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Arquivo de junho, 2016

sábado, 25 de junho de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Ensino Superior, Inovação e Educação | 08:13

Oceano azul da educação privada

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Os mais de 8 milhões de matrículas do ensino superior brasileiro refletem principalmente um crescimento acentuado do setor privado nos últimos anos. Em especial, via as instituições educacionais ancoradas em empresas que têm procurado, cada qual a sua maneira, conjugar quantidade e qualidade.

 

Vivenciamos o ingresso acelerado em uma sociedade em que a informação está totalmente acessível e instantaneamente disponibilizada, na qual os perfis dos profissionais demandados se alteram profundamente. Neste novo cenário, o processo de aprendizagem é essencialmente reconfigurado visando a atender em grande escala a demanda de ensino personalizado em um contexto de educação permanente ao longo da vida. Os desafios contemporâneos passam a ser, principalmente, a geração de uma educação híbrida e flexível provedora de trilhas educacionais que consigam atender aos mais variados perfis e expectativas.

 

A educação flexível resulta dos pressupostos de que todos educandos aprendem, todos aprendem o tempo todo e, especialmente, cada um aprende de maneira pessoal e única. Para desenhar essas trajetórias personalizadas que maximizam o processo de aprendizagem é necessário uso intenso de tecnologia, liberar amarras burocráticas e estimular criatividades e experimentações. No entanto, como bem apontado pelo educador Edson Nunes, ex-Presidente do Conselho Nacional de Educação-CNE, as barreiras são enormes. Entre elas, os obstáculos criados de parte das profissões regulamentadas, ancorados em diretrizes curriculares nacionais rígidas, indutoras de conteúdos e abordagens. O Exame Nacional de Avaliação de Desempenho dos Estudantes, ENADE, completa o engessamento priorizando o específico, em detrimento do geral, num mundo em que o aprender a aprender é tão ou mais importante do que o que foi aprendido.

 

O setor público do ensino superior, pelas boas condições que reúne, teria condições de enfrentar esses problemas e apresentar soluções. No entanto, na prática, por limitações específicas e velocidades peculiares, resulta que temos hoje experiências localizadas que não escalam suficientemente para alterar o quadro vigente. O setor privado, por sua vez, é beneficiário do fenômeno de escala e da possibilidade de adoção rápida de tecnologias e metodologias inovadoras, bem como, em geral, é mais próximo no atendimento de demandas do mercado e do mundo do trabalho. As tecnologias digitais aplicadas aos processos educacionais, ao tempo que reduz custos, permitem ampliar qualidade e desenvolver modelos acadêmicos flexíveis. Neste mundo em que saber tratar muitos dados é essencial, a escala, ao contrário de reduzir qualidade, pode ser elemento indispensável para ampliá-la de forma criativa e sustentável.

 

As instituições educacionais brasileiras somente serão competitivas no mercado nacional se puderem atuar globalmente, sendo competentes no desenvolvimento de ambientes virtuais de aprendizagem e, desta forma, fazerem frente às empresas internacionais, altamente competitivas, já presentes no território nacional. Nenhuma delas, provavelmente, logrará enfrentar este desafio sozinha. Assim, mais relevante do que se digladiarem por espaços, o melhor caminho é a junção de esforços na consolidação do país enquanto produtor de conteúdos educacionais no estado da arte. Não há chance de sobrevida no mundo digital, a não ser na condição de usuário passivo e dependente, sem a capacidade de desenvolvimento de inteligência para entender os educandos, seja em suas fragilidades, suas potencialidades e seus desejos, e na capacidade de desenhar as trilhas educacionais correspondentes que melhor se adaptam a cada caso.

 

Em suma, há que se ir além das clássicas disputas no sangrento mar vermelho e enxergar além, explorando possibilidades de navegar conjuntamente em direção ao oceano azul.

  

Imagem de domínio público em: http://all-free-download.com/free-photos/download/drink_on_beach_204171_download.html

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quarta-feira, 15 de junho de 2016 Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 17:23

É o solo, estúpido!

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Em momentos de crise como estes que atravessamos neste momento no Brasil é bastante comum questionarmos nossa efetiva capacidade de promovermos um desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável. Ao que parece, conseguimos em alguns momentos crescer, mas não sabemos sustentar o crescimento, vivenciando períodos de euforia seguidos de depressão e vice-versa.

 

Há dois elementos, aparentemente contraditórios, que se destacam quando tentamos entender o tema em longo prazo. Parece evidente que um país sem educação adequada (nível de escolaridade e qualidade de ensino) inevitavelmente vai sofrer pelo subdesenvolvimento ou crescimento de curto prazo, resultantes da precariedade da mão de obra, dos maus serviços prestados pelo Estado e da incapacidade do setor produtivo em geral.

 

Por outro lado, é reconhecido que os recursos naturais que o Brasil tem fazem dele uma boa aposta em qualquer cenário futuro. Não há um argumento isolado para esta afirmativa, mas este conjunto de elementos favoráveis pode ser sintetizado em um de seus elementos: o solo, incluso nele todas as demais variáveis que o cercam.

 

Na campanha presidencial de 1992 de Bill Clinton, um de seus assessores, James Carville, cunhou a frase que viria a se constituir no mote da campanha: “É a economia, estúpido!”. Tal slogan traduziu o espírito daquele momento e mostrou ser fator decisivo para a vitória de Clinton sobre George Bush.

 

Nas discussões sobre o quão sustentável é ou pode ser o desenvolvimento brasileiro, da mesma forma, poderíamos resumir o diagnóstico do cenário futuro de maneira simplificada como: “É o solo, estúpido!”. Solo aqui representando todo o conjunto de condições que permitiriam promover um desenvolvimento sustentável ancorado na produção de alimentos, setor altamente competitivo que tende a ser cada vez mais estratégico no planeta Terra.

 

De forma resumida e simplificada, solo corresponde à camada superficial da crosta terrestre, item fundamental para o desenvolvimento da vida na terra, dado que dele retiramos os alimentos e demais itens necessários para nossa sobrevivência. Do ponto de vista econômico, a agroindústria, a agricultura familiar e outras formas de uso do solo são espaços de oportunidades, respondendo no seu conjunto por expressiva participação na riqueza do país, correspondendo a aproximadamente um terço do PIB e da geração de empregos e mais de 40% das exportações, gerando um saldo para a balança comercial de quase uma centena de bilhões de dólares. Esta notável posição expressa a vocação natural do país para a produção de alimentos, acrescida da qualidade do solo, incluindo clima favorável, água, relevo e luminosidade, e do fundamental conhecimento técnico e científico acumulado na área.

 

O Brasil, com seus 8,5 milhões de km2, dos quais menos de 30% são utilizados para agropecuária, é o país mais extenso da América do Sul e o quinto do mundo. Metade do território é ainda coberto por matas originais, permitindo explorar a possibilidade de uso racional e equilibrado do solo sem obrigatoriamente agredir o meio ambiente.

 

O solo fértil é a garantia da existência humana e a falta de consciência do homem no seu trato é um paradoxo. Visões individualistas, míopes ou de interesses de curto prazo têm gerado riscos de crise alimentar e de preservação do equilíbrio ecológico. O homem é um ser capaz de transformar conscientemente a natureza à sua volta e é, igualmente, capaz de estabelecer com ela uma política de uso consciente e duradouro.

 

Educação adequada, incorporação de conhecimento de fronteira e uso apropriado do solo representam simbolicamente a possibilidade real de um futuro com desenvolvimento sustentado para o Brasil. Até que atinjamos este nível, infelizmente, vivenciaremos períodos de euforia e depressão que se alternam.

Sobre a imagem: Burial chamber of Sennedjem, Scene: Plowing farmer, circa 1200 BCE [Public Domain]

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sábado, 4 de junho de 2016 Inovação e Educação | 08:40

Copacabana, diagonal do eclipse

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Copacabana, principal destino turístico do Brasil, é provavelmente uma das praias mais conhecidas do planeta, devendo constar de algumas listas de preferências fotográficas do mundo. Mesmo assim, ela, soberanamente, não perde sua austeridade, ou melhor, singelamente, se move ao ritmo das ondas, que sabem se deixar serem clicadas sem perder a graça ou a naturalidade.

 

Permanentemente se transforma, sem deixar de ser ela mesma. Um dia amanheceu sem a boate Help, no outro acordou repleta de stand-ups, bem como aguarda um Museu de Imagem e Som que se alonga no tempo. São mudanças que se anunciam e se completam incessantemente. Copacabana parece, pacientemente, suportar suas transições, certa de não perder nunca sua integridade mutante.

 

Copa um dia foi colônia de pescadores e o Posto Seis (que, curiosamente, não existe enquanto posto) nos lembra que permanece sendo. Na dúvida, um peixe fresco comprado no local, ainda hoje, nos comprova em definitivo tudo o que foi um dia.

 

As princesas que lhe seguem, Arpoador, Ipanema e Leblon, não lhe fazem sombra porque simplesmente com ela não competem. Não por não serem melhores, em alguns aspectos talvez o sejam, mas porque às princesas sábias não cabe lutar contra a rainha, especialmente se a sabem imortal.

 

Aquilo que gerou, o fez por assim ser. Os estilos musicais, a exemplo da Bossa Nova, refletiam, de alguma forma, a necessidade de tocar e cantar baixinho sem o que os vizinhos de Copacabana (e também de Ipanema, justiça se faça) reclamassem. Todos, sem exceção, movimentos culturais do país tiveram aqui seu especial espaço de expressão, criação e repercussão.

 

As festas de réveillon que abrem o ano em suas praias se estendem, de alguma forma, por todos os dias, a cada novo raiar de sol, quando tudo parece recomeçar neste Brasil. Ainda que tenhamos que conviver muitas vezes com as sujeiras, os maus tratos e algumas indesejáveis, inaceitáveis e deslocadas violências.

 

Ela, que renasce todos os dias ao alvorecer e que não vai dormir ao anoitecer, sabe fazer jus a todas as suas origens denominativas. Uns dizem que Copacabana teria origem no idioma quíchua, falado no Império Inca, significando “lugar luminoso” ou “mirante do azul”. Há quem diga que a origem seria da língua aimará, falada na Bolívia, cuja tradução seria “vista do lago”. Por sinal, há naquele país um lugar de mesmo nome no Lago Titicaca, que consta ter sediado cultos Incas dedicados a uma divindade Kopakawana, que protegia o casamento e a fertilidade das mulheres.

 

Se hoje Copacabana luta contra as intempéries das crises, sejam elas a nacional, a estadual, da indústria naval ou da indústria de óleo e gás, ela se lembra bem que tem enfrentado há quase um século o fechamento de cassinos, o movimento tenentista, as ditaduras e outras tantas intempéries. Há mais de meio século, o fim dos cassinos lhe parecia ser um golpe definitivo e que findou não sendo, bem como a crise atual também não terá esta competência de abalar sua beleza e vitalidade. Ela se refaz, como a beleza das rainhas austeras e eternas, sabendo se expressar pelas artes, pela vocação democrática e pela tolerância, em especial no respeito aos menos jovens.

 

Mais do que resistir, à sua maneira, Copacabana é um pouco a cara e a essência do Brasil, refletindo seus momentos de prosperidade e suas contradições. Neste momento, em que o país procura e encontrará seus caminhos, que ela saiba refletir de forma positiva as novas expectativas, construindo, com a sabedoria de uma rainha experiente, a diagonal de um eclipse que, por certo, atravessaremos.

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