 

Para ilustrar a metacognição, vejamos três casos elucidativos. O primeiro diz respeito a um hábito que o repetimos ao irmos ao banheiro, logo cedo, todos os dias. Bastante comum nos depararmos com um piso cerâmico e um tapetinho para os pés. Evitamos o “frio” do piso cerâmico e sentimos conforto no abrigo “quente” com os pés no tapete. Ocorre que tanto o piso como o tapete estão à mesma temperatura. Se alguém está em temperatura diversa deles é nosso corpo (em torno de 36o C).

 

Por que então a diversa sensação? Os átomos e as moléculas que compõem os materiais estão em constante agitação térmica e quanto maior for o movimento dessas partículas maior será a temperatura dos objetos. Calor está associado à transferência dessa energia térmica entre materiais a diferentes temperaturas.  Quando em equilíbrio, não há transferência de calor entre eles. No entanto, piso ou tapetinho, ao entrarem em contato com o corpo mais quente, dele recebem calor, enquanto o corpo humano se esfria. As velocidades com que o calor é transferido do corpo a cada um deles são diferentes, sendo que o piso cerâmico, diferentemente do tapete, é um ótimo condutor de calor e, portanto, conduz calor rapidamente. Assim, mesmo com conhecimento superficial dos conceitos envolvidos, a metacognição, baseada na reflexão metódica, contribui com elucidar o enigma. Somos estimulados a seguir o mesmo método, sobre qualquer outro tema, ao longo do restante do dia.

 

Um segundo caso, inspirado no filme “O homem que eu escolhi”, um convidado seu em sua casa, ao se servir de um drink, escorrega em uma pedra de gelo caída no chão minutos antes. Como resultado do forte choque da cabeça do convidado com a sua mesa, ele vem a falecer. Há duas hipóteses: a) você pode ser acionado como responsável, ainda que involuntário, pela morte, com as consequências decorrentes, ou b) você é totalmente inocente, ao ponto de poder, se assim o desejar, demandar do inventário do falecido o ressarcimento dos danos causados em sua mesa.

 

Juridicamente há somente uma pergunta a ser feita e ela demanda uma visão de complexidade que inclui supor que a pergunta está incompleta. E a única resposta no caso é depende. Depende se o convidado foi à sua casa sem convite e neste caso cabe a ele se adaptar às condições de vida que você adota, incorrendo ele nos riscos e nas consequências. Ou, alternativamente, se você o convidou e neste caso cabe a você garantir as condições de segurança do convidado, incluindo evitar o risco de um descuidado piso molhado. No primeiro caso, prevalece a hipótese a) acima, e no outro, a hipótese b). Este caso ilustra a metacognição que vai além de perguntas ou respostas simples, sugerindo que na vida temos, predominantemente, casos complexos, onde as questões tal como apresentadas, na maioria das vezes, podem ser insuficientes para se permitir chegar a consistentes soluções.

 

Por fim, um terceiro caso onde a metacognição sugere uma abordagem metodológica educacional. Foi sugerido a uma turma de alunos um tema polêmico, aborto, sendo parte da turma a favor e outra contrária. O procedimento padrão indicaria solicitar à parte da turma a favor do aborto que escrevesse enfaticamente sobre esta opção e valendo o mesmo para aqueles contrários. Por sua vez, a abordagem metacognitiva inverteria, tal que aqueles contrários ao aborto seriam desafiados a escrever sobre situações excepcionais nas quais eles eventualmente poderiam aceitar o aborto. Aos defensores do aborto seria colocada a tarefa de discorrer sobre a questão de limites ou efeitos indesejáveis de uma permissividade abusiva.

 

A grande vantagem de tal postura é demonstrar que pessoas, fazendo uso de legítimos raciocínios, podem chegar a conclusões respeitáveis, ainda que bem diversas das suas. Neste caso, a postura metacognitiva, que transcende a solução simples, resultou em aumento dos níveis de tolerância e da capacidade de entender o outro por se colocar na posição do outro.

 

A metacognição explora elementos que a cognição pode, eventualmente, desconsiderar. A partir dos três casos acima, a adoção do método, a noção da complexidade e o exercício da tolerância, podemos afirmar que o mais relevante foi termos ampliando nossa consciência acerca de como, afinal, aprendemos.

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  • Contatos via: ronamota@gmail.com
  • Imagem em Domínio Público em https://pixabay.com/pt/sa%C3%BAde-mental-psicologia-psiquiatria-2313428/
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