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Arquivo de abril, 2017

sábado, 22 de abril de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 17:17

Educação e corrupção

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corruption

Educação está associada a todos os comportamentos e hábitos, individuais ou coletivos. Mesmo assim, não há uma correlação simples, direta e óbvia entre educação e corrupção. Países com indicadores educacionais altos apresentam casos escandalosos e sistemáticos, enquanto países com índices de escolaridade relativamente menores, por vezes, têm históricos apenas pontuais e menos endêmicos. Guardadas as diferenças e circunstâncias, não há, e provavelmente não haverá, nação ou setor da sociedade totalmente imunes a essas práticas, as quais, demandam ser fortemente reprimidas e condenadas, sempre.

A permissividade à corrupção ou sua relativização (todos fazem ou sempre foi assim), como sabemos, cobra um preço muito alto, especialmente na formação cultural do indivíduo e da sociedade como um todo. O enfrentamento da corrupção é um processo permanente no qual educa-se mais ou educa-se menos, a depender da qualidade com que ele é desenvolvido. Se a pergunta acerca do quanto nos educamos ao longo do processo não estiver presente, mesmo ações, em tese, bem-intencionadas, podem, eventualmente, gerar resultados que se contrapõem às próprias motivações que as geraram, piorando o quadro social a ser transformado.

Educa-se quando na divulgação dos processos em curso se ressalta a transparência, os avanços obtidos e tem-se, como resultado, a consolidação das instituições e a construção coletiva de novos patamares de honestidade. Não se educa, ou educa-se mal, quando se prioriza o tom generalizante ou se estimula atos persecutórios para satisfazer a ânsia irracional ou interesses imediatos, desvalorizando a democracia e as instituições, piorando a percepção do indivíduo sobre o meio em que vive.

Como apontado pela pesquisadora Nara Pavão, o pior resultado possível de um processo político é o aumento do cinismo, fruto da conclusão generalizante de que, afinal, todos são corruptos, afastando os cidadãos das boas práticas políticas e ampliando no dia-a-dia a sua tolerância com toda sorte de comportamentos inadequados. A pesquisadora demonstra que eleitores submetidos a uma sobrecarga de noticiários mais espetaculares e menos analíticos tendem a entender a corrupção como uma constante, e não mais como uma variável a ser considerada na hora da escolha no voto.

É compreensível, ainda que nem sempre aceitável, que, do ponto de vista individual, um cidadão esteja revoltado e, em certas circunstâncias, dê vazão aos seus instintos mais irracionais, via generalizações inadequadas e desprezo pela democracia e por quaisquer práticas coletivas e solidárias. A relativa tolerância com o indivíduo não deve ser a mesma com os setores institucionalizados. Qualquer um deles, incluindo o próprio judiciário ou os meios de comunicação, se examinados com as mesmas métricas e ênfases que eles aplicam aos demais setores, provavelmente, evidenciariam níveis de corrupção de mesma monta.

Não se trata de favorecer a generalização que, indevidamente, absolve, mas sim da abrangência plena que esclarece, aprofunda e educa. Da mesma forma, não se trata jamais de deixar de fazer as coisas que devem ser executadas, como divulgar, averiguar e condenar, mas fazê-las na abordagem e na amplitude que eduque, preparando a todos para o exercício permanente e racional do combate sem tréguas à corrupção.

Para o país, mais relevante do que satisfazer os eventuais ódios momentâneos do presente é a consolidação dos mecanismos perenes que motivem acreditar no futuro. Um sonho educado e realista não é um mundo sem corrupção e sem corruptos; mas, sim uma sociedade com instituições e processos que desestimulem, julguem e punam, dentro dos marcos da lei, os infratores. Precisa, para começar, que todos queiramos construir algo que assim seja e educação também tem a ver com aquilo que se consolida, depois que estes momentos passam.

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 Imagem em Domínio Público, disponível na Biblioteca do Congresso Americano: trabalho de 1903 do artista Keppler  intitulado “At the stake”, mostrando três homens, designados por “Distúrbio, Linchamento e Violência”, queimando uma figura feminina denominada “Lei e Ordem”, portando as inscrições “Preconceito” e “Desafio”.

 

 

 

 

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sexta-feira, 14 de abril de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 02:17

Berlim: seus desafios educacionais e nossas semelhanças

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A República Federal da Alemanha é constituída por dezesseis estados, sendo um deles formado pela região de Berlim, com seus quase quatro milhões de habitantes. Cada estado é responsável pelo seu respectivo sistema de ensino, contando com razoável autonomia. Antecedendo o nível Primário, a maior parte das crianças atende ao Kindergarten, em duas etapas. O Kinderkrippe, correspondente à creche, até os três anos de idade, seguido pela pré-escola.

 

Aos seis anos o aluno começa o Primário, o qual dura de quatro a seis anos, a depender do estado. No nível Secundário, com duração de seis anos, há, em geral, quatro caminhos: Hauptschule, Realschule, Gesamtschule e Gymnasium.  A rota do Gymnasium é a mais exigente e concorrida, a qual prepara para a Universidade.

 

Alternativamente ao Gymnasium, há o caminho do vocacional técnico. Considerado um sucesso na Alemanha, parece estar se mostrando, recentemente, menos atraente e recompensador. Mudanças abruptas nas demandas no mundo do trabalho exigem alterações nos planos de voo dos técnicos, incluindo, cada vez mais, a necessidade de cursos tecnológicos de nível superior, a exemplo das conceituadas Technische Hochschulen. Uma vez completo este caminho, há possibilidade de boa empregabilidade, razoável salário inicial, ainda que limitado em crescimento ao longo da carreira, se comparado com aqueles que seguem a opção Gymnasium/Universidade.

 

O estado de Berlim decidiu, no começo desta década, juntar os três primeiros caminhos, excluído o Gymnasium, em um só, denominado Sekundarschule. Este seria previsto para atender um amplo espectro de habilidades, seria menos acadêmico e mais voltado ao mercado de trabalho. O grande desafio está em tal opção entre os dois caminhos ser excessivamente precoce, definindo aos 10 anos de idade as perspectivas e possibilidades futuras. Nesta faixa etária, é possível que os rendimentos (e comportamentos) escolares reflitam predominantemente os ambientes domésticos, incluindo escolaridade dos pais, circunstâncias do entorno e oportunidades de acesso a conteúdos. Provavelmente, ainda prematuro para mensurar, com a devida segurança, as vocações e os efetivos potenciais de competências e de talentos de cada um.

 

O sistema educacional de Berlim, mais do que dos demais estados, apresenta um conjunto de complexidades decorrentes do número maior de alunos denominados de “imigrantes”. Este termo se aplica até mesmo para nascidos na Alemanha, filhos e mesmo netos de imigrantes turcos, curdos ou árabes. O problema está longe de ser simples, transcendendo educação, mas todas as soluções aventadas passam necessariamente por educação.

 

O Gymnasium, caminho daqueles que pretendem ir para a Universidade, tem em torno de 70% de suas vagas reservadas aos alunos com boas notas e comportamentos adequados no Primário e as 30% vagas remanescentes são disputadas por todos os concluintes interessados em participar de uma loteria. Ocorre que, mesmo aos eventualmente sorteados, as escolas podem definir salas especiais àqueles que têm menor domínio do idioma alemão.  Na prática, resulta em processo complementar de discriminação, reforçando as dificuldades de acesso ao ensino superior.

 

Educação é o mais importante mecanismo de promoção de igualdade de oportunidades e de efetiva mobilidade social. Da mesma forma, processos educacionais podem, eventualmente, reforçar e cristalizar processos discriminatórios. Isso ocorre quando se inviabiliza a priori que filhos de pais menos escolarizados desfrutem do leque máximo de possibilidades.

 

Este tema guarda relativa semelhança com a realidade educacional brasileira. Ainda que não tenhamos os chamados imigrantes em número considerável, temos sim uma maioria absoluta de alunos cujos pais têm frágil instrução. No Brasil, estratificado socialmente, as perspectivas de ascensão social estão, na prática, limitadas às oportunidades educacionais de qualidade que forem proporcionadas aos jovens.

 

No momento em discutimos os caminhos do novo Ensino Médio, para nos transformarmos num país mais democrático e socialmente mais justo, é fundamental que, educacionalmente, proporcionemos oportunidades mais equânimes para todos e tentemos compensar, priorizando competências e talentos dos educandos, os prejuízos decorrentes de pais menos escolarizados e com menor renda.

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Figura em Domínio Público: https://piperbayard.files.wordpress.com/2010/11/fall-of-the-berlin-wall-wikimedia-public-domain.jpg

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segunda-feira, 3 de abril de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 08:57

Países Baixos: controlando a água com educação

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moinho

 

A tentação de chamar de Holanda é grande, mas só serviria para aumentar o equívoco de denominar uma nação inteira por uma de suas partes. E não se trata de um país qualquer, mas de um espaço de terra onde um quarto está abaixo do nível do mar e três quartos seriam inundados com frequência se a natureza fosse deixada sem controle humano. A água, ao invés de inimigo potencial, transformou-se na maior aliada, sendo que 60% do território é ocupado por pôlders, terrenos baixos e alagáveis protegidos por diques e utilizados para moradia e, especialmente, para produção agropecuária.

 

As cidades são fantásticas, a começar por sua capital Amsterdam, com o maior sistema de canais urbanos do mundo e pontes em abundância quase sem similar. Roterdã é o maior porto da Europa e uma das mecas da moderna arquitetura. No total, são quase 17 milhões de habitantes unificados pela cor laranja, pela obsessão por bicicletas e pela paixão pelo futebol. A população é fortemente multicultural, marcada pela tolerância e por valores como liberdade individual e respeito entre todos, sendo que um quinto dela é formada por estrangeiros e a maioria não pertence a nenhuma religião específica, embora todos os credos estejam representados.

 

Coerentemente, o sistema educacional é fortemente baseado no estímulo à aprendizagem independente. As mesmas autonomias e flexibilidades que as bicicletas permitem no trânsito, conjugando individualidade e o respeito ao coletivo, inspiram as múltiplas metodologias e abordagens personalizadas adotadas nas escolas. Entre três e quatro anos a criança deve ir para a escola primária, a qual dura oito anos.  Antecedendo a escola primária, entre dois e quatro anos, existe a pré-escola, a qual não é obrigatória e tem ênfase no desenvolvimento social e recreativo. Na escolha das escolas primárias há prioridade aos alunos cujas pré-escolas são a elas respectivamente associadas. Assim, quem entra mais cedo tem preferência na seleção dos melhores centros primários de ensino, com transição mais fácil entre os dois níveis escolares.

 

As aulas, em geral, são de segunda a sexta, das 8:30 às 15h, sendo que o número total de aulas deve obrigatoriamente completar 940 horas por ano, ainda que cada escola tenha razoável autonomia de como ocupar o tempo previsto. Crianças entre seis e doze anos que se mudaram recentemente e não falam o difícil idioma local (dutch) são designadas para classes especiais, pelo período que for necessário (normalmente um ano é suficiente), onde a prioridade é o aprendizado do idioma e da cultura local.

 

A educação é gratuita dos 4 aos 16 anos, ainda que seja permitido às instituições solicitar contribuições voluntárias que variam de escola para escola. Adicionalmente ao sistema estatal, há opções privadas de escolas internacionais, bem como de métodos educacionais específicos (Montessori, Steiner etc.) ou de grupos religiosos (católicos, judeus, protestantes, islâmicos, entre outros).

 

Aos doze anos, o aluno segue para educação secundária. Neste nível há que ser feita a escolha por caminhos distintos, sendo que a definição entre eles é basicamente fruto de um teste aplicado no oitavo ano primário. As preferências dos pais e dos próprios alunos são levadas em conta, mas a recomendação da escola primária é a mais relevante. Um dos ramos é educação vocacional preparatória, com dois anos básicos acrescidos de dois anos seguintes dedicados a setores técnicos bem definidos: técnico, agrícola, econômico e cuidados sociais. Outro ramo é preparatório para universidade, incluindo a educação profissional superior, sendo que após os dois primeiros anos há que ser feita opção entre as áreas: cultura, economia, saúde e tecnologia. Findos os 4 anos, há um período de aproximadamente um ano dedicado à aprendizagem independente de preparação ao ingresso à educação superior. Um terceiro caminho tem ênfase inicial em línguas clássicas, latim ou grego, bem como francês, alemão e inglês. Há, nos dois casos anteriores, a opção de que metade das aulas sejam necessariamente ministradas em inglês.

 

Para aqueles que seguiram em direção ao ensino superior, há dois grupos bem distintos: universidades orientadas para pesquisa ou instituições vocacionadas. As taxas dependerão da instituição de ingresso, sendo que cidadãos europeus pagam aproximadamente um terço do que é cobrado de estudantes internacionais.

 

Há dois comentários rápidos e que, por certo, demandariam um aprofundamento que este texto não permite. Embora não fique tão claro, os mecanismos gerais, desde a pré-escola à seleção da universidade, tendem a fazer com que pais mais escolarizados ou com maior renda tenham opções de mais longa escolaridade e de mais qualidade para seus filhos, dificultando grandes mobilidades sociais. Por outro lado, o sistema aparenta ser bem mais relaxado e menos competitivo do que países como Singapura, Japão ou Coréia do Sul, garantindo, em média, cidadãos e profissionais tão bem preparados como nos países citados, porém, mais felizes e bem mais solidários. Pelo menos é o que parece a um observador ocasional, ainda que atento.

 

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