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Arquivo de outubro, 2016

segunda-feira, 24 de outubro de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 16:56

ENEM: réguas do passado e do futuro

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O Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM foi introduzido há dezoito anos com o intuito inicial de medir a qualidade do ensino médio. A partir da década passada, aos poucos, transformou-se, quase que exclusivamente, em teste nacional de admissão ao ensino superior. Não há nenhum conflito essencial impedindo que ele possa cumprir bem os dois papeis. As questões mais relevantes são: primeiro, saber o que se está medindo e, segundo, se a régua utilizada para mensurar, que finda induzindo o que as escolas devem fazer ou priorizar, tem compatibilidade com o presente e o futuro ou com o passado.

 

O exame atualmente abrange um público de quase oito milhões de candidatos, com interesses concentrados nas mais de 250 mil vagas das universidades públicas e nas milhões de outras oportunidades de ingresso no ensino superior privado. Na ausência de uma base nacional comum curricular para o ensino médio, o conteúdo do ENEM, um instrumento de acesso ao ensino superior, findou sendo a referência quase única do que é, ou deveria ser, ensinado nesse nível educacional.

 

Vivemos um mundo em transformação rápida e profunda, marcado pelo acesso ilimitado, instantâneo e gratuito à informação. A consequência educacional é que, diferentemente do passado, onde boa parte da formação de um profissional estava centrada em dotá-lo de um conjunto delimitado de conteúdos, técnicas e procedimentos, hoje, igualmente relevante é educar tendo em vista aumentar a sua capacidade de, a partir dos dados plenamente disponibilizados, resolver problemas e enfrentar desafios, além de aprender a aprender de forma contínua.

 

O ENEM começou em 1998 como exame de um dia só com poucas (63) questões de múltipla escolha, em geral multidisciplinares, e uma redação dissertativa. Essas questões exigiam menos memória sobre os conteúdos específicos envolvidos e demandavam mais raciocínio, dado que muitas vezes os próprios enunciados, à luz de uma boa capacidade de interpretação de texto, embutiam parte das respostas. De forma progressiva, e mais enfaticamente a partir de 2009, adotou-se uma cobrança maior por memória e por profundidade no domínio de matérias específicas como matemática, física, química, biologia, língua estrangeira, história, geografia e redação. Atualmente, são mais questões (180) e a redação, desenvolvidas na forma de um vestibular tradicional de dois dias.

 

O ENEM tem funcionando como atestado formal de proficiência em itens disciplinares supostos essenciais a ingressantes em cursos superiores. Adicionalmente ao fato de que nem todos que concluem o ensino médio pretendem cursar ensino superior, o drama é que tais elementos estão tipicamente associados à formação profissional do século passado. No passado recente, um conjunto razoavelmente delimitado de conteúdos, técnicas e procedimentos caracterizavam, de forma quase suficiente, um formando do ensino superior preparado para atender as demandas da época. Isso mudou, está mudando e mudará ainda muito mais. Precisamos de réguas capazes de medir, além dos conhecimentos específicos, o nível de amadurecimento da consciência do educando acerca dos mecanismos segundo os quais ele aprende, bem como o preparo para lidar com informações plenamente disponíveis e a capacidade de não temer enfrentar desafios, demonstrando estar preparado para uma realidade de educação permanente ao longo da vida.

 

Um ENEM que seja compatível com o mundo contemporâneo e projete o futuro deverá conter questões e desafios onde as respectivas soluções dependam de elementos que possam ir além, ainda que incluam, o domínio de conteúdos específicos. Em outras palavras, necessitamos de réguas capazes de também identificar e mensurar a capacidade do uso da lógica e do raciocínio crítico, a habilidade em interpretar e analisar textos fazendo uso dos dados disponibilizados, e o nível de desenvolvimento de outros atributos que transcendem o domínio simples de conteúdos específicos.

 

(Figura: Domínio público, em http://www.create.ac.uk/blog/2014/09/25/valuing-the-public-domain-a-workshop-for-uk-creative-firms/)

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terça-feira, 18 de outubro de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 08:17

Os 300 de Esparta e modelos de gestão

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Lendas e mitos nos ajudam a entender o presente e lançam luz sobre o futuro. Por vezes, símbolos simples são capazes de descrever coisas ou materializar ideias mais e melhor do que longos discursos.

 

As cidades-estados da Grécia Antiga, entre elas Esparta e Atenas, viviam permanentemente aterrorizadas por uma possível invasão dos persas. Em 480 a.C., ocorreu a guerra entre a aliança liderada pelo rei de Esparta, Leônidas I, e os persas. Na Batalha de Termópilas, os persas haviam deslocado um enorme exército, centenas de milhares de homens, para, finalmente, conquistar toda a Grécia. Com um número desproporcionalmente menor de soldados, cabia aos gregos, mais uma vez, resistirem aos invasores. Rei Leônidas, num certo momento, liberou seu exército e enfrentou os persas com apenas 300 espartanos, além de alguns téspios e tebanos. Ainda que derrotados nessa batalha específica, ao final, os gregos saíram vitoriosos, sendo que a lenda dos 300 guerreiros de Esparta teria sido a principal inspiração de patriotismo, de coragem e, principalmente, de eficiência.

 

Além da capacidade de se defender ou de atingir os inimigos, o que marcou aqueles guerreiros foi, especialmente, ajudarem-se uns aos outros. A solidariedade invulgar dos guerreiros de Esparta fez com que eles resistissem e, mesmo derrotados, se transformassem em lenda, dado que o atraso no avanço das tropas persas permitiu que os gregos se organizassem para os momentos seguintes. Assim, a passagem do herói individual a cidadão foi reforçada pela mudança da tática militar nas batalhas. O herói que demonstrava sua superioridade individual foi substituído pela tática da falange de vários homens, os quais não mais deviam se preocupar com o valor individual, mas substituí-lo pela submissão ao espírito de comunidade.

 

Várias iniciativas interessantes têm adotado como fonte de inspiração esses guerreiros. Recentemente, um professor de matemática da UnB, Ricardo Fragelli (ver: https://www.youtube.com/watch?v=gay6TYwVwf4), liderou o Projeto 300, o qual consiste em uma metodologia inovadora de ensino, que busca a partir da aprendizagem ativa e colaborativa melhorar o desempenho dos estudantes em matemática. Inspirados pelos 300 de Esparta, os estudantes que se saem bem na primeira avaliação do semestre ajudam os demais que tiveram notas mais baixas, preparando-os para segunda avaliação. E ganham pontos por isso, valorizando a solidariedade coletiva tanto quanto as boas notas individuais.

 

Os campos de aplicação dos mitos e lendas são ilimitados. Eles se aplicam também em modelos de gestão, os quais dizem respeito ao conjunto de normas e princípios que orientam os gestores na escolha das melhores alternativas para levar a empresa a cumprir sua missão com máxima eficiência e eficácia. O cumprimento dessa tarefa dependerá fortemente da cultura organizacional, ou seja, do conjunto de valores, crenças e princípios compartilhados pelas pessoas que fazem a organização. Fazer gestão, portanto, é fazer escolhas, incluindo selecionar como os indivíduos são motivados para perseguir seus objetivos.

 

O mais influente modelo contemporâneo de gestão é baseado em cumprimento de metas. Estas devem estar acopladas a um conjunto de objetivos inter-relacionados. Para serem consideradas boas metas, em princípio, elas devem ser mensuráveis e acordadas entre os diretores, os gestores responsáveis e os demais colaboradores subordinados. No campo educacional, é extremamente complexo mensurar o seu objetivo principal associado ao processo de emancipação do educando, para o que não há métrica definida. Para complicar ainda mais, as trajetórias de aprendizagem são únicas, sendo que cada um aprende de maneira cada vez mais personalizada.

 

Um equívoco bastante comum para quem não prestar a devida atenção no exemplo dos 300 guerreiros de Esparta é gerar metas individuais isoladas e não correlacionadas coletivamente, tal que deixe de ser especialmente premiada a solidariedade entre todos. Metas que não privilegiam objetivos coletivos e elementos de solidariedade ativa findam por estimular o egoísmo e correm o risco de gerar eventuais resultados parciais satisfatórios ao lado de missões finais gerais fracassadas. Como se vê, mitos convivem conosco no dia-a-dia e podemos e devemos utilizá-los para aprender ao longo de toda a vida.

 

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domingo, 9 de outubro de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 11:28

Pais e filhos em um Brasil em transe

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Dizem que ao contar sobre sua aldeia, fala-se também do mundo. Da mesma forma, ao relatar a vida pessoal, expressamos um pouco a história de toda uma geração. Claro que cada aldeia é diferente, bem como as trajetórias individuais são todas distintas, mas, de fato, há algo de global nos pequenos lugarejos e de padrão quase geral nas particularidades de cada um que frequenta a mesma época.

 

A infância em Assis, distante 444 Km de São Paulo, era cercada pelo sonho dos pais, pequenos comerciantes de primário completo, de que o caminho do sucesso dos filhos estava necessariamente associado à possibilidade de concluir ensino superior na capital. Tinham eles clareza, na década de 1970, que esse desejo seria mais facilmente viabilizado se os filhos pudessem frequentar um ensino médio particular de qualidade em São Paulo. Os esforços seriam enormes, mas estudar em colégios privados como o Bandeirantes justificaria o sacrifício, compensado amplamente pela quase garantia de ingresso em instituições públicas de qualidade como a Universidade de São Paulo.

 

Pais orgulhosos desfilavam na avenida principal do interior com a certeza de que a nova geração, graças às parcas economias geradas no comércio local, estava no caminho de uma escolaridade desproporcionalmente acima da geração deles. Seus filhos tinham agora o Brasil inteiro como destino. Se as credenciais incluíssem um mestrado ou doutorado, qualquer estado da federação seria boa opção e a estabilidade do serviço público uma benção. Se, por ventura, as universidades federais pudessem acolher seus filhos como docentes, o orgulho deles seria incontido, refletindo uma nação cuja nova geração, em termos de escolaridade e emprego, tinha ido muito além da anterior.

 

Por sua vez, para os filhos dessa geração, cursar ensino superior neste século XXI passava a ser quase obrigação ou obviedade. Seja pela multiplicidade de oferta ou pelas induções do ambiente doméstico já escolarizado, esse caminho transformava-se, de forma natural, em padrão. De novo, quanto mais especializados fossem, melhores oportunidades surgiriam. Agora as rodovias, que anteriormente levavam à capital, se transformavam nos aeroportos que conduziam a novos portos e horizontes. As perspectivas continuavam existindo em todos os lugares, mas, no início desta década, estudar e morar no exterior constituíam diferenciais que amplificavam possibilidades.

 

Nos tempos atuais, frustrados por um anunciado desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável que ainda não veio, os cenários de novo se alteram rapidamente. As opções em termos de formação acadêmica e oportunidades de trabalho dos filhos diferem das nossas tanto quanto, ou mais, do que as nossas diferiram de nossos pais. Trabalhar no exterior, hoje, cruza a barreira da ideia do estágio provisório na preparação do retorno e passa a se constituir em opção talvez permanente e definitiva. Este fenômeno é cristalizado, especialmente, aos jovens profissionais mais talentosos, dadas as limitações de oportunidades satisfatórias de trabalho mais especializados no Brasil.

 

Nossos pais e nossos filhos delimitam, conosco ao meio, três gerações de um país que se transforma rapidamente, especialmente em termos de acesso à escolaridade e de oportunidades profissionais. Sabemos que temos bons motivos, mesmo quando não conseguimos explicitar bem quais sejam, para termos sempre esperanças no que está por vir no Brasil. No momento, mesmo assim, temos ainda pouca clareza sobre o que é reservado para esta geração. Mesmo porque este futuro próximo dependerá, essencialmente, daquilo que fizermos, ou deixarmos de fazer, neste capítulo em curso da história nacional.

(Figura em Domínio Público, ver: https://pixabay.com/p-161068/?no_redirect)

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terça-feira, 4 de outubro de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 15:08

Pegadas digitais do educando

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​Em complemento ao artigo anterior “Analítica da aprendizagem é parte da solução”, neste texto aprofundaremos acerca de como analisar e fazer bom uso dos dados deixados pelos alunos. Praticamente todos os estudantes de nível superior deixam pegadas digitais em tempo real, tanto aqueles na modalidade a distância, como os presenciais, os quais, em geral, também utilizam plataformas digitais de aprendizagem.

Se pretendemos explorar causas e efeitos educacionais, as estatísticas disponíveis são fundamentais para contribuir, complementarmente, com as análises. É viável identificar eventuais lacunas acadêmicas, individuais ou coletivas, e desafios podem ser apresentados aos docentes sobre como construir caminhos para superar as dificuldades observadas. Se as tarefas previstas aos educandos e as questões a eles formuladas forem adequadamente desenhadas, podemos desenvolver a arte de conhecer, em detalhes, o ambiente educacional e cada um de seus atores. A meta é desenvolver a maior multiplicidade possível de trilhas educacionais, permitindo a cada educando explorar os respectivos caminhos que gerem os melhores resultados em processos contínuos de aprendizagem.

Atualmente, já estão disponíveis ferramentas para visualização das redes de interação construídas a partir de fóruns de discussão, onde podemos, com alguma facilidade, identificar padrões de comportamento dos alunos. As diversas maneiras com que os educandos lidam com os desafios propostos são igualmente relevantes, incluindo seus ritmos, as atitudes gerais e as abordagens por eles escolhidas. Além disso, ao formular uma questão de múltipla escolha, paradoxalmente, a resposta que menos elucida ou contribui adicionalmente é a certa. Para tanto, as respostas erradas apresentadas como alternativas devem ter sido sofisticadamente pensadas a partir do objetivo de identificar as razões e motivações das escolhas. Identificaremos alunos cujas maiores dificuldades estão associadas à falta de atenção e dificuldade de concentração, outros nos quais as deficiências de letramento, português e matemática, representam os grandes limitadores para a aprendizagem, bem como alguns onde as fragilidades derivam da ausência de determinados conceitos ou conteúdos.

Se é verdade que uma resposta somente diz pouco sobre o educando, com um número suficiente de questões, somado ao que pode ser percebido das demais interações, podem os gestores dos cursos dispor de material suficiente para formular as melhores trilhas educacionais, customizadas para cada aprendiz e suas peculiares circunstâncias. Imprescindível que o educando também acompanhe as próprias análises e seja ativo no processo, permitindo que ele também se conheça melhor, ampliando seu nível de consciência acerca dos mecanismos segundo os quais ele aprende (metacognição). Desta forma, amadurecendo a sua capacidade de aprender a aprender, o que lhe será fundamental na aprendizagem permanente ao longo da vida. Destaque-se que é importante que se tenha um controle muito rígido com a ética envolvida na disponibilização e uso dos dados coletados. Garantir a privacidade de todos os envolvidos e que os propósitos educacionais sejam absolutamente os únicos envolvidos são obrigações intransferíveis da instituição.

Há muitos projetos interessantes em curso fazendo bom uso de analítica de aprendizagem, tanto no Brasil como no exterior. A título de exemplos ilustrativos, elenco três a seguir: (i) https://analytics.jiscinvolve.org/wp/, (ii) http://www.laceproject.eu/, e (iii) https://confluence.sakaiproject.org/display/LAI/Learning+Analytics+Initiative.

Analítica da aprendizagem é ferramenta imprescindível na construção e aprimoramento de metodologias educacionais inovadoras baseadas em processos de aprendizagem híbridos, flexíveis e customizados. Inovar, educacionalmente, é conjugar quantidade e qualidade, tornando possível um cenário onde todos os educandos possam aprender, a todos seja possibilitado aprender o tempo todo e, como resultado, cada educando aprenda de maneira otimizada e personalizada.

Foto: Domínio público (http://absfreepic.com/free-photos/student-learning-with-computer-in-classroom.html)

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