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Arquivo de maio, 2017

segunda-feira, 22 de maio de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 10:58

Herança educacional perversa

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Educação é uma das mais relevantes e eficientes ferramentas para a promoção de oportunidades de ascensão social. Porém, educação não é um instrumento neutro; ao contrário, por ser tão eficaz, ela funciona, em certas circunstâncias, cumprindo também o papel oposto, ou seja, o perverso aumento das desigualdades e a cristalização da exclusão.

 

Os tempos mudaram e certos conceitos ficaram para trás. Fácil perceber que os títulos de nobreza, muitos deles hereditários, têm bem menos relevância atualmente do que desfrutavam antigamente. Mais recentemente, as camadas mais esclarecidas e privilegiadas, progressivamente, percebem que há algo mais importante do que simplesmente deixar riquezas materiais aos seus herdeiros. Trata-se, principalmente, de proporcionar às crianças e aos jovens capacitação intelectual diferenciada, incluindo todas as formas de competências e habilidades, tal que lhes permitam competir em condições favoráveis quando adultos.

 

Ainda que em si elogiável e coerente tal atitude, interessante observar que, em consequência, remete ao poder público e à sociedade em geral um desafio complexo e sofisticado. Aquilo que os pais decidem fazer com seus recursos, dentro dos limites apropriados, é de competência exclusiva deles e optar por investir em educação é legítimo e elogiável. No Brasil, dados disponíveis mostram claramente que a máxima correlação entre os aprovados nos vestibulares mais concorridos está associada, mais do que à renda familiar, à escolaridade dos pais. Ou seja, pais escolarizados tendem, o que é natural, a ter mais preocupação com o tema e propiciam, direta ou indiretamente, um contato doméstico com letramentos preliminares, acessos a leituras e demais suportes complementares. Ao Estado cabe decifrar o contexto e implementar políticas públicas compatíveis que viabilizem procurar igualar oportunidades.

 

Na China, na província de Xangai, escolas particulares para selecionar seus alunos realizam testes com os respectivos pais e avós, fazendo dos passados educacionais e profissionais deles critérios para aceitação de seus filhos. Na mesma medida em que a desigualdade de renda cresce, os pais da emergente classe média chinesa abandonam as escolas públicas à procura de diferenciais que permitam angariar vantagens aos seus filhos. Neste caso, educação, projetada para atuar em direção à igualdade de oportunidades e aumento de mobilidade social, funciona como cristalização de diferenças e, eventual, eternização de desigualdades.

 

O drama maior, seja no Brasil ou na China, não é a oportunidade de boa educação aos filhos dos mais ricos ou escolarizados, mas sim a insuficiente qualidade da educação reservada aos menos favorecidos, resultando, na prática, numa gigantesca perda de talentos. Como consequência, ao desperdiçar talentos, a capacidade global da sociedade, em termos de desenvolvimento social, econômico e ambiental, é afetada negativamente. O que podemos estar aceitando é introduzir um nível cada vez mais forte de artificialidade em um processo que deveria, em princípio, ser baseado em maximizar as potencialidades de todos. Os futuros cidadãos e profissionais estariam largando de bases muito desiguais na infância, permitindo aos felizardos que, mesmo com menos talento, possam sobrepujar aos demais, eventualmente mais capacitados, porém, excluídos antes da partida começar.

 

A nobreza perdeu privilégios, fruto das revoluções republicanas. As democracias recentes impuseram ao domínio simples do capital algumas derrotas, expressas por importantes conquistas sociais. Claramente não havia correlação direta entre nobreza ou riqueza com talento, portanto, aquelas perdas foram reconhecidas como justos avanços e ganhos de produtividade. A versão contemporânea dos títulos de nobreza ou da riqueza de bens materiais é o papel reservado à escolaridade dos pais. Fenômeno este que se torna mais evidente quando a maioria deles viveu, quando jovens, em sociedades, a exemplo de Brasil e China, com relativamente baixo acesso à educação.

 

O enfretamento positivo deste tema é muito complexo e não há medida isolada que dê conta do enigma. A utilização intensa e adequada das oportunidades que as tecnologias digitais propiciam de acesso pleno, instantâneo e gratuito ao conhecimento, certamente, faz parte do conjunto de soluções. Cabe ao poder público e às demais iniciativas da sociedade, em seus planos de conjugar qualidade e quantidade, saberem decifrar este sofisticado e urgente desafio.

 

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Figura em Domínio Público, via o link:

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sábado, 13 de maio de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 10:19

O fim da escola sem fim

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As raízes mais remotas da escola, tal como nós a conhecemos hoje, estão depositadas na Grécia Antiga, especialmente referenciadas, ao redor do século IV a.C., na Academia de Platão e no Liceu de Aristóteles. A escola nasce com o objetivo de formar os futuros dirigentes de Atenas, indo além dos sofistas, à medida que estabelecia um espaço comum permanente, frequentado de forma regular por mestres e discípulos, atores fixados no mesmo objetivo de repassar e receber conhecimentos.

 

Passados quase dois milênios e meio, essa escola viria a atingir seu apogeu na fase mais madura da revolução industrial no século XX, onde a demanda em grande escala por mão de obra especializada foi atendida com enorme competência e maestria.  Nesses milênios, educação foi favorecida pelo surgimento do livro moderno no século XV, pela consolidação do método científico no século XVII, pela máquina a vapor e outras tecnologias no século seguinte e, especialmente, pela Revolução Industrial nos tempos que se seguiram.

 

Os níveis extremos de compatibilidade e de pertinência das organizações educacionais, incluindo as metodologias e os modelos de gestão escolares adotados, fizeram delas das mais bem sucedidas e respeitadas instituições do mundo moderno. A escola, no sentido amplo, contribuiu significativamente para grandes avanços em termos de ampliação do acesso a serviços e a produtos de qualidade. Foi dentro dos seus muros que foram gerados os conhecimentos que resultaram no aumento da expectativa de vida e, principalmente, produziram as condições para a grande revolução decorrente das tecnologias digitais, as quais estão a transformar, num processo ainda em curso, o mundo contemporâneo.

 

A escola tem cumprido várias funções, entre elas, a de ser o espaço de transmissão de conhecimento, formando cidadãos que dominam certos conteúdos e profissionais habilitados a determinadas técnicas e procedimentos específicos. Nesta concepção, os níveis escolares refletem etapas formativas com diferentes graus de profundidades e os respectivos diplomas e certificados atestam os conhecimentos adquiridos e as respectivas competências e habilidades associadas a cada uma das áreas do saber.

 

Todas as instituições e setores contemporâneos estão sendo e serão profundamente afetados pelas tecnologias digitais, em especial a escola, dado que a marca dos novos tempos é a emergência de uma sociedade na qual a informação está plenamente disponível, imediatamente acessível e essencialmente gratuita. Assim, as instituições educacionais, por sua relação orgânica com a informação e o conhecimento, demandam ser especialmente reconceptualizadas. Elas devem ser repensadas à luz de um cenário onde mais relevante do o que foi aprendido é aprimorar a capacidade de aprender a aprender. Informação, em si, passa a ser o mais disponível e vulgar dos produtos.

 

Aprendemos, a partir de agora, dentro e fora da escola, a qualquer tempo e por qualquer meio e o fazemos, principalmente, como meio de ampliar nossa consciência acerca dos mecanismos segundo os quais ampliamos nossa capacidade de aprender a aprender.  A escola que marcava suas etapas pelos diplomas e certificados, atestando os conhecimentos adquiridos, nas formas de conteúdos, técnicas e procedimentos, dá espaço a um novo conceito onde as etapas correspondentes, da creche ao pós-doutorado, se caracterizam essencialmente pelos níveis diversos da capacidade de aprender continuamente em um mundo de educação permanente ao longo da vida.

 

Há uma essência perene nas funções da escola e do professor, mas certamente ela não está em seus prédios ou nos modelos de gestão, tampouco nas atuais metodologias e abordagens educacionais. Enfim, é rica e bela a história da escola, uma instituição que se pensava sem fim e que hoje, promissoramente, se prepara para se reconfigurar plenamente.

 

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Figura em Domínio Público: “School of Aristotle”, fresco by Gustav Spangenberg.

 

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terça-feira, 9 de maio de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 08:40

Palestra “Educação Contemporânea e Tecnologias Digitais” na UNESP (link incluso)

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unesp

A Unesp, Universidade Estadual Paulista, foi criada em 1976, resultante da incorporação de vários Institutos Isolados de Ensino Superior, localizados no interior do Estado de Estado de São Paulo. Do conjunto inicial fizeram parte a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis (cidade onde nasci), a de Araraquara, de Franca, de Marília, de Presidente Prudente, de Rio Claro e de São José do Rio Preto. Outros Institutos Isolados foram criados com a finalidade de formação profissional como a Faculdade de Farmácia e Odontologia de Araraquara, a mais antiga de todas essas escolas, fundada em 1923 e incorporada ao patrimônio estadual em 1956. As outras foram as duas Odontologias, de Araçatuba e de São José dos Campos, a Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias de Jaboticabal, a de Engenharia de Guaratinguetá e a Medicina de Botucatu.

 

Durante os anos 80, a Unesp passou por algumas modificações que ficaram registradas em seu novo Estatuto, assinado em 1989. Entre elas, destaque-se a ênfase na democratização e expansão. Durante esse período, a Universidade esteve à procura da formação de uma identidade que pudesse superar a talvez excessiva fragmentação. Esta procura significou uma aproximação cada vez maior da Universidade com o interior do Estado de São Paulo, ao atender aos insistentes apelos das comunidades do interior, quer pela incorporação de novos espaços, como nos casos da Universidade de Bauru (1987) ou na incorporação do Instituto de Física Teórica – IFT (1987).

 

Em suma, a Unesp é hoje reconhecida como uma das melhores universidades brasileiras, seja na qualidade do ensino que ministra, na excelência da pesquisa que desenvolve e, especialmente, pelos pioneiros trabalhos de extensão em curso. Portanto, foi com enorme satisfação que atendi o Convite para ministrar a Palestra “Educação Contemporânea e Tecnologias Digitais”, no último 27 de abril, por ocasião da reunião do Conselho Universitário. Os debates tiveram foco na da inovação do ensino, tanto na Graduação quanto na Pós-Graduação.

 

A palestra teve transmissão ao vivo pela TV UNESP e, aos interessados, segue link para a Palestra completa, incluindo as manifestações posteriores:
https://www.tv.unesp.br/video/DjOSWI-lrjg

 

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terça-feira, 2 de maio de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 16:06

Novos horizontes educacionais

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Educar está progressivamente se tornando mais difícil e desafiador. Ingressamos em uma sociedade na qual a informação está totalmente acessível e é instantaneamente disponibilizada, de forma gratuita. Diante deste cenário, tão ou mais relevante do que aquilo que foi aprendido (associado genericamente à cognição ou ao ato de aprender) é o amadurecimento da consciência, por parte do educando, acerca dos mecanismos segundo os quais ele melhor aprende (metacognição ou ato de aprender a aprender).

 

Vivenciaremos uma mudança progressiva de foco em direção a privilegiar as chamadas competências metacognitivas, incluindo as habilidades interdisciplinares, transversais e socioemocionais. Entre as características metacognitivas, destaco, a título de ilustração, aprendizagem independente, solução de problemas complexos, perseverança, autocontrole emocional e cumprimento simultâneo de multitarefas em equipe. Tais predicados são especialmente relevantes em missões envolvendo pensamento crítico, capacidade analítica, uso do método científico, comunicação, colaboração, criatividade, empreendedorismo, empatia, cordialidade, respeito e gestão da informação e de emoções.

 

Visando a entender melhor os horizontes educacionais no panorama mundial, o projeto “Horizon Project”, uma iniciativa do New Media Consortium (NMC), apresenta anualmente, de forma analítica e aprofundada, um balanço acerca das metodologias educacionais e tecnologias emergentes com impactos nos processos de ensino e aprendizagem.

 

A Edição Horizon 2017 é um esforço colaborativo entre o NMC e a Iniciativa de Aprendizagem Educause (ELI). No caso específico do Brasil, o relatório é capitaneado pela Editora Saraiva e o Grupo “Somos Educação”, assessorados por um Comitê de Especialistas, do qual, a convite dos Organizadores, tenho a honra de participar. O objetivo central é identificar e definir as principais tecnologias emergentes que impactarão nos próximos cinco anos a aprendizagem e a pesquisa no contexto da educação superior brasileira. Para saber mais, basta acessar o link: http://nmc.org/nmc-horizon.

 

As novas estratégias educacionais passam agora a enfatizar elementos motivacionais, incluindo atenção especial a trabalhos colaborativos (capacidade de produzir em equipe) e aspectos interdisciplinares (habilidade de estabelecer conexões entre diversas áreas do saber), acrescidos de relevância de comportamentos como tolerância e compaixão (empatia aplicada, isto é, entender o outro por se colocar na posição do outro e agir em função disso). São também relevantes os estímulos à visão empreendedora (criatividade conjugada com exequibilidade e sustentabilidade) e o especial domínio de linguagens e de plataformas digitais.

 

Complementarmente, algumas áreas que hoje ainda estão incipientes deverão se projetar fortemente ao longo dos próximos cinco anos. Entre elas, destaco genômica educacional e analítica da aprendizagem. Devido aos avanços em genética e das tecnologias digitais, será mais simples o uso de informações detalhadas sobre o genoma humano e, desta forma, identificar sua parcela de contribuição para características particulares relacionadas aos processos educacionais.

 

Genômica educacional, juntamente com analítica da aprendizagem, podem ser as chaves para uma educação personalizada. Ao colaborar no desenho de estratégias educacionais e currículos customizados, evitamos penalizar os educandos que não se encaixam nos modelos educacionais mais tradicionais voltados ao atendimento da média.

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