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Arquivo de março, 2017

terça-feira, 28 de março de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 15:02

Pedagogia do Tombo

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falling

 

Alguns ambientes educacionais pretendem se assemelhar a estradas bem pavimentadas, onde nelas professores e alunos dirigem com total visibilidade e com relativa certeza de onde querem chegar. Como já abordado antes, trata-se de ledo engano. A vida real é, naturalmente, cheia de buracos, às vezes sem acostamentos, e periodicamente carregada de densa neblina.

 

Ou seja, a maioria das metodologias educacionais, envolvendo os respectivos procedimentos e abordagens, tem tradicionalmente adotado como objetivo central evitar os tropeços dos alunos. Fundamentalmente, o ensino tradicional, ao informar, o faz para que o educando acerte e evite, a qualquer custo, os erros. De forma resumida, ter sucesso, normalmente, quer dizer não levar tombos, sabendo responder as questões corretamente e completando positivamente e no menor tempo possível os desafios apresentados.

 

A título de exemplo, num teste padrão de múltipla escolha interessa, em geral, somente a resposta certa, sendo que, usualmente, as respostas erradas nada mais são do que respostas erradas. A educação contemporânea, no contexto dos usos adequados das tecnologias digitais, diverge frontalmente de tal postura. Atualmente tendemos a aproveitar tanto a resposta certa, valorizando o aprendido, como a resposta errada, como elemento que ilumina os caminhos de superação das deficiências. Os erros, potencialmente, podem dizer mais sobre o educando do que o acerto eventual. Analítica da aprendizagem (“learning analytics”, em inglês), como apresentado em outros textos, é ferramenta indispensável na compreensão de quem é o educando, incluindo saber mais e melhor sobre seus predicados e fragilidades. A partir deste conhecimento, podemos desenvolver trilhas educacionais personalizadas e adequadas.

 

Os modelos padrão e suas práticas usuais de ensino têm sobrevivido porque níveis razoáveis de sucesso puderam ser observados no passado, gerando a expectativa de que, provendo informações com competência e evitando os tropeços, teríamos solução educacional também para o presente e, eventualmente, até mesmo para o futuro. Nada mais ingênuo. Os velhos tempos, onde razoáveis eficiências e eficácias educacionais foram observadas, se caracterizam, principalmente, pela previsibilidade do mundo do trabalho, por demandas profissionais bem estabelecidas e futuros próximos razoavelmente conhecidos. Os novos tempos apresentam mudanças profundas, implicando em desafios inéditos, onde o ensino tradicional, tal como o praticamos, dá mostras claras de incapacidade de decifrá-los ou resolvê-los.

 

Entre as rápidas mudanças em curso está aquela que torna progressivamente a informação o produto mais disponível e o mais barato da atualidade. O surgimento de uma sociedade em que a informação está totalmente acessível, instantaneamente disponibilizada e gratuitamente adquirível traz consequências educacionais ainda não assimiladas e, por vezes, sequer percebidas. As ênfases e os focos demandam imediatas mudanças, em especial deslocando o centro do processo de aprendizagem baseado no simples saber, enquanto ser informado, em direção ao complexo saber resolver, baseado na informação assumida como completamente disponível, instantânea e gratuita.

 

Mais do que o simples acesso à informação, gerir corretamente o conhecimento disponível, trabalhar em equipe e assim decifrar e resolver os problemas passam a ser atitudes fundamentais, tanto no mundo profissional como no dia-a-dia. O ensino segmentado e com terminalidades definitivas dá lugar à educação permanente ao longo da vida, onde o aprender a aprender é mais relevante do que o aprender em si. Mais importante do que aquilo que foi aprendido, é ampliar a consciência e o domínio acerca dos mecanismos associados a como se aprende.

 

Assim, os novos tempos impõem uma realidade em que é mais importante focar no processo de aprendizagem e nos procedimentos de superação, após o erro, do que a obsessão simples por, a partir das informações adquiridas, tentar nunca tropeçar. Não há nenhuma garantia de que aqueles que nunca tropeçaram saberão levantar, caso errem. Mas há fortes indicadores de que aqueles que aprenderam a aprender terão todas as condições de enfrentar os tombos. Muito mais importante que evitar tropeços, portanto, é aprender a levantar.

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Obs.:  Figura em Domínio Público: http://public-domain.zorger.com/a-book-of-nonsense/046-cartoon-of-a-man-that-fell-off-a-horse-and-broke-into-two-public-domain.gif

 

 

 

 

 

 

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domingo, 12 de março de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 15:50

Habilidades Socioemocionais do Educando

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einstein

 

Albert Einstein (1879-1955) para enfatizar que educar transcendia o simples ensinamento de conteúdos, dizia: “educação é aquilo que fica depois que esquecemos o que nos foi ensinado”. No século passado, suas palavras premonitórias antecipavam algo que atualmente torna-se evidente e indispensável para entender o mundo contemporâneo.

 

Os alunos de hoje são diferentes do que eram há poucas décadas atrás. Além deles já não serem os mesmos, tampouco o mundo nos quais eles estão imersos é similar a antes. Consequentemente, as exigências para um futuro profissional ter sucesso diferem bastante do passado recente. Portanto, a questão central diz respeito às principais novas competências e habilidades a serem promovidas nos estudantes, tal que os formandos enfrentem com sucesso os desafios atuais.

 

A principal exigência dos novos tempos é uma drástica mudança de foco em direção a privilegiar, com igual peso ao conferido à aprendizagem de conteúdos tradicionais, as competências metacognitivas e as habilidades interdisciplinares, transversais ou socioemocionais. Aqui estão inclusos aspectos motivacionais, capacidade de comunicação e as habilidades no desenvolvimento de trabalhos em equipe para resolver desafios complexos.

 

No que diz respeito aos conhecimentos básicos, as três mais relevantes prioridades são: 1) letramento geral, capacidade comprovada de escrever e interpretar texto, e o letramento matemático; 2) letramento digital, incluindo o domínio de plataformas e o preparo para compreensão, adoção e, se possível, desenvolvimento de softwares e aplicativos; e 3) capacidade de entender aspectos históricos, geográficos e linguísticos, respeitando diferentes culturas e comportamentos, desenvolvendo tolerância para especificidades, hábitos e costumes diversos, agregando de forma positiva as características peculiares aos propósitos das missões conferidas.

 

As sete principais características complementares que se espera de um futuro profissional diferenciado, adicionais ao domínio dos conteúdos fundamentais de cada área, é que o educando: 1) seja capaz de aprender a aprender continuamente ao longo da vida, ampliando sua própria consciência acerca dos mecanismos segundo os quais ele aprende (metacognição); 2) demonstre capacidade analítica para resolver problemas práticos, ou seja, embasado no conhecimento do método científico e na familiaridade com pensamentos críticos, desenvolva o domínio de raciocínios abstratos sofisticados; 3) esteja habituado a juntar diferenças áreas do saber e das artes, com especial disposição para a área de gestão de informações, incluindo o domínio de linguagens e de plataformas digitais; 4) tenha efetiva habilidade de comunicação, sabendo lidar com pessoas e a negociar com flexibilidade e competência em todos os contextos; 5) tenha inteligência emocional desenvolvida, incluindo perseverança, empatia, autocontrole e capacidade de gestão emocional coletiva; 6) demonstre disposição plena para o cumprimento simultâneo de multitarefas, propiciando capacidade de análises apuradas e de tomada de decisões; e 7) colabore em equipe de forma produtiva, sendo respeitoso e cordial, entendendo as características individuais e as peculiaridades das circunstâncias, promovendo ambientes criativos e empreendedores, resultantes de processos coletivos e cooperativos.

 

Em artigo anterior sobre o papel do educador contemporâneo, procurou-se demonstrar que a formação simplificada de um profissional, baseada somente em um conjunto de conteúdos e uma série bem delimitada de técnicas e procedimentos, já não é suficiente. Portanto, são demandadas a adoção pelas escolas de metodologias educacionais inovadoras e novas posturas do professor. Neste texto, a ênfase é centrada nos estudantes, especialmente em suas habilidades e competências imprescindíveis em uma sociedade onde a informação está totalmente acessível, instantaneamente disponibilizada e basicamente gratuita.

 

Neste contexto, educação no seu sentido mais amplo, incluindo o desenvolvimento de suas habilidades socioemocionais, se constitui em diferencial significativo, com impactos na capacidade dos futuros profissionais e de cidadãos em geral de enfrentarem, com sucesso, os desafios que lhes serão apresentados pela sociedade.

 

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Foto de Albert Einstein via Domínio Público em: https://commons.m.wikimedia.org/wiki/Category:Portraits_of_Albert_Einstein

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terça-feira, 7 de março de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 07:21

Papel do Educador Contemporâneo

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Victorian School Room

 

Como pensar o papel do docente nos tempos atuais em que o aluno é diferente do que ele era há poucas décadas atrás? Ou seja, os educandos já não são os mesmos e tampouco o mundo nos quais os estudantes estão imersos é parecido com antes. Há poucas alternativas ao educador, a não ser se reconfigurar para não se tornar inócuo ou mesmo deixar de existir.

 

Há uma mudança drástica de foco em direção a privilegiar as chamadas competências metacognitivas, habilidades interdisciplinares, transversais ou socioemocionais. Entre as características metacognitivas, destaco, a título de ilustração, aprendizagem independente, solução de problemas complexos, perseverança, autocontrole emocional e cumprimento simultâneo de multitarefas em equipe. Tais predicados são especialmente relevantes em missões envolvendo pensamento crítico, capacidade analítica, uso do método científico, comunicação, colaboração, criatividade, empreendedorismo, empatia, cordialidade, respeito e gestão da informação e de emoções.

 

As capacidades acima referidas, em geral, transcendem as possibilidades e pretensões do aprendizado tradicional, majoritariamente concentrado na transmissão simples de conteúdos. Educar tem se tornado mais complexo, porque abarca o imprescindível conteúdo acadêmico, mas introduz, adicionalmente, novas exigências e perspectivas. Atitudes, comportamentos e posturas são elementos transversais presentes nos processos de aprendizagem de praticamente todas as áreas do conhecimento e em todas as suas fases.

 

No passado recente, a formação de um profissional estava bastante centrada na aquisição de um conjunto razoavelmente bem delimitado de conteúdos previamente estabelecidos, somado a uma série conhecida de técnicas e procedimentos. Essa formação era considerada razoavelmente suficiente para atender as demandas previsíveis de um modelo de desenvolvimento econômico predominante no século XX. Na perspectiva Fordista/Taylorista, tal profissional findava atendendo ao mercado, gerando cidadãos minimamente satisfeitos. Não mais. O mundo mudou rapidamente, os principais desafios contemporâneos apresentam ingredientes basicamente imprevisíveis.

 

Ingressamos em uma sociedade onde a informação está, cada vez mais, totalmente acessível, instantaneamente disponibilizada e basicamente gratuita. Tão ou mais relevante do que aquilo que foi aprendido (associado genericamente à cognição) é o amadurecimento da consciência, por parte do educando, acerca dos mecanismos segundo os quais ele melhor aprende (metacognição). Aprender a aprender passa a ser tão ou mais relevante do que simplesmente aprender. Mais relevante do que o conteúdo aprendido é a percepção acerca de como se aprende. Em um mundo de educação permanente ao longo da vida, a formação metacognitiva se constitui em um diferencial significativo na capacidade dos futuros profissionais de enfrentar os problemas que lhes serão apresentados pela sociedade contemporânea.

 

Explorar a metacognição vai além dos procedimentos usuais de transmissão simples do conhecimento, privilegiando a curadoria precisa e eficiente do conteúdo disponibilizado e a adoção de abordagens emancipadoras, especialmente aquelas baseadas em aprendizagem independente. Essa estratégia passa por enfatizar elementos motivacionais, incluindo atenção especial a trabalhos colaborativos (capacidade de produzir em equipe) e em aspectos interdisciplinares (habilidade de estabelecer conexões entre diversas áreas do saber), acrescidos de relevância de comportamentos como tolerância e compaixão (empatia aplicada, isto é, entender o outro por se colocar na posição do outro e agir em função disso). São também relevantes os estímulos à visão empreendedora (criativa conjugada com exequibilidade e sustentabilidade) e o especial domínio de linguagens e de plataformas digitais.

 

Cabe ao educador ampliar as competências e habilidades que habilitam o educando a enfrentar, sem medo, as imprevisíveis novas realidades. Preparar os docentes para explorar essas especiais capacidades é um dos maiores desafios da educação contemporânea e ainda estamos aprendendo a formar adequadamente tais professores. O drama é que temos pouco tempo e estamos atrasados. Esse educador é imprescindível imediatamente para a geração de profissionais e cidadãos aptos a colaborarem com uma sociedade mais justa e harmônica, com desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável.

 

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Figura “Victorian School Room”em Domínio Público. Ver: https://47thpennsylvania.files.wordpress.com/2016/04/victorian-era-classroom-c-1860s-public-domain.jpg?w=240

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quarta-feira, 1 de março de 2017 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 19:49

O país do futuro está apaixonado pelo seu passado

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Motaanos60

 

Na semana passada fui assistir à peça “60! Década de Arromba – Doc Musical”, dirigida por Frederico Redar e roteiro de Marcos Nauer, com participação especial da cantora Wanderléa. A peça com 22 atores e que envolve mais de 60 profissionais na sua execução é altamente recomendável, mas o que mais me impressionou não estava no palco, e sim na plateia. É incrível a reação do público presente, atestando aquilo que um dia descrevi como sendo a confirmação de um país, que se proclamava como sendo do futuro, apaixonado pelo seu passado. Os aplausos eram dirigidos tanto aos atores como àqueles que aplaudiam a si mesmos por terem vivido e ajudado a construir aquela época.

 

Uma leitura possível, não a única, seria que há uma sensação coletiva neste momento no Brasil de que, mais uma vez, o almejado futuro não se materializou. Ou seja, o sonhado desenvolvimento econômico, social, ambiental e cultural sustentável dá espaço ao sabor de profunda frustração e ficamos, mesmo os mais otimistas, no aguardo de um novo ciclo, cuja data de inauguração não foi sequer anunciada.

 

Sabemos crescer, mas não sabemos fazê-lo de forma sustentável. Temos riquezas, naturais e humanas, reconhecidas mundialmente, mas elas parecem periodicamente perder para nossas persistentes deficiências e fragilidades. Identificar as complexas causas das recorrentes derrotas é tarefa hercúlea e fruto de muita controvérsia.

 

Tal cenário, onde a esperança parece adormecida, é acompanhado de modesta inspiração para produção cultural de qualidade. Um destacável reflexo de nossa pobreza cultural contemporânea são nossos olhos voltados ao passado como nunca. No campo da música, jamais se ouviu com tanto vigor os artistas das décadas de 60 e 70. No teatro, particularmente os musicais, é sintomático que quase todos os grandes sucessos dos últimos anos estejam dedicados a recuperar a vida de artistas daquela época.

 

Essa não é a única leitura possível. Outra seria que o que envelheceu foram as nossas réguas, nossos medidores das coisas, nas suas intensidades e qualidades. Olhar para o futuro querendo encontrar o passado, ou os sonhos dele, em geral, é naturalmente frustrante. Há algo escondido no futuro, que embora já presente, não consegue aflorar porque, de certa forma, o passado ainda não foi embora. Nunca nossas mazelas estiveram tão expostas e jamais as informações estiveram tão acessíveis a tantos com capacidade de modificá-las. Como essas novas condições farão emergir comportamentos inéditos e atitudes pioneiras ainda não está tão claro, mas é evidente que o novo virá.

 

Seja o que for que vier, terá no seu lado educacional termos conseguido, ainda que com qualidade precária, universalizar a educação fundamental e ampliado de forma significativa o acesso ao ensino superior. A população aprendeu, à sua maneira, enfrentar crises e gerar alternativas empreendedoras de sobrevivência. Além disso, geramos um caldo cultural que adora tecnologias digitais, sabe usá-las e, se tiver acesso à internet de qualidade e a baixo custo, os impactos serão incrivelmente positivos.

 

Sem dúvida falhamos em conjugar qualidade e quantidade. Permanecemos sendo um dos países de maior contraste social do planeta e pagamos um preço alto por isso, especialmente na segurança, ou na falta dela. Quando universalizamos ou ampliamos de forma significativa, o fizemos com rebaixamento de qualidade. Quando ofertamos qualidade, o fizemos para poucos, muito poucos.

 

A melhor maneira de nos ligarmos no futuro é enfrentarmos o desafio de inovar, fazendo o que jamais fizemos antes, propiciando acesso à educação e saúde de qualidade para muitos. Por isso, permanecem as esperanças em um futuro que já começou, embora os motivos das boas expectativas não estejam ainda tão evidentes.

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