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domingo, 24 de janeiro de 2016 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 06:53

Os bastidores da Finlândia e os atalhos do Brasil

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Durante a semana passada, em Londres, tive a oportunidade de participar, enquanto convidado da CISCO, da Exposição BETT (em inglês, “British Educational Training and Technology Show”). Ela é considerada, desde 1985, uma das mais importantes feiras na área de tecnologias na educação, atraindo algo em torno de 40 mil visitantes de mais de uma centena de países.

O Programa da delegação brasileira CISCO deste ano incluiu uma visita com palestras e debates no Institute of Education (IoE), classificado recentemente pelo “Times Higher Education Ranking” como a melhor instituição do mundo na área de educação. Professor David Scott do IoE, uma das maiores autoridades em teorias de aprendizagem e meu co-autor no livro “Educando para Inovação e Aprendizagem Independente”, argumentou à delegação brasileira que seria pouco recomendável ao Brasil definir suas estratégias educacionais na educação básica tendo como referência principal melhorar seus indicadores no PISA. A explicação dele para não exagerarmos na ênfase ao PISA tem a ver com o caso Finlândia e seus bastidores.

A Finlândia é sempre uma referência importante em educação. Pelo seu passado e mais recentemente pelo que está fazendo ao se preparar para o futuro. A Finlândia entrou no século XXI liderando os resultados do PISA (Programa Internacional para a Avaliação de Estudantes da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico/OCDE). Curiosamente, desde então, tudo se passa como se a Finlândia, quase que propositalmente, caísse de forma sistemática no ranking. A grande percepção dos gestores da educação finlandesa foi suspeitar que o sucesso no PISA poderia, eventualmente, inibir mudanças necessárias e urgentes. Ou seja, a régua do PISA, provavelmente, mede melhor qualidades e expectativas do passado do que os predicados e exigências do futuro.

A Finlândia tem sido ultrapassada no PISA por outros países (Cingapura, Hong Kong, Taiwan, Coréia do Sul e Japão), mas as escolas finlandesas têm adotado, sem receio, metodologias ativas inovadoras que estimulam a aprendizagem independente. Parte significativa das aulas tradicionais são substituídas pelo desenvolvimento de projetos temáticos nos quais os alunos refletem principalmente acerca do processo de aprendizagem em si.

Os formuladores de políticas educacionais e os docentes da Finlândia parecem saber melhor do que os demais países que a forma tradicional de educação, basicamente estruturada em aulas expositivas sobre disciplinas estanques, ainda que com um passado vitorioso, não mais prepara adequadamente as crianças e os jovens para o futuro. A necessidade do desenvolvimento da capacidade de pensamento transdisciplinar, ou seja, olhar os mesmos problemas a partir de perspectivas e ferramentas diferentes, ao mesmo tempo que o educando aumenta a percepção acerca dos mecanismos segundo os quais ele aprende (metacognição, ou aprender a aprender), compõem as estruturas centrais da nova metodologia.

São mudanças complexas e que afetam a todos, em particular os professores, os quais passam a ter, relativamente, menos controle sobre os cursos, demandando que necessariamente eles trabalhem de forma colaborativa entre si e, especialmente, com seus alunos. Gradativamente, os mestres deixam de ter como atribuição principal as aulas expositivas (embora elas permaneçam, em algum nível, existindo) e, cada vez mais, se assemelham à figura de preceptores. Seja enquanto aqueles que acolhem e ajudam o educando a entender a si mesmo e a refletir sobre sua própria aprendizagem, ou então aqueles que promovem a mentoria, especialmente conectando e ajudando a integrar as disciplinas e conhecimentos fragmentados. Assim, cabe aos docentes atuar junto a seus alunos para extrair da multidisciplinaridade e das posturas metacognitivas os ingredientes principais para que eles possam aprender a, autonomamente, resolver problemas e desenvolver projetos.

Em suma, olhemos para a frente, respeitemos as enormes diferenças de realidades, dado que, certamente, temos no Brasil muitas trilhas básicas ainda por cumprir, ao mesmo tempo que temos que enfrentar complexidades similares às finlandesas. Sem isso, a chance de errar por adotarmos remédios inadequados é muito alta. Felizmente, o Brasil, em princípio, tem sim atalhos possíveis e bons ingredientes. Precisamos saber com clareza onde queremos chegar, conhecer bem outras experiências e definir o quanto estamos dispostos a ousar na educação.

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