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quarta-feira, 1 de março de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 19:49

O país do futuro está apaixonado pelo seu passado

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Motaanos60

 

Na semana passada fui assistir à peça “60! Década de Arromba – Doc Musical”, dirigida por Frederico Redar e roteiro de Marcos Nauer, com participação especial da cantora Wanderléa. A peça com 22 atores e que envolve mais de 60 profissionais na sua execução é altamente recomendável, mas o que mais me impressionou não estava no palco, e sim na plateia. É incrível a reação do público presente, atestando aquilo que um dia descrevi como sendo a confirmação de um país, que se proclamava como sendo do futuro, apaixonado pelo seu passado. Os aplausos eram dirigidos tanto aos atores como àqueles que aplaudiam a si mesmos por terem vivido e ajudado a construir aquela época.

 

Uma leitura possível, não a única, seria que há uma sensação coletiva neste momento no Brasil de que, mais uma vez, o almejado futuro não se materializou. Ou seja, o sonhado desenvolvimento econômico, social, ambiental e cultural sustentável dá espaço ao sabor de profunda frustração e ficamos, mesmo os mais otimistas, no aguardo de um novo ciclo, cuja data de inauguração não foi sequer anunciada.

 

Sabemos crescer, mas não sabemos fazê-lo de forma sustentável. Temos riquezas, naturais e humanas, reconhecidas mundialmente, mas elas parecem periodicamente perder para nossas persistentes deficiências e fragilidades. Identificar as complexas causas das recorrentes derrotas é tarefa hercúlea e fruto de muita controvérsia.

 

Tal cenário, onde a esperança parece adormecida, é acompanhado de modesta inspiração para produção cultural de qualidade. Um destacável reflexo de nossa pobreza cultural contemporânea são nossos olhos voltados ao passado como nunca. No campo da música, jamais se ouviu com tanto vigor os artistas das décadas de 60 e 70. No teatro, particularmente os musicais, é sintomático que quase todos os grandes sucessos dos últimos anos estejam dedicados a recuperar a vida de artistas daquela época.

 

Essa não é a única leitura possível. Outra seria que o que envelheceu foram as nossas réguas, nossos medidores das coisas, nas suas intensidades e qualidades. Olhar para o futuro querendo encontrar o passado, ou os sonhos dele, em geral, é naturalmente frustrante. Há algo escondido no futuro, que embora já presente, não consegue aflorar porque, de certa forma, o passado ainda não foi embora. Nunca nossas mazelas estiveram tão expostas e jamais as informações estiveram tão acessíveis a tantos com capacidade de modificá-las. Como essas novas condições farão emergir comportamentos inéditos e atitudes pioneiras ainda não está tão claro, mas é evidente que o novo virá.

 

Seja o que for que vier, terá no seu lado educacional termos conseguido, ainda que com qualidade precária, universalizar a educação fundamental e ampliado de forma significativa o acesso ao ensino superior. A população aprendeu, à sua maneira, enfrentar crises e gerar alternativas empreendedoras de sobrevivência. Além disso, geramos um caldo cultural que adora tecnologias digitais, sabe usá-las e, se tiver acesso à internet de qualidade e a baixo custo, os impactos serão incrivelmente positivos.

 

Sem dúvida falhamos em conjugar qualidade e quantidade. Permanecemos sendo um dos países de maior contraste social do planeta e pagamos um preço alto por isso, especialmente na segurança, ou na falta dela. Quando universalizamos ou ampliamos de forma significativa, o fizemos com rebaixamento de qualidade. Quando ofertamos qualidade, o fizemos para poucos, muito poucos.

 

A melhor maneira de nos ligarmos no futuro é enfrentarmos o desafio de inovar, fazendo o que jamais fizemos antes, propiciando acesso à educação e saúde de qualidade para muitos. Por isso, permanecem as esperanças em um futuro que já começou, embora os motivos das boas expectativas não estejam ainda tão evidentes.

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