Publicidade

Arquivo de março, 2016

quinta-feira, 31 de março de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 08:08

Monges copistas eram brilhantes, mas sumiram

Compartilhe: Twitter

Escribanofree

 

Os tempos contemporâneos são marcados pela profundidade e rapidez das mudanças em curso. Neste ambiente de informação plenamente acessível, instantaneamente disponibilizada e praticamente gratuita é absolutamente natural que atividades que estamos acostumados hoje sejam profundamente abaladas amanhã e que profissões que nos parecem eternas desapareçam, ou se tornem, raras brevemente.

 

Assim também foi no passado, ainda que em ritmo mais lento, quando grandes transformações se efetivaram. Uma das mais curiosas e ilustrativas diz respeito aos monges copistas. Esses monges eram totalmente dedicados à cópia de livros, os quais eram escritos à mão, utilizando penas de ganso e tinturas, decorados com pinturas e feitos sobre pergaminhos, ou seja, peles tratadas de carneiros ou cabras.

 

Essas cópias eram preparadas com especial esmero e, consequentemente, demoravam muito e os produtos finais resultavam extremamente caros, portanto, raros. Os monges copistas na Idade Média (séculos V a XV) eram cultos e faziam parte do extremamente seleto grupo que sabia ler e escrever. Na absoluta ausência de tecnologias que fizessem este trabalho, os monges copistas acreditavam que ao copiarem os livros estariam prestando um serviço a Deus, esforço recompensado pela liberdade que tinham em ilustrar as obras. Em geral, o trabalho manual de cópia dos manuscritos na Idade Média era realizado no interior dos mosteiros, em um quarto chamado scriptorium, daí a terminologia com significado amplo da palavra escritório tal como adotamos hoje.

 

O século XV não trouxe boas novidades aos monges copistas. O final da Idade Média, o começo do Renascimento, as novas descobertas, o crescimento do contato com o mundo oriental e o acesso às novidades vindas da China, da Índia e do mundo árabe promoveram mudanças profundas. Entre elas, a introdução do papel, invenção chinesa barata, abundante e de fácil recorte e manuseio.

 

Nos primeiros séculos da era cristã, a gravura em pedra e a produção de cópias eram dominadas pelos orientais, tanto pelos chineses como pelos coreanos e japoneses. Da mesma forma, usavam pranchas de madeira para gravar imagens e textos, os quais podiam ser reproduzidos por estampagens. Em torno do século XI, as primeiras impressões utilizando caracteres móveis começaram a ser adotadas na China, porém, dado serem os caracteres feitos de terracota precisavam ser substituídos a cada impressão, o que tornava o processo pouco prático e muito custoso. Houve tentativas na época de utilização de caracteres metálicos, mas mesmo assim muito dispendiosos.

 

Interessante observar que antes do século XV os europeus simplesmente não se interessaram por essas novidades em curso na Ásia. Esse quadro se altera no século XV. O alemão Johannes Gutenberg não inventou, mas sim “reinventou” a imprensa e é considerado o homem que aperfeiçoou de maneira decisiva a arte asiática, dado que ele desenvolveu os caracteres móveis de chumbo, que podiam ser utilizados indefinidamente, além de uma nova tinta de impressão e a prensa de imprimir. Com isso, mudou definitivamente o mundo dos livros, em todas as suas dimensões e consequências: política, econômica, social e religiosa. A partir de Gutenberg, uma nova história se desenvolve e os livros, antes raros, se tornaram abundantes porque baratos e de muito mais fácil manuseio, seja na fabricação ou sua utilização mais direta. Por sua enorme contribuição, Gutenberg pode ser chamado de pai da tipografia e do livro moderno.

 

Bem, e como ficaram os brilhantes e competentes monges copistas após Gutenberg? Eles foram se tornando cada vez menos necessários e praticamente desapareceram poucas gerações depois. Os tempos atuais reproduzem, à luz das tecnologias digitais, quadros muito similares e a história dos monges copistas se repetirá em escala muito maior em praticamente todas as ocupações atuais. O certo é que as atividades humanas em geral serão atingidas, umas mais rapidamente, outras perdurarão um pouco mais, mas todas as profissões, de alguma forma, serão revistas e algumas simplesmente desaparecerão.

Autor: Tags:

segunda-feira, 21 de março de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 21:15

Trabalhar em equipe se aprende na escola

Compartilhe: Twitter

Os seres humanos, desde as primeiras civilizações, sempre sobreviveram graças ao trabalho em grupo. Sem esse ingrediente, talvez, sequer tivéssemos existido enquanto espécie. A arte de armazenar o fogo, a eficiência das caças coletivas e até mesmo as inscrições rupestres deixadas nas cavernas foram algumas das marcas coletivas dos povos primitivos, cujas práticas nos permitiram chegar onde estamos hoje.

Assim, não há novidade na relevância do trabalho em equipe em nossa sociedade. No entanto, os processos ensino e aprendizagem, em geral, exploram muito pouco esta característica humana, sendo que a organização da escola tem desprezado este potencial, muitas vezes reprimindo-o. A escola tradicional supervaloriza a aprendizagem individual no processo de ensino via salas de aulas com alunos basicamente passivos e, especialmente, nos métodos avaliativos normalmente adotados.

Não chega a ser surpreendente que as organizações empresariais se anteciparam à escola na percepção da recente relevância do trabalho em equipe, reconhecido hoje como elemento estratégico e crucial nas instituições mais modernas e inovadoras. Na prática, findou-se por descobrir fora do ambiente escolar elementos interessantes como o fato que na maior parte dos casos estudados a equipe tende a ter maior sucesso quando composta por grupo entre cinco a nove membros. Da mesma forma, contrariando o senso comum, maior diversidade cultural, incluindo de gênero, étnica e de faixa etária, tende a gerar melhores resultados.

Além disso, as companhias se viram obrigadas a repensarem hierarquias clássicas, dado que, graças às tecnologias digitais, as equipes conseguem uma dinâmica que sugere um nível de horizontalização inédito, viabilizando soluções em tempos bem menores se comparados com o cumprimento de rituais clássicos cristalizados. Por fim, os conceitos de líder e liderança se adaptam aos novos tempos e assumem características inéditas, entre elas que o líder nem sempre é o mesmo ao longo de toda a missão e que o excesso de liderança individual pode gerar inibição dos demais, podendo mesmo, no limite, ser prejudicial.

As escolas gradativamente estão incorporando trabalho em equipe como elemento cada vez mais presente em seus processos educacionais. No entanto, avaliar trabalho em equipe é, de fato, sempre complexo, mas é possível ser bem executado em ambientes escolares que reconhecem nesta estratégia elemento essencial do processo de aprendizagem. Uma sugestão inspiradora, entre várias, para avaliar equipes vem da observação de bandas de jazz. Interessante observar que qualquer público atento, apreciador de boa música, sabe muito bem identificar diferenças entre uma banda que tem boa qualidade e outra de menor valor. Tão importante quanto isso, se todos os componentes tocarem solo, também saberão, razoavelmente, identificar quem toca bem e quem não executa tão bem.

Trabalhar em equipe viabiliza algo imprescindível nos tempos atuais, a aquisição e a construção coletivas do conhecimento, práticas nas quais o aluno se relaciona de forma diferente com o saber e quando as relações interpessoais desempenham papel preponderante. No trabalho em grupo, além do domínio do conhecimento, o aluno desenvolve várias habilidades, entre elas, aprender a avaliar, decidir, considerar as opiniões dos demais e, especialmente, compartilhar acerca das próprias práticas, dominando melhor os mecanismos segundo os quais ele aprende. Essas competências são cruciais para a vida, seja como profissional ou cidadão.

Em suma, trabalhar em equipe se aprende na vida, mas pode e deve ser estimulado e aprimorado na escola, e avaliar coletivamente deve ser um instrumento adicional de estímulo ao aprendizado. Preparar profissionais e cidadãos para um futuro que se avizinha torna imprescindível incluir trabalhos em grupo de forma sistemática com uso de metodologias que explorem soluções de problemas ou realizações de projetos.

Autor: Tags:

domingo, 13 de março de 2016 aprendizagem, Inovação e Educação | 10:16

Educação e tolerância política

Compartilhe: Twitter

Não nascemos tolerantes, mas podemos sim aprender a sermos cada vez mais tolerantes. Ou seja, tolerância é algo que se ensina e é algo que se aprende. E se aprende sempre, ao longo de toda a vida. Particularmente, aos jovens é ainda mais relevante este conceito, dado que eles permanentemente testam a aplicação de conceitos abstratos a situações concretas.

Bobo e Licari são dois pesquisadores americanos que se dedicaram a este tema de forma sistemática (http://scholar.harvard.edu/bobo/files/education.pdf) e examinaram os efeitos da educação e da sofisticação cognitiva na extensão das liberdades civis a grupos inconformados ou indignados. De forma não surpreendente, eles identificaram efeitos positivos da educação nesses grupos e nas ações decorrentes, tanto para aqueles com pensamentos mais conservadores como mais progressistas. Segundo os autores, uma fração substantiva do efeito da educação no reforço da tolerância é mediada pela sofisticação cognitiva. Tais efeitos são ainda maiores quando as pessoas têm sentimentos negativos acerca dos grupos discordantes de suas ideias e de suas crenças.

Esse estudo citado evidencia de forma sistemática a relação entre educação e tolerância. Quanto maior o nível de educação da sociedade, mensurável pela escolaridade, expressa pelo número de anos na escola e qualidade do ensino, melhor para as instituições democráticas. Essa relação não é direta e nem simples ou imediata, no entanto, um nível de correlação é evidente, ainda que de natureza complexa.

Aparentemente são identificados pelo menos três dimensões ou mecanismos por meio dos quais educação impacta na qualidade dos processos democráticos: 1. nos valores e crenças individuais, onde é possível observar que pessoas mais educadas demonstram ser mais tolerantes à diversidade, elemento essencial ao estado democrático; 2. indivíduos mais escolarizados tendem a participar mais de processos democráticos, incluindo protestos políticos, o que contribui com enraizar os valores democráticos; 3. grupos mais educados têm uma melhor compreensão das características essenciais da democracia, aqui contidos os direitos das minorias e a liberdade plena de expressão.

Estudos em adultos evidenciam que características psicológicas, no que diz respeito aos níveis de tolerância, desempenham papel mais relevante do que variáveis outras como status social ou renda. Assim, pessoas com autoestima elevada tendem a ser menos dogmáticas e menos autoritárias. Da mesma forma, os níveis educacionais, em média, são bons preditores da capacidade de tolerância a ideias contrárias às convicções estabelecidas, evidenciando conexão entre maior escolaridade e maior conforto no convívio com crenças diversas.

O Brasil vive uma crise de dimensões econômicas e políticas superpostas e mais uma vez, em ambas, educação desempenha papel crucial. Do ponto de vista econômico, de forma muito breve, poderíamos traduzir, entre outras possíveis leituras, como uma crise de competitividade. Ou seja, porque somos menos escolarizados do que nossos competidores, temos uma produtividade mais baixa e, consequentemente, geramos produtos ou ofertamos serviços não competitivos, o que nos faz perder mercados, expondo-nos, como nação, a meros fornecedores de commodities. Isso em um cenário onde os valores agregados, decorrentes de aplicação intensiva do conhecimento, são os elementos definidores da capacidade de competir globalmente. De forma clara, na face econômica da crise pagamos um preço alto pela educação que deixamos de propiciar.

Na outra vertente da crise, a face política, de novo, a capacidade de superação destes difíceis momentos dependerá daquilo que formos capazes de construir, a partir da educação que estamos desenvolvendo em nosso cotidiano. Educação neste sentido não é algo estanque e dado a priori. Claro que os elementos formais de escolaridade contam, mas a educação produzida nas ruas e em curso também educa e contribui para melhorar (ou piorar, se malconduzida) nosso cenário político.

As melhores aulas práticas de democracia serão aquelas que materializam e solidificam nossos conceitos assimilados de formas mais abstratas até então. Assim, que aproveitemos as aulas em curso nas ruas para aprendermos cada vez mais e melhor. Nossos votos para que os exercícios práticos contribuam para elevar os níveis de tolerância, ampliem nossa educação política e culminem com maior capacidade reflexiva sobre o mundo que nos cerca.

Autor: Tags: