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domingo, 13 de março de 2016 aprendizagem, Inovação e Educação | 10:16

Educação e tolerância política

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Não nascemos tolerantes, mas podemos sim aprender a sermos cada vez mais tolerantes. Ou seja, tolerância é algo que se ensina e é algo que se aprende. E se aprende sempre, ao longo de toda a vida. Particularmente, aos jovens é ainda mais relevante este conceito, dado que eles permanentemente testam a aplicação de conceitos abstratos a situações concretas.

Bobo e Licari são dois pesquisadores americanos que se dedicaram a este tema de forma sistemática (http://scholar.harvard.edu/bobo/files/education.pdf) e examinaram os efeitos da educação e da sofisticação cognitiva na extensão das liberdades civis a grupos inconformados ou indignados. De forma não surpreendente, eles identificaram efeitos positivos da educação nesses grupos e nas ações decorrentes, tanto para aqueles com pensamentos mais conservadores como mais progressistas. Segundo os autores, uma fração substantiva do efeito da educação no reforço da tolerância é mediada pela sofisticação cognitiva. Tais efeitos são ainda maiores quando as pessoas têm sentimentos negativos acerca dos grupos discordantes de suas ideias e de suas crenças.

Esse estudo citado evidencia de forma sistemática a relação entre educação e tolerância. Quanto maior o nível de educação da sociedade, mensurável pela escolaridade, expressa pelo número de anos na escola e qualidade do ensino, melhor para as instituições democráticas. Essa relação não é direta e nem simples ou imediata, no entanto, um nível de correlação é evidente, ainda que de natureza complexa.

Aparentemente são identificados pelo menos três dimensões ou mecanismos por meio dos quais educação impacta na qualidade dos processos democráticos: 1. nos valores e crenças individuais, onde é possível observar que pessoas mais educadas demonstram ser mais tolerantes à diversidade, elemento essencial ao estado democrático; 2. indivíduos mais escolarizados tendem a participar mais de processos democráticos, incluindo protestos políticos, o que contribui com enraizar os valores democráticos; 3. grupos mais educados têm uma melhor compreensão das características essenciais da democracia, aqui contidos os direitos das minorias e a liberdade plena de expressão.

Estudos em adultos evidenciam que características psicológicas, no que diz respeito aos níveis de tolerância, desempenham papel mais relevante do que variáveis outras como status social ou renda. Assim, pessoas com autoestima elevada tendem a ser menos dogmáticas e menos autoritárias. Da mesma forma, os níveis educacionais, em média, são bons preditores da capacidade de tolerância a ideias contrárias às convicções estabelecidas, evidenciando conexão entre maior escolaridade e maior conforto no convívio com crenças diversas.

O Brasil vive uma crise de dimensões econômicas e políticas superpostas e mais uma vez, em ambas, educação desempenha papel crucial. Do ponto de vista econômico, de forma muito breve, poderíamos traduzir, entre outras possíveis leituras, como uma crise de competitividade. Ou seja, porque somos menos escolarizados do que nossos competidores, temos uma produtividade mais baixa e, consequentemente, geramos produtos ou ofertamos serviços não competitivos, o que nos faz perder mercados, expondo-nos, como nação, a meros fornecedores de commodities. Isso em um cenário onde os valores agregados, decorrentes de aplicação intensiva do conhecimento, são os elementos definidores da capacidade de competir globalmente. De forma clara, na face econômica da crise pagamos um preço alto pela educação que deixamos de propiciar.

Na outra vertente da crise, a face política, de novo, a capacidade de superação destes difíceis momentos dependerá daquilo que formos capazes de construir, a partir da educação que estamos desenvolvendo em nosso cotidiano. Educação neste sentido não é algo estanque e dado a priori. Claro que os elementos formais de escolaridade contam, mas a educação produzida nas ruas e em curso também educa e contribui para melhorar (ou piorar, se malconduzida) nosso cenário político.

As melhores aulas práticas de democracia serão aquelas que materializam e solidificam nossos conceitos assimilados de formas mais abstratas até então. Assim, que aproveitemos as aulas em curso nas ruas para aprendermos cada vez mais e melhor. Nossos votos para que os exercícios práticos contribuam para elevar os níveis de tolerância, ampliem nossa educação política e culminem com maior capacidade reflexiva sobre o mundo que nos cerca.

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