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Arquivo de dezembro, 2015

domingo, 27 de dezembro de 2015 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 14:21

O futuro que começou semana passada

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As tecnologias digitais promovem uma revolução profunda, rápida e totalmente abrangente. Nenhum setor da sociedade deixará de ser atingido fortemente, alguns antes e outros depois. Educação é um desses setores relativamente tardios, mas, sendo a marca dos novos tempos a disponibilização plena, instantânea e gratuita de informação, as consequências nos processos de ensino e de aprendizagem serão de grande escala.

Para que possamos educar para o futuro, é preciso exercitar ao máximo as reflexões acerca de como ele pode eventualmente vir a ser. No campo da economia, as transformações que assistimos contemporaneamente são meras sombras do que está por acontecer. Sombras porque traduzem reflexos de algo verdadeiro, mas a real dimensão do novo objeto ainda precisamos conferir. A tensão crescente entre o advento do ilimitado conhecimento, fruto da abundante informação, versus a concepção de mercado, centrada na escassez da oferta que estimula a posse privada, expressa a grande contradição que o capitalismo haverá ainda de enfrentar.

Para citar um único exemplo, aquilo que se convencionou chamar de “internet das coisas” oculta uma nova realidade onde o conhecimento e a possibilidade de conexões presentes no objeto serão muito mais importantes e valorizados do que o objeto propriamente. Karl Marx, pensador do séc. XIX, talvez venha a ser mais lembrado no futuro pelo texto Fragments on Machines do que pelo seu clássico “O Capital”. No texto Fragmentos, Marx explora um cenário onde máquinas produzem e pessoas supervisionam, contexto no qual a força produtiva principal seria a informação. O conflito central não seria mais entre salário versus lucro, mas sim acerca do complexo controle do conhecimento “dentro” das máquinas e o interesse de que ele seja privado ou social.

Recentemente, Paul Mason na obra PostCapitalism trata da economia depois do capitalismo em uma sociedade imersa no mundo das tecnologias digitais, destacando as dificuldades das economias tradicionais, fundadas no mercado e na escassez de produtos e serviços, frente à inédita realidade de informação abundante e barata. Nesse novo contexto emerge uma economia baseada no compartilhamento e no conectivismo, o que estimula a formação de redes e ofende visões clássicas de individualismos e hierarquias. Da mesma forma, diferentemente da concepção marxista de proletariado, o novo agente motor de transformação social seria formado principalmente por pessoas educadas e conectadas.

As disputas atuais envolvendo Uber, Airbnb e similares podem ser somente prévias modestas de atritos significativos por vir, opondo monopólios, bancos e corporações, baseadas no privado e na escassez, versus a possibilidade crescente de acesso pleno a bens e serviços abundantes. Neste novo espaço, devem emergir formas sem precedentes de propriedades, de empregos, de empréstimos, de contratos legais coletivos e tácitos, viabilizando uma economia solidária de compartilhamento. Esta por sua vez baseada na formação de redes, dependente das múltiplas e ilimitadas conexões, e fruto de um universo de produção coletiva, estimulada por pares, os quais são simultaneamente produtores e usuários.

Por fim, produtos que hoje nem sequer assim se configuram podem passar a ter valores expressivos. Entre eles, a felicidade genuína. Passaremos talvez a valorizar mais experiências do que coisas, como bem descrito, por exemplo, pelos estudos de Thomas Gilovich da Universidade de Cornell. Se hoje, ilusoriamente, somos o que conseguimos adquirir em bens e títulos, é provável que no futuro, que começou semana passada, melhor possamos nos descrever como a soma total de nossas próprias experiências.

Um Feliz Ano Novo e um leve 2016 para todos!

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015 aprendizagem, Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 14:49

Temos uma crise, ou seja, há oportunidades educacionais

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As instituições de ensino se caracterizam, sobretudo, por serem complexas e diversificadas, vivendo numa espécie de “crise permanente”, refletindo um mundo de desafios sempre presentes. E as oportunidades estão associadas a continuar expandindo o acesso à educação em todos os níveis, em escala e em qualidade, mesmo quando o cenário externo indica aumento de desemprego e diminuição de poder aquisitivo.

Albert Einstein, talvez o mais brilhante cientista do século passado, pouco antes de seu falecimento, em 1955, deixou o seguinte comentário “Crise é a benção que pode ocorrer com as pessoas e países porque traz progressos. A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite. É na crise que nascem invenções, descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise, supera a si mesmo sem ficar superado. Sem crise não há desafios, sem desafios a vida é uma rotina. Sem crise não há méritos. É na crise que aflora o melhor de cada um. Falar de crise é promovê-la. Acabemos com a única crise realmente ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para superá-la”.

É preciso perceber, e o quanto antes melhor, que na educação mudanças profundas estão em curso e é preciso identificá-las, entendê-las e usá-las estrategicamente. Por exemplo, no ensino superior, entre tantas outras novidades, o estudante ingressante não é mais somente aquele jovem que recentemente completou o ensino médio e quase precocemente se definiu por esta ou aquela futura profissão. O perfil contemporâneo, progressivamente, inclui um novo público mais adulto, com suas características específicas, demandando naturalmente novas metodologias de ensino, a incorporação competente das tecnologias digitais e outras abordagens de aprendizagem diferenciadas.

Há que se focar no educando, conhecê-lo profundamente e ter como maior motivação a formação de profissionais competentes e inovadores aptos a enfrentarem os desafios de um futuro basicamente incerto e quase imprevisível. Precisamos caminhar de forma acelerada em direção a uma educação híbrida e flexível, onde as boas características de ambas as modalidades, presencial e a distância, poderão ser contempladas simultaneamente e de forma, muitas vezes, complementar.

Enquanto no ensino tradicional priorizava-se o desempenho individual, nas abordagens educacionais contemporâneas o trabalho em grupo ocupa espaço preferencial, estimulando produzir em equipe. O espaço de aprendizagem tipicamente delimitado pela escola espalha-se pelo não espaço que contempla o ambiente doméstico, incluindo o do trabalho e o caminho de um para outro. De fato, estamos diante de um novo paradigma espaço-temporal, sem limites de qualquer natureza.

Na educação superior, o que esperar de um profissional formado é tudo menos o mesmo, se compararmos décadas atrás com os tempos atuais. Um grande complicador é que o que se espera atualmente, em termos de competências, inclui os requisitos de ontem, demandando novos atributos sem abrir mão dos anteriores. Um resumo de todas as mudanças está na diferenciação entre competência técnica e competências múltiplas, ou, em outras palavras, entre cognição e metacognição.

Houve um período que era quase suficiente o domínio de um conjunto razoavelmente delimitado de conhecimentos, associado a processos cognitivos e a um elenco restrito de técnicas e procedimentos básicos contidos nos currículos-padrão definidos para cada profissão.

O dilema atual é que o cenário acima simplesmente não funciona mais. Em complemento à competência técnica, existem múltiplas habilidades, associadas ao mundo da metacognição, a serem desenvolvidas e estimuladas. O aspecto comportamental é absolutamente crucial quando um profissional depara-se com um problema inédito, um tema inovador ou tecnologias recentes.
Enfim, crises existem para serem superadas e educação de qualidade e para muitos é, de longe, a melhor ferramenta contemporânea que dispomos.

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015 Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 09:42

O que vem por aí? Não sabemos, mas eduquemos para o futuro

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É bastante comum ouvirmos corretas reclamações dos menos jovens sobre a compulsiva e obsessiva ligação dos mais jovens com celular (geração “heads down” ou, em português, “cabeças baixas”). Ainda que pertinentes as observações, a tendência é que, ao invés dos mais jovens mudarem seus hábitos, talvez mais provável que os novos mais velhos se acostumem com os hábitos e parem de reclamar. É previsível também que o celular seja somente um prenuncio de algum novo dispositivo que ficará cada vez mais grudado ao corpo e, certamente, ativo o tempo todo.

As mudanças serão mais radicais do que possam parecer até aqui. Em todos os setores, sem exceção. Por exemplo, algo ainda embrionário e que será definitivo é a transformação nos ambientes de trabalho. O modelo de trabalho atual tem resistido, com mudanças relativamente cosméticas até aqui. A flexibilidade em termos de trabalhar onde quiser e quando quiser, sempre sendo os trabalhadores aferidos pelos resultados obtidos e jamais pelos processos adotados, será a marca dos novos tempos. Da mesma forma, as profissões serão aquelas que existem hoje reconfiguradas e modificadas profundamente, à luz das novas tecnologias digitais, acompanhadas pelo surgimento de atividades e carreiras que sequer imaginamos atualmente.

A reinvenção do mundo do trabalho em curso e que será acelerada nos próximos tempos será muito mais intensa e rápida do que foi com a revolução industrial nos séculos passados. A própria noção de profissão, como a conhecemos hoje, será redefinida, sendo que a imensa maioria usará seus atributos e conhecimentos em áreas muito diversas, mudando de campos de atividades ao longo de suas vidas profissionais. Se um dia, corretamente, alguém se preocupou com o destino dos fabricantes de velas quando do surgimento das lâmpadas, ou nos dias atuais quando vemos os taxistas enfrentando o Uber e equivalentes, a amplitude dos conflitos similares atingirá a todos, sem exceção, inundando indistintamente todos as áreas da sociedade.

Mesmo iniciativas que, contemporaneamente, parecem definitivas, como, a título de ilustração, Facebook ou a emergência dos shoppings em detrimento das lojas de ruas, podem ter seus dias contados. O primeiro, a exemplo do Orkut, pode ter esgotamento rápido, bastando que alternativas mais atraentes promovam relacionamentos diferenciados de socialização e desloquem a atenção dos usuários, os quais se movem, quando o fazem, com rapidez e em massa. Os shoppings, como eles estão concebidos, dificilmente enfrentarão os espaços eletrônicos interativos e participativos de compras.

A perenidade de dados em geral, e os pessoais em especial, é algo muito sensível, o que já foi percebido, com sucesso, por aplicativos assemelhados ao Snapchat ou por vídeos de duração limitada. Igualmente, rapidamente terá pouco sentido possuir objetos, incluindo automóveis, se houver facilidade de acesso em condições mais favoráveis e com investimento de tempo muito menor. Os tempos disponíveis serão direcionados para atividades mais produtivas, seja no trabalho ou de lazer. Os aplicativos de serviços serão tão comuns como de aquisição de objetos e as oportunidades, seja de negócios ou de empregos, terão nestes campos terrenos incrivelmente férteis.

E a educação como fica? Embora não claro, é certo que como está não será. As metodologias educacionais em curso refletem valores e demandas de um passado que se afasta muito rapidamente. As pedagogias inovadoras ainda não ocuparam seus espaços, mesmo porque ainda é nebuloso o cenário à frente e aqueles que estão em postos de decisão tendem, assustados pelas possibilidades de mudanças, a reforçar mais ainda os antigos pressupostos. Neste ponto, educadores, gestores educacionais, motoristas de taxi e nós todos em geral nos assemelhamos, demonstrando mais pontos em comum do que simplesmente compartilharmos o mesmo futuro que se aproxima.

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