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Arquivo de agosto, 2015

segunda-feira, 31 de agosto de 2015 Sem categoria | 16:10

Rio, onde é normal ser diferente

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Toda cidade tem sua alma, tal qual ser vivo que de fato é. Decifrá-la é tarefa muito complexa. Fazê-lo projetando a cidade para meio século depois, tentando imaginar como ela será ou como gostaríamos que ela se tornasse, é um desafio gigantesco. Esta semana participei no Rio de Janeiro de um evento onde a questão a ser respondida era qual a cidade que a gente quer para daqui a 50 anos. Construir coletivamente uma resposta é justamente o objetivo do Projeto Visão Rio 500, parte integrante das celebrações dos 450 anos da cidade fundada por Estácio de Sá em 1565. O debate promovido pela Prefeitura se pretende aberto para a sociedade, com uso intenso de plataformas colaborativas e assentado na formação de rede de instituições parceiras. Assim, via o estabelecimento de diálogos com o futuro, o fruto desejado é contribuir com a visão da cidade para os próximos 50 anos, com a intenção explícita de colher elementos que possam nortear a escolha das estratégias, bem como definir as correspondentes prioridades para os próximos anos. O espírito carioca, coerente com sua propensão à bondade, tende a expressar a sua marcante solidariedade com as causas das minorias e dos menos favorecidos. Igualmente, coerente com o perfil do cidadão médio imaginário, é inerente entender a tolerância como predicado associado a um povo que se enxerga principalmente fraterno. Na qualidade de “estrangeiro” e quase recém-chegado, só me cabe testemunhar a favor desses atributos, incluindo o clima cosmopolita e a boa receptividade aos “estranhos”. Elementos esses que vão além da autoimagem, portanto, com raízes razoavelmente fincadas na realidade do comportamento do dia a dia. Ao se procurar escolher um slogan que melhor retrate a cidade naquilo que dela se espera nos seus 500 anos, preponderam, na maioria das sugestões, estímulos à tolerância, manifestos de intenção de que a cidade seja apropriada igualmente por todos e elogios a aspectos de cidadania e de liberdade. Confesso que tenho apreço pela tolerância, mas dela desconfio. Talvez influenciado por uma frase lapidar de Raquel de Queiroz: “tolerância é apenas paciência com um pouco de antipatia”. Da mesma forma, pouco me atrai uma ingênua igualdade, a qual, salvo a igualdade de oportunidades, não sei se desejável na sua forma mais literal e estrita. Nem sei se bem-vinda uma liberdade mal definida, a qual no exercício da sua versão individual nem sempre se mostra compatível com o coletivo, ou vice-versa. Restando a admirável fraternidade cidadã, melhor expressa na forma de empatia, ou seja, de sabiamente entender o outro por se colocar no lugar do outro. Foi então que me veio à mente um slogan que tenha, de fato, a cara do Rio que vemos e reflita aquilo que desejamos para o planejado futuro: “um espaço territorial em que seja normal ser diferente”. Este slogan, no passado, serviu e serve aos portadores de síndrome de Down, mas certamente é suficientemente  inclusivo e extensível a todos. Enfim, o slogan “onde é normal ser diferente” conjuga bem com a requalificação do espaço público, onde todos cabem, com a ampliação de oportunidades de encontro e o reconhecimento do diferente e, especialmente, a universalização do acesso às benfeitorias urbanas. O mais importante é que o Rio, premiado por uma singular beleza herdada de uma natureza exuberantemente pródiga e habitado por um povo alegre e criativo, se permita a, solidariamente, expressar suas múltiplas diferenças. Diferenças que muito mais que toleradas, devam ser naturalizadas por meio do acatamento pleno. Ou seja, em poucas palavras, que aqui no Rio seja totalmente normal ser diferente.

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segunda-feira, 24 de agosto de 2015 aprendizagem, Educação e Tecnologia | 15:37

Aprender a aprender é mais do que aprender

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O ensino tradicional tem como foco central ensinar conteúdos, técnicas e procedimentos. O fruto direto do processo, ou seja, o que se aprendeu é, em geral, considerado mais importante do que o processo em si.

Tal modelo funcionou porque era harmônico com o mundo do trabalho correspondente no qual foi aplicado – ambientes baseados nos modelos de produção fordistas e tayloristas – e coerente com as correspondentes demandas por especialistas com memória apurada aplicada em atividades bem configuradas. Tudo isso em pleno acordo com o contexto geral dos últimos séculos, em especial com o século XX.

Esta solução educacional funcionou tão bem e por tanto tempo que aquilo que era uma metodologia entre várias quase virou sinônimo de método educacional, como se fora único e indiscutível. Desta forma, persistindo como dominante no cenário do processo de aprendizagem até hoje e, quando muito, permitindo variações sobre o mesmo tema, sem alterar sua essência.

Ao privilegiar o conteúdo aprendido sobre a consciência e o amadurecimento do hábito de aprender, predominou a ênfase na cognição, a qual está associada ao ato de conhecer, incluindo os estados mentais associados e os processos do pensamento relacionados à aquisição de conhecimentos. A cognição, com ênfase no saber algo, envolve múltiplos fatores como linguagem, percepção, memória, lógica, raciocínio e outros elementos importantes do desenvolvimento intelectual.

As tecnologias inovadoras, especialmente as tecnologias digitais, fizeram brotar uma sociedade contemporânea bastante distinta daquelas que vivenciamos antes. Pela primeira vez exploramos a oportunidade de termos informação plena e total, instantaneamente e gratuitamente acessível. Um dos reflexos decorrentes desta revolução diz respeito ao fato de que cognição perde sua centralidade, abrindo espaço, em termos de relevância, para um conceito mais amplo, a metacognição.

Metacognição, etimologicamente, significa “para além da cognição”, ou seja, a faculdade de conhecer o próprio ato de conhecer, associado à consciência dos atores envolvidos no processo de aprendizagem acerca de como se aprende ou como se ensina. O conceito de metacognição está relacionado ao ato de pensar sobre o próprio pensamento, onde a reflexão e a autoconsciência sobre a maneira como se aprende tornam-se, progressivamente, mais importantes do que o próprio ato de aprender em si.

Assim, mais importante do que aquilo que se aprendeu é se, ao longo do processo de aprendizagem, ao educando foi possível adquirir mais clareza acerca de como ele aprende, aumentando o seu nível de consciência sobre os mecanismos segundo os quais o processo pessoal ou coletivo de aprendizagem se desenvolve.

Neste novo contexto, o complexo aprender a aprender passa a ser mais relevante do que o simples aprender. O simples aprender tem tudo a ver com um mundo em que o período escolar estava circunscrito a um período limitado da vida. Em tempos passados, os profissionais, uma vez graduados, estavam prontos para suas missões e demandas futuras e, via de regra, sobreviviam de forma satisfatória no mundo do trabalho. O sofisticado aprender a aprender estabelece compatibilidade com educação ao longo da vida, com o conceito de  educação contínua e permanente.

Em suma, a cognição se preocupa quase que exclusivamente com constatar se o aluno aprendeu ou não (sabe ou não sabe); a metacognição inclui, com igual peso, o quanto o educando e o educador percebem a forma e os mecanismos com que eles próprios aprendem e ensinam (preparação ao saber resolver, portanto). Neste sentido, a cognição, associada ao aprender, atende ao passado e a metacognição, associada ao aprender a aprender, contempla o futuro.

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segunda-feira, 17 de agosto de 2015 Educação e Tecnologia, Inovação e Educação | 15:31

Inovar é garantir qualidade para muitos

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Inovar foi a grande marca do século XX. Ao longo da história, o significado de inovação nem sempre foi o mesmo. Certamente os tempos atuais e o contexto específico do Brasil demandam refinamentos e especificidades de seu significado.

No século passado, do conhecimento científico se fez a tecnologia, a qual chegou abundante ao mercado na forma de inovações. Estas, por sua vez, resolveram problemas e ganharam escalas compatíveis com um planeta cada vez mais globalizado. A mais comum e aceita definição clássica deste tipo de inovação foi cunhada por Joseph Schumpter como sendo qualquer novo produto ou processo, bem como uma nova funcionalidade de um produto já existente, que atendessem demandas.

Adotou-se também associar a capacidade de inovação como principal referência para estabelecer a competitividade entre os países, ao lado da qualidade da educação, taxa de poupança (se alta, baixa juros e barateia o crédito) e estabilidade macroeconômica. Especificamente sobre investimentos em pesquisa e desenvolvimento, matriz do processo de inovação, a título de exemplo, os Estados Unidos investem algo em torno de 2,7% do PIB, onde somente 0,7% vem diretamente do Governo e o restante do setor privado. O Brasil, além de investir menos, algo em torno de 1,2%, 0,7% vem do Governo. Ou seja, o setor privado nacional investe aproximadamente quatro vezes menos, em percentuais dos respectivos PIBs, do que aplicam as empresas americanas.

Novos tempos sugerem novas abordagens e a maior novidade contemporânea é a emergência de uma sociedade caracterizada pela inédita informação plenamente acessível, instantaneamente disponibilizada e progressivamente gratuita. Neste novo contexto, espaços de economias baseadas em compartilhamento passam a se apresentar como candidatas a se tornarem dominantes, em detrimento dos setores clássicos da economia. Mais do que possuir bens genéricos, comportamento típico do século passado, a população passa a almejar, prioritariamente, a garantia de acesso a serviços de qualidade.

Corremos o risco de permitir uma sociedade excludente sem precedentes, onde as diferenças entre os que têm total acesso, comparadas com os que nada têm, podem ser ampliadas ainda mais. Bem como temos a oportunidade de seu oposto, ou seja, fazer uso das tecnologias digitais  inovadoras e viabilizar comunidades mais inclusivas e sustentáveis, onde o acesso a produtos e serviços de qualidade é estendido a muitos.

O Brasil tem provado ser um país capaz de prestar atendimentos de qualidade, desde que para poucos, ou então para muitos, desde que sem garantias de qualidade. Não aprendemos, infelizmente, fazer as duas coisas, qualidade e quantidade, ao mesmo tempo.  Harmonizar bom nível e escala é a mais importante inovação que o país precisa. Em certo sentido, ainda somos arcaicos, avançamos pouco além do que há tempos atrás foi descrito por Gilberto Freyre em “Casa-Grande & Senzala”.

No campo da educação, bem como na saúde, houve avanços, mas eles seguiram a regra da não inovação. Universalizamos em grande escala com má qualidade, bem como registramos, como exceções,  localizados centros de excelências.

Propiciar qualidade para poucos ou então ofertar qualidade precária para muitos não é inovar, é repetir o passado sem graça. Inovar no Brasil de hoje é romper as barreiras que separam a Casa-Grande da Senzala, viabilizando qualidade para muitos.

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terça-feira, 11 de agosto de 2015 Sem categoria | 13:17

O país do futuro está apaixonado pelo seu passado

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Se há uma sensação coletiva que se possa chamar de generalizada neste momento no Brasil é a de que, mais uma vez, o almejado futuro não se materializou. Ou seja, o sonhado desenvolvimento econômico, social, ambiental e cultural sustentável dá espaço ao sabor de frustração e ficamos, os mais otimistas, no aguardo de um novo ciclo, cuja data de inauguração não foi sequer anunciada.

Sabemos crescer, mas não sabemos fazê-lo de forma sustentável. Temos uma riqueza natural e humana reconhecida mundialmente, mas ela parece periodicamente perder para nossas fragilidades. Identificar as complexas causas das recorrentes derrotas é tarefa hercúlea e fruto de muita controvérsia. Tal cenário, onde a esperança parece adormecida, é acompanhado de modesta inspiração para produção cultural.

Um destacável reflexo de nossa pobreza cultural contemporânea são nossos olhos voltados ao passado como nunca. A ausência de aderência ao presente e a falta de perspectiva de futuro próximo nos faz estimular no mundo da cultura um evidente apego sem precedentes pelo passado.

No campo da música, jamais se ouviu com tanto vigor os artistas das décadas de 60 e 70. Mesmo entre os mais jovens, muitos findam por estabelecer entre seus ídolos aqueles mesmos que foram de seus pais, refletindo possivelmente que temos uma geração tímida de novos artistas.

No teatro, particularmente os musicais, exatamente onde o Brasil mais avançou, é sintomático que quase todos os grandes sucessos dos últimos anos estejam dedicados a recuperar a vida de artistas antigos, a exemplo de Tim Maia, Elis Regina, Cazuza, Chacrinha, Simonal, Raul Seixas, Cássia Eller, Imperial e tantos outros. Isso tudo talvez reflita um país desgostoso com seu presente, sem claras perspectivas para seu futuro e buscando no seu passado recente motivos para continuar a crer na sua história.

No cinema mesmo com novidades pontuais de valor na praça, a revalorização recente de personagens antigos como José Mojica Marins, o famoso Zé do Caixão, é sintoma claro da possível ausência de produção atual mais significativa, em profundo contraste com a pujança da vizinha Argentina nesta área. Neste caso específico, evidenciando que nem sempre as crises econômicas estejam irremediavelmente associadas à pobreza de produção cultural, mas no Brasil, infelizmente, amargamos a possibilidade de estarmos vivendo todas elas simultaneamente.

Ainda que não seja o objetivo deste breve texto apontar possíveis causas, dado que por serem múltiplas e complexas qualquer simplificação estaria errada ou insuficiente, não há como não perceber que falhamos, ao menos parcialmente, na educação. Nesta área tivemos sim sucessos, inegáveis por sinal, como universalizar a educação fundamental, ampliar de forma significativa o acesso ao ensino superior ou a construção eficiente de um respeitável sistema nacional de pós-graduação.

Por outro lado, claramente falhamos em conjugar qualidade e quantidade. Quando universalizamos ou ampliamos de forma significativa, o fizemos com rebaixamento de qualidade. Quando ofertamos qualidade, o fizemos para poucos, muito poucos. A inovação que deixamos de criar foi ofertar qualidade para muitos. Esta sim, a meu ver, se não é a única, é a principal razão da sensação de fracasso que nos move a olhar para trás e de forma saudosista pedir mais uma chance de sermos, mais uma vez, o país do futuro.

Eppur si muove e voltaremos ao tema com mais detalhes posteriormente.

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